Ficha Corrida

06/11/2016

O sequestro da Ana Júlia

Filed under: Ana Júlia Ribeiro,Educação Pública,El País,PEC 241 — Gilmar Crestani @ 12:35 pm
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Sabe aquele papo de que só a educação pode melhorar o país? Esqueça. Das três principais tarefas do Estado (segurança, saúde e educação), a primeira a ser negligenciada pelo padrão Alexandre Frota é a Educação. Por que será todo salafrário tem por princípio basilar minimizar recursos à educação?! Será porque um povo burro é mais fácil de ser ludibriado? Só mau caráter odeia alunos como Ana Júlia.

Analfabetismo PolíticoNão é inacreditável que os a$$oCIAdos do Instituto Millenium tenham feito de conta que não houve um fato com repercussão mundial?! Poderia parecer um paradoxo o fato de que veículos que vivem de vender informação façam de conta que Ana Júlia não exista. Contudo, é exatamente a lógica com que trabalham os grupos mafiomidiáticos: toda e qualquer informação não seja “mediada” por eles não tem direito à existência.

O sequestro da Ana Júlia para que o Brasil não tome conhecimento de sua existência é tão criminoso quanto qualquer cárcere privado. Como não lembrar do Escândalo da Parabólica, quando o compadrio entre Rubens Ricúpero e Carlos Monforte vazaram a regra baixada pela Rede Globo?!

Por estas e por outras que o papel das velhas mídias é mais prejudicial ao futuro do Brasil do que o somatório da massa carcerária. Até porque não há crime maior que matar, a golpes, uma democracia!

Por que matérias como esta só saem em jornas de fora? Seria por isso que a ANJ quer impedir veículos estrangeiros de atuarem no Brasil?

Até aqui, parece que o maior crime da Ana Júlia é ser filha de petista. Quando faltam argumentos, a filiação vira pretexto, como se todo progressista, bem articulado, com foco na educação, só pudesse ser do PT. Fazer as perguntas certas no lugar certo, ou seria errado, é mau sinal?!

Não duvide que seus críticos queiram reintroduzir o MOBRAL…

Ana Júlia e a palavra encarnada

O movimento de ocupação da escola pública tornou-se a principal resistência ao projeto não eleito e pode ser a pedra no caminho do PSDB em 2018

Eliane Brum 31 OUT 2016 – 14:48 BRST

Ana Julia faz discurso sobre protestos nas escolas ocupadas A estudante Ana Julia, 16 anos, ao discursar na Assembleia Legislativa do Paraná. Reprodução

Ana Júlia Ribeiro resgatou a palavra num país em que as palavras deixaram de dizer. E que força tem a palavra quando é palavra. O vídeo que viralizou levando o discurso de Ana Júlia para o mundo mostra que a palavra dela circula pelo corpo. É difícil estar ali, é penoso arriscar a voz. Ela treme, ela quase chora, Ana Júlia se parte para manter a palavra inteira. A câmera às vezes sai dela e mostra a reação dos deputados do Paraná. Alguns deles visivelmente não sabem que face botar na cara. Tentam algumas opções, como numa roleta de máscaras, mas parece que as feições giram em falso. Deparam-se aflitos com a súbita dificuldade de encontrar um rosto. A palavra de Ana Júlia arruinou, por pelo menos um momento, a narrativa que começava a se impor: a da criminalização dos estudantes e de seu movimento de ocupação da escola pública. Mas a disputa ainda é esta. E tudo indica que se tornará cada vez mais pesada: são os estudantes que estão no caminho do projeto de poder do governo de Michel Temer e das forças que o apoiam. E são também eles que podem atrapalhar o tráfego de quem corre para 2018, em especial o PSDB de Geraldo Alckmin.

MAIS INFORMAÇÕES

A maior parte da imprensa ignorou o movimento de estudantes que, no final da semana passada, ocupavam cerca de 800 escolas públicas do Paraná e outras centenas pelo país, incluindo universidades, em protesto contra o projeto de reforma do ensino médio do governo Michel Temer (PMDB). Projeto apresentado como Medida Provisória, o que é só mais um sinal do DNA autoritário dos atuais ocupantes do poder. Os estudantes também ocuparam as escolas em protesto contra a PEC- 241, que congela gastos públicos por 20 anos e pode reduzir o investimento em educação e saúde, áreas estratégicas para o país, com impacto direto sobre os mais pobres.

