Ficha Corrida

22/06/2013

Meus 20 centavos sobre o pronunciamento da presidenta Dilma

Filed under: Dilma,Rede Globo de Corrupção — Gilmar Crestani @ 9:34 am
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22/06/2013 | Publicado por Renato Rovai em Geral

Foto de Dilma sendo interrogada na ditadura militar. Um pouco desse olhar poderia voltar à presidenta para governar o Brasil

Dilma fez um pronunciamento bastante razoável para o atual momento. Não foi um discurso que se possa definir de esquerda , mas dá indícios de que ela de fato sentiu o bafo quente das ruas. Se vier a ser implementado, o seu governo se deslocará da tecnocracia absoluta para algo mais participativo e democrático. Isso acabará deslocando-o para a esquerda.

O fato é que a presidenta não estava ouvindo o movimento social e achava que os resultados de pesquisas demonstravam que o brasileiro entendia que era correto  fazer um governo que, na sua opinião, estava ajeitando o Estado e construindo alicerces para um desenvolvimento econômico mais agudo nos próximos anos. Enganaram-se ela e todos aqueles que a assessoram e vivem dizendo “sim senhora” para tudo que a presidenta fala.

Uma boa parte da sociedade brasileira quer que o governo avance. E ao mesmo tempo outra parte quer que Brasil “change”. Equilibrar-se entre essas duas vertentes é praticamente impossível. Há interesses absolutamente contraditórios. O Brasil do avance iniciou o movimento da redução das passagens, mas nas últimas manifestações o Brasil do “change” passou a ganhar a pauta dos atos. A pauta deste Brasil do “change” é a da Veja e a da Globo. É a dos veículos de comunicação que o governo Dilma tanto insiste em apoiar com volumosos recursos públicos.

Mas o que há de avanço no discurso de Dilma:

– Dilma reconheceu a legitimidade das ruas e disse que vai chamar os movimentos para conversar e ouvi-los. E destacou a juventude. Isso é bom, mas não basta. Dilma pode avançar nessa proposta e pensar em criar conselhos abertos de participação virtual com representes reais eleitos nas redes para reuniões frequentes tanto com ministros como com ela. Seria o início de um governo aberto.

– Dilma disse que vai chamar os principais prefeitos e governadores para um conversa sobre investimentos na área social e a respeito de pensar um pacto da mobilidade urbana. Isso é bom para a lógica federativa e para a construção de políticas públicas integradas.

– Dilma aproveitou para defender os 100% do Pré-Sal para a educação, o que também é um recado direto ao Congresso Nacional.

– Dilma falou da lei de acesso a informação, que é um avanço. Mas que ainda precisa de mais instrumentos para ser melhor utilizada.

– Dilma (e não o Padilha) disse que o governo vai trazer médicos do exterior para melhorar o atendimento do SUS.

– Dilma falou da reforma política, algo mais do que necessário, mas também bastante polêmico. Só teremos uma boa reforma com povo nas ruas.

– Mas, Dilma não falou (como sempre) uma linha sobre ampliar a democratização nas comunicações. Neste caso, os movimentos sociais têm a obrigação de incluir esta pauta como necessária para que o Brasil avance. Até porque, se Dilma ouviu a voz das ruas, também deve ter ouvido o ruído dos meios tradicionais de comunicação. Em especial, da Globo, que está travando uma luta para encher as ruas com as suas pautas. E, se possível, gritando fora Dilma

Meus 20 centavos sobre o pronunciamento da presidenta Dilma | Blog do Rovai

20/06/2013

E se as manifestações virarem instrumento dos golpistas

Filed under: Janio de Freitas — Gilmar Crestani @ 8:08 am
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JANIO DE FREITAS

Outra mobilização

Ela tem fonte desconhecida e total independência de fins e de ação. Aí está um grande perigo

Pareceu um só movimento com muitas causas, arregimentadas pelas passagens de ônibus, e ocasionalmente aproveitado por arruaceiros. Dessa aparência decorreu uma interpretação que dificulta ainda mais o já difícil entendimento do que está expresso nas ruas ocupadas.

Os incidentes no Congresso, na Assembleia Legislativa no Rio, em vários pontos de São Paulo e em mais cidades fixaram a interpretação de que exprimem a rejeição dos manifestantes à política. Tal rejeição nem é só dos que se manifestam nas ruas, mas, no caso, convém observar algumas ressalvas.

A diferença entre as duas pontas de apenas 24 horas paulistanas, da noite de segunda para a de terça, faz uma sugestão importante. A maior das manifestações em São Paulo dissolveu-se, já em altas horas da segunda-feira, como um exemplo de conduta democrática, eloquente na dimensão e ordeira na conduta. O anoitecer de terça, no entanto, marcou o início de arruaças e violências extremas, praticadas por pessoas que foram se encontrando nas cercanias da prefeitura, quase sempre tipos cujo aspecto não deixa muita dúvida sobre sua índole. Todos mais ou menos à mesma hora, e com a naturalidade de quem soubesse por que os demais estavam ali. O mesmo que se passara no ataque à Assembleia Legislativa no Rio, como sequela concomitante e noturna à passeata ordeira.

O que explicaria tamanha modificação de conduta em São Paulo e o surpreendente desvio de propósito no Rio?

Aqueles e os vários estouros de violência foram atribuídos a gente que se desgarrou do rio principal dos manifestantes. As circunstâncias e modos como se deram, porém, sugerem haver uma segunda mobilização, de fonte desconhecida, com total independência de fins e de ação. E aí está um grande perigo.

É previsível, e mesmo desejável, que as manifestações reivindicativas tenham continuidade, que isso não é sinal de "envelhecimento da nossa democracia" nem motivo de frustração com o regime, como já escreveram. Muito ao contrário, é a vitalidade da democracia, que traz no próprio nome a participação necessária dos cidadãos. Mas é indispensável a prevenção para que as hordas de desordeiros e saqueadores não sigam na tendência de crescer, em número e em audácia criminal, como arrastões gigantes, que já prenunciam.

Só para exemplificar, se o fogo se dissemina na Prefeitura de São Paulo ou no Theatro Municipal, ambos com muitas pessoas no interior, ou na Assembleia fluminense, as consequências da tragédia não se limitariam às vítimas numerosas e às perdas materiais. E um novo assédio ao prédio do Congresso, se ocorrer, não se satisfará com o lado externo das cúpulas, implicando as próprias instituições.

