Ficha Corrida

24/08/2014

Espontaneidade made in USA

ucrainianO maior orçamento secreto do mundo mostra resultado. A CIA, com suas mãos de várias vias com a Microsoft, Facebook, Google e organizações não governamentais – ONGs, cumpre o que promete. Com dinheiro na mão e uma manada sedenta para ser manipulada ao redor do mundo, a CIA deita e rola nos movimentos sociais com antolhos. Foi assim a Primavera Árabe, Turquia, Síria, Ucrânia, Venezuela e, junho do ano passado, Brasil. Os a$$oCIAdos do Instituto Millenium até tentaram direcionar, mas algo deu errado e até a Rede Globo levou esterco na cara. Não foi diferente na RBS, mas, no fundo, exceções que confirmavam a regra. Um pouquinho de diversionismo só ajuda a esconder os verdadeiros interesses. Quando o Banco Itaú e a Multilaser patrocinam xingamentos contra a Presidenta do Brasil na abertura da Copa do Mundo, no Itaquerão, há por trás, um incentivo, da CIA. Ela sabe a quem, quando e ao que recorrer.

Articulista francês aponta McCain como "orquestrador" da Primavera Árabe

dom, 24/08/2014 – 09:13

Sugerido por Rogerio Maestri

Venho insistindo há tempos na tese que tanto a Primavera Árabe como as demais manifestações "espontâneas” em diversas partes do mundo (no Brasil também) tem por trás manipulações de governos estrangeiros.

Muitos me taxam de adepto da teoria da conspiração e paranoico! Mas finalmente há quatro dias foi publicado na Rede Voltaire um artigo com o seguinte título: “John McCain, chefe de orquestra da «primavera árabe», e o Califa”. Não gosto de simplesmente postar artigos de outros, mas como a minha posição já é conhecida vou colocar a introdução do mesmo e o link para o artigo, lá mostra claramente como surgiu “espontaneamente” a revolução “democrática” na Síria que originou o EI.

John McCain, chefe de orquestra da «primavera árabe», e o Califa

Por Thierry Meyssan, da rede Voltaire/voltairenet.org

Todos notaram a contradição dos que qualificavam, recentemente, os membros do Emirado islâmico como «combatentes da liberdade» na Síria, e se indignam hoje com as suas barbaridades no Iraque. Mas, se este discurso é incoerente em si, ele é perfeitamente lógico no plano estratégico: os mesmos indivíduos que sendo, ontem, apresentados como aliados devem sê-lo hoje como inimigos, mesmo se estão sempre às ordens de Washington. Thierry Meyssan revela os bastidores da política dos E.U. através do caso pessoal do senador John McCain, chefe-de-orquestra da «primavera árabe» e interlocutor de longa data do Califa Ibrahim.

Barack Obama e John McCain são adversários políticos, como o representam, ou colaboram em conjunto na estratégia imperialista do seu país?

John McCain é conhecido como o chefe de fila dos republicanos, candidato mal- sucedido à presidência norte-americana em 2008. Isto não é, como o veremos, senão uma parte da sua real biografia, a que lhe serve de cobertura para conduzir acções secretas em nome do seu governo.

Na altura do ataque «ocidental» eu estava na Líbia, aí, pude consultar um relatório dos serviços de inteligência exterior. Nele podia ler-se que a Otan tinha organizado, a 4 de fevereiro de 2011, no Cairo, uma reunião para lançar a «Primavera Árabe» na Líbia e na Síria. De acordo com o documento, ela tinha sido presidida por John McCain. O relatório detalhava a lista de participantes líbios, cuja delegação era liderada pelo No. 2 do governo da época, Mahmoud Jibril, que mudara abruptamente de campo, à entrada para esta reunião, para se tornar o chefe da oposição no exílio. Lembro-me que, entre os delegados franceses presentes, o relatório citava Bernard-Henry Lévy, embora oficialmente este nunca tenha exercido qualquer função no seio do governo francês. Muitas outras personalidades participaram neste simpósio, entre as quais uma enorme delegação de Sírios vivendo no exterior.

No final desta reunião, a misteriosa conta do Facebook Syrian Revolution 2011 (Revolução síria 2011-ndT) convocava protestos diante do Conselho do Povo (Assembleia Nacional) em Damasco, a 11 de fevereiro. Embora esta conta pretendesse à época ter mais de 40.000 followers(seguidores) apenas uma dúzia de pessoas responderam ao seu apelo, para os flashes dos fotógrafos e de centenas de policias (policiais-Br). A manifestação dispersou pacificamente, e os confrontos não começaram senão mais de um mês depois, em Deraa [1].

Em 16 de fevereiro de 2011 uma manifestação que se desenrolava em Benghazi, em memória dos membros do Grupo islâmico combatente na Líbia [2], massacrados em 1996 na prisão de Abu Selim, degenerou em tiroteio. No dia seguinte, uma segunda manifestação, desta vez em memória das pessoas mortas ao atacar o consulado da Dinamarca por alturas das caricaturas de Maomé, degenerou igualmente em tiroteio. Nesta precisa altura, membros do Grupo islâmico combatente na Líbia vindos do Egipto, enquadrados por indivíduos encapuçados e não identificados, atacavam, simultaneamente, quatro bases militares em quatro cidades diferentes. No seguimento de três dias de combates, e atrocidades, os contestatários lançaram o levantamento da Cirenaica contra a Tripolitânia [3]; um ataque terrorista que a imprensa ocidental apresentou, mentirosamente, como uma «revolução democrática» contra «o regime» de Muammar el-Qaddafi.