A potência da voz de Ana Júlia é a da palavra que tem corpo

A ocupação das escolas públicas era – e é – o movimento mais importante deste momento no país – e o espaço na imprensa, quando havia, era mínimo. Até o dia em que um estudante matou outro a facadas, dentro de uma das escolas. Aí as matérias apareceram. Havia então o que dizer. Transformar um fato isolado, com suas circunstâncias particulares, em estigma de todo um movimento levado adiante por milhares de jovens é uma especialidade conhecida do não jornalismo e da política sem ética. E então veio o discurso de Ana Júlia. Não pós-verdade, mas verdade. A verdade dela, do coletivo de estudantes que ela ali representava. A potência da voz de Ana Júlia é a da palavra que tem corpo.

As reações ao discurso de Ana Júlia expressam a época histórica que encontra sua melhor crítica numa série de ficção: Black Mirror (Netflix), com suas distopias sobre a vida atravessada pelas novas tecnologias. Há pelo menos duas maneiras de esvaziar a palavra de Ana Júlia esvaziando Ana Júlia. Uma delas é ridicularizá-la. O tremor da voz, do corpo, as lágrimas viram “argumentos” para fragilizar seu discurso. É o velho truque usado contra as mulheres, usualmente reduzidas a “histéricas” ou “loucas” ou “mimimi”. O todo que constrói a voz é atacado para deixar sua palavra, o verdadeiro alvo, sem lastro. Sem corpo. Desde que seu discurso viralizou, seus 16 anos de vida estão sendo vasculhados na tentativa de encontrar qualquer episódio que possa ser torcido, para destruir sua palavra destruindo-a. Se não existir, pouco importa, fabrica-se – como se viu em vídeos e sites pela internet.

Mas há também uma outra forma de esvaziar a palavra de Ana Júlia, e esta parece inofensiva, “do bem”. É transformar Ana Júlia em “heroína” ou na “esperança de um país”. Nessa narrativa, Ana Júlia é isolada do grupo que sustenta seu discurso, seu corpo. Ela, que representava muitos, que era multidão, passa a ser conjugada no singular. Sozinha, Ana Júlia pode muito pouco.

O outro efeito dessa “celebrização” é a exigência do que Ana Júlia não pode ser – e não pode ser nem quando pode muito. Num país mastigado por uma crise que também é de palavra, não há como transferir para uma jovem de 16 anos a responsabilidade por “salvar” o Brasil, transformando-a em encarnação da “esperança”, esta que também é tão superestimada. Neste lugar simbólico, qualquer um, mesmo que tivesse 80 anos de idade, estaria condenado ao fracasso. Inflar sua palavra é também uma forma de despontencializá-la.

A única proteção contra esquartejamentos na arena pública é o coletivo

Ao esclarecer que seu discurso foi preparado em conjunto com o grupo de estudantes, pedir para não tirar fotos sozinha e evitar falar de sua vida pessoal, Ana Júlia parece conhecer os riscos de ser convertida em celebridade instantânea. Se esta conversão fosse completada, sua palavra viraria produto. E Ana Julia seria consumida e cuspida, como já aconteceu com tantos. Nos dias que se seguiram ao discurso na Assembleia Legislativa do Paraná, em Curitiba, foi possível testemunhar muitas mãos, vindas de várias direções, tentando arrancar lascas da palavra-corpo de Ana Júlia. A única proteção contra esquartejamentos na arena pública é o coletivo, o grupo, o juntos – o movimento.

Em um momento do seu discurso de 10 minutos e 40 segundos, Ana Júlia menciona a morte do estudante Lucas Eduardo de Araújo Mota e afirma: “Vocês estão aqui representando o Estado, e eu convido vocês a olhar a mão de vocês. A mão de vocês está suja com o sangue de Lucas. Não só do Lucas como de todos os adolescentes que são vítimas disso. O sangue do Lucas está na mão de vocês, vocês representam o Estado”.