Mas o perigo se faz, em grande parte, pela ineficiência das PMs. Engrandecida, nos episódios recentes, por tardanças e omissões mais do esquisitas. Diz o secretário da Segurança de São Paulo, Fernando Grella, que a sua PM agiu "na ocasião certa", quando do ataque dos delinquentes à prefeitura paulistana. Foram quase três horas entre o início da desordem e a chegada de socorro da PM, durante as quais os vídeos registraram, também para o secretário, a situação de guardas municipais refugiados no prédio, a quebradeira e o que foi feito do carro de transmissão da TV Record. Com uma tropa da PM em inútil prontidão.

No Rio foi o mesmo, durante a longa tentativa de incendiar a Assembleia, a invasão e destruição de uma dependência do edifício, o incêndio de carros e o vandalismo em prédios históricos. Com uma tropa da PM em inútil prontidão.

Aos governadores talvez não ocorra, ainda, que o seu prestígio, entre os muitos milhares que se fazem ouvir, não é tanto que os impeça de ir às ruas clamar por intervenção federal ou por impeachment, caso a violência das hordas fique sem controle.

19/06/2013

Claro, a culpa é de Lula e Dilma

Filed under: Fascismo — Gilmar Crestani @ 9:52 pm
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É gente de bens. Mercedes-Benz! Também é contra patrimônio público, corrupção e pum em elevador. O que o faz diferente do mau político?!

Suspeito é filho de empresário de transporte

Seria responsável por alguns dos mais violentos atos de ontem

Saiu na Folha:

Estudante de arquitetura é detido sob suspeita de apedrejar prefeitura

A Polícia Civil prendeu o jovem identificado como Pierre Ramon, que aparece em imagens como um dos integrantes do grupo que destruiu a entrada da Prefeitura de São Paulo durante os protestos contra o aumenta da tarifa na terça-feira (18).
O rapaz, cuja idade não foi revelada, é estudante de arquitetura de uma universidade privada e filho de um empresário da área de transportes. A polícia diz que ele não é ligado a nenhum partido político nem ao Movimento Passe Livre.

Suspeito é filho de empresário de transporte | Conversa Afiada

18/06/2013

Rabo de rinoceronte

Filed under: Arnaldo Jabor,Fascismo,Instituto Millenium — Gilmar Crestani @ 8:36 pm
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O rinoceronte tem um hábito sui generis para demarcar território: quando defeca, espalha merda com o rabo. Dizem, quem já viu, que não há nada mais nojento. Ledo Ivo engano. Pode até existir algo parecido, mas não pode existir nada pior que Arnaldo Jabor em tv de led. Se tivesse que optar, eu suportaria com estoicismo um chuverinho de rinoceronte a ter que ouvir calado este lacaio do Instituto Millenium defecando pela boca.

Jabor se confessa um "lacaio da direita fascista"

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E agora busca pautar movimento que criticou, cujos integrantes, segundo ele, eram "revoltosos de classe média"; em artigo no Estadão, comentarista da Globo volta a publicar autocrítica e diz que "o mundo está em crise de representatividade"; "É fundamental que o Passe Livre se amplie e persiga objetivos concretos", escreve ele

18 de Junho de 2013 às 16:52

247 – Depois de dizer que o Movimento Passe Livre não tinha causa pela qual lutar e chamar os integrantes de "revoltosos de classe média", o comentarista da Globo Arnaldo Jabor publicou uma nova autocrítica sobre suas posições nesta terça-feira, no O Estado de S.Paulo. Ontem, ele também disse que errou em sua coluna na CBN (leia mais).

No novo artigo, ele se confessa um "lacaio da direita fascista" e afirma que "é fundamental" que o Passe Livre, movimento que "vale mais" do que os caras pintadas, que derrubaram Fernando Collor em 1992, "se amplie e persiga objetivos concretos". Para isso, o comentarista permite-se sugerir uma lista de assuntos que mereçam ser questionados.

Leia abaixo:

‘Passe livre’ vale mais

"Eu sou um cão imperialista; eu sou o verme dos arrozais"! –, assim começava a autocrítica de um alto dirigente chinês, creio que Peng Dehuai, por ousar criticar a Revolução Cultural de Mao Tsé-tung, que exterminou milhares de inocentes.

Talvez eu seja mesmo um "cão imperialista" porque, outro dia, eu errei. Sim. Errei na avaliação do primeiro dia das manifestações contra o aumento das passagens em SP. Falei na TV sobre o que me pareceu um bando de irresponsáveis pequeno-burgueses fazendo provocações por 20 centavos. Era muito mais que isso, apesar de parecer assim. Pois eu, "lacaio da direita fascista", fiz um erro de avaliação.

Este movimento que começou outro dia tinha toda a cara de anarquismo inútil. E (quem acredita?) critiquei-o porque temia que tanta energia fosse gasta em bobagens, quando há graves problemas a enfrentar no Brasil. Eu falei em "ausência de causas" em "revolta sem rumo".

Mas, a partir de quinta-feira, com a violência maior da polícia, ficou claro que o movimento expressava uma inquietação que tardara muito no País, pois, logo que eu comecei a escrever, em 92 (quando muitos manifestantes estavam nascendo), faltava o retorno de algo como os "caras-pintadas" – os jovens derrubaram um presidente.

Mas não falo por justificar-me. Erros se explicam, mas não se justificam, como diziam no serviço militar. Portanto, errei.

Mas agora peço atenção (e uma pausa nos esculachos contra mim) aos jovens que me leem, para algumas linhas sobre este fenômeno que surgiu nas redes sociais e em milhares de "sacos cheios" por tanta paralisia política no Brasil e no mundo.

Hoje, eu acho que o movimento "Passe Livre" se expandiu como uma força política original, até mais rica do que os "caras-pintadas", justamente porque não tem um rumo, um objetivo certo a priori. Assim, começaram vários fatos novos em países árabes, na Europa e USA. E, volto a dizer, que essa ausência de rumos é muito dinâmica e mutante. Como cantou Cazuza: "As ideias não correspondem mais aos fatos", que são, hoje, muito mais complexos do que as interpretações que eram disponíveis, entre progressistas e reacionários.

