Ficha Corrida

21/02/2016

Copas de 2002 e 2006 explicam o ódio da Rede Globo ao Lula

Corrupção no futebol & Rede Globo, tudo a ver! O que prova que os verdadeiros bandidos estão fora dos presídios de segurança máxima, distribuem estatuetas e aparecem na FORBES

Política, propina e futebol: entrevista de Jamil Chade a Luis Nassif

Política, propina e futebol: entrevista de Jamil Chade a Luis Nassif

sab, 20/02/2016 – 18:58

Jornal GGN – O jornalista Jamil Chade, correspondente internacional do Estadão, está lançando um livro chamado Política, propina e futebol – Como o “padrão FIFA” ameaça o esporte mais popular do planeta.

Na obra, o jornalista desvenda como funcionava o pagamento de propinas e subornos da entidade e explica como os cartolas usavam contratos comerciais e de direito de transmissão para enriquecer.

Jamil Chade esteve em São Paulo para um evento de lançamento do trabalho e concedeu entrevista exclusiva a Luis Nassif sobre o assunto.

Abaixo, os vídeos da entrevista e a transcrição completa:

Luis Nassif – Jamil, fala um pouco da sua carreira como correspondente internacional. Como você chegou a Genebra?

Jamil Chade – Eu cheguei em Genebra no ano de 2000. E o principal foco era a cobertura ainda de OMC [Organização Mundial do Comércio], em termos econômicos. Principalmente porque a OMC naquele momento era vista como uma entidade que poderia ser a organização que corrigiria as regras do comércio.

O que poderia trazer uma política externa desenvolvimentista para o Brasil, abrindo portas etc. Esse foi o inicio, mas claro, uma vez lá, o que acontece que se descobre rapidamente, tem uma infinidade de assuntos. Genebra é uma cidade muito pequenininha.

Luis Nassif – Tem correspondente do mundo inteiro lá…

Jamil Chade – Tem mais de 150 correspondentes, do mundo inteiro, eu já cheguei a ser presidente da Associação dos Correspondentes Estrangeiros lá. E é muito curioso porque você vê do chinês, da estatal chinesa, à extrema direita americana. E todos ali. Porque tem a ONU, as entidades internacionais, mas também tem os bancos, e aí todas as entidades esportivas, né?

Luis Nassif – Quando começa essa questão da guerra contra o narcotráfico e contra o terrorismo, de que maneira que isso se refletiu na cobertura lá inicial?

Jamil Chade – É curioso, só um causo… Logo que aconteceu o ataque nas torres gêmeas, no dia seguinte, a cidade descobriu que o irmão do Bin Laden morava em Genebra. Não só que ele morava em Genebra como era financiador do festival de cinema de Genebra, das atividades culturais de Genebra etc. E aí foi aquele primeiro constrangimento, que na verdade aquela família que era tão odiada pelo mundo, era a mesma…

Luis Nassif – Eles não tinham ligações com a família Bush?

Jamil Chade – É difícil ter uma constatação final, mas dizer que eles eram desconhecidos não era o caso, e dizer que a família era desconhecida das autoridades européias também não era o caso. Se o próprio irmão fazia tanta filantropia artística na Europa.

Eu digo isso pelo seguinte. A cobertura mudou radicalmente, primeiro dos jornais europeus, da imprensa européia, descobrindo que o problema não era americano, não era no Oriente Médio. O problema existia, e é um problema, vamos dizer assim, global.

Agora, também tem uma outra leva que foi a mais recente que é a da guerra da Síria, que mudou de novo a cobertura do terrorismo, porque o terrorismo, a guerra na Síria passou a acontecer também na Europa. Primeiro, pelos refugiados, que é um impacto direto da guerra ainda no continente europeu. E depois com ataques terroristas.

E aí eu sempre me pergunto: sim, é um desafio, sim é uma questão real para os europeus, agora, o que tem de partido de extrema direita se aproveitando dessa situação é muito grande. Isso é visto na Dinamarca, na Suécia, mas também na França, na Suíça.

Então, a cobertura ela é sobre o terrorismo, ela é sobre o crime internacional. Mas ela também se transformou de alguma forma na cobertura diferente da política doméstica.

Luis Nassif – Quer dizer que essa questão da intolerância global surge a partir do fantasma do terrorismo…

Jamil Chade – É, muita gente usou isso como instrumento. Na Suíça, onde o problema não existe, ele não existe! Ele aparece, se você faz uma sondagem, uma enquete de opinião, ele aparece como terceira ou segunda preocupação.

E você diz: mas ele não existe esse problema aqui! Então, por quê? Partidos, de uma forma muito hábil, muito manipuladora, usaram essa ameaça terrorista, essa ameaça, pra aprofundar hoje a intolerância.

Hoje eu digo que, na Europa, a pessoa que tinha algum traço racista, ou de intolerância, ele perdeu a vergonha de ser intolerante. E hoje a gente vê uma reação muito mais, eu não diria saudável, porque isso não é saudável, mas você sabe quem é quem. Porque a pessoa não tem mais o medo de dizer eu “não quero essas pessoas no meu país”.

Luis Nassif – Jamil, um fenômeno que ocorre também em decorrência desse crescente terrorismo é a chamada cooperação internacional. Como que é feita essa articulação, e porque esse protagonismo dos Estados Unidos hoje em dia? Por conta de ter mais equipamento…?

Jamil Chade – Essa cooperação ela foi exigida pela ameaça. Porque a ameaça não está em um país, ela não é num estado, ela não é um grupo coeso em um território fechado. Então, essa cooperação ela se tornou necessária.

Dou só o exemplo dos ataques em Paris. Os belgas, vamos chamar eles de belgas porque eles são belgas os terroristas, eles nasceram na Bélgica. Os pais eram argelinos etc, mas os garotos eram belgas, pelo menos alguns deles. Quando eles fogem da França para a Bélgica, eles são parados na fronteira naquela noite. Na lista, belga, de procurados, eles estavam, mas eles não estavam na lista francesa de procurados. Então, quando eles são parados, eles são parados pelos franceses, e na lista não tem nenhum nome daqueles. Eles passam. Então, isso tudo demonstrou que sem cooperação nunca essa ameaça vai ser lidada.

Agora os americanos, que é uma questão real. Eu acho que acima de tudo pela capacidade de articulação que eles tem entre o serviço de inteligência e o grupo militar de fato. Porque a Europa falha ainda, a Europa não tem essa capacidade de transmitir informação e inteligência ainda de uma forma eficiente em termos de terrorismo para o combate ao terrorismo.

E muito do que acontece na Europa em termos de atuação é baseado em informações que chegam dos Estados Unidos.

Então, outro dia, não faz tanto tempo, em Genebra, policia anunciou que haveria uma ameaça terrorista na ONU, blindada, basicamente, polícia na rua etc. E aí, foi descoberto que quem passou a informação para as autoridades suíças foram os americanos.

Luis Nassif – Agora, você tem o fenômeno do terrorismo e tem o fenômeno da corrupção internacional, narcotráfico, que cresce com a internacionalização dos mercados. Nesse sentido, já se tem o precedente da Operação Mãos Limpas, como é que você vê a parte de Genebra essa cooperação internacional.

Jamil Chade – Essa cooperação, por exemplo, no caso do crime organizado, do narcotráfico, ficou muito claro que precisa ser feita de uma forma coordenada. É muito fácil, na Suíça é muito claro, o dinheiro da lavagem. O dinheiro da lavagem na Suíça é uma constante, não é algo pontual que eles tentam mostrar que “não, isso foi só um caso isolado, naquele banco, naquela agência”, não, é algo generalizado.

Os suíços entenderam que se eles quiserem de alguma forma preservar o sistema financeiro suíço, eles vão ter que colaborar, porque senão, nos Estados Unidos, os grandes bancos suíços já são, de uma forma muito clara, multados.

Então, os suíços tomaram uma nova postura. Eu não digo que é uma nova postura: abertura, agora nossas contas vão ser transparentes…não, não é isso. Mas, é um inicio de uma cooperação nesse sentido. De alguma forma, o combate ao terrorismo, a cooperação no terrorismo acabou ajudando países a dialogar para lidar com outros crimes.

O problema é que o crime organizado, ele é organizado. Ele consegue identificar lacunas e sair de situações. No caso da Suíça é muito claro. Muito dinheiro saiu da Suíça desde que a operação começou e foi para outros paraísos fiscais. Então, quando os suíços chegaram em alguns dos casos a conta estava vazia já. Então, é um desafio pra eles mesmos, eles mesmos colocam, o Ministério Público suíço coloca de uma forma muito clara que eles estão correndo atrás do prejuízo.

Luis Nassif – Agora, chegando no tema do seu livro que é o futebol. Essa estrutura de crime organizado começa a surgir quando?

Jamil Chade – Olha, essa estrutura de crime organizado ela tem origem ainda nos anos 70/80 com o próprio João Havelange. Ele é o craque, literalmente é o craque do esquema tático. O que ele teve… muita gente coloca ele como a pessoa que levou o futebol ao mundo e que ele globalizou o futebol etc. Eu tento mostrar que esse não é o caso, por quê? Porque qualquer grande administrador no lugar dele teria feito exatamente a mesma coisa.

As televisões estavam em plena expansão, transmissões ao vivo, as multinacionais procurando plataformas que elas pudessem num só evento transmitir aquela marca delas para o mundo inteiro. Então, e ao mesmo tempo nos anos 70 tem a descolonização da África e da Ásia, ou seja, novos membros. Então, o que o Havelange fez foi o óbvio, ele não fez… Não é que ele transformou o futebol num novo fenômeno.

Luis Nassif – Eu lembro como jornalista econômico dos anos 70 já vendo esse fenômeno, o potencial desse fenômeno…

Jamil Chade – Exato, e aí se a gente pega as contas da FIFA, você se dá conta que na verdade ele não fez nem mesmo o suficiente. O que eu quero dizer com isso? A FIFA, durante os anos 80/90 e até meados de 2005/06, era uma organização que não gerava a mesma renda da NBA, do futebol americano, da Fórmula 1, dos Jogos Olímpicos…

Não é possível que o esporte mais popular do mundo, com toda essa expansão, não gere a mesma renda dos outros esportes. É simples, porque o esquema que era montado não era pra gerar renda para o futebol. Era gerado pra montar uma renda para os dirigentes.

Luis Nassif – Então, mas vamos pegar um ponto aí relevante que é o seguinte: quando se pega as disputas midiáticas em todos os países, o evento esportivo é o ponto especial de audiência. Com a legislação desses países se tinha um mercado fechado, não tinha internet nem cabo chegando aí. Então se tinha uma influência muito grande em cada um desses países dos grupos de mídia hegemônicos. Isso aí ajudou a criar essa blindagem política, né?

Jamil Chade – Totalmente, inclusive porque isso, de alguma forma, controlou até o monopólio de quem é que tinha o direito de transmissão. É disso que vem a renda do futebol. É uma ilusão que a gente achar que é ingresso, venda de camisa, ou até o marketing da Coca-Cola e das multinacionais. É a televisão que transmitiu tudo isso.

Só pra te dar um exemplo da capacidade da televisão de influenciar o jogo. A gente fala muito: “ah não, a televisão influencia o horário da partida”, é verdade, mas é muito mais do que isso. A bola, ela começou a ser branca e preta, com aquelas gomas, justamente para favorecer a televisão, por causa da visibilidade.

Outra regra do futebol que a gente considera como óbvia que veio da televisão: cartão amarelo e vermelho. Quando a televisão foi a cores, precisava ter uma distinção pra televisão registrar. Enfim, são coisas elementares…

Mas para eu explicar que na verdade a historia da televisão está ligada com a história da expansão do futebol. Agora, se a gente pega e eu tento mostrar no livro isso com documentos. No caso da ISL, a empresa de marketing da FIFA que quebrou em 2002. Quando o processo termina, e os documentos são revelados no ano de 2012. O procurador na Suíça diz que Havelange fraudou a FIFA nos contratos. O que significa isso? Ele simplesmente evitou que a FIFA tivesse uma renda maior fechando acordos com monopólios. E claro, esses monopólios pagavam propina a ele, para garantir que não fosse aberta a concorrência.