O presidente da Assembleia, Ademar Traiano (PSDB), como um daqueles tubarões rápidos em detectar um flanco de oportunidade, acreditou que havia ali uma chance de atacar a menina e devolver o plenário ao seu ambiente natural, aquele em que peixinhos dourados não confrontam velhos carnívoros. “Aqui você não pode agredir o parlamentar…. Eu vou encerrar a sessão, eu vou cortar a palavra… (…) Não afronte deputado, aqui ninguém está com a mão manchada de sangue, não”, inflamou-se. Encerrar a sessão, “cortar a palavra”, seria mesmo uma bênção para uma parcela dos parlamentares.

Ana Júlia seguiu defendendo as palavras: “Eu peço desculpa, mas o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) nos diz que a responsabilidade pelos nossos adolescentes, pelos nossos estudantes é da sociedade, da família e do Estado”. Nem precisaria pedir desculpas. Ela estava falando em português para pessoas que deveriam ter capacidade de interpretação de discursos em língua portuguesa. O deputado entendeu muito bem que ela não se referia a mãos literalmente “sujas de sangue” ou apontava uma relação direta com a morte do estudante, mas estava, sim, chamando atenção sobre a responsabilidade constitucional dos parlamentares em sua função pública. O deputado apenas preferiu apostar na burrice – e parece que ninguém perde no Brasil atual ao apostar na burrice.

Com o projeto conservador avançando, os partidos progressistas derrotados nas urnas, as esquerdas brigando entre si, sobrou para os estudantes uma responsabilidade grande demais

Há um ponto, neste episódio, que é justamente a responsabilidade dos adultos. Com a escola pública, com o Brasil. A ação dos estudantes tornou-se o principal movimento de resistência ao projeto não eleito do governo Michel Temer e das forças que o apoiam. Com a oposição fragilizada, o PT quebrado, capitais importantes como São Paulo e Rio nas mãos de conservadores e as esquerdas sem projeto e brigando entre si, sobrou para os estudantes secundaristas um peso grande demais. Neste sentido, foi um pouco assustador testemunhar adultos infantilizados tratando Ana Júlia como um oráculo de 16 anos. É preciso fazer melhor do que isso tanto para apoiar os estudantes, respeitando sua autonomia, quanto para construir um projeto capaz de ecoar no país.

A escola pública foi destruída e abandonada por décadas. Também o PT fez menos do que poderia, em especial nos ensinos fundamental e médio, durante os 13 anos que permaneceu no poder. Enquanto a classe média pôde matricular seus filhos nos colégios privados, ninguém se preocupou com os filhos dos mais pobres, que não tinham educação e viviam um cotidiano de violações. A violência começa pelo salário humilhante dos professores, o abandono dos prédios e uma escola que não educa, incapaz de qualificar o desejo e ampliar os mundos de crianças e adolescentes. Tudo indica que aqueles que ali estão não têm valor para o país, relegados ao lugar simbólico de restos.

Enquanto foi este o estado das coisas, bem poucos parecem ter se preocupado para além do discurso vazio, das palavras sem corpo sobre a importância da educação, que ressurgiam a cada eleição e que culminaram com “Brasil, Pátria Educadora”, o slogan do governo deposto de Dilma Rousseff. Dizer que “educação é prioridade” se tornou um falso consenso que, em vez de palavra, virou flatulência.

As escolas públicas só se tornaram um problema para as forças conservadoras quando os estudantes as ocuparam para exigir educação de qualidade

Ter escolas que não educam para os mais pobres nunca foi de fato um problema para as elites do país. Estava tudo bem assim. O problema surgiu quando os estudantes das escolas públicas de São Paulo entenderam que a “reorganização escolar” imposta pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), que fecharia mais de 90 colégios e remanejaria mais de 300.000 alunos, era um abuso. Ocuparam então as escolas no final de 2015. E, mais do que ocuparam, cuidaram do que ninguém cuidava – limpando, pintando e consertando – e disseram que queriam, sim, ser educados. Cuidar das escolas e reivindicar ensino de qualidade virou uma transgressão a ser punida. E a ser criminalizada.