Como bem escreveu Carlos Diegues: "O movimento é importante porque talvez o mundo tenha perdido a esperança em mudanças radicais. Talvez porque a ‘revolução’ tenha perdido prestígio para a mobilidade social. Talvez por não nos sentirmos mais representados por nenhuma força política (…), os jovens do Movimento Passe Livre trazem agora para o Rio de Janeiro e São Paulo e outros Estados esse novo estilo de contestação, típico do século 21 – uma contestação pontual, sem propriamente projeto de nação ou de sociedade". É isso.

Não vivemos diante de "acontecimentos", mas só de incertezas, de "não acontecimentos". Na mídia, só vemos narrativas de fracassos, de impunidades, de "quase vitórias", de derrotas diante do Mal, do bruto e do escroto.

O mundo está em crise de representatividade. Essa perplexidade provoca a busca de novos procedimentos, de novas ideologias, de uma análise mais cética diante de velhas certezas. E toda essa energia tem de ser canalizada para melhorar as condições de vida do Brasil, desde o desprezo com que se tratam os passageiros pobres de ônibus, passando pelo escândalo ecológico, passando pela velhice do Código Penal do País, que legitima a corrupção institucionalizada. O importante nessas novas manifestações é que elas (graças a Deus) não querem explicar a complexidade do mundo com umas poucas causas em que se trancam os fatos.

Eu sei, eu sei que é difícil escapar do "ideologismo"; sei que a ideia de complexidade é vista como "frescura" e que macho mesmo é simplista, radical, totalizante. Mas, no mundo atual, a inovação está no parcial, no pensamento indutivo, em descobrir o Mal entranhado em aparências de Bem.

Sei também que é muito encantador uma luta mais genérica, a "insustentável leveza do ser revolucionário", que cria figuras como os "militantes imaginários" que analisei outro dia. Estes jovens saíram da condição de torcedores por um time ou um partido e estão militando concretamente. O perigo é serem esvaziados, como foi "Occupy Wall Street".

É fundamental que o Passe Livre se amplie e persiga objetivos concretos.

Tudo está parado no País e essa oportunidade não pode ser perdida. De um fato pequeno pode sair muita coisa, muito crime pode estar escondido atrás de uma bobagem. Os fatos concretos são valiosos. Exemplo: não basta lutar genericamente contra a corrupção. Há que se deter em fatos singulares e exemplares, como a terrível ameaça da PEC 37, que será votada daqui a uma semana e acaba na prática com o Ministério Público, que pode reverter as punições do "mensalão", pode acabar até com o processo da morte de Celso Daniel; fatos concretos como a posse do Feliciano ou o extraordinário Renan em suas duas horas de presidente da República. Se não houver "núcleos" duros dos fatos, dos acontecimentos presentes e prováveis, as denúncias caem no vazio abstrato tão ibérico e tão do agrado dos corruptos e demagogos.

Por isso, permito-me sugerir alguns alvos bons:

Descobrir e denunciar por que a Petrobrás comprou uma refinaria por US$ 1 bilhão em Pasadena, Texas, se ela só vale US$ 100 milhões?

Por quê?

Porque a Ferrovia Norte-Sul, que está sendo feita desde a era Sarney, ainda quer mais 100 milhões para mais um trechinho. Saibam que na época, há 27 anos, a Folha de S. Paulo fez uma denúncia genial: botou na página de classificados um anúncio discreto em que estava o resultado da concorrência dois dias antes de abrirem as propostas. Claro que a concorrência era malhada. Foi um escândalo, mas continuou até hoje, comandada pela Valec, de onde o ex-diretor Juquinha, indescritível afilhado do Sarney, supostamente teria tascado 100 milhões.

Por que as obras do rio São Francisco estão secas?

Por que obras públicas custam o dobro dos orçamentos?

Por que a inflação está voltando? Por que a infraestrutura do País está destruída?

Por quê?

Jabor se confessa um "lacaio da direita fascista" | Brasil 24/7

O mantra da Eliane

Filed under: Eliane Cantanhêde,Obsessão — Gilmar Crestani @ 8:58 am
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ELIANE CANTANHÊDE, da Folha, só tem olhos para Dilma, mas, pelo que se tem visto, todas as movimentações tem mais  olhos para gente como Eliane.

No alvo, os palácios

BRASÍLIA – As vaias à presidente Dilma Rousseff na estreia do Brasil na Copa das Confederações têm de ser relativizadas. Além de o público do estádio Mané Garrincha não representar a maioria do eleitorado brasileiro, a verdade é que, mais cedo ou mais tarde, todo governante é vaiado. Nem o popularíssimo Lula escapou –aliás, em circunstâncias semelhantes, no Pan de 2007.

Mais preocupante para Dilma é o contexto em que ocorrem as vaias. Inflação e juros sobem, popularidade cai. O pibinho frustra, a insegurança aumenta. Dólar dispara, Bolsas caem. Base aliada inflada, mais problemas para o Planalto. E o principal: os protestos populares ganharam o país e são mostrados ao mundo.

É óbvio que R$ 0,20 a mais nas passagens em São Paulo não seria suficiente para botar o povo nas ruas do país, em multidões cada vez maiores, com imagens impressionantes. Esse foi apenas o detonador, o gatilho de manifestações de grupos distintos e de motivações difusas.

Também é certo que o alvo não é Dilma Rousseff, ou, pelo menos, só o governo Dilma Rousseff. São muitos os motivos de irritação, são muitos os alvos. E eles estão nos palácios.

Os palácios dos governos estaduais, como o de Geraldo Alckmin, tucano, os das prefeituras, como a de Fernando Haddad, petista. E os de todos os níveis do Legislativo e do Judiciário. A previsão do ministro Dias Toffoli de que o julgamento do mensalão possa durar mais dois anos pode ter sido até uma pitada a mais nesse tempero, nesse caldeirão.

Com o pretexto ora do aumento das passagens, ora dos gastos milionários com estádios da Copa, o fato é que as redes sociais mostram sua força também aqui e os brasileiros estão dando um recado. Que Dilma releve as vaias restritas, mas saiba ouvir os gritos disseminados. E, como ela, governadores, prefeitos, parlamentares e magistrados.

A fantasia de que o país está um paraíso, uma maravilha, acabou. A verdade dói, mas ajuda a melhorar.