Em 22 de fevereiro John McCain estava no Líbano. Ele encontrou-se lá com membros da Corrente do Futuro (o partido de Saad Hariri), que encarregou de supervisionar as transferências de armas para a Síria, por conta do deputado Okab Sakr [4]. Depois, deixando Beirute, ele inspecionou a fronteira síria e escolheu as aldeias, nomeadamente Ersal, que deveriam servir como base de retaguarda para os mercenários na guerra que se preparava.

As reuniões presididas por John McCain foram, claramente, o ponto de partida de um plano, previsto de longa data, por Washington; plano que previa o ataque da Líbia e da Síria simultaneamente pelo Reino Unido e pela França, de acordo com a doutrina da «liderança de bastidores» e o anexo do Tratado de Lancaster House, de Novembro de 2010 [5].

A viagem ilegal à Síria, em maio de 2013

Em maio de 2013 o senador John McCain dirigiu-se, ilegalmente, para perto de Idleb, na Síria, através da Turquia, para aí se reunir com líderes da «oposição armada». A sua viagem só foi tornada pública após o seu regresso a Washington [6].

Esta deslocação fora organizada pela Syrian Emergency Task Force (Força-Tarefa de Emergência Síria) a qual, contrariamente ao seu título, é uma organização sionista dirigida por um funcionário palestino da AIPAC [7].

John McCain na Síria. No primeiro plano, à direita, reconhece-se o director da Syrian Emergency Task Force. No enquadramento da porta, ao centro, Mohammad Nour.

Nas fotografias difundidas então, nota-se a presença de Mohammad Nour, porta-voz da Brigada Tempestade do Norte (da frente Al-Nosra, quer dizer da Al-Qaida na Síria), que havia sequestrado e detinha 11 peregrinos xiitas libaneses em Azaz [8]. Interrogado sobre a sua proximidade com os sequestradores, membros da al-Qaida, o senador alegou não conhecer Mohammad Nour, o qual se teria infiltrado por sua própria iniciativa nesta (tomada de-ndT) foto.

O caso deu um grande sururu, e as famílias dos peregrinos raptados apresentaram queixa, perante a justiça libanesa, contra o senador McCain por cumplicidade no sequestro. Por fim, foi alcançado um acordo e os peregrinos foram libertados (liberados-Br).

Vamos supôr que o senador McCain tenha dito a verdade, e que ele tenha sido explorado por Mohammad Nour. O objeto da sua viagem, ilegal, à Síria era o de se encontrar o estado-maior do Exército sírio livre. Segundo ele, esta organização era composta «exclusivamente por sírios», combatendo pela «sua liberdade» contra a «ditadura alauíta» (sic). Os organizadores da viagem publicaram esta fotografia para confirmar a reunião.

John McCain e o estado-maior do Exército sírio livre. No primeiro plano, à esquerda, Ibrahim al-Badri, com o qual senador está em vias de conferenciar. Precisamente a seguir, o brigadeiro-general Salim Idriss (de óculos).

Se nela podemos ver o brigadeiro-general Salem Idriss, chefe do Exército sírio livre, também aí se pode ver Ibrahim al-Badri (em primeiro plano, à esquerda), com quem o senador está em vias de conferenciar. De regresso desta viagem surpresa, John McCain, afirmou que todos os responsáveis do Exército sírio livre são «moderados nos quais se pode confiar» (sic).

Ora, desde 4 de outubro de 2011, Ibrahim al-Badri, também conhecido como Abu Du’a, figurava na lista dos cinco terroristas mais procurados pelos Estados Unidos (Rewards for Justice-Recompensas para Justiça- ndT). Uma recompensa, podendo ir até aos $ 10 milhões de dólares, era oferecida a quem ajudasse na sua captura [9]. No dia seguinte, 5 de outubro de 2011, Ibrahim al-Badri foi colocado na lista do Comité de sanções da Onu como membro da Al-Qaida [10].

Além disso, um mês antes de receber o senador McCain, Ibrahim al-Badri, com o nome de guerra de Abu Bakr al-Baghdadi, criou o Estado Islâmico no Iraque e no Levante (EIIL)— ao mesmo tempo que pertencia, ainda, ao estado-maior do muito «moderado» Exército sírio livre—. Ele reivindicou o ataque às prisões de Taj e de Abu Ghraib no Iraque, de onde fez evadir entre 500 e 1.000 jihadistas que se juntaram à sua organização. Este ataque foi coordenado com outras operações, quase simultâneas, em outros oito países. Em cada ocasião os jihadistas evadidos juntaram- se a organizações combatendo na Síria. Este caso é de tal maneira estranho que a Interpol emitiu uma nota, e pediu a assistência dos 190 países membros [11].

Pela minha parte, eu sempre afirmei que não havia, no terreno, nenhuma diferença entre o Exército sírio livre, a frente Al-Nosra, o emirado islâmico etc. Todas estas organizações são formadas pelos mesmos indivíduos, que mudam de bandeira permanentemente. Quando se reivindicam ser do Exército sírio livre eles arvoram a bandeira da colonização francesa, e só falam em derrubar o «cão Bachar». Quando eles dizem pertencer à Frente Al-Nosra carregam a bandeira da Al-Qaida, e declaram espalhar o seu Islão(Islã-Br) no mundo. Finalmente, quando eles se dizem do Emirado Islâmico brandem, então, o estandarte do Califado, e anunciam que limparão a região de todos os infiéis. Mas, qualquer que seja a etiqueta, eles cometem os mesmos crimes: estupros, torturas, decapitações, crucificações.