A ideia de que as escolas podem ser ocupadas, num sentido profundo, por aqueles que dela dependem para ter oportunidades na vida, se alastrou pelo país. “De quem é a escola? A quem a escola pertence?” foi uma das primeiras perguntas de Ana Júlia aos deputados do Paraná. É uma grande pergunta, e os estudantes têm uma resposta a propor.

Movimentos de “Ocupa Escola” começam, acabam e recomeçam em diversos estados do Brasil desde o ano passado. A ocupação das escolas do Paraná coincidiu, porém, com um momento ainda mais delicado do país: um projeto não eleito no governo federal, apoiado por um Congresso corrompido, tocando com grande rapidez reformas cruciais, como a PEC-241, sem debate com a sociedade.

Quem está, de fato, no caminho deste projeto de poder, tanto quanto das ambições de algumas figuras nacionais, neste momento de oposição fragilizada ou mesmo atarantada? Os estudantes secundaristas com seu “Ocupa Escola”, uma luta que ganhou uma dimensão muito maior do que eles poderiam prever. Assim, há várias forças tentando destruir o movimento, seguindo a cartilha de sempre: criminalizando-o.

É importante perceber que, de repente, a escola, com a qual bem poucos se importavam para além do discurso vazio, virou o alvo de ataques conservadores bem organizados. “Escola Sem Partido”, o projeto-aberração que busca criminalizar o pensamento crítico dentro das escolas e, portanto, acabar com a possibilidade de qualquer processo educativo, é uma das ofensivas em curso. “Escola Sem Partido é falar pros jovens, pra sociedade, que querem formar um exército de não pensantes, um exército que ouve e baixa a cabeça”, disse Ana Júlia aos deputados do Paraná.

O “sem partido”, vale prestar muita atenção, é a malandragem do momento. Ela busca encobrir todos os partidos que estes projetos tomam – e vender uma suposta neutralidade ideológica que não têm. Sem contar a crescente criminalização dos partidos políticos, tanto como conceito quanto como atores do processo democrático, algo que merece uma atenção exclusiva em outro artigo.

Entre as tentativas de deslegitimar o movimento dos estudantes, a mais corriqueira é anunciar que os alunos são “manipulados” e “aparelhados” justamente por partidos de esquerda. Fizeram o mesmo com Ana Júlia tão logo seu discurso viralizou na internet. É triste assistir a ela e a outros estudantes terem de explicar de novo e de novo para jornalistas e mesmo para parlamentares que o movimento é “apartidário” – o que é diferente de “sem partido”.

É impressionante que ainda funcione essa nova versão dos comunistas comendo criancinhas enquanto o Brasil se torna o país do mais um direito a menos por dia

Não fosse parte da população tão estúpida, perceberia que os partidos identificados com a esquerda foram derrotadas nas urnas nestas últimas eleições e que o projeto conservador vem atropelando o país de forma acelerada, transformando o cotidiano em mais um direito a menos por dia. Lula teria ligado para Ana Júlia para dizer que estava “emocionado” com o movimento? Era Lula que precisava disso, não Ana Júlia e o movimento que representa. Se tivesse preocupado com a causa dos secundaristas mais do que com a sua sobrevivência política, Lula teria inclusive se abstido deste telefonema.

Assim, é impressionante que ainda funcione essa nova versão dos comunistas que comem criancinhas enquanto os direitos da população estão sendo engolidos, digeridos e defecados em Brasília pelas forças que, mais uma fez, refazem o pacto conservador para manter os privilégios intactos. A tática de inventar um inimigo e alimentar com ele o medo da população é tão antiga quanto a humanidade. Que ainda funcione pode ser explicado por aqui pela péssima educação pública, que pode piorar ainda mais, como alertam os estudantes.