Zeitgeist

Filed under: Zeitgeist — Gilmar Crestani @ 8:47 am
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HÉLIO SCHWARTSMAN

Virtudes e limites

SÃO PAULO – Hoje eu vou divergir do amigo e mestre Clóvis Rossi que, em sua coluna dominical, disse que as democracias estão fracassando, já que não conseguem processar as demandas das diversas manifestações de massa a que vêm sendo submetidas nas últimas décadas.

Precisamos, antes de mais nada, desfazer alguns equívocos sobre a democracia. Ela até que funciona, mas não pelas virtudes que normalmente lhe atribuímos. Para começar, é preciso esquecer o mito do eleitor racional que compara propostas, as analisa e toma a melhor decisão. Se há um momento em que o cidadão tende a ser especialmente emocional, é o instante do voto. A coisa só dá certo porque, em condições ordinárias, as posições mais extremadas tendem a anular-se, empurrando a escolha para grupos menos radicais.

A democracia também não tem o dom de eliminar os conflitos presentes na sociedade. O que ela procura fazer é institucionalizá-los e discipliná-los, para que se resolvam da forma menos violenta possível. Daí que é impossível e indesejável eliminar completamente o caráter meio baderneiro de protestos e atos públicos.

Voltando às considerações de Rossi, eu não diria que o fato de as ações de movimentos como "Occupy" e "Indignados" não terem se materializado em propostas concretas signifique uma derrota. Ao contrário, mesmo com sua pauta imprecisa e vagamente metafísica, eles contribuíram para modificar as percepções de governantes e da própria sociedade. Pela primeira vez, norte-americanos estão discutindo seriamente o problema da desigualdade social. Esses jovens, com seus acampamentos, cartazes bem-humorados e doses até que moderadas de violência conseguiram afetar o "Zeitgeist" (espírito da época), o que não é pouca coisa.

É evidente, porém, que a democracia não opera milagres. Ela não vai resolver a crise econômica nem diminuir os efeitos sociais perversos da perda de confiança no futuro.

O povo não é bobo

Filed under: RBS,Rede Globo de Corrupção — Gilmar Crestani @ 8:38 am
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sorria-rede-globo

Para a Rede Globo e seu retransmissores, manifestantes “com rumo” só os do CANSEI. Quando o rumo é contra os grupos mafiomidiáticos, são eles que perdem o rumo. Hoje os grandes responsáveis pela desinformação são os próprios meios de comunicação. Hoje, não. Lembro de 1987 quando participei da greve dos bancários em Porto Alegre, e Olívio Dutra era do Sindicato dos Bancários. Numa assembléia da categoria no Gigantinho, quando o pessoal da RBS apareceu toda categoria virou as costas, porque sabíamos que a RBS estava ao lado dos banqueiros, não dos bancários. No outro dia a Zero Hora estampou foto dizendo que os bancários haviam virado as costas aos seus dirigentes. Hoje, uma mentira como esta seria desmentida em tempo real na internet. É por isso que eles, os a$$oCIAdos do Instituto Millenium estão perdendo o rumo.

Em São Paulo, manifestantes sem rumo vão parar na frente da Rede Globo

NELSON DE SÁDE SÃO PAULO

Patrícia Poeta abriu o "Jornal Nacional" com o semblante fechado, anunciando na escalada que os manifestantes "ocupam pacificamente" áreas de São Paulo, inclusive a "zona sul".

Entram as primeiras cenas ao vivo, da ponte Octavio Frias de Oliveira, "que liga alguns bairros da zona sul", segundo um repórter. "Até este momento, o protesto é pacífico."

Mais um pouco e o "JN" abriu o jogo. Relatou que os manifestantes desceram a marginal Pinheiros gritando "palavras de ordem contra a TV Globo". E Poeta leu editorial dizendo que a emissora cobre os protestos "desde o início", sem nada esconder, e que se manifestar é um "direito do cidadão".

Foi o ápice de uma cobertura que confundiu câmeras e tuítes, sem parar.

Nos "trendings topics" do Twitter, as "hashtags" –palavras-chaves que marcam cada assunto– saltavam de minuto em minuto, seguindo a falta de rumo dos manifestantes, que caminhavam por avenidas diversas em São Paulo e surgiam onde nem sequer haviam sido anunciados, em pequenas cidades do interior, no país inteiro.

De São Paulo, foco da maior atenção on-line, destacaram "largo da Batata", depois "Faria Lima" e "Rebouças", depois "Palácio".

Na TV, a falta de direção se repetia ao vivo, com imagens de helicóptero. Canais como Globo News e telejornais como "Brasil Urgente" e "Cidade Alerta" saltavam por Minas, Brasília, Rio.

Em São Paulo, a caminhada de parte dos manifestantes à marginal Pinheiros foi noticiada por Carlos Tramontina olhando pela janela, no "SPTV": "Já podemos ver, estão na Usina de Traição".

Na Record, Marcelo Rezende entrou com o protesto já "na frente da Globo", dizendo, "espero que não façam nada, tenho amigos lá".

Proposta concreta

Filed under: Manifestações Políticas — Gilmar Crestani @ 8:26 am
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VLADIMIR SAFATLE, na Folha

Há várias maneiras de esconder uma grande manifestação. Você pode fazer como a Rede Globo e esconder uma passeata a favor das Diretas-Já, afirmando que a população nas ruas está lá para, na verdade, comemorar o aniversário da cidade de São Paulo.

Mas você pode transformar manifestações em uma sucessão de belas fotos de jovens que querem simplesmente o "direito de se manifestar". Dessa forma, o caráter concreto e preciso de suas demandas será paulatinamente calado.

O que impressiona nas manifestações contra o aumento do preço das passagens de ônibus e contra a imposição de uma lógica que transforma um transporte público de péssima qualidade em terceiro gasto das famílias é sua precisão.

Como as cidades brasileiras transformaram-se em catástrofes urbanas, moldadas pela especulação imobiliária e pelas máfias de transportes, nada mais justo do que problematizar a ausência de uma política pública eficiente.

Mas, em uma cidade onde o metrô é alvo de acusações de corrupção que pararam até em tribunais suíços e onde a passagem de ônibus é uma das mais caras do mundo, manifestantes eram, até a semana passada, tratados ou como jovens com ideias delirantes ou como simples vândalos que mereciam uma Polícia Militar que age como manada enfu-recida de porcos.