No entanto, nem o senador McCain, nem os seus acompanhantes da Syrian Emergency Task Force (Força Tarefa de Emergência síria) forneceram ao Departamento de Estado as informações, em sua posse, sobre Ibrahim al-Badri, nem reclamaram o acesso a esta recompensa. Nem sequer informaram, também, o Comité anti-terrorista da Onu.

Em nenhum país do mundo, qualquer que seja o seu regime político, se aceitaria que o líder da oposição esteja em contacto directo, amigável e público, com um tão perigoso terrorista, procurado por toda a gente.

Quem é pois o senador McCain?

Mas além de John McCain não ser simplesmente o líder da oposição política ao presidente Obama, também ele é, na realidade, um dos seus altos-funcionários!

Ele é, com efeito, presidente do International Republican Institute (Instituto Republicano Internacional-ndT) (IRI), o ramo republicano do NED/CIA [12], desde Janeiro de 1993. Esta pretensa «ONG» foi criada, oficialmente, pelo presidente Ronald Reagan para estender certas atividades da CIA, em cooperação com os serviços secretos britânicos, canadianos (canadense-Br) e australianos. Contrariamente às suas alegações é, de facto, uma agência inter-governamental. O seu orçamento é aprovado pelo Congresso, numa rubrica orçamental dependente da Secretaria de Estado.

E, é por isso, porque é uma agência conjunta dos serviços secretos Anglo-saxões, que vários Estados no mundo lhe interditam toda a actividade no seu território.

Acusados de ter preparado o derrube do presidente Hosni Moubarak, por conta dos Irmãos muçulmanos, os dois empregados do International Republican Institute (IRI) no Cairo, John Tomlaszewski (segundo à direita) e Sam LaHood (filho do secretário dos Transportes de um governo democrata, o americano-libanês Ray LaHood), (segundo à esquerda), refugiaram-se na embaixada dos Estados Unidos. Ei-los aqui, ao lado dos senadores John McCain e Lindsey Graham, aquando da reunião preparatória da «primavera árabe» para a Líbia e para a Síria. Eles acabarão libertados pelo Irmão Mohamed Morsi, assim que este se tornou presidente.

A lista das intervenções de John McCain por conta do departamento de Estado é impressionante. Ele participou em todas as revoluções coloridas dos últimos vinte anos.

Para não dar senão alguns exemplos, ele preparou, sempre em nome da «democracia», o golpe de Estado fracassado contra o presidente constitucional Hugo Chávez na Venezuela [13], o derrube (derrubada-Br) do presidente constitucional Jean-Bertrand Aristide no Haiti [14], a tentativa de derrube do presidente constitucional Mwai Kibaki no Quénia [15] e, mais recentemente, a do presidente constitucional ucraniano Viktor Yanukovych.

Não interessa em que estado do mundo, logo que um cidadão toma a iniciativa de derrubar o regime de outro Estado, ele poderá ser felicitado se nisso for bem- sucedido, e que o novo regime se mostre um aliado, mas ele será severamente condenado se as suas iniciativas tiverem consequências nefastas para o seu próprio país. Ora, nunca o senador McCain foi inquietado pelas suas ações anti-democráticas, em estados onde ele fracassou e que se voltaram contra Washington. Na Venezuela, por exemplo. É que, para os Estados Unidos John McCain não é um traidor, mas sim um agente (secreto).

E um agente que dispõe da melhor cobertura que se possa imaginar: ele é o opositor oficial de Barack Obama. Nesta condição ele pode viajar para qualquer lugar no mundo (é o senador norte-americano que mais viaja), e encontrar-se com quem ele quiser sem temer. Se os seus interlocutores aprovam a política de Washington ele promete-lhes mantê-la, se a combatem, ele atira a responsabilidade para cima do presidente Obama.

John McCain é conhecido por ter sido prisioneiro de guerra no Vietname (Vietnã-Br), durante 5 anos, e aí ter sido torturado. Ele foi vítima de um programa concebido não para extrair informações, mas para incutir uma confissão. Tratava-se de transformar a sua personalidade, para que ele fizesse declarações contra o seu próprio país. Este programa, estudado a partir do exemplo coreano, para a Rand Corporation, pelo professor Albert D. Biderman, serviu de base às pesquisas conduzidas em Guantanamo, e em outros lugares, pelo Dr. Martin Seligman [16]. Aplicado sob George W. Bush a mais de 80.000 prisioneiros permitiu transformar vários de entre eles, para fazer, assim, verdadeiros combatentes ao serviço de Washington. John McCain, que havia “rachado” no Vietname, compreende-o, pois, perfeitamente. Ele sabe como manipular, sem escrúpulos, os jihadistas.

Qual é a estratégia dos norte-americana com os jihadistas no Levante?

Em 1990, os Estados Unidos decidiram destruir o seu antigo aliado iraquiano. Após terem sugerido ao presidente Saddam Hussein, que considerariam o ataque ao Koweit como um caso interno iraquiano, eles aproveitaram o pretexto deste ataque para mobilizar uma vasta coligação (coalizão-Br) contra o Iraque. Porém, devido à oposição da URSS, eles não derrubaram o regime, contentaram-se sim em controlar a zona de exclusão aérea.

