Ficha Corrida

17/03/2013

Quanto a CIA pagou por esta peça laudatória?

Os caras voltam ao cenário de uma guerra que durou uma década e não encontram nem ouvem nenhuma família destroçada, nenhuma vítima, nenhuma revolta. Afinal, mesmo tendo sido saqueado o Museu com peças dos tempos dos Sumérios, o que importa são a presença da Heineken, talvez levada pelo James Bond, Daniel Craig. Produtos do consumo ocidental são indícios de civilização no lugar que já foi o berço da civilização. Quem nunca ouviu falar na Babilônia, ou de Babel?! Nenhuma palavra sobre o assassinato, ou queima de arquivo, de Saddam Hussein, chefe de estado parceiro dos EUA na guerra contra o Irã. Nenhuma palavra dos três patetas que iniciaram a guerra: Tony Blair, José Maria Aznar e a égua-madrinha, Bush. Falar do Iraque sem mencionar a crise porque passam os países dos três patetas é patético. Qual foi o legado destes em termos de civilidade?!

Corrupção e política instável emperram melhorias no país

Crescimento do PIB foi de 10,2% em 2012, e desemprego diminuiu de 25% em 2004 para 16% no ano passado

Em bairros da capital, Bagdá, ruas voltaram a ter vida, inclusive noturna, e classe média cresceu e consome

SÉRGIO DÁVILAENVIADO ESPECIAL A BAGDÁ

Dez anos depois da invasão do Iraque por uma força militar liderada pelos Estados Unidos, que levou ao fim a ditadura de Saddam Hussein (1937-2006), o país está melhor do que era antes, mas pior do que poderia ser.

As condições de vida em Bagdá, por exemplo, são certamente superiores às de 2003. Em bairros da capital como Karrada e Mansour, as ruas voltaram a ter vida, inclusive noturna, e a classe média cresceu e consome.

A rua Saddon corta Karrada. É o equivalente local da Oscar Freire, se a via paulistana tivesse sido submetida por décadas a duas guerras, um bloqueio econômico internacional, uma ditadura sangrenta e uma invasão.

Hoje, lado a lado com ruínas, falta de calçamento e pontos de checagem com policiais armados de fuzis, ela abriga prédios comerciais em terrenos de R$ 14 mil o m², concessionárias Chevrolet, Kia e Hyundai e lojas de eletrônicos com as últimas da LG, Samsung e Panasonic.

É onde está também o clube social Al Wiyah, em que familiares e amigos se encontram para jantar, tomar sorvete e beber cerveja Heineken, vodca Absolut, tequila mexicana, num congraçamento entre sunitas e xiitas moderados e ricos.

E é o caso também do Teatro Nacional de Bagdá, atingido por um míssil em 2003. Antes, as peças eram monotemáticas, narrando vida e glória de Saddam Hussein, ele próprio autor de algumas. Hoje, o cartaz é "Dois Jeitos", uma sátira política sobre corrupção no governo impensável em outros tempos.

Há também mais mulheres nas ruas, e elas se cobrem menos. A explicação é mais econômica que religiosa: como antes faltava dinheiro para arrumar cabelo e usar roupas boas, vestir burca era mais prático; hoje não falta mais, ou falta menos.

Segundo o CIA World Factbook, o crescimento real da economia iraquiana foi de 10,2% em 2012 e de 6,9% por ano, em média, desde a invasão. E o desemprego caiu de 25% em 2004 para 16% em 2012. O número de celulares per capita cresceu dez vezes em dez anos, e as linhas são vendidas com menos burocracia que em São Paulo.

Os motores disso são o petróleo -o Iraque é o terceiro maior exportador do mundo- e o dinheiro que foi despejado no período pelo governo dos EUA para a reconstrução, US$ 60 bilhões, quase a metade do PIB atual do país.

Do total acima, 13,3% foram desviados pelos locais. Corrupção é um dos problemas do país, onde o governo é o maior empregador e a iniciativa privada começa a se organizar para viver sem o guarda-chuva ianque.

O outro é a instabilidade política, estimulada pelo sistema parlamentar implantado pelos norte-americanos para acomodar os três principais grupos que formam o país -cenário que se agravou com a retirada das tropas dos EUA, em 2010.

Nouri al Maliki, o primeiro-ministro, é xiita, como a maioria da população. O presidente, Jalal Talabani, é curdo, como a região norte, rica em petróleo. Um dos vice-presidentes até 2012, Tariq al Hashimi, é sunita, como era Saddam Hussein.

No ano passado, Maliki mandou prender Hashimi, que se refugiou no norte. A expectativa agora é ver se o primeiro-ministro cederá à tentação de se perpetuar no poder nas eleições parlamentares do ano que vem.

A indefinição alimenta a violência das ruas. Extremistas da Al Qaeda infiltrados entre sunitas se explodem em grandes concentrações de pessoas ou alvos do governo, como aconteceu na quinta-feira passada, quando pelo menos 18 morreram.

Ajustes de contas entre grupos religiosos e políticos são tão comuns quanto as chacinas nas periferias das grandes cidades brasileiras.

Não é incomum ouvir o tuf-tuf de armas com silenciadores, seguido da queda do corpo inerte de um alvo. Só na segunda-feira passada, seis pessoas foram assassinadas desse modo.

Há milhares de bloqueios de concreto e paradas de checagem obrigatória, outro alvo dos terroristas. A chamada Zona Verde, antes área dos palácios de Saddam, depois do comando norte-americano e hoje sede do governo, permanece inacessível ao cidadão comum.

Em muitas regiões da capital do país, o esgoto ainda corre a céu aberto. Mesmo nas áreas mais ricas, é comum a falta de energia pelo menos dez horas por dia, o que faz do gerador portátil um objeto tão comum nos lares como a televisão.

"Falam da falta de eletricidade, mas antes todos tinham de passar o dia no único cômodo com ar-condicionado; hoje, são vários aparelhos numa casa", diz um prestador de serviços que pediu para não ser identificado por ser filho de diplomatas sunitas da época do governo de Saddam.

Ele tinha 18 anos quando a ditadura caiu e está feliz com a nova realidade. Acaba de comprar um Dodge Charger 2012 por R$ 50 mil. "Meus pais passam o dia reclamando e falando do passado, mas não querem saber de trabalhar", afirma.

Com ele concorda o empresário curdo xiita Abu Hassen "Primeiro curdo, depois xiita", brinca, referindo-se à etnia do norte do país e a um dos ramos dos muçulmanos. "Antes, Saddam matava 3.000 por dia e ninguém podia falar nada. Hoje, morrem 20 e a imprensa diz que o país está no fim."

3 Comentários »

  1. […] Folha preferiu uma cobertura laudatória do papel norte-americano na invasão, massacres, assassinatos. A única questão em aberto em […]

    Pingback por España en Irak: del error al horror | Política | EL PAÍS | Ficha Corrida — 17/03/2013 @ 9:54 pm | Responder

  2. Reblogged this on " F I N I T U D E ".

    Comentário por acoplador — 17/03/2013 @ 7:20 am | Responder


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