Vários deleitaram-se em ridicularizar a proposta de tarifa zero. No entanto, a ideia original não nasceu da cabeça de "grupelhos protorrevolucionários". Ela foi resultado de grupos de trabalho da própria Prefeitura de São Paulo, quando comandada pelo mesmo partido que agora está no poder.

Em uma ironia maior da história, o PT ouve das ruas a radicalidade de propostas que ele construiu, mas que não tem mais coragem de assumir.

A proposta original previa financiar subsídios ao transporte por meio do aumento progressivo do IPTU. Ela poderia ainda apelar a um imposto sobre o segundo carro das famílias, estimulando as classes média e alta a entrar no ônibus e a descongestionar as ruas.

Apenas nos EUA, ao menos 35 cidades, todas com mais de 200 mil habitantes, adotaram o transporte totalmente subsidiado. Da mesma forma, Hasselt, na Bélgica, e Tallinn, na Estônia. Mas, em vez de discussão concreta sobre o tema, a população de São Paulo só ouviu, até agora, ironias contra os manifestantes.

Ao menos, parece que ninguém defende mais uma concepção bisonha de democracia, que valia na semana passada e compreendia manifestações públicas como atentados contra o "direito de ir e vir". Segundo essa concepção, manifestações só no pico do Jaraguá. Contra ela, lembremos: democracia é barulho.

Quem gosta de silêncio prefere ditaduras.

VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras nesta coluna.

O dobro em IPTU por tarifa zero, eu topo!

Filed under: IPTU,Tarifas — Gilmar Crestani @ 8:09 am
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PAÍS EM PROTESTO

Tarifa zero exigiria dobrar arrecadação obtida com IPTU

Receita teria que passar dos atuais R$ 5 bilhões para quase R$ 10 bilhões para compensar gratuidade

Outra opção seria cortar custos do governo ou aumentar arrecadação de outros impostos cobrados da população

ANA ESTELA DE SOUSA PINTOEDITORA DE "MERCADO"

Se os usuários de transporte público deixarem de pagar passagens, como pede o Movimento Passe Livre, esse dinheiro terá que vir dos cofres da cidade. Há duas formas de obtê-lo: cortando custos em outros setores ou aumentando impostos.

Quando a Prefeitura de São Paulo propôs a extinção da tarifa de transporte público em 1990 (na gestão Luiza Erundina, então do PT), a previsão era que o dinheiro sairia do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), cobrado de quase 2 milhões de proprietários de imóveis na cidade.

Essa é a fonte mais óbvia para os recursos, porque atinge de forma uniforme quem mora ou tem uma empresa na capital.

As outras formas de arrecadação da prefeitura são direcionadas a parcelas específicas da população, como o ISS (cobrado de quem presta serviços) ou taxas de fiscalização.

Mas, para compensar o fim da tarifa, seria preciso praticamente dobrar o valor do IPTU, ou seja, passar dos pouco mais de R$ 5 bilhões arrecadados em 2012 para algo como R$ 9,7 bilhões (mais 92%).

Esse acréscimo, da ordem de R$ 4,62 bilhões, é quanto se arrecadou no ano passado com as tarifas do transporte público –o sistema consumiu R$ 5,69 bilhões, mas pouco mais de R$ 1 bilhão foi pago diretamente às empresas pela prefeitura, o chamado subsídio.

Quem paga hoje R$ 1.000 por ano de IPTU, por exemplo, passaria a pagar R$ 1.920.

O aumento não atingiria diretamente moradores mais pobres, hoje isentos desse tributo –é o caso, por exemplo, de quem tem imóvel com valor venal de até R$ 73.850 ou pensionistas e aposentados do INSS beneficiados pela isenção.

Indiretamente, no entanto, a conta pode acabar sendo repartida por todos, pois empresas instaladas no município teriam seus custos aumentados e tenderiam a repassá-los para seus preços.

17/06/2013

Discriminação

Filed under: Baderneiros,Vândalos — Gilmar Crestani @ 9:02 am
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E aí fica mais fácil selecionar qual é o alvo. Não fosse o fato de terem distribuído balas de borracha indiscriminadamente, e com isso terem acertados jornalistas, a Folha continuaria, como a Globo, chamando manifestantes de baderneiros e vândalos. Por que só aos jornalistas?!

vandalos e baderneiros

Governo dará colete para jornalista poder se identificar

DE SÃO PAULO

O governo do Estado distribuirá coletes para identificar jornalistas que trabalharão na manifestação de hoje.

Detalhes de como será a distribuição serão definidos hoje, diz a Secretaria da Segurança Pública.

Ontem, o "Fantástico" divulgou que a polícia foi proibida de usar balas de borracha. Procurada, a secretaria da Segurança não confirmou.

No protesto de quinta-feira, 15 jornalistas ficaram feridos, sete dos quais da Folha.

O fotógrafo Sérgio Silva, da agência Futura Press, levou uma bala de borracha no olho e pode perder a visão. A repórter Giuliana Vallone também foi atingida no olho e está em recuperação.

Folha: o mundo é uma porção de coisa ao redor de SP

Interessante comparar o preço das passagens no Brasil e no mundo. E, de fato, o preço por aqui, é muito caro, ainda mais se levarmos em conta a quase auto-suficiência em petróleo. Duas coisas básicas que a análise não mostra: primeiro, que as manifestações pela redução do preço nas passagens começou por Porto Alegre, não é bairrismo, é fato por um lado e desinformação pelo outro; segundo, na maioria das cidades do primeiro mundo o transporte nas grandes cidades é público. No Brasil, a privada predomina. E na privada predomina a lógica do lucro e, mesmo sendo uma concessão publica, sem transparência. Nossos capitalistas são mais predatórios, simplesmente porque capturaram mentes através da aliança com os grupos mafiomidiáticos. Hoje, o pior inimigo da informação são os meios de comunicação. Como pode um veículo como a Folha desconhecer, ou fazer de conta que desconhece, o que houve em Porto Alegre em relação ao aumento das passagens?! Se a Folha é assim, na RBS é ainda pior, como já registrei neste espaço ainda em maio. O Olívio Dutra nunca foi perdoado pela RBS e seus financiadores ideológicos por tentar inverter a lógica do transporte público. Isso ainda em 1988. Hoje tentam pegar carona na indignação para culpar o Governo Federal, e um bando de desinformados engole tudo como se fosse novidade. Sem maciça intervenção pública o país não anda mas como fazer isso se a mãe de todas as batalhas, desde o falido neoliberalismo é contra o poder público, o tal de estado mínimo. No Brasil, quem não paga imposto cria impostômetro, quem mais critica o Estado são os sonegadores.