Luis Nassif – Mas só pra entender um pouquinho a entrada dos Estados Unidos nisso aí… Coincide com o momento em que os grandes grupos midiáticos norte-americanos tentam entrar nesse mercado: ESPN. Tentam entrar nesses mercados e batem nessa estrutura viciada aí… Então, teve um estímulo econômico aí para…

Jamil Chade – Certamente, certamente. A explicação para essa derrubada, para esse chacoalho aí que aconteceu, foi justamente romper um vício. Uma estrutura viciada, absolutamente correto, em mostrar a impossibilidade de entrar no mercado que era costurado, que coloca os americanos e outros também numa situação de dizer: bom, precisamos começar a questionar esse sistema. Como? Pelas regras do jogo não vai funcionar porque ali estava fechado.

Existe também a justiça, existe também a polícia. E aí o que eles mostram, isso é importante, não é uma investigação apenas sobre os dirigentes esportivos. Nos Estados Unidos isso também se transformou numa investigação sobre os cúmplices, sobre as empresas que faziam parte desse esquema.

Então, porque o mergulho da investigação nas empresas de marketing e de transmissão? É porque ali que era onde engarrafava, onde ninguém mais entra.

Luis Nassif – Deixa eu entender só uma coisa, a cooperação internacional ter permitido aqui, no caso do Brasil e da Lava Jato, acesso a um volume de informações muito relevantes. Como que o Ministério Público Federal, no caso do Brasil, está se aproveitando dessas informações ligadas aí à FIFA?

Jamil Chade – Por enquanto muito pouco. Nós estamos aí já no final… Quer dizer, quase um ano depois da prisão em maio de 2015. Mas, existe a cooperação da Suíça com os Estados Unidos, do Uruguai com os Estados Unidos, do Chile com os Estados Unidos. E no Brasil o Ministério Público teve uma primeira, digamos assim, com o departamento de justiça americano. Foi pedida a transferência dos documentos pra que isso pudesse acontecer. E aí uma juíza no Rio de Janeiro determinou o bloqueio de toda a cooperação entre Brasil e Estados Unidos no caso do escândalo do futebol.

Luis Nassif – Uma juíza de primeira instância?

Jamil Chade – Primeira instância. O Ministério Público agora levou isso a uma segunda instância, eu acho que provavelmente no Supremo, e agora está aguardando uma decisão pra desbloquear a decisão da juíza que havia determinado que não há espaço, que a transmissão dos documentos não seria legal, o que é bastante incrível.

Luis Nassif – Qual que é a alegação dela?

Jamil Chade – A alegação dela é que as outras partes não tiveram a oportunidade de se defender.

Luis Nassif – Mas em fase de coleta de dados?

Jamil Chade – Coleta de dados. Inclusive, ela pede que os dados que o Brasil tenha já mandado para os Estados Unidos que sejam devolvidos. Isso está na decisão de primeira instância.

O Ministério Público Federal protestou, de uma forma bastante enérgica, eu até tenho alguns documentos. E não houve forma de solucionar, então, foi levado a uma nova instância.

Mas, o que acontece no final das contas? Hoje, o Brasil é um dos únicos países que não colabora nesse caso. O que é de uma ironia total, porque o pai, o craque que montou era brasileiro, e uma parte fundamental dessa investigação é a atuação dos dirigentes brasileiros.

Então, os americanos mesmo, o departamento de justiça, já deixou muito claro ao Brasil que estava bastante incomodado com essa falta de cooperação. A outra questão que a gente pode colocar é: por que foi necessário o departamento de justiça americano atuar para a gente ter qualquer tipo de reação aqui? Então, hoje ainda é complicado, Nassif. Hoje, ainda não existe o fluxo de informação do Brasil aos Estados Unidos sobre esse caso.

Luis Nassif – O Ministério Justiça, de certa maneira, teria que ter protagonismo nisso…

Jamil Chade – Agora, se o Ministério Público não pode nem fazer sua parte porque tem uma juíza que bloqueia. Parece uma… Aquelas situações que você acha que: não, isso não vai acontecer! Mas acontece, né?  Agora, na Suíça, que também eles vivem esse dilema, porque a FIFA estava no nariz deles por quarenta anos. E aí isso causou um constrangimento muito grande no país que foi necessário uma operação ordenada pelo FBI para que os suíços prenderem os autores de uma entidade que estava aí, na avenida.

Luis Nassif – Jamil, quando a gente pega essa disputa dos grupos de mídia com os novos grupos, qual o reflexo dessa operação no caso da Europa e daqueles países em que o futebol era peça central de audiência desses grupos?

Jamil Chade – Curiosamente, nos bastidores, o que está acontecendo é uma grande corrida pra tentar renegociar os contratos. Então, os novos grupos estão fazendo um tsunami negociador, tentando se encontrar com cada federação, das pequenas até as grandes, França, Alemanha. Mas, também, eu conheço gente que percorre a Europa conversando com Letônia, Armênia, Albânia, etc.

E você fala: “não, mas não é possível”. Não! Tem uma lógica, se você fechar acordos com todos os periféricos, com quem é que a França e a Alemanha vão jogar na Europa? Então é curioso, porque aquilo ali abriu a porteira pra todos esses novos grupos tentarem renegociar, ou obter acordos e dizer: “olha, vocês não vão poder mais transmitir, ou ter um acordo com tal empresa, vai pegar mal, nós estamos oferecendo isso aqui…”.

Luis Nassif – Que é o que está acontecendo com a ESPN e com a Disney aqui? Fechando com clubes especificamente…

Jamil Chade – Exatamente, porque inclusive, é importante… Porque o que acontece nos Estados Unidos, ele desmontou um sistema. E o novo sistema ainda não foi montado.

Luis Nassif – Só que agora nesse jogo novo aí estão vindo os gigantes de lá também…

Jamil Chade – Claro, claro. Para o Brasil, mas também para a Argentina, para a Colômbia. É interessante, porque se você pega o mapa da América do Sul, praticamente todas as federações nacionais foram abaladas. Então, você tem, rapidamente, Venezuela, Colômbia, Peru, Equador, Bolívia, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai, eu acho que só sobrou Suriname… É um novo mercado.

Luis Nassif – E os patrocinadores, no caso Adidas, Coca-cola, e tudo… Eles garantiram esse tipo de monopólio?

Jamil Chade – Eles garantiram por muito tempo, inclusive no indiciamento americano eles são citados, não nominalmente, mas dizem: “uma grande empresa de produtos esportivos que assinou com a CBF nos anos 90”. Eu só conheço uma, é a Nike, obviamente.

O indício que o departamento de justiça tem é que a Nike pagou uma propina que foi dividida entre o Ávila e o Ricardo Teixeira. Então, os americanos de alguma forma estão olhando para as suas próprias empresas também, com uma ressalva, eu diria. Essas empresas, assim que esse caso começou, elas, que eram absolutamente silenciosas, sobre a história agora elas colocam cartas abertas pedindo a reforma da FIFA, dizendo que isso é absolutamente inaceitável.

Luis Nassif – O Ronaldo aqui…

Jamil Chade – Que o Blatter tem de sair! Vocês estavam aqui nos últimos quarenta anos gente. Vocês não viram, ou não sabiam? Qual era a história, né? Então, é de uma hipocrisia grande você ver essas empresas que faziam parte do esquema, agora pedir a transparência.

Te dou só um exemplo de uma conversa que teve o Blatter com o Havelange ainda na época. O Blatter foi contratado na FIFA ainda nos anos 70, e ele tem o mérito, se é que se tem algum mérito, de organizar esse sistema pro Havelange, de ter o contato com essas multinacionais. E ele foi o primeiro que chegou pra Adidas e falou: “olha, vamos fechar um acordo”. Quando esses acordos começam a surgir, o Havelange diz pra ele: “você está criando um monstro”. Esse monstro, de certa forma, engoliu eles, e esse monstro transformou esses interesses comerciais, ou estabelecidos ou os que vem, no grande jogo, né?

Esse é o grande jogo. É o grande jogo de saber, sim, a evasão fiscal dos americanos, etc, é grave, é gravíssima. Mas se você ler todas as decisões sobre as prisões dos dirigentes, em todas elas tem um parágrafo fundamental: essa prática impediu a livre concorrência. O que quer dizer isso na prática? Novas empresas que estejam aparecendo elas não vão ter acesso nesse esquema. Esse esquema precisa ser desmontado.

Luis Nassif – A questão do tráfico de jogadores. Esses valores monumentais dos jogadores  se explica pelo retorno ou tem esquemas de esquentamento aí…Daí entra máfia russa aí no meio…

Jamil Chade – Isso. A OCDE publicou já alguns anos, em 2009, uma investigação que eu acho que ela é fundamental pra gente entender. Ela apresenta o futebol como um dos veículos privilegiados da lavagem de dinheiro no mundo.

Luis Nassif – Superou obras de arte…

Jamil Chade – Tudo! Porque de alguma forma, essas entidades que controlavam o futebol, elas estavam fora da lei. Por que fora da lei? Na Suíça existia uma regra, uma lei, que permitia a FIFA manter certas contas fora da balança de pagamento. Ela não precisava publicar. A COMEBOL tinha imunidade diplomática!

Pensa, uma federação esportiva com imunidade diplomática. O que é uma contradição total. O que representa isso na prática? Isso dá espaço pra uma atuação criminosa com um controle muito menor, né? Se obras de arte já tinham começado a ser usadas, logo a Interpol, polícia percebeu… diamantes, etc.

O futebol não, o futebol ficou, de certa forma, de lado. E o que vários processos na justiça européia já mostraram, ou eles não são reais, ou eles eram esquemas pra lavar dinheiro de grupos inteiros.

Então, hoje nós falamos no Neymar, do caso Neymar. Mas, o caso Neymar não é O caso, o único caso.

O Barcelona está sendo processado por vários casos. Eu vou além, na França, entre 2009 e 2011, vários dirigentes foram processados por lavagem de dinheiro, inclusive na compra do Ronaldinho Gaúcho para o Paris Saint Germain, e foram condenados! Os jogadores não. Foram condenados os dirigentes que montaram esses sistemas.

Então, sim existe! E para completar isso que se falou da máfia russa, não sei nem se é russa, do leste europeu eu diria…

Luis Nassif – A máfia de um russo.

Jamil Chade – De um russo! [Risos]. Eu fui numa cobertura na Ucrânia, cobrir basicamente a crise política, a Rússia, a guerra no leste da Ucrânia. E eu estava em Kiev, e alguém me disse: “olha, naquele hotel, é onde o Shaktar Donesse tem a sua sede”, que eles não podem mais estar em Donesse, Donesse está destruída, eles agora moram nesse hotel.

Espetacular! Eu vou até ali. Eu entro no hotel, e tem um jogador sentado no hall do hotel, numa mesa, essas mesinhas de hotel, a mesa inteira repleta de dinheiro. E uma outra pessoa na frente dele, pagando! Aquilo era o salário, em dinheiro! Se pode dizer: “não, claro, é um país em guerra, é necessário liquidez, etc.” Muito bem, agora, eu nunca vi o jogador sendo pago em dinheiro na mesa do hotel, na frente de todo mundo, quer dizer, é escancarado.

Luis Nassif – Só pra entender a lavagem, que dinheiro que é esse que é lavado? É dinheiro do narcotráfico?

Jamil Chade – Existe o dinheiro do narcotráfico, mas em muitos casos, isso é apresentado pela OCDE, é dinheiro de evasão.

Luis Nassif – Evasão fiscal mesmo?

Jamil Chade – Evasão que não consegue ser reintegrado no sistema de uma forma legítima.

Luis Nassif – É por isso que esse acordo de repatriação de ativos aí pode ter bom resultado, porque é muito dinheiro de evasão…

Jamil Chade – É muito dinheiro! A FIFA, olha só, a FIFA que é a própria organizadora, entre aspas, de toda essa estrutura corrupta. Ela chegou a uma conclusão ano passado que, das transferências anuais que são realizadas no futebol, US$ 1 bilhão desaparece. Desaparece das contas. US$ 1 bilhão. Mais ou menos o mercado de jogadores movimenta US$ 4 bilhões por ano. 25 % não existe.

Luis Nassif – Só pra entender, o cara tem dinheiro pra ser lavado, joga no futebol, o dinheiro vai para o clube e como é que o clube devolve para ele esse dinheiro?