Em 2003, a oposição da França não foi suficiente para contrabalançar a influência do Comité para a Libertação do Iraque. Os Estados Unidos atacaram de novo o país e, desta vez, derrubaram o presidente Hussein. Evidentemente, John McCain era um dos principais responsáveis do Comité(Comitê-Br). Depois de ter entregue, durante um ano, a uma sociedade privada o cuidado de pilhar o país [17], eles tentaram parti-lo em três Estados separados, mas tiveram que renunciar a isso diante da resistência da população. Eles tentaram de novo em 2007, com a resolução Biden-Brownback, mas voltaram a falhar [18]. Daí, a estratégia atual, que tenta conseguir isso por meio de um actor não-estatal: o Emirado Islâmico.

Neste documento, publicado em setembro de 2013, o embaixador do Catar em Tripoli informa o seu ministério, que um grupo de 1.800 Africanos foi formado na jihade, na Líbia. Ele propõe encaminhá-los, em três grupos, para a Turquia, afim de que eles se juntem ao Emirado islâmico na Síria.

A operação foi preparada durante muito tempo, antes mesmo da reunião de John McCain com Ibrahim al-Badri. Assim, correspondência interna do Ministério catariano das Relações exteriores (Negócios Estrangeiros-Pt), publicada pelos meus amigos James e Joanne Moriarty [19], mostram que 5. 000 jihadistas foram formados, às custas do Catar, na Líbia da Otan em 2012, e que 2,5 milhões de dólares foram atribuídos, na mesma altura, ao futuro califa.

Em janeiro de 2014, o Congresso dos Estados Unidos realizou uma reunião secreta, na qual votou, em violação do direito internacional, o financiamento até Setembro de 2014 da Frente Al-Nosra (Al-Qaida), e do Emirado Islâmico no Iraque e no Levante [20]. Embora se desconheça, com detalhe, o que foi realmente acordado aquando desta sessão, revelada pela agência de notícias britânica Reuters [21], e que nenhum média (mídia-Br) norte-americano ousou passar devido à censura, é altamente provável que a lei inclua uma secção sobre o armamento e treino de jihadistas.

Envaidecida com este financiamento norte-americano a Arábia Saudita reivindicou, no seu canal público de televisão, Al-Arabiya, que o Emirado Islâmico estava colocado sob a autoridade do príncipe Abdul Rahman al-Faisal, irmão do príncipe Saud al Faisal (Ministro dos Negócios Estrangeiros) e do príncipe Turki al-Faisal (embaixador saudita nos Estados Unidos e no Reino Unido) [22].

O Emirado Islâmico representa uma nova etapa no mercenarismo. Ao contrário dos grupos jihadistas que combateram no Afeganistão, na Bósnia-Herzegovina e na Chechénia, junto a Osama bin Laden, ele não constitui uma força de reserva, mas é um verdadeiro exército em si. Ao contrário dos grupos precedentes, no Iraque, na Líbia e na Síria, agrupados pelo príncipe Bandar Ben Sultan, eles dispõem de sofisticados serviços integrados de comunicação, que fomentam o alistamento, e de administradores civis, formados nas grandes escolas ocidentais capazes de tomar em mãos, imediatamente, a administração de um território.

Armas ucranianas, chispando de novas, foram comprados pela Arábia Saudita, e comboiadas pelos serviços secretos turcos que as remeteram para o Emirado islâmico. Os detalhes finais foram coordenados com a família Barzani, aquando de uma reunião de grupos jihadistas em Amã, a 1 de Junho de 2014 [23]. O ataque conjunto ao Iraque, pelo Emirado Islâmico e pelo Governo regional do Curdistão, começou quatro dias mais tarde. O emirado islâmico capturou a parte sunita do país, enquanto o governo regional do Curdistão aumentava o seu território em mais de 40%. Fugindo das atrocidades dos jihadistas as minorias religiosas deixaram a zona Sunita, preparando assim a via para a partição do país em três.

Violando o acordo de defesa Iraquiano-americano o Pentágono não interveio, e deixou o emirado islâmico prosseguir a sua conquista e os seus massacres. Um mês depois, enquanto os peshmergas do governo regional curdo haviam recuado sem batalha, e quando a emoção da opinião pública mundial se tornou demasiado forte, o presidente Obama deu a ordem para bombardear posições do Emirado islâmico. No entanto, segundo o general William Mayville, diretor de operações no Estado-maior: «Estes bombardeamentos são pouco susceptíveis de afectar as capacidades globais do Emirado Islâmico, ou as suas atividades noutras regiões do Iraque ou da Síria» [24]. Obviamente, eles não visam destruir o exército jihadista mas, apenas, garantir que cada actor não ultrapasse o território que lhe foi atribuído. Além disso, de momento, eles são puramente simbólicos e não destruíram senão um punhado de veículos. Na realidade tem sido a intervenção dos curdos do PKK, turco e sírio, nisto, que parou a progressão do Emirado Islâmico e, abrindo um corredor, permitiu às populações civis escapar ao massacre.

Numerosa desinformação circula a propósito do Emirado Islâmico e do seu califa. O jornal quotidiano Gulf Daily News fingiu que Edward Snowden havia feito revelações neste sentido. [25] No entanto, verificação feita, o antigo espião norte-americano não publicou nada a este respeito. O Gulf Daily News é publicado no Barein, um Estado ocupado por tropas sauditas. O artigo visa, apenas, limpar a Arábia Saudita e o príncipe Abdul Rahman al-Faisal das suas responsabilidades.