A tarifa de ônibus por aqui está entre as mais caras do mundo

SAMY DANALEONARDO SIQUEIRA DE LIMAESPECIAL PARA A FOLHA

A última semana foi marcada pelos protestos contra o aumento das passagens de ônibus pelo país; parece que a manifestação originada em São Paulo está escrevendo um capítulo da história.

Mas será que nossa passagem de ônibus é tão cara? Pesquisamos o preço das passagens de ônibus em dez cidades ao redor do mundo e os comparamos com Rio e São Paulo, onde os protestos foram mais intensos.

Muitas análises pesquisam o preço na moeda local e os transforma em dólar. Esses resultados chegam à mesma conclusão: o Brasil está longe de ser o local com passagens mais caras –São Paulo e Rio são mais baratas, pela ordem, do que Londres, Tóquio, Ottawa (Canadá), Nova York, Lisboa, Paris e Madri.

Esse tipo de análise é superficial, pois não considera o salário médio; ou seja, um dólar num país ser mais fácil de ganhar do que outro.

Mais realista é levar em conta o preço das passagens em minutos trabalhados, considerando, portanto, a renda média e as horas trabalhadas em cada cidade.

Ao classificar os preços pelos salários, São Paulo e Rio têm as passagens mais caras.

O paulistano tem que trabalhar 14 minutos para pagar uma passagem. Para o morador do Rio, são 13 minutos.

São superiores aos quatro minutos dos chineses.

Talvez as manifestações não sejam contra o aumento de R$ 0,20 na passagem, mas contra um transporte que não apresenta os serviços encontrados ao redor do mundo.

Como diria o ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, "a cidade avançada não é aquela em que os pobres andam de carro, mas aquela em que os ricos usam transporte público". O que está acontecendo aqui parece ser o oposto.

LEONARDO SIQUEIRA DE LIMA é economista pela FGV
SAMY DANA é Ph.D em business, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas) e coordenador do núcleo GV Cult

16/06/2013

Eliane Cantanhêde justifica a violência policial: irritação

Filed under: Eliane Cantanhêde,Isto é PSDB! — Gilmar Crestani @ 10:14 am
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ELIANE CANTANHÊDE, a inacreditável porta-voz do PSDB, não deixou por menos e conseguiu mapear a sequência de DNA da Polícia Militar Paulista para justificar a violência contra os manifestantes. Eles estão irritados. Ela só não parou para pensar porque esta irritação tem atacado de forma indisfarçável, desde que o PSDB chegou ao poder em São Paulo, somente a polícia comandada pelo PSDB. A criação do PCC, Pinheirinhos, invasão da USP e tantas outras barbaridades são coisas de cidadãos irritados. Foi assim durante algum tempo aqui no RS. A RBS chegou a justificar o assassinato à queima-roupa, pelas costas, do membro do MST, Elton Brum da Silva, durante o governo de sua ex-funcionária Yeda Crusius com uma inacreditável manchete: “MST ganhou seu mártir”.

Parodiando uma antiga propaganda de absorvente escrita por Lula Vieira, pode-se responder à porta-voz do PSDB na Folha: “irritada ficava sua avó, Cantanhêde!”. É explicação ou incitação?!

Insatisfação

BRASÍLIA – Nas décadas de 1960 e 1970, secundaristas e universitários lutaram bravamente contra uma ditadura e a favor de utopias sedutoras. Muitos morreram e foram torturados quase ainda crianças.

Nos anos 1980, novas gerações lutaram nas ruas pelas "diretas, já". E, nos 1990, milhares pintaram a cara pelo impeachment de Collor. Mais do que demolir um presidente indesejável, sonhavam edificar um país mais justo, mais decente.

A década de 2000 passou em branco. Inebriados pelo mito Lula e a miragem da esquerda pura e ética, os movimentos acomodaram-se e a estudantada recolheu-se à sala de aula. Utopias e sonhos coletivos cederam às ambições pessoais. O "cada um por si" venceu o "um por todos, todos por um".

As manifestações de agora começaram por 20 centavos a mais na passagem de ônibus em São Paulo e alastraram-se para Rio, Curitiba, Goiânia, Teresina e outras capitais. Coincidiram com os tambores de guerra dos índios e podem ser o fim da longa hibernação, um sinal para os Poderes da República. Basta de violência, de desvios, de impunidade.

É nesse clima que o país é informado de uma tal "Resistência Urbana – Frente de Movimentos e Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa". No Rio, fazem passeatas. Em Brasília, queimam pneus e fecham avenidas contra a farra dos estádios com dinheiro público.

E os protestos vão longe. Pela internet, o novo "Democracia não tem fronteiras" convoca estudantes e trabalhadores brasileiros para manifestações, terça-feira, em 30 cidades de 15 países.

Seria ingenuidade imaginar que tudo isso é uma enorme coincidência e que não há nenhuma conexão entre grupos e manifestações –ao menos uma mesma motivação.

O espectro da insatisfação ronda o Brasil. E pode explicar até a inexplicável violência de policiais –eles próprios são cidadãos irritados.