Jamil Chade – No caso, por exemplo, do francês, ele mostrava o seguinte: uma segunda empresa era criada, normalmente, uma empresa de fachada, que prestava serviços fictícios para o jogador, pro agente ou para o clube. Então, um exemplo que aconteceu antes do caso do Neymar, uma empresa criada na Holanda, prestava serviços pra clubes franceses, para revender a imagem daquele jogadores que ela tinha comprado.

Luis Nassif – Por que os grupos de mídia tinham interesse em ter empresas offshore aí. Porque eles têm o patrocínio que recebem, tinham que pagar propina, mas voltava alguma coisa pra eles na forma de caixa dois?

Jamil Chade – Pode ter voltado, mas a principal criação dessas offshores era pra depois pagar as propinas que não poderiam estar aparecendo para aquele sistema funcionar. Porque o clube só aceitava fazer esse sistema se o dirigente ganhasse alguma coisa. Então, tinha esse esquema. Agora, existe também, no caso, se não me engano pela Canal Plus, na França. De uma empresa que foi criada pelo Canal Plus numa offshore, que recebia também uma parte não declarada da renda das transmissões. Então, ela servia duplamente.

Luis Nassif – Aí, especificamente para fraudar o fisco?

Jamil Chade – Totalmente pra fraudar o fisco. Seja no retorno dessa transmissão, mas também na compra desses direitos.

Olha só, um conhecido nosso, foi o diretor dessa offshore da Canal Plus nos anos 90. Gerrand Vauque, o que depois foi secretario geral da FIFA, deu um chute no traseiro nosso, aquela coisa toda, ele já foi diretor de uma offshore de uma emissora.

Luis Nassif – Agora, pra entender a árvore, se tinha aquela holding, ISL, ela se desmembrava em outras offshore?

Jamil Chade – Tinha! Isso até hoje não ficou muito claro quantas são.

O fato é que ela quebra. A ISL quebra. Eu sempre digo, a ISL quebrar é o equivalente da única fábrica de água no deserto quebrar. Como é que você quebra? Obviamente não foi o caso, foi o desmonte do banco paralelo da FIFA.

O que era a ISL? Era a empresa de marketing que detinha os direitos e revendia depois. E ela usava…com que mais? Não tinha como quebrar, o problema é que ela era usada como caixa dois da FIFA, para todas as atividades que não poderiam ser apresentadas.

Então, a movimentação de dinheiro dela não se referia à venda e compra de direitos, ela se referia aos pagamentos de propina. Ela era um instrumento, era o banco, o shadow banking do caso da FIFA que era usado pra isso. Quando ela quebra aí se descobre todas as ramificações. A Suíça tem um paraíso fiscal dentro de um paraíso fiscal que é a cidade de Zug. A ISL era registrada em Zug.

Luis Nassif – Jamil, no seu livro você coloca que a Globo é mencionada lá e tem um conjunto de campeonatos aí, inclusive Copa das Nações, isso aí teve resultado de algum problema pra ela lá fora?

Jamil Chade – Olha, por enquanto não tem porque a investigação por enquanto não se refere a ela.

A ISL, no caso da ISL, que é onde eu cito claramente, ela diz que a suspeita, isso é o processo, não sou eu dizendo, que a suspeita é de que quem pagou o suborno, isso no caso do Havelange e Teixeira ainda, foi uma emissora brasileira que tinha os direitos pra copa de 2002 e 2006, e o nome não é mencionado porque não é contra ela.

Agora, eu só conheço uma empresa que transmitiu 2002 e 2006.

Luis Nassif – Tem rabo de gato, orelha de gato, foucinho de gato, e mia.

Jamil Chade – Exato, deve ser um cachorro né? Só pode ser um cachorro.

Enfim, mas, a situação hoje é que aquele caso da ISL foi encerrado naquele momento. Como é que ele foi encerrado? Havelange e Ricardo Teixeira pagaram uma multa e aquele caso foi selado.

Hoje, o FBI pediu todos esses documentos, isso aconteceu em dezembro agora, eles levaram da Suíça 50 caixas de documento sobre a ISL, sobre esse caso especifico. O acordo na Suíça dizia que o caso estava encerrado na Suíça. Agora os americanos levaram já esse documento, o que eles vão fazer dele, eu não sei.

Agora, a conclusão do Ministério Público na Suíça na época, apontava que a suspeita de suborno, uma das suspeitas, era dessa emissora brasileira. Isso certamente foi repassado aos americanos.

Política, propina e futebol: entrevista de Jamil Chade a Luis Nassif | GGN

15/01/2015

Direito de direita

Há um velho adágio que ainda tem passagem no Poder Judiciário, em todos os níveis, quem do tempo dos tempos bíblicos e teve maior voga com os romanos: “dar a César o que é de César, a Deus o que é divino”, “dar a cada um o que é seu”. Aos reis, o poder real; aos plebeus, a rua; ao rico, a riqueza, aos pobre, a pobreza.

A Globo e seus funcionários, como o Fluminense, jogam em casa na justiça do Rio. Da mesma forma em São Paulo, os grupos mafiomidiáticos jogam como o guri dono da bola.

Os mesmos que abraçaram a causa do Charlie Hebdo, da liberdade de expressão, hiPÓcritas, não só professam mas judicializam a censura.

Só idiotas não percebem a influência dos assoCIAdos do Instituto Millenium para cima das instituições que deveriam ser republicanas.

Lembro de quando Luis Fernando Veríssimo foi suspenso na Zero Hora, da famiglia Sirotsky, por ter chamado Collor de “ponto de interrogação bem penteado”.

Estes são nossos paladinos da liberdade de expre$$ão.

Kamel e Nassif: quem se dá bem ?

Paulo Nogueira compara decisões na Justiça

Falta de objetividade e de coerência nas decisões da Justiça

De Paulo Nogueira, no DCM: Kamel versus Nassif: a diferença de tratamento que a Justiça dá a casos semelhantes
Da Justiça se espera ao menos uma coisa: que seja coerente nas decisões.
É a única forma que os cidadãos têm de medir eventuais consequências jurídicas de suas ações.
Estou falando isso a propósito da decisão da Justiça do Rio de condenar Luís Nassif a pagar 50 mil reais de indenização para Ali Kamel, diretor de jornalismo da TV Globo.
A juíza Larissa Pinheiro Schueler baseou sua decisão no fato de Nassif haver afirmado que Ali Kamel é “manipulador” e faz “jornalismo de hipóteses”. Isso, segundo ela, extrapolaria o “direito à informação”.
Aplique esta mesma lógica não apenas para Nassif, mas para a mídia em geral. Não faz muito tempo, no âmbito da mesma Globo de Kamel, os nordestinos foram chamados de “bovinos” por Diogo Mainardi.
Se “manipulador” custa 50 mil reais, qual seria a indenização para “bovinos”? Ou, já que falamos de Mainardi, de “anta”, como ele tratava rotineiramente Lula em seus dias de colunista da Veja?
A Justiça deveria, em tese, ser igual para todos, mas é mais igual para alguns do que para outros.
Há uma decisão jurídica recente que demonstra isso com brutal precisão.
O jornalista Augusto Nunes, o Brad Pitt de Taquaritinga, foi processado por Collor. Quer dizer: Collor fez o que Kamel fez.
Com uma diferença: perto do que Nunes disse dele, Nassif arremessou flores na direção de Kamel.
Começa no título: “O farsante escorraçado da Presidência acha que o bandido vai prender o xerife”.
Um trecho: “… o agora senador Fernando Collor, destaque do PTB na bancada do cangaço, quer confiscar a lógica, expropriar os fatos, transformar a CPMI do Cachoeira em órgão de repressão à imprensa independente e, no fim do filme, tornar-se também o primeiro bandido a prender o xerife.”
O site Consultor Jurídico noticiou o caso assim:
“Na sentença, a juíza Andrea Ferraz Musa, da 2ª Vara Cível do Foro de Pinheiros, disse que, em um estado democrático, o jornalista tem o direito de exercer a crítica, ainda que de forma contundente.
(…) “Embora carregada e passional, não entendo que houve excesso nas expressões usadas pelo jornalista réu, considerando o contexto da matéria crítica jornalística. Assim, embora contenha certa carga demeritória, não transborda os limites constitucionais do direito de informação e crítica”, disse a juíza.
(…) No pedido de indenização, Collor alegou que foi absolvido de todas as acusações de corrupção pelo Supremo Tribunal Federal e que há anos vem sendo perseguido pela Abril.
A juíza, entretanto, considerou irrelevante a decisão do STF. “As ações políticas do homem público estão sempre passíveis de análise por parte da população e da imprensa. O julgamento do STF não proíbe a imprensa ou a população de ter sua opinião pessoal sobre assunto de relevância histórica nacional”, justificou.”
Um momento. Ou melhor: dois momentos. “Irrelevante” a decisão do STF? Então você é absolvido de acusações na mais alta corte do país e mesmo assim isso não vale nada? Podem continuar a chamar você de bandido sem nenhuma consequência?
A juíza aplicou uma espetacular bofetada moral no STF em sua sentença. Como para Augusto Nunes, também para ela não houve nenhuma consequência.
Se um juiz trata assim uma decisão da Suprema Corte, qual o grau de respeito que os cidadãos comuns devem ter pela Justiça?
O segundo momento é por conta da expressão “certa carga demeritória”. Raras vezes vi uma expressão tão ridícula para insultos e assassinato de imagem.
Regular a mídia é, também, estabelecer parâmetros objetivos para críticas e acusações feitas por jornalistas.
Não é possível que “manipulador” custe 50 mil reais e “bandido”, “chefe de bando”, “farsante”  e “destaque da bancada do cangaço” zero.
Quando você tem sentenças tão opostas, é porque reinam o caos e a subjetividade.
A única coisa que une o desfecho dos dois casos é que jornalistas de grandes empresas de mídia se deram muito bem.
Isso é bom para eles e as empresas nas quais trabalham.
Para a sociedade, é uma lástima.

Kamel e Nassif: quem se dá bem ? | Conversa Afiada

03/07/2014

Após 20 anos cabeças de bagre continuam dando sopa

Filed under: Itamar Franco,Luis Nassif,Plano Real — Gilmar Crestani @ 9:37 am
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Onde estão os que, no Governo Itamar Franco, implantaram o Plano Real? Estão todos milionários. Eles, seus familiares e seus financiadores ideológicos. Alguns, como Pedro Parente e Pérsio Arida, aportaram na RBS. Foram acolhidos após os financiamentos subsidiados do BNDES para sanar o Grupo RBS. Os mesmos que se indignaram com o financiamento do BNDES na construção dos Estádios da Copa não dizem uma palavra sobre o financiamento do BNDES aos Grupos MafioMidiáticos.

20 anos do "Plano Real" e 7 anos de "Os Cabeças-de-Planilha"

qua, 02/07/2014 – 21:17

Do Blog de Fábio de Oliveira Ribeiro

A imprensa comemora as duas décadas do Plano Real. Pessoalmente, prefiro comemorar os 7 anos do livro de Luis Nassif que desvendou os mecanismos utilizados pelos gestores do Plano Real para enriquecer com a troca de moeda exatamente como Rui Barbosa e seus acessores fizeram durante o Encilhamento. Em homenagem aos 20 anos do Plano Real, portanto, republico aqui a resenha que fiz do livro "OS CABEÇAS-DE-PLANILHA".

Apesar de não ser celebridade da Rede Globo, Luis Nassif (http://luisnassifonline.blog.uol.com.br/ ) tem sido um dos jornalistas econômicos mais importante dos últimos 20 anos. Junto com Aloisio Biondi denunciou os abusos da privatização e apontou de forma clara, precisa e didática as falhas do Plano Real. Desafiando os consensos técnicos que preservam a desordem econômica e social brasileira, cuja única virtude é exatamente seu maior defeito (concentrar poder renda na mão de poucos), Nassif já tinha seu lugar garantido no Panteão de intelectuais honestos deste país. Em razão de seu novo livro, OS CABEÇAS-DE-PLANILHA (editoro, 2007), o jornalista merece uma atenção ainda maior.

Quais são as semelhanças entre a política econômica de Rui Barbosa de Fernando Henrique Cardoso? A resposta de Nassif pode ser resumida numa palavra: muitas. Nassif não só identificou as semelhanças como apontou como elas ocorreram e, principalmente, quem foram s maiores beneficiados.