O Emirado Islâmico é comparável aos exércitos mercenários do século XVI europeu. Eles conduziam guerras religiosas em nome dos senhores que lhes pagavam, às vezes de um lado, às vezes de outro. O Califa Ibrahim é um condottiere moderno. Embora esteja às ordens do príncipe Abdul Rahman, (membro do clã dos Sudeiris), não seria de espantar que ele continue a sua epopeia na Arábia Saudita, (após um breve desvio no Líbano, ou seja no Koweit), e parta assim o bolo da sucessão real, favorecendo o clã dos Sudeiris contra o príncipe Mithab (filho, e não irmão do rei Abdallah).

John McCain e o Califa

Ibrahim al-Badri, aliás Abu Du’a, aliás Abou Bakr Al-Baghdadi, aliás Califa Ibrahim, mercenário do príncipe Abdul Rahman al-Faiçal, financiado pela Arábia saudita, pelo Catar e pelos Estados Unidos. Ele pode praticar todos os horrores, que as Convenções de Genebra proíbem os Estados de cometer .

Na última edição do seu magazine o Emirado Islâmico consagrou duas páginas a denunciar o senador John McCain, como «o inimigo» e «o cruzado», recordando o seu apoio à invasão norte-americana do Iraque. Temendo que essa acusação passasse em claro, nos Estados Unidos, o senador emitiu, imediatamente, um comunicado qualificando o Emirado de « o mais perigoso grupo terrorista islâmico no mundo » [26].

Esta polémica destina-se apenas a distrair a «galeria». Nós bem gostaríamos de acreditar nela…, se não existisse esta fotografia de maio de 2013.

Thierry Meyssan

Tradução

Alva

Articulista francês aponta McCain como "orquestrador" da Primavera Árabe | GGN

17/10/2011

Pânico em Washington

Filed under: Mauro Santayana,Primavera Americana — Gilmar Crestani @ 7:01 am
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Ao morrer anos antes, Guimarães Rosa perdeu outro tema que a realidade dos sertões mineiros poderia ter oferecido à sua ficção: a da enlouquecida matança de inocentes por alguém acossado pelo medo de inimigos imaginários.

Durante alguns anos, um rico fazendeiro de Curvelo – cidade próxima a Cordisburgo, terra do escritor – manteve pequeno e eficiente grupo de pistoleiros, aos quais encarregava de identificar e matar suspeitos de tramar a sua morte. Os pistoleiros, que recebiam por empreitada, agiam com esperteza. Quaisquer estranhos que surgissem no município eram logo denunciados ao patrão, que, depois de exame sumário da situação, ordenava o assassinato. Os crimes só foram descobertos muito tempo depois, quando, por acaso, descobriram uma cisterna abandonada no distrito de Andrequicé, onde o fazendeiro tinha terras. Nela, exumaram-se ossos de trinta e seis vítimas. Os fatos foram conhecidos em 1975.

As investigações revelaram o horror: nenhuma das vítimas conhecia, sequer, o fazendeiro amedrontado. Eram caixeiros viajantes; turistas escoteiros, atraídos pelas grutas da região e pela represa de Três Marias, homens nascidos nas redondezas que, vivendo longe, visitavam seus parentes.

Os Estados Unidos, ao que parece, estão sob o meridiano fantástico e assustador de Andrequicé. Eles, nesta quadra, se encontram em situação semelhante. Em seu editorial de ontem, o New York Times expõe as dúvidas sobre o suposto complô iraniano contra o embaixador da Arábia Saudita em Washington e outros alvos. As acusações são bizarras e inconsistentes, diz o texto. E adverte o jornal que, desacreditados com tudo o que ocorreu com relação ao Iraque – quando os ianques mentiram do princípio ao fim – os altos funcionários do governo norte-americano deveriam ter provas irrefutáveis contra Teerã, antes de denunciar o plano. Como as coisas foram conduzidas – reitera o editorial – o governo está vendendo o que não tem, com impudência ridícula. Desde a guerra de anexação contra o México, no século 19, os Estados Unidos têm mentido e criado incidentes falsos para justificar seus atos de agressão, como fizeram, mais recentemente, no caso do golpe de 1964, no Brasil; no Chile de Allende; na Argentina; na Nicarágua; na Guatemala; em El Salvador; na República Dominicana; no Vietnã – em todos os países do mundo que não têm armas nucleares, e onde têm interesses.

Outro fato que faz lembrar o mandante do sertão mineiro, foi a decisão de Obama de ordenar o assassinato de um cidadão dos Estados Unidos no Iêmen, sem qualquer processo legal. O congressista republicano Ron Paul, declarou que há fundamento legal para um processo de impeachment contra o presidente. Do ponto de vista técnico, trata-se de um assassinato por encomenda. Quanto a seu antecessor, Bush, há um pedido da Anistia Internacional ao governo do Canadá, para que o prenda – quando de sua visita ao país no dia 20 – e o submeta a julgamento por crimes contra a humanidade, por ter ordenado a tortura dos prisioneiros em Guantánamo e em outros lugares.

Convenhamos que não é fácil aceitar o declínio e o administrar com competência. Nisso, os ingleses, experientes e astutos, foram também eficientes, com a invenção da Commonwealth of Nations, o que, pelo menos, deu um pouco mais de fôlego à sua influência política nos domínios mais próximos da cultura européia, como os da Austrália e do Canadá.