15/06/2013

Aos que ainda sabem sonhar

Filed under: Movimentos Sociais — Gilmar Crestani @ 8:08 pm
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Concordo com tudo o que foi dito pelo Andre Borges Lopes. Só gostaria de lembrar que os movimentos sociais nos EUA (Occupy Wall Street), Espanha (15-M), Itália, França (fogo nos Banlieu), Escandinávia (também fogo nos arrabaldes), Egito e a Primavera Árabe, na Turquia (Praça Taksin) e tantos outros lugares com movimentos parecidos, não se deu cavalinho de pau nos destinos locais. Dificilmente aconteceria uma nova Queda da Bastilha. O outsider, Grillo, na Itália, equivale ao nosso Tiririca, ganhou, mas Berlusconi continua sendo o político mais influente na Itália. O governo conservador de Mariano Rajoy continua cortando na carne dos espanhóis e o desemprego já beira aos 30%. França mudou da direita (Sarkozy) para a esquerda (Hollande) mas continua na lona. Em todos os lugares, sem exceção, há um casamento muito bem costurado entre o poder financeiro (bancos) com as corporações midiáticas que capturam ou destroem quem chega ao poder. Se não houver um confronto aberto, como fez  a Finlândia, contra as corporações financeira, nada mudará. Isso ficou patente com a crise de 2008 e o movimento Occupy Wall Street parece ter sido o único que acertou no cerne da questão. Estive em Buenos Aires no ápice de crise de De La Rua. O CityBank amanheceu pichado: “Aqui icimos mierda con tu diñero…”  Não é mero acaso que o Banco Itaú tenha feito uma aliança com a Globo para bombardearem os juros baixos e também seja sintomático que o governo tenha cedido e os juros já tenham subido. O dinheiro que existe para financiar a dívida pública que cresce com os juros altos poderiam subsidiar, por exemplo, os transportes públicos. Quanto à saúde não devemos esquecer a CPMF foi revogada pela aliança dos mal informados com os mal intencionados, todos amestrados pelos grupos mafiomidiáticos patrocinados pelos bancos. Os movimentos sociais nada fizeram não só pela continuidade da CPMF como pela exigência de ser todos os recursos investidos na saúde. A CPMF valia, se não pela saúde, mas para identificar os tráfico de recursos, dos corruptores, e dos traficantes.

Sonhar é bonito, mas, acordado, deve-se evitar que se tome a consequência pela causa.

Por Andre Borges Lopes

O fundamental não é lutar pelo direito de fumar maconha em paz na sala da sua casa. O fundamental não é o direito de andar vestida como uma vadia sem ser agredida por machos boçais que acham que têm esse direito porque você está "disponível". O fundamental não é garantir a opção de um aborto assistido para as mulheres que foram vítimas de estupro ou que correm risco de vida. O fundamental não é impedir que a internação compulsória de usuários de drogas se transforme em ferramenta de uma política de higienismo social e eliminação estética do que enfeia a cidade. O fundamental não é lutar contra a venda da pena de morte e da redução da maioridade penal como soluções finais para a violência. O fundamental não é esculachar os torturadores impunes da ditadura. O fundamental não é garantir aos indígenas remanescentes o direito à demarcação das suas reservas de terras. O fundamental não é o aumento de 20 centavos num transporte público que fica a cada dia mais lotado e precário.

O fundamental é que estamos vivendo uma brutal ofensiva do pensamento conservador, que coloca em risco muitas décadas de conquistas civilizatórias da sociedade brasileira.

O fundamental é que sob o manto protetor do "crescimento com redução das desigualdades" fermenta um modelo social que reproduz – agora em escala socialmente ampliada – o que há de pior na sociedade de consumo, individualista ao extremo, competitiva, ostentatória e sem nenhum espaço para a solidariedade.

O fundamental é que a modesta redução da nossa brutal desigualdade social ainda não veio acompanhada por uma esperada redução da violência e da criminalidade, muito pelo contrário. E não há projeto nacional de combate à violência que fuja do discurso meramente repressivo ou da elegia à truculência policial.

O fundamental é que a democratização do acesso ao ensino básico e à universidade por vezes deixam de ser um instrumento de iluminação e arejamento dos indivíduos e da própria sociedade, e são reduzidos a uma promessa de escada para a ascensão social via títulos e diplomas, ao som de sertanejo universitário.

O fundamental é que os políticos e grandes partidos antigamente ditos "libertários" e "de esquerda" hoje abriram mão de disputar ideologicamente os corações e mentes dos jovens e dos novos "incluídos sociais" e se contentam em garantir a fidelidade dos seus votos nas urnas, a cada dois anos.

O fundamental é que os políticos e grandes partidos antigamente ditos "sociais-democratas" já não tem nada a oferecer à juventude além de um neo-udenismo moralista que flerta desavergonhadamente com o autoritarismo e o fascismo mais desbragados.
O fundamental é que a promessa da militância verde e ecológica vai aos poucos rendendo-se aos balcões de negócio da velha política partidária ou ao marketing politicamente correto das grandes corporações.

O fundamental é que os sindicatos, movimentos populares e organizações estudantis estão entregues a um processo de burocratização, aparelhamento e defesa de interesses paroquiais que os torna refratários a uma participação dinâmica, entusiasmada e libertária.

O fundamental é que temos em São Paulo um governo estadual que é francamente conservador e repressivo, ao lado de um governo federal que é supostamente "progressista de coalizão". Mas entre a causa da liberação da maconha e defesa da internação compulsória, ambos escolhem a internação. Entre as prostitutas e a hipocrisia, ambos ficam com a hipocrisia. Entre os índios e os agronegócio, ambos aliam-se aos ruralistas. Entre a velha imprensa embolorada e a efervescência libertária da Internet, ambos namoram com a velha mídia. Entre o estado laico e os votos da bancada evangélica, ambos contemporizam com o Malafaia. Entre Jean Willys e Feliciano, ambos ficam em cima do muro, calculando quem pode lhes render mais votos.

O fundamental é que o temor covarde em expor à luz os crimes e julgar os aqueles agentes de estado que torturaram e mataram durante da ditadura acabou conferindo legitimidade a auto-anistia imposta pelos militares, muitos dos quais hoje se orgulham publicamente dos seus crimes bárbaros – o que nos leva a crer que voltarão a cometê-los se lhes for dada nova oportunidade.

O fundamental é que vivemos numa sociedade que (para usar dois termos anacrônicos) vai ficando cada vez mais bunda-mole e careta. Assustadoramente careta na política, nos costumes e nas liberdades individuais se comparada com os sonhos libertários dos anos 1960, ou mesmo com as esperanças democráticas dos anos 1980. Vivemos uma grande ofensiva do coxismo: conservador nas ideias, conformado no dia-a-dia, revoltadinho no trânsito engarrafado e no teclado do Facebook.

O fundamental é que nenhum grupo político no poder ou fora dele tem hoje qualquer nível mínimo de interlocução com uma parte enorme da molecada – seja nas universidades ou nas periferias – que não se conforma com a falta de perspectivas minimamente interessantes dentro dessa sociedade cada vez mais bundona, careta e medíocre.