Usando como referência teórica a obra de Friedrich List (Sistema Nacional de Economia Política), Nassif chegou a conclusão que o Brasil teve suas grandes janelas para se tornar um país desenvolvido. Perdeu ambas em razão da ganância oportunista dos responsáveis pela gestão econômica do país.

Antes da proclamação da República, Rui Barbosa se notabilizou em razão da critica a política econômica do Visconde de Ouro Preto. Rui escreveu muitos artigos para dizer que a mesma beneficiava escandalosamente o Banco Nacional do Brasil (que foi criado a partir do Banco Intercontinental, do Conde Figueiredo). Ouro Preto concedeu ao Banco Nacional o direito de emitir moeda e definir o cambio.

Após a proclamação da República, Rui Barbosa substituiu o Visconde de Ouro Preto com a missão de moralizar a administração financeira. Nassif sustenta que o novo ministro das finanças fez exatamente o oposto, ou seja, preservou a concentração do poder de emitir moeda e definir o cambio nas mãos dos Bancos privados. Fez isto sem consultar os demais colegas de ministério. Mas ao contrário de beneficiar apenas o Banco Nacional do Brasil, Rui Barbosa concedeu o privilégio a três Bancos: o primeiro no Rio de Janeiro, o segundo na Bahia e o terceiro em Porto Alegre.

A decisão de Rui Barbosa provou séria objeção dos outros ministros. A controvérsia acabou quando foi aprovada a criação de um banco emissor de moeda em São Paulo.

O dono do Banco emissor no Rio de Janeiro seria o Conselheiro Francisco de Paula Mayrink, amigo pessoal de Rio Barbosa. Mas o Banco dos Estados Unidos do Brasil criado por Mayrink nasceu sob suspeita de fraude, de falsificação de seu capital. O Encilhamento (como foi chamada a política econômica de Rui Barbosa), foi usado com maestria para alguns poucos brasileiros enriquecerem enquanto o país era levado à bancarrota.

Nassif é enfático ao afirmar que “…os golpes foram montados em cima de emissões primárias de ações. O comprador pagava 10% do valor da emissão; a empresa era lançada. Quando necessitava de mais capital, procedia a novas chamadas. Se o investidor não subscrevesse a nova chamada, perdia direito ao que já havia pago.” O resultado da jogada era sempre o mesmo “…as empresas não tinham como reduzir o valor das ações, que estavam amarradas ao valor nominal dos vencimentos. Resultava disso o encalhe dos lançamentos posteriores, inviabilizando as empresas e dando prejuízo integral aos acionistas.”

Ainda segundo o autor depois da “…especulação com ações, seguiu-se uma muito mais ampla, sofisticada e intensa com o câmbio, em geral pouco estudada, principalmente após a quebra do Banco Baring Brothers, inglês, especulando com câmbio na Argentina.” No Brasil de “…janeiro a abril, tal como Demétrio havia previsto, houve intensa desvalorização cambial, de cerca de 25%, seguida da volta da inflação. De uma taxa negativa de 16,1% em 1887, a inflação chegou a alcançar 84,9% em 1891, quando a especulação atingiu o seu auge.”

Luis Nassif esclarece que na verdade “… tinha havido um volume considerável de vendas cambiais a descoberto antes da safra. Os tomadores dos papéis passaram a atuar para forçar a baixa do câmbio. No momento da liquidação, quem tinha vendido a descoberto (isto é, sem dispor da mercadoria) foi obrigado a ir ao mercado adquirir cambiais a preços mais elevados. A corrida dos vendedores a descoberto deflagrou um jogo especulativo pesado, em que as somas jogadas eram sucessivamente elevadas.”

A especulação guarda muitas semelhanças com o jogo organizado. Em ambos só os grandes apostadores ganham sempre. No caso do jogo, quem o banca embolsa todas as apostas e paga os prêmios (que geralmente são inferiores ao arrecadado dos apostadores). Num surto de especulação, os grandes Bancos acabam se beneficiando das vulnerabilidades de cada um dos especuladores. Foi o que ocorreu no princípio da República. “Com a dinheirama inundando a economia e as reservas de ouro dos bancos podendo influenciar o mercado de câmbio, o movimento especulativo em torno da Bolsa de Valores atingiu ao máximo.”

Ao invés de estancar a sangria da economia real, Rui Barbosa patrocinou a fusão entre o Banco do Conselheiro Mayrink com o Nacional de Figueiredo. A medida agravou a crise. Pessoalmente, entretanto, Rui não foi prejudicado. Em virtude de suas relações perigosas com os banqueiros ele abocanhou a Presidência da Companhia Frigorífica e Pastoril Brasileira e o posto de consultor jurídico da Light and Power Co. Ltda. Em 1893 “…dois anos depois de deixar o governo, Rui estava suficientemente rico para comprar o palacete neoclássico na rua São Clemente, em Botafogo, que pertencera ao Barão da Lagoa”.

Durante o Encilhamento, Carlito, o jovem cunhado de Rui Barbosa também ficou rico. Registrou em suas memórias as seguintes palavras, que foram reproduzidas por Nassif:

“Minhas atividades em torno da Bolsa proporcionavam-me resultados que me faziam nadar em dinheiro. Os sucessos eram expostos na nossa rodada como tacadas. De quando em quando, uma de 20, 30, de 50 contos.”

As possibilidades do Real eram muito boas. A sociedade havia produzido uma série de consensos que culminou na elaboração da nova política econômica. O quadro internacional era favorável à modernização do país. “A remonetização era um jogo de xadrez com inúmeras possibilidades. Os economistas do Real poderiam ter escolhido o caminho da chamada monetizarão da dívida pública. No vencimento, em vez de títulos, o investidos receberia reais. A dívida seria monetizada, desapareceria, e o mercado teria que se reorganizar para reciclar os recursos, abrindo espaço para investimentos na atividade real.”

Não foi o que ocorreu. A exemplo do Encilhamento, o Plano Real foi usado pelos seus idealizadores mais para enriquecer do que para sanar as graves deficiências da ordem econômica e social brasileira. Quando ocorreu a troca de moedas a equipe econômica de Fernando Henrique Cardoso permitiu “…ganhos extraordinários para os grupos que foram antecipadamente informados sobre a lógica de apreciação do real. Era uma jogada irresponsável, mas que aconteceria apenas uma vez, permitindo uma ‘tacada’ – no jargão do mercado financeira, o golpe aproveitando a oportunidade única, termo, aliás, bastante utilizado por Carlito, o cunhado de Rui, para explicar suas operações.” Curiosamente, quando era estudante, Gustavo Franco, que foi o ideólogo do Real, chegou a escrever uma monografia sobre a política econômica de Rui Barbosa.

Em OS CABEÇAS-DE-PLANILHA o jornalista Luis Nassif demonstra as artimanhas empregadas pelos gestores do Plano Real para encher suas algibeiras e corajosamente afirma que:

“Pérsio Arida era eminentemente técnico, via o plano como uma revanche do Cruzado e se preocupava com sua consistência. Só depois que saiu do governo se envolveu com o mercado, enriquecendo-se como sócio do complicadíssimo banqueiro Daniel Dantas, do Banco Opportunity. A gratidão dos colegas para com ele, e o reconhecimento de que perdera a chance de enriquecer, ao contrário dos demais, foram elementos centrais nas facilidades que encontrou para mobilizar fundos de pensão que permitiram a Daniel Dantas tornar-se um dos vencedores do processo de privatização brasileiro.”

“André Lara Resende via o plano como uma forma de enriquecimento e ascensão social.”

“Gustavo Franco era o ideólogo, mas casava com brilhantismo conhecimentos históricos, teóricos e de mercado. Era um personagem mais interessante que os demais – Pércio com seu rigor técnico, André com sua ambição de enriquecer.”

A obra de Luis Nassif aponta os descaminhos do Plano Real e da privatização. Demonstra como os gestores do mesmo desperdiçaram a segunda oportunidade para o país se tornar desenvolvido (exatamente como ocorreu na época do Encilhamento). O livro desmantela cada uma das mentiras, simplificações, distorções e meias-verdades que foram empregadas na década de 1990 para preservar os juros altos e câmbio superestimado apesar dos seus malefícios para o país (ou por causa dos benefícios pessoais que alguns auferiam). Mas não vou descer aos detalhes. Os interessados devem consultar OS CABEÇAS-DE-PLANILHA.

20 anos do "Plano Real" e 7 anos de "Os Cabeças-de-Planilha" | GGN

24/07/2013

Vamo lá, JB, declaração de bens e rendas

Filed under: Bens e Rendas,Joaquim Barbosa,Luis Nassif — Gilmar Crestani @ 8:35 am
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Nassif pede IR de Barbosa

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Colunista levanta dúvidas sobre a compra do apartamento de Miami pelo presidente do STF: "Por seu histórico, de nunca ter se envolvido em operações suspeitas, Joaquim Barbosa fica com o benefício da dúvida. Agora, é aguardar suas explicações. E não há hipótese para se negar a explicar a operação, assim como, na qualidade de mais graduado servidor público do país, não abrir sua declaração de renda"

24 de Julho de 2013 às 06:22

247 – O presidente do Supremo Tribunal Federal terá de explicar a compra de seu apartamento de Miami. É o que cobra o colunista Luis Nassif. Leia o post publicado em seu blog:

Explicações e dúvidas sobre o apartamento de Joaquim Barbosa, Luis Nassif

Explicações e dúvidas sobre a compra do apartamento em Miami por Joaquim Barbosa.

1. A compra por pessoa jurídica (PJ) interessa a quem pretende passar o imóvel mais adiante, sem pagar Imposto de Renda. Em vez de vender o imóvel, vende as cotas da PJ proprietária. Muitos investidores fazem isso, inclusive por questões de herança, para passar imóveis para herdeiros sem pagamento de taxas e tributos. Adquirindo através da PJ, a rigor Joaquim Barbosa estaria recorrendo a um expediente comum de planejamento tributário, perfeitamente legítimo.

2. O que não fica claro é a informação de que o pagamento foi simbólico, de US$ 10,00. Aí não bate. A corretora recebeu os quatrocentos e tantos mil dólares e o pagamento veio de algum lugar. Se foram recursos de Barbosa no Brasil, certamente ele terá como apresentar os documentos da remessa de dólares, que precisa necessariamente de registro no Banco Central. Se recursos que acumulou lá fora (em trabalhos internacionais, no período em que morou no exterior etc.), também não terá a menor dificuldade em comprovar a origem. O importante é que haja uma origem legítima para os recursos e uma explicação legítima para o valor simbólico de US$ 10,00.

3. Por seu histórico, de nunca ter se envolvido em operações suspeitas, Joaquim Barbosa fica com o benefício da dúvida. Agora, é aguardar suas explicações. E não há hipótese para Barbosa se negar a explicar a operação, assim como, na qualidade de mais graduado servidor público do país, não abrir sua declaração de renda.

Nassif pede IR de Barbosa | Brasil 24/7

09/12/2012

O STF e a sociedade-espetáculo

Filed under: Luis Nassif,STF — Gilmar Crestani @ 3:28 pm

Enviado por luisnassif, sab, 08/12/2012 – 13:20

Autor: Luis Nassif

Participei ontem do XXIX Encontro Nacional da Ajufe (Associação dos Juízes Federais), como debatedor o painel "Judiciário e Mídia".

De manhã, a palestra de abertura foi do Ministro Luiz Fux, do STF (Supremo Tribunal Federal). No início da apresentação, problemas na luz e justo a sala caiu na escuridão Mas o intimorato Fux "matou no peito" a falta de luz e deu conta do recado no gogó. Não chegou a cantar.

Não assisti. Só cheguei no final do segundo painel, na apresentação do Ministro José Antônio Toffolli, um longuíssimo apanhado histórico sobre a democracia e o Judiciário. Cheguei quando Toffolli já estava no Estado Novo, promovendo uma importante revisão histórica do golpe.

Ao contrário do que supõem os historiadores, dizia Toffolli, Getúlio de 1937 não era o fascista retratado pela história. Se não fosse o golpe do Estado Novo, os integralistas teriam vencido as eleições de 1938 e, aí sim, instituído um regime muitas vezes pior. Confesso nunca ter ouvido falar sobre o potencial eleitoral dos integralistas. Li sobre a tentativa de golpe, que nem chegou a abalar os alicerces do Estados Novo. Toffolli acabou de adaptar o conceito "ditabranda" para o sanguinário Estado Novo.