O MBL parece bem mais interessado em criminalizar os estudantes que ocupam as escolas do que em denunciar os corruptos que seguem dando as cartas em Brasília

O Movimento Brasil Livre (MBL), um dos protagonistas das manifestações pró-impeachment de Dilma Rousseff, tem atuado pela desocupação das escolas no Paraná e se esforçado para criminalizar o movimento dos estudantes. Aqueles que levantaram a bandeira da “corrupção” nas ruas do país, enquanto tiravam fotos junto com o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), depois da deposição de Dilma parecem bem pouco interessados nos corruptos que seguem em Brasília dando as cartas. Mas, em contrapartida, estão muito empenhados em tirar os estudantes do caminho. Vale a pena observar com toda atenção que partidos o MBL apoia. Neste domingo, por exemplo, ajudou a eleger o novo prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Júnior (PSDB), numa eleição que teve vidros estilhaçados e até uma morte, ambos os episódios ainda mal explicados. É a primeira vez que o PSDB comandará a capital gaúcha.

Com a Lava Jato rondando José Serra e Aécio Neves, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, vai chegando cada vez mais perto de ser o candidato do partido à presidência em 2018. Saiu das eleições de 2016, onde arriscou-se e ganhou, muito mais fortalecido. Se o PSDB foi o vencedor do pleito municipal, Alckmin – ao eleger João Doria prefeito de São Paulo ainda no primeiro turno, contrariando outros setores e caciques do partido, e ampliar a presença de sua base aliada nas prefeituras de outras cidades e regiões do estado – foi o campeão. Impressionante que ainda chamem de “picolé de chuchu” um dos políticos mais complexos – e assustadores – do Brasil atual.

Alckmin, o vencedor das eleições de 2016 que quer vencer em 2018, só perdeu batalhas significativas para os estudantes

Alckmin se reelegeu governador no primeiro turno, em 2014, em plena crise hídrica, negando a crise hídrica. Antes, em 2013, os protestos nas ruas aumentaram depois que a polícia de Alckmin arrebentou manifestantes e também jornalistas. Mas, em pouco tempo, com a ajuda de parte da imprensa, os manifestantes foram convertidos em “vândalos”. E, mais uma vez, Alckmin se safou.

Nos últimos anos, a única tentativa de Alckmin que não colou foi a criminalização dos estudantes que ocuparam as escolas públicas de São Paulo no final de 2015. Sua polícia começou a arrebentar crianças e adolescentes nas ruas e as imagens eram chocantes demais mesmo para os mais crédulos. Alckmin, o assustador, viu sua popularidade cair. O governador perdeu aquela batalha, e perdeu para adolescentes.

Os estudantes da escola pública estão no meio do caminho do projeto de poder de muita gente inescrupulosa. Com seus corpos franzinos. Com sua voz trêmula. Tão sós num momento em que os adultos que poderiam estar ao seu lado têm dificuldade para compreender a gravidade do momento e assumir responsabilidades.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum

Ana Júlia e a palavra encarnada | Opinião | EL PAÍS Brasil

11/10/2016

Tudo o que é sólido desmancha no ar

OBScena: trens conduzem os judeus aos campos de concentração, qualquer semelhança não é mera coincidência

Trens da mídia conduzem as massasNão há mal que sempre dure, nem bem que não se termine. A prosperidade econômica trazidas pelas transformações sociais levaram o Brasil a quitar suas dívidas impagáveis com o FMI. E foi além, ajudando a criar o Banco dos BRICs. Tudo parecia sólido como os aeroportos lotados, as ruas engarrafas de pobres dirigindo seu próprio carro. O Brasil virara um ator internacional, respeitado mundo afora. Lula fora o primeiro e único presidente brasileiro convidado para participar do G8. Tudo parecia tão sólido. Mas aí esqueceu-se que nem todos tinham solidez intelectual, porque ainda há uma massa de brasileiros que terceirizam o uso do cérebro. E, como sabemos, o diabo é segundo inquilino das descerebrados. O primeiro sempre foi a Rede Globo. O PT, de Lula e Dilma, trouxe crescimento econômico e feijão na mesa de milhões de brasileiros, mas esqueceu-se de que, antes, precisaria ter enchido os vazios da massa encefálica. Tanto mais avanços, maior se tornou a resistência dos privilegiados de sempre.

