Até a Folha, braço midiático do PSDB e desde sempre golpista, diagnosticou déficit civilizatório na CFM e AMB. As categorias médicas foram envenenadas e os reflexos já se fazem perceber sem ajuda de aparelhos. Há sintomas sociais de dislexia que se agrava à medida que o golpismo do Napoleão das Alterosas não encontra respaldo nas instituições públicas. O tempo, como senhor da razão, ao invés de diminuir paulatinamente a frustração causada pela derrota eleitoral, tem feito recrudescer a ponto de levar algumas entidades médicas a apresentarem um quadro de choque anafilático.
A anafilaxia só ainda não é generalizada porque uma grande parcela de profissionais da saúde não se deixou intoxicar pelas ideias golpistas. Saber perder é sintoma de respeito e equilíbrio. Estes sabem, como toda pessoa de bom senso, que melhor que limpar é não sujar. Não tem porque se sujar por que suas ideias não correspondem aos fatos.
A prevenção é o melhor remédio. Recomenda-se à Ku Klux Kan precaução e caldo de galinha, pois o ódio faz mal à saúde. A anorexia intelectual associada ao ódio pode levar o indivíduo ao comportamento de zumbis. Se o diagnóstico do quadro já é ruim, o déficit civilizatório apresentado em praça pública é estarrecedor.
EDITORIAIS
Medicina envenenada
Quem buscar se inteirar da mais nova querela a opor médicos e governo federal ficará chocado. Raras vezes se encontra tamanho exemplo de irracionalidade quanto a que inflamou o debate acerca do Cadastro Nacional de Especialistas criado pelo decreto nº 8.497.
Foi virulenta a reação do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Médica Brasileira (AMB). Em sua interpretação, a norma traria interferência autoritária do Poder Executivo na capacitação de médicos especialistas.
A alegação é que o Planalto usurpa as atribuições dessas associações, das sociedades de especialistas e da Comissão Nacional de Residência Médica. Para a corporação, caberia exclusivamente a suas entidades conceder e cadastrar títulos de especialidade.
CFM e AMB buscaram apoio da Câmara dos Deputados para barrar o decreto. Sob pressão, o Ministério da Saúde comprometeu-se a reescrever o diploma legal.
Sua leitura, no entanto, revela disposições burocráticas um tanto anódinas. Cria-se um diretório nacional de especialistas com informações padronizadas.
A lista seria alimentada pelas sociedades médicas e serviria para orientar a abertura de vagas de residência em diferentes partes do país, com base na escassez relativa de profissionais. Para o ministério, discrepâncias entre as listagens inviabilizam o planejamento.
O governo alega querer permitir com o decreto que programas de residência confiram títulos acadêmicos, como os de mestre ou doutor, a seus egressos. Parece razoável.
A redação é obscura, contudo, e a categoria teme que mestres e doutores sejam cadastrados como especialistas sem terem frequentado residência ou feito as provas das respectivas sociedades.
Não será difícil produzir uma fórmula para deixar claro que o diploma de pós-graduação não conferirá especialidade ao profissional, como diz o Ministério da Saúde.
A conclusão a extrair é que ainda não se encontrou antídoto para o veneno inoculado nas relações entre governo federal e classe médica pelo atabalhoado lançamento do programa Mais Médicos e pelas deficiências que nele persistem.
O governo vitaminou o atendimento da população carente, mas não conseguiu debelar a epidemia de ressentimento entre os médicos.