No intervalo para o almoço, fiquei matutando sobre as novas celebridades, os Ministros do STF, e sua ingente tentativa de mostrar um conhecimento enciclopédico, indo além da chinela dos princípios legais: Fux com seus conhecimentos de estatística (absorvidos na leitura pouco cuidadosa do livro "O andar do bêbado"), Ayres Britto com sua poesia de versos mancos e conhecimentos de física quântica, Celso de Mello com seu domínio das ciências políticas e Toffoli, com sua revisão crítica da história do país.

Aqui no blog, economistas ironizaram Fux, mostrando a extrema ignorância com que interpretou os escritos do livro; físicos caçoaram de Ayres Britto, por ter recorrido a um livro de autoajuda e transformado Einstein em físico quântico; cientistas sociais escandalizaram-se com a ignorância de Celso de Mello no campo da política. Nada se falou ainda sobre Toffolli, porque seu revisionismo ainda está restrito a ambientes fechados.

Fui para o almoço ruminando sobre essas demonstrações de erudição, a vaidade se sobrepondo aos cuidados para com a própria imagem do Supremo, o fato de passarem a falar exclusivamente para o grande público e a depreciarem advogados e especialistas do direito em geral.

O show não pode parar

No meu painel, duas visões sobre a comunicação do judiciário, pelos jornalistas Eugênio Bucci e Felipe Seligmann (setorista da Folha no STF) me ajudaram a firmar convicção sobre esse absurdo de Ministros do Supremo no show-bizz.

Professor da ECA (Escola de Comunicações e Artes da USP), Bucci descreveu os princípios da sociedade do espetáculo. E considerou positivo o fato dos ministros se portarem como celebridades, pois isso significaria mais transparência do Judiciário.

Bucci é da opinião de que o espetáculo é imprescindível no mundo moderno, ajuda na caracterização de cada agente público, de cada poder. E tome Guy Debord.

Ressaltou que, se houver problemas no show, é devido a personagens que não entendem adequadamente o papel. Mas o show deve prosseguir.

Enquanto falava, ficava imaginando: se o Supremo não tivesse a bazófia de Joaquim Barbosa, a pose esperta de Fux, a solenidade ensaiada de Celso de Mello, a truculência de Gilmar Mendes, o neoprotagonismo de Toffolli, o deslumbramento deprimente de Ayres Britto, a sociedade de espetáculo seria perfeita.

Mas perfeita com quem? As Ministras, sóbrias, sérias, não têm vocação de celebridade; a coragem inigualável de Lewandowski é justamente a do anti-celebridade, do juiz e suas convicções enfrentando a sociedade-espetáculo; sempre jogando na contramão, Marco Aurélio é um outsider, investindo contra o que o espetáculo mais gosta, o efeito-manada. Ou seja, se tirar todos os Ministros inconvenientes, não haverá espetáculo. Pelo contrário: haverá discrição, o anticlímax do espetáculo. E apenas por isso, o STF ficará mais sério, sem ser menos transparente.

Bucci admite que ocorrem exageros na cobertura do show. Mas – parafraseando Ayres Britto (aliás, conhecendo a diferença de competência entre ambos, creio que Ayres Britto é quem copiou o mote)- distorções na informação se combatem com mais informação.

Bucci comporta-se como o economista da planilha, com o uso da "suposição" para resolver qualquer problema. Pensa assim: "suponhamos que tivéssemos um mercado de opinião perfeito". A partir daí, elabora todo seu raciocínio, pouco se importando se a base de TODO raciocínio é incorreta: não temos um mercado de opinião minimamente competitivo.

Até o mais mercadista dos mercados – o próprio mercado de capitais – trabalha com regras severas para estabelecer a isonomia da informação. Há punição para a informação falsa, para a informação privilegiada, para a informação que visa manipular a realidade. É muito mais avançado na defesa dos seus membros, do que o Judiciário (como Ayres Britto) e os especialistas em mídia (como Bucci) na defesa dos direitos dos cidadãos.

Infelizmente Bucci teve que se retirar mais cedo e não pode haver o debate. Na minha apresentação procurei mostrar duas coisas.

Primeiro: o palco da sociedade-espetáculo não é um local neutro, como Bucci tenta fazer supor. Tem direção de cena, interesses objetivos de grupos jornalísticos que definem o roteiro. E atores que, buscando a visibilidade do espetáculo, adaptam convicções e comportamento ao roteiro previamente definido. Ao se candidatar a celebridade, o ator passa a condicionar sua ação ao julgamento do diretor de cena: torna-se escravo do espetáculo. Ganha as luzes quem segue o script previamente definido.

Segundo: especialmente no Brasil existe um mercado de opinião cartelizado, sustentando-se em um conjunto de práticas que ferem normas básicas de direito da concorrência: bônus de veiculação, pouca transparência na medição de audiências e de tiragens, a obrigatoriedade da publicação onerosa da publicidade legal. Portanto, sem criar as condições para uma concorrência efetiva, não se pode supor que a mão do mercado conserte por si as assimetrias existentes.

A transparência das celebridades

Setorista sério do Supremo, Seligman deu um belo depoimento sobre as relações dos jornalistas com as fontes, mencionando dois episódios altamente significativos.

Contou como, ao final de toda a sessão do julgamento do "mensalão, Joaquim Barbosa reunia os jornalistas para, em off, explicar os votos e as posições.

Seligman interpretou como sinal de transparência e de cuidado para que o jornalista não transmitisse informações incorretas.

O segundo episódio foi o voto da Fux na votação da Ficha Limpa. Deu o voto e recebeu uma enxurrada de críticas da mídia. Imediatamente convocou os repórteres, explicou que havia sido mal interpretado e refez seu voto. Voltou atrás!

Seligman interpretou como sinal de sensibilidade de Fux aos clamores da opinião pública.

Em minha apresentação, mostrei visões diferentes sobre ambos os episódios.

No primeiro, o que Barbosa fez foi levar os temas técnicos para o juiz maior – a mídia – a fim de mobilizar a galera a seu favor. É evidente que não havia nenhuma intenção de ser transparente, mas de vender seu peixe, de transferir a discussão do âmbito técnico-político do Supremo para o campo da mídia, alimentando a torcida organizada que, fora do campo, ajudava a bater no adversário Lewandowski.

Mas Barbosa é ele e ele. Usa a mídia para o que lhe interessa; e se deixa usar enquanto for do seu interesse. Uma troca pouco edificante, mas não uma subordinação.

No caso de Fux, uma submissão aos clamores da mídia que, a exemplo de Ayres Britto, não dignifica o Supremo. Em vez de "matar no peito", recuou, jogou para a plateia, abriu mão de suas próprias convicções. E ocorreu com o Ministro que dizia que "o Supremo nada teme".

A comunicação do Judiciário

Na minha apresentação, mostrei alguns episódios para desnudar essa questão da neutralidade da mídia.

Foquei no Episódio Satiagraha (a propósito, o desembargador Fausto De Sanctis estava na plateia). Episódios relatados:

O assassinato de reputação da juíza Márcia Cunha, pelo fato de ter dado liminar contra o Opportunity.
O assassinato de reputação do desembargador Edson Vidigal, por ter confirmado a liminar.
Um filme de 2004, "O poder da mídia" (direção de Bryan Goeres) mostrando a estratégia de um dono de mídia para fazer o lobby de um grupo, na disputa por uma empresa de telefonia: escolhe um repórter pouco expressivo, levanta sua bola até transformá-lo em celebridade e, a partir daí, alimenta-o com dados em favor do grupo que contratou os serviços de mídia. Mostrei como esse estratagema foi replicado no episódio Veja-Opportunity-Diogo Mainardi.
O episódio do grampo nos Correios, que pela primeira vez mostrou a cumplicidade Veja-Carlinhos Cachoeira.
Defendi a tese de que direitos constitucionais são os direitos à informação e a liberdade de expressão. Liberdade de imprensa é um instrumento para se alcançar os direitos constitucionais. Se bem exercida, legitima a mídia. Se mal exercida, deve ser coibida por instrumentos jurídicos democráticos.

Defendi a transparência do judiciário, mas em bases diversas das de Bucci. Não pode haver a subordinação do Judiciário ao show da mídia. O juiz celebridade, que busca os holofotes, é abominável, joga contra a própria seriedade do Judiciário. Juiz que se preze é aquele que, na solidão da sua sala, deve julgar casos seguindo seus princípios e convicções.

A transparência deve ser institucional, reforçando canais como a Agência Supremo, a própria TV Supremo, a Agência CNJ, a Agência do MPF e assim por diante.

Seguindo a tendência das redes sociais, o judiciário tem que retomar o controle sobre seu conteúdo e suas notícias. A transparência deve ser exercida atendendo à demanda da mídia, mas através de comunicados, reportagens, notas mas geradas internamente, com objetividade e sobriedade.

As entrevistas devem ser públicas, gravadas e disponibilizadas nos respectivos sites.

Principalmente, o Judiciário tem o dever de começar a estudar os limites para a atuação da mídia, algo que segure os desmandos e abusos sem avançar na censura. Principalmente, tem o dever de definir formas de proteger os magistrados dos assassinatos de reputação perpetrados pelo crime organizado ou por interesses econômicos, em conluio com empresas de mídia. E tem que discutir, discutir, discutir até entender adequadamente a lógica do mercado de notícias.

Defendi a criação de um conselho de mídia – não corporativo, institucionalmente acima de qualquer suspeita – para defender os direitos dos cidadãos à boa informação.

Felipe considerou essa discussão prejudicada, devido ao parecer Ayres Britto, que acabou com a Lei de Imprensa, e que inviabilizou qualquer tentativa de censura prévia.

Rebati que não se trata de defender a censura prévia, mas a imputação de consequências aos desmandos. Nem isso existe hoje. Foi o que levou os desmandos dos anos 90 a se converterem em parceria com o crime organizado, nos anos 2.000.

Após o evento, um juiz – autor de livros sobre o tema – disse que o parecer Ayres Britto não foi convalidado. Discutiu-se a questão inclusive da censura prévia – em cima do episódio Sarney e Garotinho – e o STF concordou que, em determinadas circunstâncias, admite-se o veto à publicação, sim.

Na hora de escrever o parecer, o relator Ayres Britto deformou essa conclusão, o que lhe valeu desgaste com os colegas, fazendo o próprio STF corrigir essa manipulação do Ministro.

O STF e a sociedade-espetáculo | Brasilianas.Org

28/05/2012

A primavera brasileira

Filed under: CPI da Veja,Luis Nassif — Gilmar Crestani @ 9:17 am

Enviado por luisnassif, seg, 28/05/2012 – 08:00

Coluna Econômica – 27/05/2012

O conceito da “primavera” foi adotado para descrever países ou comunidades em que a Internet entrou quebrando barreiras de silêncio.

Nos países de regime ditatorial, a “primavera” significou romper o controle estatal sobre a informação. Mas em muitos países democráticos, significou romper cortinas de silêncio impostas pela chamada velha mídia – os grandes meios de comunicação nacionais.

Nos Estados Unidos, a blogosfera ajudou a romper o sigilo em torno das guerras do Iraque e Afeganistão. Na Espanha, antes mesmo da explosão da Internet, os sistemas de SMS (torpedos) telefônicos ajudaram a desarmar a tentativa de grandes grupos midiáticos de atribuir um atentado à oposição.

Na Argentina, há um conflito latente entre o governo Cristina Kirchner e os grandes grupos midiáticos. No momento, passeatas tomam as ruas da cidade do México, contra a imprensa local.

No Brasil, em pelo menos três episódios exemplares a blogosfera foi fundamental para romper barreiras de silêncio.

O primeiro foi na Operação Satiagraha, da Polícia Federal. Capitaneados pela revista Veja, a chamada grande mídia se esmerou em demonizar os agentes públicos, vitimizar o banqueiro Daniel Dantas e transformar Gilmar Mendes no maior presidente da história do STF (Supremo Tribunal Federal).

Apenas a blogosfera preocupou-se em mostrar o outro lado, o das investigações.

O episódio terminou com o Opportunity se safando junto à Justiça. Mas, no campo da opinião pública, poder judiciário, Ministros que se aliaram ao banqueiro, o próprio banqueiro e Gilmar Mendes saíram amplamente derrotados. O episódio mostrou os limites da grande mídia para construir ou destruir reputações.