Essa lição está sendo tatuada na pele de todos os brasileiros de todas as ideologias. Só os indiferentes à sorte alheia saem-se incólumes da destruição do tecido sócio-econômico de uma sociedade e, principalmente, da desolação diante do inevitável retrocesso. Destes se pode dizer o que Fernando Pessoa dizia sobre felicidade: “Só as crianças e os loucos são felizes. Mas eles não sabem”. Só a ignorância explica que passividade com que os cordeiros se dirigem ao abate. Faz lembrar aqueles trens cheios de judeus com destino aos campos de concentração. O estouro da boiada contra a corrupção transformou o ódio em passividade bovina diante da mão leve em plena luz do dia.

Do mote, rir para não chorar, rio por dentro toda vez que alguém próximo me diz: “Nunca pensei que as manifestações fossem dar nisso”. Sim, não foi por falta de sinais e aviso. Toda vez que a Rede Globo se posiciona a favor de algo, boa coisa não pode ser. Diagnóstico tão simples quanto certeiro. E só não notou que havia uma manada pronta para o adestramento quando até seres que se dizem bem pensantes entraram conduzidos como gado ao matadouro sem dar um berro. Quem poderia imaginar que Eduardo CUnha seria o homem mais poderoso depois do golpe, se desculpa um amigo. Parece antes encontrar uma desculpa para si do que uma justificativa para mim. E nisso mora mais um engano. O fato de CUnha não só não ter sido preso, em que pesem as toneladas de provas produzidas lá fora, contra ele e famiglia, já que no Brasil paira um cortina de fumaça sobre seu destino, explica também porque chegamos onde estamos. Atribuir a Eduardo CUnha é tomar a sombra pelo objeto. Basta entender que, não fosse CUnha, seria outro, porque se criaram as condições, que independeriam do ator, qualquer ventríloquo da Rede Globo o faria. Antes de CUnha a Globo já usara Joaquim Barbosa. E continuará usando, até porque os males deste país não são mais as saúvas, mas a produção fordiana de capachos. Neste momento a mídia já dá João Dória Jr em breve na Presidência. Todos os que saíram às ruas dizendo combater a corrupção nada mais foram que peões, como o foi Eduardo CUnha, da Rede Globo.

A aliança de alguns grupos de esquerda com Eduardo CUnha a serviço da Globo lembram os pactos de Hitler e Stálin, mas também de Hitler com Mussolini. Os resultados já estão aí, embora os aliados ainda tenham dificuldades para admitirem. Não se trata apenas do PSOL, mas, por exemplo, do Sindicato dos Servidores do Poderes Judiciários do RS, que vangloriavam da parceria com Ana Amélia Lemos, Eduardo CUnha para conseguirem um aumento de 70% nos salários. Foram parceiros das pautas bombas e de toda sorte de movimentos do golpe. E a bomba, a PEC 241, veio a cair exatamente sobre a cabeça da categoria que dizem defender. Os concurseiros do serviço público, ou pelo menos boa parcela, bem que está merecendo o congelamento de salários e o sucateamento da saúde e ensinos públicos.

Como diz o ditado, quando a cabeça não ajuda, o corpo padece. A categoria  padece as consequências do analfabetismo político de seus cabeças.

Como escreveu a historiadora Barbara Tuchman, A Marcha da Insensatez se fez ao andar. E estava aí na frente dos olhos, bastava não ser analfabeto político. Claro, houve também a combinação dos astros. O astro maior, aquele que é responsável pela existência dos buracos negros da economia internacional, já tinha dado sinais de sua fome: chamaram de primavera, o que não passava de peste negra, árabe. Como num jogo de dominó, foram caindo Iraque, Egito, Síria, Ucrânia, Síria. Na América Latina a Venezuela, bombardeada, literalmente, por todos os lados e meios, manteve-se, paupérrima e em frangalhos, de pé. Eram todos sinais de que o petróleo faz mal à saúde dos países que o tem. A sina de um país que tem uma elite predadora é ter uma malta sob controle. O único país que entrega sua riqueza, antes a Vale do Rio Doce e agora a Petrobrás, está fadado a ser um novo Porto Rico.