Nesse processo de desvario das elites norte-americanas, que já acometeu outros impérios, a lucidez só pode ser imposta pelos próprios nacionais, o que é difícil e demorado, quando está em jogo a supremacia de seu país, mas pode ser inexorável. Tudo vai depender da persistência dos manifestantes e da capacidade que tenham de organizar e ampliar o movimento de resistência política.

É conhecida a tese de alguns historiadores, sobretudo de Toynbee, sobre o fim dos impérios: eles sempre desabam quando há a aliança entre o proletariado interno, o da metrópole, com o proletariado externo, isto é, o das províncias subordinadas. Ao que parece, com as manifestações dos indignados, nos paises centrais e nas antigas colônias, o proletariado do mundo começa a fazer suas alianças, de forma bem diversa da que Marx e Engels pregavam em 1848 – mesmo porque os trabalhadores de nosso tempo são bem diferentes, com a veloz transformação do processo tecnológico de produção dos últimos 60 anos. A articulação desses movimentos poderá surpreender o mundo, se os donos do poder não conseguirem, como já o fizeram antes, apropriar-se da indignação, domá-la e submetê-la aos seus interesses.

Mauro Santayana: PÂNICO EM WASHINGTON

12/10/2011

Democracia made in USA

Será que a OTAN não irá intervir para proteger os civis?

Movimento que alcançou cidades como Boston promete mobilização global no próximo sábado (15) | Foto: JonPack / Flickr

Igor Natusch

Enquanto o movimento Occupy Wall Street aproxima-se de completar um mês de atividades, os protestos contra a desigualdade econômica e social espalham-se pelos Estados Unidos e devem, a partir do próximo fim de semana, tomar conta de vários pontos em todo o planeta. De acordo com o Occupy Together, site que centraliza as manifestações nos EUA, nada menos de 106 cidades norte-americanas já abrigam o movimento, enquanto centenas de outras estariam com atividades programadas para os próximos dias.

Leia mais:
– Polícia prende cerca de cem manifestantes no Occupy Boston
– Não há data para o fim do Occupy Wall Street, diz Naomi Klein
– Obama diz que Occupy Wall Street expressa “frustração do povo”
– Depois de Wall Street, protestos se espalham pelos Estados Unidos

Além disso, grandes centros internacionais como Bruxelas (Bélgica), Copenhague (Dinamarca), Toronto (Canadá), Manchester (Inglaterra) e Dublin (Irlanda) estariam hospedando atividades ligadas ao movimento. Para o próximo sábado (15), está programado um movimento mundial de apoio aos protestos (Occupy World), com atividades em diversos países, incluindo várias cidades brasileiras.

Camille Koué / Aslan Media

"É só o começo": depois de caminhada por Nova York, manifestantes propõem dia de ação contra os grandes bancos dos EUA | Foto: Camille Koué / Aslan Media

Caminhada em NY faz “visita” a casas de grandes empresários

Aparentemente, a ideia dos manifestantes em Nova York, cidade que deu início ao movimento, é espalhar os protestos, descentralizando-os de Wall Street em direção a diferentes partes da cidade. Uma caminhada ocorreu nesta terça-feira (11), passando em frente a residências de grandes empresários como Jamie Dimon, executivo-chefe da JP Morgan, o presidente da News Corporation, Rupert Murdoch, e o bilionário David Koch. Os passos da caminhada foram descritos em tempo real pela conta do Occupy Wall Street no Facebook. “Os 99% estão agora na frente da casa de Rupert Murdoch”, dizia uma das mensagens. “Estamos na 68th (avenida de Nova York) em direção norte para Park Avenue, juntem-se a nós!”, convidava outra. Segundo informações de agências, cerca de mil pessoas participaram do evento.

Para o próximo sábado, está sendo convocada via redes sociais uma manifestação chamada “Day of Action Against Banks” (Dia da Ação Contra os Bancos, em tradução livre). A ideia é fazer com que os participantes dirijam-se a seus respectivos bancos, em uma espécie de ocupação coletiva. “Os bancos não vão mais levar nossas casas. Os bancos não vão mais roubar os estudantes de seu futuro. Os bancos não vão mais destruir o meio ambiente. Os bancos não vão mais financiar a miséria da guerra. Os bancos não vão mais causar desemprego em massa. E os bancos não vão mais lucrar com crise econômica sem enfrentar resistência. Nós ocuparemos todos os lugares”, avisa a mensagem.

Nina Mashurova

"Essa revolução não será privatizada", diz cartas exibido durante protestos em Boston | Foto: Nina Mashurova

Em uma espécie de demonstração de apoio aos protestos em Wall Street, hackers ligados ao grupo Anonymous derrubaram o site do New York Stock Exchange (NYSE), grupo que administra a Bolsa de Valores de Nova York. O ataque, ocorrido na segunda-feira, provocou lentidão e dificuldades de acesso, ainda que representantes da Bolsa garantam que o site não chegou a sair do ar e que o pregão do dia não foi afetado.