Várias armações foram denunciadas pela blogosfera, como o caso do falso grampo no STF, o grampo sem áudio da suposta conversa entre Demóstenes Torres e Gilmar Mendes, a lista falsa de equipamentos da ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) brandida pelo então Ministro da Justiça Nelson Jobim.

O segundo episódio relevante foi a promoção do livro “A Privataria Tucana”, com indícios de enriquecimento pessoal do ex-governador José Serra. Apesar de totalmente ignorado pela velha mídia, o livro bateu todos os recordes de vendas do ano.

Agora, tem-se o caso do envolvimento da revista Veja com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Foram quase dez anos de parceria, que transformaram o bicheiro no mais poderoso contraventor da república.

Graças às reportagens de Veja, o senador Demóstenes Torres tornou-se símbolo da retidão na política. Com o poder conquistado, participou de inúmeros lobbies em favor de Cachoeira e de avalista das denúncias mais extravagantes da revista.

Veja sempre soube das ligações de Demóstenes com Cachoeira. Mas por quase dez anos enganou seus leitores, não só escondendo essa relação, como difundindo a ideia de que Demóstenes era político inatacável.

Na velha mídia, não há uma linha sobre essas manobras, nada sobre as 47 conversas gravadas entre o diretor da revista em Brasília e Cachoeira, as quase 200 dele com todos os membros da quadrilha.

Assim como no Egito, Estados Unidos, Espanha, México, França, é a Internet que está explodindo cortinas de silêncio.

A primavera brasileira | Brasilianas.Org

25/05/2012

Como era a parceria Veja-Cachoeira

Filed under: CPI da Veja,Luis Nassif — Gilmar Crestani @ 9:29 am

Enviado por luisnassif, qui, 24/05/2012 – 18:29

Autor: Luis Nassif

Hoje, que o araponga Jairo se apresentou como repórter, o capítulo "O araponga e o repórter", da série "O caso de Veja", onde mostro em detalhes a associação criminosa entre as duas organizações: a de Cachoeira e a Abril. Lembrando que a série foi escrita em 2008. De lá para cá aprofundaram-se as relações criminosas entre as duas organizações.

O araponga e o repórter

Depois de se aliar ao araponga, jornalista é promovido.   para enviar informações para comentar

A catarse e a mídia

A mudança de comando

A guerra das cervejas

O caso André Esteves

O caso COC

Primeiros ataques a Dantas

Assassinatos de reputação

O quarteto de Veja

Os Primeiros Serviços

O caso Edson Vidigal

O dossiê falso

O bookmark de Mainardi

Lula, meu álibi

Os Mais Vendidos

A imprensa e o estilo Dantas

O método Veja de jornalismo

A cara de Veja

O último factóide

O araponga e o repórter

As relações incestuosas na mídia

O caso FARCs

O caso Ivo Cassol

O lobista de Dantas

O Assassinato do Intocável

A matéria foi bombástica e ajudou a deflagrar a crise do “mensalão”. Uma reportagem de 18 de maio de 2005, de Policarpo Jr., da sucursal da Veja em Brasília, mostrava o flagrante de um funcionário dos Correios – Mauricio Marinho – recebendo R$ 3 mil de propina (clique aqui)

A abertura seguia o estilo didático-indagativo da revista:

(…) Por quê? Por que os políticos fazem tanta questão de ter cargos no governo? Para uns, o cargo é uma forma de ganhar visibilidade diante do eleitor e, assim, facilitar o caminho para as urnas. Para outros, é um instrumento eficaz para tirar do papel uma idéia, um projeto, uma determinada política pública. Esses são os políticos bem-intencionados. Há, porém, uma terceira categoria formada por políticos desonestos que querem cargos apenas para fazer negócios escusos – cobrar comissões, beneficiar amigos, embolsar propinas, fazer caixa dois, enriquecer ilicitamente.

A revista informava que tinha conseguido dar um flagrante em um desses casos na semana anterior:

Raro, mesmo, é flagrar um deles em pleno vôo. Foi o que VEJA conseguiu na semana passada.

Anotem a data que a revista menciona que recebeu a gravação: semana passada. Será importante para entender os lances que serão mostrados no decorrer deste capítulo.

A matéria, como um todo, não se limitava a descrever uma cena de pequena corrupção explícita, embora só esta pudesse ser comprovada pelo grampo. Tinha um alvo claro, que eram as pessoas indicadas pelo esquema PTB, especialmente na Eletronorte e na BR Distribuidora. O alvo era o esquema; Marinho, apenas o álibi.

O que a matéria não mostrava eram as intenções efetivas por trás do dossiê e do grampo. Os R$ 3 mil eram um álibi para desmontar o esquema do PTB no governo, decisão louvável, se em nome do interesse público; jogo de lobby, se para beneficiar outros grupos.

Antes de voltar à capa, uma pequena digressão sobre as alianças espúrias do jornalismo.

Os dossiês e os chantagistas

A partir da campanha do “impeachment” de Fernando Collor, jornalistas, grampeadores e chantagistas passaram a conviver intimamente em Brasília. Até então, havia uma espécie de barreira, que fazia com que chantagistas recorressem a publicações menores, a colunistas da periferia, para montar seus lobbies ou chantagens. Não à grande mídia.

Com o tempo, a necessidade de fabricar escândalo a qualquer preço provocou a aproximação, mais que isso, a cumplicidade entre alguns jornalistas, grampeadores e chantagistas. Paralelamente, houve o desmonte dos filtros de qualidade das redações, especialmente nas revistas semanais e em alguns diários.

Foi uma associação para o crime. Com um jornalista à sua disposição, o grampeador tem seu passe valorizado no mercado. A chantagem torna-se muito mais valiosa, eficiente, proporcional ao impacto que a notícia teria, se publicada. Isso na hipótese benigna.

É uma aliança espúria, porque o leitor toma contato com os grampos e dossiês divulgados. Mas, na outra ponta, a publicação fortalece o achacador em suas investidas futuras. Não se trata de melhorar o país, mas de desalojar esquemas barra-pesadas em benefício de outros esquemas, igualmente barra-pesadas, mas aliados ao repórter. E fica-se sem saber sobre as chantagens bem sucedidas, as que não precisaram chegar às páginas de jornais.

Por ser um terreno minado, publicações sérias precisam definir regras claras de convivência com esse mundo do crime. A principal é o jornalista assegurar que material recebido será publicado – e não utilizado como elemento de chantagem.

Nos anos 90 esses preceitos foram abandonados pelo chamado jornalismo de opinião. No caso da Veja adeterioração foi maior que nos demais veículos. O uso de matérias em benefício pessoal (caso dos livros de Mario Sabino), o envolvimento claro em disputas comerciais (a “guerra das cervejas” de Eurípedes Alcântara), o lobby escancarado (Diogo Mainardi com Daniel Dantas), a falta de escrúpulos em relação à reputação alheia, tudo contribuiu para que se perdessem os mecanismos de controle.

Submetida a um processo de deterioração corporativa poucas vezes visto, a Abril deixou de exercer seus controles internos. E a direção da revista abriu mão dos controles externos, ao abolir um dos pilares do moderno jornalismo – o direito de resposta – e ao intimidar jornalistas de outros veículos com seus ataques desqualificadores.

É nesse cenário de deterioração editorial que ocorre o episódio Maurício Marinho.

A parceria com o araponga

Nas alianças políticas do governo Lula, os Correios foram entregues ao esquema do deputado Roberto Jefferson. Marinho era figura menor, homem de propina de R$ 3 mil.

Em determinado momento, o esquema Jefferson passou a incomodar lobistas que atuavam em várias empresas. Dentre eles, o lobista Arthur Wascheck.

Este recorreu a dois laranjas – Joel dos Santos Filhos e João Carlos Mancuso Villela – para armar uma operação que permitisse desestabilizar o esquema Jefferson não apenas nos Correios. como na Eletrobrás e na BR Distribuidora. É importante saber desses objetivos para entender a razão da reportagem da propina dos R$ 3 mil ter derivado – sem nenhuma informação adicional – para os esquemas ultra-pesados em outras empresas. Fazia parte da estratégia da reportagem e de quem contratou o araponga.

A idéia seria Joel se apresentar a Marinho como representante de uma multinacional, negociar uma propina e filmar o flagrante. Como não tinham experiência com gravações mais sofisticadas, teriam decidido contratar o araponga Jairo Martins.

E, aí, tem-se um dos episódios mais polêmicos da história do jornalismo contemporâneo, um escândalo amplo, do qual Veja acabou se safando graças à entrevista de Roberto Jefferson à repórter Renata Lo Prete, da Folha, que acabou desviando o foco da atenção para o “mensalão”.

Havia um antecedente nesse episódio, que foi o caso Valdomiro Diniz, a primeira trinca grave na imagem do governo Lula. Naquele episódio consolidaram-se relações e alianças entre um conjunto de personagens suspeitos: o bicheiro Carlinhos Cachoeira (que bancou a operação de grampo de Valdomiro), o araponga Jairo Martins (autor do grampo) e o jornalista Policarpo Jr (autor da reportagem).

No caso Valdomiro, era um contraventor – Carlinhos Cachoeira – sendo achacado por um dos operadores do PT, enviado pelo partido ao Rio de Janeiro, assim como Rogério Buratti, despachado para assessorar Antonio Palocci quando prefeito de Ribeirão.

Jairo era um ex-funcionário da ABIN (Agência Brasileira de Inteligência), contratado pelo bicheiro para filmar o pagamento de propina a Valdomiro Diniz.

Tempos depois, Jairo foi convidado para um almoço pelo genro de Carlinhos Cachoeira, Casser Bittar.

Lá, foi apresentado a Wascheck, que o contratou para duas tarefas, segundo o próprio Jairo admitiu à CPI: providenciar material e treinamento para que dois laranjas grampeassem Marinho; e a possibilidade do material ser publicado em órgão de circulação nacional.

Imediatamente Jairo entrou em contato com Policarpo e acertou a operação. O jornalista não só aceitou a parceria, antes mesmo de conhecer a gravação, como avançou muito além de suas funções de repórter.

O grampo em Marinho foi gravado em um DVD. Jairo marcou, então, um encontro com Policarpo. Foi um encontro reservado – eles jamais se falavam por telefone, segundo o araponga -, no próprio carro de Policarpo, no Parque da Cidade. Policarpo levou um mini-DVD, analisou o material e atuou como conselheiro: considerou que a gravação ainda não estava no ponto, que havia a necessidade de mais. Recebeu a segunda, constatou que estava no ponto. E guardou o material na gaveta, aguardando a autorização do araponga, mesmo sabendo que estava se colocando como peça passiva de um ato de chantagem e achaque.

Wascheck tinha, agora, dois trunfos nas mãos: a gravação da propina de R$ 3 mil e um repórter, da maior revista do país, apenas aguardando a liberação para publicar a reportagem.

Quando saiu a reportagem, a versão do repórter de que havia recebido o material na semana anterior era falsa e foi desmentida pelos depoimentos dados por ele e por Jairo à Policia Federal e à CPI do Mensalão.

Pressionado pelo eficiente relator Osmar Serraglio, na CPI do Mensalão, Jairo negou ter recebido qualquer pagamento de Wascheck. Disse ter se contentado em ficar com o equipamento, provocando reações de zombaria em vários membros da CPI.

Depois, revelou outros trabalhos feitos em parceria com aVeja. Mencionou série de trabalhos que teria feito e garantiu que sua função não era de araponga, mas de jornalista. O único órgão onde seus trabalhos eram publicados era a Veja. Indagado pelos parlamentares se recebia alguma coisa da revista disse que não, que seu objetivo era apenas o de "melhorar o pais".

Segundo o depoimento de Jairo:

‘Aí fiquei esperando o OK do Artur Washeck pra divulgação do material na imprensa. Encontrei com ele pela última vez no restaurante, em Brasília, no setor hoteleiro sul, quando ele disse: ‘Eu vou divulgar o fato. Quero divulgar’. E decorreu um período que essa divulgação não saía. Aí foi quando eu fiz um contato com o jornalista e falei: ‘Pode divulgar a matéria’’.

Clique aqui para ler os principais trechos do depoimento do araponga Jairo à CPI.