O ódio secular aos desfavorecidos pode ser encontrados com muita facilidade em vários segmentos sociais, todos de classe média. Aliás, quer um diagnóstico mais perfeito da doença de uma sociedade do que o combate enraivecido das agremiações médicas ao programa mais médicos. Comunidades que não tinham acesso ou muita dificuldade para ter acesso, foram olimpicamente desprezadas pelo segmento social mais privilegiado da sociedade. Os médicos formaram um dos principais pilares do golpe. Nada pode ser mais emblemático deste ódio ancestral do que o exemplo paradigmático de Ali Kamel, responsável pelo modelo de jornalismo da Rede Globo, escrevendo um calhamaço de quase mil páginas (Não Somos Racistas) para combater as políticas de inclusão social e racial?! A classe média, aquela das novelas da Globo, branca com serviçais pretas, viu na emancipação social um ataque frontal ao costume colonial da senzala ao pé da cozinha.

A emancipação social de uma extensa massa de excluídos desencadeou manifestações que fazem estátuas corarem: Danusa Leão, socialite das aspirantes a dondocas, se insurgiu com a socialização dos aeroportos. Afinal, qual a vantagem de se poder ir a Nova Iorque se até o filho do porteiro pode ir? Ou como aquele funcionário exemplar da RBS, Luis Carlos Prates, babando ódio com o fato de “agora todo mundo pode ter carro”. O ódio nazi-fascista veio sendo paulatina e metodicamente construídos pela velha mídia. Citei apenas três exemplo, mas o ódio contra o PT passou a ser condição para ganhar emprego nos decrépitos veículos da velha mídia. Comprar ternos, ou quinquilharias chinesas, em Miami é um sintoma de apartheid social que se expôs sem pudor nem constrangimento.

O golpe paraguaio, ao contrário do que disse o Ministro,  não foi um tropeço da democracia. Bastaria ter atentado para as cascas de banana que foram deliberadamente jogadas no caminho da Dilma. Disso até o maior beneficiário do golpe, Michel Temer, admite, como o fez na ONU.

O verniz institucional é a nova modalidade de golpe na América Latina. É ele que explica os tropeços nas democracias. Ele foi ensaiado em Honduras e no Paraguai. Tentou-se na Argentina, com a morte do agente da CIA, Alberto Nisman. Mas a demão de verniz, porque made in Paraguai, não sobrevive à menor brisa. Ao contrário, abaixo da primeira camada aparecem as digitais de notórios golpistas, não por acaso, são os mesmos que estão diuturnamente nas velhas mídias.

Não se irá muito adiante se as pessoas não compreenderam o que foram as quebradeiras de 2008, capitaneadas pelo Goldman Sachs e Leman Brothers. Não por acaso, nos EUA. Mas aí seria pedir de mais, que as pessoas tenham alguma prevenção em relação à sede sagrada do mundo golpista.

Os escritores Gersualdo Bufalino e Leonardo Sciascia diziam que os sicilianos, para não trabalharem, escreviam. A mídia brasileira para não administrarem, golpeia. Sem o papel doutrinador da mídia não teria havido golpe. Tanto que bastou o golpe se consumar para que a fatura fosse imediatamente paga: 900% de aumento da publicidade oficial não é nem nunca será mera coincidência. Não é por acaso também que os governos mais corruptos sejam também os mais amados pela mídia: Globo & FHC; Antonio Britto e Yeda Crusius & RBS. A aliança de FHC com a Rede Globo começou com uma estratégia brilhante: Miriam Dutra. Ali FHC foi capturado. O método se aperfeiçoou encobrindo a compra da reeleição, cuja técnica vazou pelas bocas de Rubens Ricúpero e Carlos Monforte no Escândalo da Parabólica. No RS, basta dizer que Antonio Britto deu de bandeja a CRT para a RBS. O grupo Correio do Povo, sem sucesso, esperneou, denunciou, protestou. A CRT seria, e foi, da RBS. Ninguém detém o controle de quase 80% do mercado midiático impunemente. Quem detém esta capilaridade pode fazer de qualquer funcionário, por mais medíocre que seja, senador.

No Caminho com Maiakóvski

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada
.”

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