O filósofo e crítico esloveno Slavoj Zizek visitou o acampamento do Occupy Wall Street na segunda-feira e discursou para os manifestantes. Com a proibição do uso de megafones e demais aparelhos de som, os presentes começaram a recitar em voz alta cada frase de Zizek, como forma de fazer com que mesmo as pessoas mais distantes conseguissem ouvir a fala. O vídeo com a íntegra da manifestação segue logo abaixo. A tradução, na íntegra, pode ser lida no site Opera Mundi:

Polícia aumenta repressão contra protestos

Na medida em que aumenta a abrangência dos protestos, a repressão também cresce em números e intensidade. Em Boston, 129 manifestantes foram presos – segundo a polícia local, por bloqueio ao tráfego de veículos, invasão e reunião ilegal. Os manifestantes da cidade, antes concentrados na Dewey Square Park, passaram na noite de segunda-feira a ocupar também parte do Rose Fitzgerald Kennedy Greenway, vizinho ao ponto de encontro inicial. A polícia deu um ultimato para que os manifestantes regressassem a Dewey Square em uma hora e meia – os que não atenderam o pedido foram presos. As barracas e demais pertences encontrados no Rose Fitzgerald foram jogadas no lixo pela polícia.

Nina Mashurova

Ainda que protestos tenham caráter pacífico, ações da polícia provocaram a prisão de centenas de manifestantes | Foto: Nina Mashurova

Em Atlanta, manifestantes receberam ordens da polícia para deixar o Woodruff Park, onde se encontram acampados desde a última sexta-feira. Em resposta, uma mensagem no site do Occupy Atlanta deixou claro que os participantes não tinham intenção de abandonar o local. “Convocamos os apoiadores do Occupy Together e defensores da Primeira Emenda para virem ao Woodruff Park e permanecer conosco por quanto tempo puderem”, diz o comunicado. “Encorajamos todos a trazer câmeras para registrar o caráter pacífico da nossa manifestação e qualquer ação que for tomada pela polícia”. Por meio de um porta-voz, o prefeito de Atlanta, Kasim Reed, disse não haver “planos imediatos” para a remoção dos manifestantes do Woodruff Park. Até a tarde de terça-feira (11), nenhuma prisão havia ocorrido em Atlanta, segundo fontes ligadas ao movimento.

Enquanto isso, o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, deu autorização oficial para que os manifestantes permaneçam em Wall St. por mais quatro meses. O prefeito também acentuou que a permanência poderá ser prorrogada indefinidamente, desde que os envolvidos permaneçam dentro da lei. “Se as pessoas querem se manifestar, e na medida em que obedecerem as leis, estão autorizadas a fazê-lo”, disse Bloomberg. As declarações marcam uma queda no tom adotado pelo prefeito com relação ao movimento. Em entrevistas anteriores, Michael Bloomberg havia dito que manifestantes estavam tentando “acabar com os empregos de trabalhadores” da cidade e que uma intervenção policial estava sendo cogitada.

John W. Iwanski

“Nós temos um ponto. Não somos desorganizados, em poucos dias conseguimos colocar fazer uma cidade inteira girar em torno da gente" | Foto: John W. Iwanski

O movimento provoca grandes divergências entre democratas e republicanos nos EUA. Enquanto o bloco democrata tem se caracterizado pela simpatia aos manifestantes, os republicanos não economizam nas tintas para criticar o Occupy Wall Street e suas ramificações. Em diferentes ocasiões, dois possíveis candidatos republicanos para 2012, Newt Gingrich e Herman Cain, referiram-se aos protestos como “luta de classes”.

Ainda que a cobertura ao Occupy Together tenha aumentado de dimensão nos últimos dias, continuam comuns as críticas ao movimento, acusando-o de não ter objetivos claros e carecer de homogeneidade. Michael Lester, que participa da ocupação no Westlake Park de Seattle, é um dos participantes que responde, com suas próprias palavras, a essas críticas. “Apenas porque a mídia não entende nossa mensagem, não quer dizer que não temos uma”, diz ele. “Nós temos um ponto. Não somos violentos, não somos parasitas, não somos desabrigados, não somos hippies. Somos democratas, republicanos, libertários e apolíticos. Não somos desorganizados, em poucos dias conseguimos colocar fazer uma cidade inteira girar em torno da gente. Vocês não podem colocar um rótulo em nós, e não aceitaremos quaisquer termos que tentem usar para nos definir”.

No mapa, as principais cidades norte-americanas que registram protestos:

Visualizar Occupy Together em um mapa maior

Sul 21 » Mais de 100 cidades dos EUA já aderiram ao Occupy Together

07/10/2011

A primavera americana

Filed under: Primavera Americana — Gilmar Crestani @ 8:09 am
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A primavera árabe, elogiada nos meios de comunicação como movimento popular pelo fim das tiranias naquela parte do mundo, pode estar se repetindo onde menos se esperava: no coração financeiro do planeta, de onde emana o modelo que o leva a um impasse de grandes proporções, que ameaça sua própria sobrevivência. O movimento "Ocupar Wall Street", embora ainda sem objetivos muito bem definidos e sem a mesma atenção midiática dispensada aos povos árabes, está colocando o dedo na ferida do capitalismo financeiro e arregimentando cada vez mais pessoas.

Manifestações pacíficas, aplaudidas em outros cantos do mundo, naturalmente não são bem-vindas no quintal norte-americano, ainda mais quando decidem acampar no distrito financeiro de Nova York. Na praça Tahir, pode, na Porta do Sol, vá lá, mas em Wall Street não. A democracia dos Estados Unidos tratou seus pacíficos cidadãos a cassetetes e gás de pimenta, quando se dirigiam ao local. Mais de 700 pessoas foram presas pelo "crime" de se manifestarem contra uma ordem mundial que causa crise, recessão e desemprego.