E aqui para acessar o relatório final da CPMI.

Reações na mídia

A revelação do episódio provocou reações acerbas de analistas de mídia.

No Observatório da Imprensa, Alberto Dines publicou o artigo “A Chance da Grande Catarse do Jornalismo”

O atual ciclo de denúncias não chega a ser uma antologia de jornalismo mas é uma preocupante coleção de mazelas jornalísticas. Busca-se a credibilidade mas poucos oferecem transparência, pretende-se a moralização da vida pública mas os bastidores da imprensa continuam imersos na sombra:
Tudo começou com uma matéria de capa da Veja sobre as propinas nos Correios, clássico do jornalismo fiteiro.

(…) Carece de (…) transparência a ouverture desta triste e ruidosa temporada através da Veja. Dois meses depois, a divulgação do vídeo da propina nos Correios continua envolta em sombras, rodeada de dúvidas e desconfianças.E, como não poderia deixar de acontecer com fatos mantidos no lusco-fusco da dubiedade, cada vez que a matéria é examinada ou discutida sob o ponto de vista estritamente profissional, mais interrogações levanta.

Caso da entrevista ao Jornal Nacional (Rede Globo, quinta-feira, 30/6) do ex-agente da ABIN, Jairo Martins de Souza, autor da gravação. O araponga — que, aliás, se diz jornalista [veja abaixo comentários de Ricardo Noblat] e faz negócios com jornalistas — revelou que ofereceu o vídeo ao repórter Policarpo Júnior, da sucursal da Veja em Brasília, e que este aceitou-o antes mesmo de examinar o seu teor [abaixo, a transcrição da matéria do JN].

Na hora da entrega, o jornalista teria usado um reprodutor portátil de DVD para avaliar a qualidade das imagens. De que maneira chegou ao jornalista e por que este aceitou o vídeo são questões que até hoje não foram esclarecidas.

Tanto o repórter como a revista recusam-se terminantemente a oferecer qualquer tipo satisfação ou esclarecimento aos leitores. Não se trata de proteger as fontes: elas seriam inevitavelmente nomeadas quando o funcionário flagrado, Maurício Marinho, começasse a depor. Foi exatamente o que aconteceu e hoje Veja carrega o ônus de ter se beneficiado de uma operação escusa – chantagem de um corrupto preterido ou ação formal da Abin para desmoralizar um aliado incômodo (o PTB, de Roberto Jefferson).

(…) Araponga não é jornalista, vídeo secreto ainda não é reconhecido como gênero de jornalismo. Talvez o seja num futuro próximo.

O episódio mereceu comentários do blogueiro Ricardo Noblat:

Ao ser contratado para filmar Marinho e grampear André Luiz, a primeira coisa que ele disse que fez foi procurar a Veja e oferecer o material. ‘Foi um trabalho puramente jornalístico’, garantiu.

A amigos, nas duas últimas semanas, Jairo confessou mais de uma vez que espera ganhar o próximo Prêmio Esso de Jornalismo. Ele se considera um sério candidato ao prêmio.

Não é brincadeira não, é serio! Porque ele está convencido de que filmou e grampeou como free-lancer da Veja – embora jamais tenha recebido um tostão dela por isso. Recebeu dos que encomendaram as gravações.

Jairo ganhava como araponga e pensava em brilhar como jornalista.

É, de certa forma faz sentido."

Tempos depois, a aliança com o araponga renderia a Policarpo a promoção para chefe de sucursal da Veja em Brasília. A revista já caíra de cabeça, sem nenhum escrúpulo, no mundo nebuloso dos dossiês e dos pactos com lobistas. E o grande pacto do silêncio que se seguiu na mídia, permitiu varrer para baixo do tapete as aventuras de Veja com o araponga repórter.

O final da história

Parte da história terminou em agosto de 2007. Sob o titulo “PF desmonta nova máfia nos Correios”, o Correio Braziliense noticiava o desbaratamento de uma nova quadrilha que tinha assumido o controle dos Correios (clique aqui).

No comando, Arthur Wascheck, que assumiu o comando da operação de corrupção dos Correios graças ao serviço encomendado a Jairo – grampo mais publicação do resultado na Veja.

Durante a Operação Selo, foram presas cinco pessoas, em dois estados mais o Distrito Federal.

Segundo o jornal:

Entre os presos estão Sérgio Dias e Luiz Carlos de Oliveira Garritano, funcionários dos Correios, além dos empresários Antônio Félix Teixeira, Marco Antônio Bulhões e Arthur Wascheck, considerado pela PF como líder do grupo e acusado de ter sido o responsável pela gravação feita no dia em que Marinho recebia a propina. Os investigadores não quantificaram o volume de recursos envolvidos nas fraudes, mas calculam que seja de dezenas de milhões de reais.

De acordo com os investigadores, “o grupo agia como traficantes nos morros".

“Havia uma quadrilha na ECT (Empresa de Correios e Telégrafos), que foi desbaratada e afastada. A outra organização tomou o lugar dela. Assim como os traficantes fazem, quando saem, morrem ou são presos, acontece a mesma coisa no serviço público. Quando uma quadrilha sai do local, entra outra e começa a praticar atos ilícitos no lugar da que saiu”, explica o delegado Daniel França, um dos integrantes do grupo de investigação.

A corrupção tinha apenas trocado de mãos:

Para o Ministério Público Federal, o entendimento era o mesmo.

“Não se pode dizer que a corrupção terminou ou se atenuou. O que houve foi uma substituição de pessoas, alijadas do esquema”, afirma o procurador da República Bruno Acioli.

Segundo ele, há pelo menos 20 empresas, muitas delas ligadas a Wascheck, estão envolvidas nas fraudes que podem atingir outros órgãos públicos, conforme investigações da PF.

A ficha de Wascheck era ampla e anterior ao episódio do qual Veja aceitou participar:

O empresário, conforme os investigadores, atuava na área de licitações desde 1994, sendo que um ano depois ele fora condenado por irregularidades em licitação para aquisição de bicicletas pelo Ministério da Saúde.

O valor das fraudes chegava a milhões de reais:

Segundo a polícia, o grupo de Wascheck vendia todo tipo de material para os Correios. De sapato a cofres, sendo que muitos integrantes do esquema eram também procuradores de outras empresas envolvidas nas concorrências. Com a análise dos documentos, que começou a ser feita ontem, os investigadores devem chegar aos valores das fraudes. “O que posso dizer é que esse prejuízo é de milhões de reais. Dezenas de milhões de reais”, diz o procurador da República, ressaltando que seu cálculo se baseia em alguns casos específicos. “Existem licitações na casa de bilhões de reais”, afirma o procurador.

No sistema de buscas da revista, as pesquisas indicam o seguinte:

Operação Selo Wascheck: 0 ocorrências

Operação Selo (frase exata) Período 2007: 0 ocorrências

Revista de 8 de agosto de 2007: nenhuma menção

Na edição de 15 de agosto, nenhuma menção. Mas uma das materias especiais atende pelo sugestivo título de“Porque os corruptos não vão presos”

"Frágil como papel

A Justiça brasileira é incapaz de manter presos assassinos
confessos e corruptos pegos em flagrante. Na origem da
impunidade está a própria lei".

A reportagem fala do mensalão, insinua que os implicados até melhoraram de vida, menciona símbolos midiáticos de corrupção (Quércia, Maluf, Collor etc). Nenhuma palavra sobre a Operação Selo e sobre o papel desempenhado pelas reportagens de escândalo da própria revista no jogo das quadrilhas dos Correios.

Seus aliados foram protegidos.

Como era a parceria Veja-Cachoeira | Brasilianas.Org

10/05/2012

Um caso hipotético de associação da mídia com o crime

Filed under: Bandidagem,CPI da Veja,Crime Organizado,Luis Nassif — Gilmar Crestani @ 9:44 am

Enviado por luisnassif, qui, 10/05/2012 – 08:46

Por Jotavê

Vamos fazer uma analogia.

Suponha que você tem um informante dentro de uma quadrilha atuando num dos morros do Rio de Janeiro. Esse informante lhe passa gravações que demonstram o envolvimento de políticos e policiais com a quadrilha rival, mas pede sigilo da fonte. O que você faz? Publica, ou não? Mantém o pacto de sigilo, ou não?

Suponha que você publique aquele material, e que esse informante (um bandido, não nos esqueçamos disso) lhe diz que pode lhe conseguir muitas outras informações, desde que você mantenha com ele um pacto de não revelar de onde vêm essas informações. Você publica uma, duas, três reportagens a respeito da quadrilha rival e de seus aliados no aparelho de Estado. Mantém o pacto com seu informante. Não revela seu nome. Anos se passam, e várias reportagens sobre o grupo rival vêm à tona. Nenhuma sobre o grupo de seu informante. Você agiu corretamente, ou não?

Suponha que, ao longo desses anos, você fique sabendo que o seu informante também tem conexões dentro do aparelho de Estado. Você sabe os nomes, e poderia perfeitamente montar reportagens denunciando esse OUTRO esquema. Sabe, porém, que a partir do momento que fizer isso, a fonte seca. O que você faz? Deixa a denúncia desse outro esquema para outros órgãos de imprensa? Conclui que, no final das contas, as informações que você ainda pode obter daquela fonte são mais importantes do que as informações que você divulgaria agora, arruinando assim grande parte de seu trabalho futuro? (Veja que, até aqui, você pode estar raciocinando levando em consideração apenas o bem público.)

Suponha, no entanto, que você não apenas silencie a respeito das conexões da quadrilha de seus informantes com o aparelho de Estado. Você passa a PROMOVER deputados, juízes e delegados que estão associados aos "seus" traficantes. Dá primeira capa para um. Páginas amarelas para outro. Foto com roupas de mosqueteiro para um terceiro, e assim por diante. Claramente, você terá ultrapassado os limites de qualquer código de ética jornalística.

Suponha, finalmente, algo ainda pior. Você está, desde o início, associado a um certo grupo de políticos, e empenhado em destruir o grupo adversário. Quem o leva até o seu informante é um desses políticos. Ele o apresenta ao traficante (que, por sinal, tem uma série de negócios LEGAIS, que usa para lavar o dinheiro obtido no mundo do crime). O traficante passa a ser seu informante, e a fornecer munição para você atacar exatamente o grupo que, desde o começo, você estava interessado em destruir. Você não tem nenhuma simpatia por esse traficante, é claro. Mas tem simpatia pelo grupo político ao qual ele está ligado. Estabelece com ele, então, uma relação simbiótica: "me ajude a destruir tais e tais políticos, que eu não atrapalho o seu negócio, e ainda por cima ajudo a promover os políticos que irão apoiá-lo". Aqui, talvez tenhamos resvalado para o campo propriamente criminal.

O comportamento da revista Veja, ao longo desses anos todos, inseriu-se em algum ponto desse espectro de atitudes que esbocei acima. Se queremos ter uma argumentação consistente, é preciso fazer mais do que simplesmente externar nossos "sentimentos", ou nossas "suspeitas". Temos que reunir elementos que levem uma pessoa que NÃO TEM esses sentimentos, nem essas suspeitas, a se convencer de que estamos certos. Não vale roubar no meio do jogo. Isso só descredencia o argumentador, e dá a chance de o adversário denunciar a trapaça em duas linhas. A honestidade intelectual é o melhor caminho – até mesmo de um ponto de vista prático.

Vamos tentar?

Veja condenada a dar Direito de Resposta a Nassif

Filed under: Grupos Mafiomidiáticos,Luis Nassif,Veja — Gilmar Crestani @ 9:41 am

Enviado por luisnassif, qui, 10/05/2012 – 08:51

Autor: Luis Nassif

Acabo de receber de meu advogado Marcel Leonardi cópia da sentença do juiz Gustavo Dall’olio, da Vara Civel de Pinheiros, condenando a Editora Abril a me conceder Direito de Resposta na revista Veja, em vista do ataque sofrido na coluna de Diogo Mainardi.

No desabafo de ontem, mencionei as enormes dificuldades de ver o caso julgado pela juiza Luciana Novakoski Ferreira, da vara criminal de Pinheiros. Com o fim da Lei de Imprensa, a demanda passou para a Vara Civel e obteve julgamento rápido e uma sentença objetiva do juiz Dall’olio.