Os mesmos indignados que se esgoelam no mundo virtual clamando que a juventude e os estudantes "se levantem" contra o governo e a inação da sociedade, são os primeiros a pedir que a tropa de choque baixe a borracha nos "vagabundos" quando eles fecham a 23 de Maio e atrapalham o deslocamento dos seus SUVs rumo à happy-hour nos Jardins.

Acuados, os políticos "de esquerda" se horrorizam com as cenas de sacos de lixo pegando fogo no meio da rua e se apressam a condenar na TV os atos de "vandalismo", pois morrem de medo que essas fogueiras causem pavor em uma classe média cada vez mais conservadora e isso possa lhes custar preciosos votos na próxima eleição.

Enquanto isso a molecada, no seu saudável inconformismo, vai para as ruas defender – FUNDAMENTALMENTE – o seu direito de sonhar com um mundo diferente. Um mundo onde o ensino, os trens e os ônibus sejam de qualidade e gratuitos para quem deles precisa. Onde os cidadãos tenham autonomia de decidir sobre o que devem e o que não devem fumar ou beber. Onde os índios possam nos mostrar que existem outros modos de vida possíveis nesse planeta, fora da lógica do agribusiness e das safras recordes. Onde crenças e religião sejam assunto de foro íntimo, e não políticas de Estado. Onde cada um possa decidir livremente com quem prefere trepar, casar e compartilhar (ou não) a criação dos filhos. Onde o conceito de Democracia não se resuma à obrigação de digitar meia dúzia de números nas urnas eletrônicas a cada dois anos.

Sempre vai haver quem prefira como modelo de estudante exemplar aquele sujeito valoroso que trabalha na firma das 8 da manhã às 6 da tarde, pega sem reclamar o metrô lotado, encara mais quatro horas de aulas meia-boca numa sala cheia de alunos sonolentos em busca de um canudo de papel, volta para casa dos pais tarde da noite para jantar, dormir e sonhar com um cargo de gerente e um apartamento com varanda gourmet.

Não é meu caso. Não tenho nem sombra de dúvida de que prefiro esses inconformados que atrapalham o trânsito e jogam pedra na polícia. Ainda que eles nos pareçam filhinhos-de-papai, ingênuos em seus sonhos, utópicos em suas propostas, politicamente manobráveis em suas reivindicações, irresponsavelmente seduzidos pelos provocadores de sempre.

Desde a Antiguidade, esses jovens ingênuos e irresponsáveis são o sal da terra, a luz do sol que impede que a humanidade apodreça no bolor da mediocridade, na inércia do conformismo, na falta de sentido do consumismo ostentatório, nas milenares pilantragens travestidas de iluminação espiritual.

Esses moleques que tomam as ruas e dão a cara para bater incomodam porque quebram vidros, depredam ônibus e paralisam o trânsito. Mas incomodam muito mais porque nos obrigam a olhar para dentro das nossas próprias vidas e, nessa hora, descobrimos que desaprendemos a sonhar.

Jovens vão às ruas e nos mostram que desaprendemos a sonhar | Brasilianas.Org

A Folha, até que enfim, toma conhecimento da violência policial à moda tucana

EDITORIAIS

editoriais@uol.com.br

Agentes do caos

Contra manifestantes, PM paulista agiu com inaceitável violência, que lhe cumpria coibir; paradoxalmente, ajudou a parar São Paulo

A Polícia Militar do Estado de São Paulo protagonizou, na noite de anteontem, um espetáculo de despreparo, truculência e falta de controle ainda mais grave que o vandalismo e a violência dos manifestantes, que tinha por missão coibir. Cabe à PM impor a ordem, e não contribuir para a desordem.

O Movimento Passe Livre preconiza a paralisação de São Paulo em nome da irreal reivindicação de tarifa zero para os transportes públicos. Tolera, se não acolhe, facções interessadas apenas em depredar equipamentos públicos, que num intervalo de seis dias transformaram áreas centrais da capital, por três vezes, em praças de guerra.

No quarto protesto, a responsável maior pela violência passou a ser a própria PM. Pessoas sem envolvimento no confronto foram vítimas da brutalidade policial. Transeuntes, funcionários do comércio, manifestantes pacíficos e até frequentadores de bar foram atacados com cassetetes e bombas.

Sete repórteres da Folha terminaram atingidos, quatro deles com balas de borracha, em meio à violência indiscriminada da polícia. A jornalista Giuliana Vallone foi alvejada no olho e recebeu 15 pontos no rosto. O comandante da PM diz que o disparo foi feito para o chão.

Não é só por solidariedade profissional que se mencionam, neste espaço, as agressões sofridas por repórteres desta Folha –e de outros órgãos de imprensa. Antes de mais nada, como qualquer cidadão, eles não poderiam ser atacados por policiais cuja ação não parecia obedecer a qualquer plano ou estratégia.

Há uma razão adicional para a força policial não tomar jornalistas por alvo: o trabalho da imprensa oferece um testemunho expurgado do radicalismo sectário que se impregnou nas manifestações contra o aumento das tarifas.

As arbitrariedades cometidas pela polícia no quarto protesto não poderiam contrastar de modo mais nítido com a exemplar disciplina exibida pelo PM Wanderlei Vignoli, na terceira manifestação. Ele sacou a arma, mas não disparou, mesmo isolado e ferido por manifestantes. "Somos treinados para manter o autocontrole", declarou.

Lamentavelmente, o comportamento da PM na quinta-feira veio impugnar a expectativa de que a tropa revelasse o mesmo senso de equilíbrio e, por que não, de coragem. Pois há coragem em manter a calma e o discernimento sob ameaça de uma multidão. Revela-se despreparo –e covardia–, entretanto, quando se ataca indiscriminadamente a população indefesa, ainda que sob a justificativa de defender a liberdade de ir e vir dos prejudicados pela manifestação.

Nem mesmo o saldo de 13 PMs feridos justifica o emprego de meios excessivos pela polícia. Tampouco foi eficaz a ação da PM, afinal ela acabou contribuindo para paralisar a cidade, mais até do que o próprio protesto.

De promotores da paz pública, policiais transformaram-se em agentes do caos e da truculência que lhes cabia reprimir, dentro da lei, da legitimidade e da razão.

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