Mas o tiro está saindo pela culatra. Assim como nas praças árabes, a repressão gera mais mobilização, e diversas categorias profissionais aderem ao movimento. A solidariedade começa a se espalhar por outras cidades dos Estados Unidos e o movimento cresce, aparece e luta pelo que o presidente Obama não conseguiu. Inverter a ordem do jogo em que ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais numerosos. O desemprego nos EUA atinge cerca de 20 milhões de pessoas, enquanto os bônus nos grandes bancos e empresas movimentam fortunas ofensivas, principalmente em tempos de crise e déficit fiscal elevado.

Qualquer tentativa de elevação de imposto, taxação dos mais ricos ou algo que o valha é bombardeada pelos republicanos e pelo setor conservador da sociedade, que não entrega os anéis, mas periga perder os dedos. O movimento norte-americano se organiza pelas redes sociais e funciona de forma horizontal, sem lideranças definidas. Na praça Tahir também não havia lideranças claras, mas a persistência do povo egípcio derrubou o governo.

Os manifestantes norte-americanos não pedem a cabeça de Obama, mas em seu protesto ainda difuso está a revolta contra o domínio do capital financeiro sobre o país. Os americanos de lá perderam suas casas na crise do subprime e seus empregos no repique da convulsão econômica, da qual o país não conseguiu emergir. Para um país forjado por sua classe média deve ser insuportável conviver com tanta desigualdade social, ameaçando sua democracia política.

O movimento ainda irá enfrentar mais repressão policial e boicote midiático. Seu futuro é incerto. Mas pela solidariedade que tem despertado e o envolvimento de categorias de peso, como o sindicato nacional dos trabalhadores do setor siderúrgico (USW), com mais de um milhão de filiados, pode ganhar massa muscular e conquistar corações e mentes de um país que não se mobiliza de forma abrangente desde os protestos pelo fim da guerra do Vietnã.

A primavera norte-americana | Direto da Redação – 10 anos

Primavera Ianque

Filed under: Democracia made in USA,Primavera Americana — Gilmar Crestani @ 8:07 am
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Atropelada pelo óbvio

Bristol (EUA) – Outro dia conversei com um judeu americano sobre o conflito com os árabes. Ele me disse que pertence ao movimento Jews for Peace, favorável a reconhecer o estado da Palestina dentro das fronteiras existentes em 1967, e saiu-se com esta:

– Tenho mais medo dos cristãos evangélicos nos Estados Unidos do que dos muçulmanos no Oriente Médio.

Eis um ponto importante que nunca é abordado pela mídia americana: o “lobby” mais forte para garantir o apoio dos Estados Unidos aos governos israelenses não vem dos judeus que moram aqui e sim dos cristãos evangélicos.

O apoio dos evangélicos a Israel não é desinteressado. Vem da escatologia  do “rapture” (arrebatamento), que já inspirou best-sellers como os da série “Left Behind”. Para esta escola de pensamento, o restabelecimento da Grande Israel, como ela acredita ter existido no passado, é fundamental para a ocorrência das três etapas que, garante, precederão  o fim do mundo: o arrebatamento, em que as almas puras que acreditam em Jesus Cristo subirão instantâneamente ao céu, as Tribulações, em que um Anti-Cristo governará a Terra e, finalmente, a batalha final entre o Bem e o Mal, o Apocalipse (apocalipse na verdade não significa “fim do mundo”, mas deixemos pra lá).

Acresce que  o propósito declarado dos evangélicos é converter o maior número possível de judeus ao cristianismo, na linha do que eles chamam “judeus messiânicos”: os judeus que aceitam Jesus como o Messias.

A força eleitoral dos evangélicos nos Estados Unidos complica ainda mais uma questão por si já praticamente impossível de ser resolvida, pois os judeus não foram os habitantes originais do que se chamou Terra de Canaã no passado, embora estejam convictos de que ela  foi prometida a Abraão por Jeová. Ao longo dos séculos os palestinos (uma mistura de povos, incluindo os  filisteus das  Escrituras) ocuparam aquela região por período mais longo do que os judeus, aí contados os tempos bíblicos e os atuais, depois do movimento sionista que  levou estes últimos de volta ao Oriente Médio.

A história possui  elementos  de Ópera Bufa, até porque os Estados Unidos tem,  desde sua criação como país independente, uma longa tradição de fanáticos religiosos que se proclamam “profetas” e garantem que o fim do mundo é iminente.  Ainda na primeira metade deste  ano tivemos aquele maluco que garantiu que o mundo acabaria às seis horas da tarde de um sábado. (No momento ele refaz seus cálculos, febrilmente, já que a data chegou e passou sem maiores problemas.)

Mas não é só na questão palestina que a mídia americana, de propósito ou sem querer, ignora, deturpa ou oculta os fatos. Agora mesmo verificamos que ela foi atropelada pelo movimento “Occupy Wall Street”. Foi só depois de três semanas consecutivas de protestos no coração do capitalismo mundial que os jornalões americanos e as grandes cadeias de televisão reconheceram o óbvio ululante e passaram a noticiá-lo.

Reconhecer não chega a ser  a expressão correta. A mídia americana foi atropelada pelo óbvio  e mesmo assim ainda procura disfarçar uma clamorosa injustiça : cidadãos ordeiros e pacíficos vem sendo presos diariamente só porque protestam  contra a corrupção sistêmica da “lei do mercado”, enquanto nem um só banqueiro e financista de Wall Street, responsáveis pela imensa crise em que o mundo ainda se encontra, foi até hoje encaminhado ao cárcere.

Atropelada pelo óbvio | Direto da Redação – 10 anos

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