Caso não publique a resposta, a Abril se sujeitará a multa de R$ 500.000,00. É certeza que a Editora recorra e postergue por mais alguma tempo. Mas pelo menos mostrou que há juízes e juízes, assim como advogados e advogados.

Foram quatro anos de luta. Neste momento meus agradecimentos profundos à competência e coragem do advogado Marcel Leonardi, jovem e talentoso advogado que honrou seu diploma. Em outras ações, fui praticamente abandonado pelo escritório McDowell, Barbosa, Gasparian, temeroso de perder espaço junto à mídia.

Agradecimento também a todos vocês que, na fase mais dura dessa luta, apoiaram com um carinho comovente. E, lógico, à minha família.

Sentenca nassifveja

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28/03/2012

Grupos mafiomidiáticos, modus operandi

 

Veja, Demóstenes e o caso Francisco Escórcio

Enviado por luisnassif, ter, 27/03/2012 – 17:56

Autor: Luis Nassif

No momento em que o senador Demóstenes Torres pede aos seus pares – e a Renan Calheiros – para não ser julgado politicamente, um dos capítulos de sua parceria com a revista Veja: o caso Francisco Escórcio. Revela bem os métodos utilizados, posteriormente, no caso do grampo sem áudio.

Coube a Demóstenes, em combinação com a revista, deflagrar a manipulação, ao dizer que tinha sido informado – por telefonema de Pedrinho Abrão – sobre as intenções de Escórcio de filmar  Torres e Marconi Perillo no hangar.

Nas investigações posteriores, Abrão negou peremptoriamente e informou que a razão do telefonema foi outra. De nada adiantou: mais um falso escândalo havia sido gestado na usina de Demóstenes e Veja.

Capítulo 1: cria-se a história de que assessor de Renan teria ido a Goiania espionar Demóstenes.

No auge das denúncias contra o então presidente do Senado Renan Calheiros, Veja(edição 2029, 10 de outubro de 2007) publica que Francisco Escórcio, assessor de Renan, foi a Goiânia montar um esquema de espionagem contra os senadores Demóstenes Torres (DEM) e Marconi Perillo (PSDB).

A testemunha chave seria o empresário e ex-deputado Pedrinho Abrão, a quem Escórcio teria pedido para filmar embarques dos dois senadores no hangar da empresa de Abrão. O pedido teria sido feito na presença de dois advogados, Heli Dourado e Wilson Azevedo.

Só no último parágrafo da matéria se descobre que nem os advogados nem o empresário confirmam a denúncia: " Pedro Abrão, por sua vez, confirma que os senadores usam seu hangar, que conhece os personagens citados, mas que não participou de nenhuma reunião", diz a revista.

A matéria "O jogo sujo de Renan Calheiros" (http://veja.abril.com.br/101007/p_060.shtml) é assinada, no alto, pelo chefe da sucursal. Policarpo Junior, e no pé, pelo repórter Alexandre Oltramari, que viria a ser assessor de Perilo na eleição de 2010. O avalista principal é Demóstenes Torres.

Capítulo 2: Folha compra a história e repercute, apesar dos desmentidos das testemunhas

Naquele mesmo fim de semana, a Folha de S. Paulo compra a história da revista e ouve um dos advogados citados: Heli Dourado conta que recebeu Escórcio para tratar de processos políticos do Maranhão (foi ele quem redigiu a representação, acolhida um ano depois pelo TSE, que levou à cassação do governador Jackson Lago, adversário de José Sarney, que é o padrinho político de Escórcio).

Dourado diz também que foi Pedrinho Abrão, e não Escórcio, quem falou em filmar Perilo:"E aí o Pedrinho Abrão disse que o senador Marconi Perillo sempre saía do hangar dele e que, se [Escórcio] quisesse, podiam fotografar, filmar ele [Perillo] entrando e saindo", contou Dourado.

A matéria da Folha (http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u334551.shtml) não informa se a sugestão teria sido aceita, mas afirma no título: "Assessor de Renan tratou de espionagem, diz advogado"

Capítulo 3: repórter cede gravação para Demóstenes transmitir no som do Senado

O trecho da gravação da entrevista da Folha, cedido a Demóstenes pelo repórter Leonardo Souza, é reproduzido no sistema de som do Senado, numa das sessões mais vergonhosas da história da casa (aqui o relato da Agência Senado: http://www12.senado.gov.br/noticias/materias/2007/10/09/demostenes-torre…) Uma semana depois, o então corregedor da Câmara, Romeu Tuma, decide ir a Goiânia para ouvir a testemunha-chave, PedrinhoAbrão:.

Capítulo 4: testemunha nega formalmente o episódio, mas desmentido não é publicado.

Ouvido formalmente, Abrão nega tudo. "Não tratamos de fotos e filmagens" disse Abrão ao corregedor, "mas o senhor pode ver que tenho 18 câmeras aqui, todas elas instaladas como medida de segurança". " Ele me disse também que não ligou para Demóstenes com o intuito de avisá-lo do plano de espionagem, mas para falar de obras no aeroporto de Goiânia, uma vez que Demóstenes é o relator da CPI do Apagão Aéreo" – disse Tuma.O registro está apenas na Agência Senado (replicado aqui no site Direito 2:http://direito2.com/asen/2007/out/17/tuma-vai-conferir-depoimento-de-ped…) Nem a Veja nem a Folha deram uma linha registrando a negativa de mais um escândalo em off)

A encenação de Demóstenes na sessão do Senado, tratando como escândalo uma mentira, denota o mesmo modus operandi do caso do grampo sem áudio. Na ponta midiática, impreterivelmente, a revista Veja.

Brasil
O jogo sujo de Renan Calheiros

O senador manda espionar a vida
de adversários do PSDB e do DEM


Policarpo Junior e Otávio Cabral

Fotos André Dusek/AE 

Sob risco de perder o mandato, Renan apela para bruxarias

Para salvar seu mandato, o senador Renan Calheiros já usou a tática de constranger e ameaçar colegas do Parlamento com a divulgação de informações supostamente comprometedoras. Fez isso com dois respeitáveis senadores, Pedro Simon e Jefferson Peres, transformando-os em alvos de boatos sórdidos. Repetiu a fórmula com os petistas Tião Viana e Ideli Salvatti, aliados fiéis que pensaram em se rebelar contra a permanência dele no cargo e acabaram acuados por denúncias de irregularidades. Às vésperas de enfrentar três outros processos no Conselho de Ética, Renan Calheiros é flagrado em outro movimento clandestino e espúrio: a espionagem de senadores. VEJA apurou que Calheiros montou um grupo de arapongas e advogados para bisbilhotar a vida de seus adversários. Na mira estão dois dos principais oponentes do presidente do Congresso: o tucano Marconi Perilloe o democrata Demostenes Torres. Ambos tiveram a vida privada devassada nos últimos três meses. A ousadia chegou ao ponto de, há duas semanas, os arapongasplanejarem instalar câmeras de vídeo em um hangar de táxi aéreo no Aeroporto de Goiânia para filmar os embarques e os desembarques dos parlamentares. O objetivo era tentar flagrar os senadores em alguma atividade ilegal para depois chantageá-los em troca de apoio. O plano só não foi em frente porque o dono do hangar não concordou em participar da operação.

Fotos José Varella/CB e Paulo Rezende

Francisco Escórcio: o assessor de Renan tentou instalar câmeras em hangar do aeroporto de Goiânia

O grupo de espionagem é comandado pelo ex-senador Francisco Escórcio, amigo, correligionário e assessor direto de Renan Calheiros. No dia 24 passado, o assessor se reuniu em Goiânia com os advogados Heli Dourado e Wilson Azevedo. Discutiram uma estratégia para criar uma situação que comprometesse os senadores Perillo e Demostenes. "Vamos ter de estourá-los", sentenciou Escórcio. Um dos advogados disse que a melhor maneira de constranger os senadores oposicionistas era colher imagens deles embarcando em jatos particulares pertencentes a empresários da região. Um dos presentes lembrou que os vôoseram feitos a partir do hangar da empresa Voar, cujo proprietário é o ex-deputado Pedro Abrão, um ex-peemedebista. Na mesma noite, Abrão foi convidado a ir a um escritório no centro de Goiânia. Lá, na presença dos advogados, ouviu a proposta diretamente de Francisco Escórcio: "Nós precisamos de sua ajuda para resolver um problema para Renan", disse Escórcio. Os dois já se conheciam do Congresso Nacional. "Queremos instalar câmeras de vídeo para gravar Perillo e Demostenesusando seus aviões." E completou: "Quero ver a cara deles depois disso, se eles (os senadores) vão continuar nos incomodando". Abrão ouviu a proposta e ficou de estudar. Depois, preocupado, narrou o estranho encontro a um amigo.

Vivi Zanatta/AE

Marconi Perillo: virou alvo depois de defender o voto aberto

Ex-governador de Goiás, Perillo está em seu primeiro mandato. Na reta final do processo que investigava o envolvimento de Calheiros com o lobista de empreiteira, foi Perillo que apresentou a tese vencedora de que o voto no Conselho de Ética deveria ser aberto. Já Demostenes Torres, ex-promotor público, é hoje um dos mais destacados parlamentares da oposição. Não é a primeira vez que ele, titulardo Conselho de Ética, é vítima de arapongas. Em junho passado, logo depois das primeiras denúncias contra Calheiros, Demostenes foi um dos primeiros a defender com veemência a instalação do processo por quebra de decoro. Os arapongas de Renan passaram a investigá-lo desde então. Sem cerimônia, estiveram na cidade de Rio Verde, no interior de Goiás, onde moram pessoas próximas a Demostenes. Lá, procuraram amigos e amigas que já fizeram parte da intimidade do senador. Uma dessas pessoas chegou a receber uma oferta para gravar um depoimento. Os arapongas se apresentavam como advogados, tinham sotaque carregado e, ao que parece, estavam muito interessados em fazer futrica. Não escondiam que o objetivo era intimidar o senador.

Na semana passada, Demostenes Torres e Marconi Perillo foram procurados por amigos em comum e avisados da trama dos arapongas de Renan. Os senadores se reuniram na segunda-feira no gabinete do presidente do Tribunal de Contas de Goiás, onde chegaram a discutir a possibilidade de procurar a polícia para tentar flagrar os arapongas em ação. "Essa história é muito grave e, se confirmada, vai ser alvo de uma nova representação do meu partido contra o senador Renan Calheiros", disse o tucano Marconi Perillo. "Se alguém quiser saber os meus itinerários, basta me perguntar. Tenho todos os comprovantes de vôos e os respectivos pagamentos." Demostenes Torres disse que vai solicitar uma reunião extraordinária das lideranças do DEM para decidir quais as providências que serão tomadas contra Calheiros. "É intolerável sob qualquer critério que o presidente utilize a estrutura funcional do Congresso para cometer crimes", afirma Demóstenes.

Cristiano Mariz

Demostenes Torres: o líder da oposição teve a vida bisbilhotada

Francisco Escórcio foi contratado em novembro do ano passado pelo senador Calheiros como assessor técnico da Presidência. Antes, trabalhou com o ex-ministro José Dirceu no cargo de assessor especial da Casa Civil. Despacha em uma sala a poucos metros de Renan e ganha um salário de 9.301 reais. O que ele faz? "Faço o que Renan me mandar fazer", disse a VEJA. Escórcio, o advogado Heli Dourado e seu sócio Wilson Azevedo foram ouvidos simultaneamente sobre o plano para bisbilhotar os senadores. Escórcio afirmou que esteve em Goiânia no dia 24 "para pegar umas fotos", que se reuniu com o advogado Heli Dourado e "outras pessoas" num escritório e que, por acaso, o empresário Pedro Abrão "apareceu por lá e eu até disse que ele estava bem magrinho". Heli Dourado confirma que esteve reunido com Escórcio "para discutir um processo judicial de interesse da família Sarney" e garante que "Pedro Abrão não participou da conversa". Wilson Azevedo, seu sócio, diz que "esteve com Escórcio há uns dez dias num encontro informal" e que não vê Pedro Abrão "há uns seis anos". Pedro Abrão, por sua vez, confirma que os senadores usam seu hangar, que conhece os personagens citados, mas que não participou de nenhuma reunião. O empresário, que já pesou mais de 120 quilos, fez uma cirurgia de redução de estômago e está bem magrinho, como disse Escórcio. Renan Calheiros não quis falar.

Da Agência Senado

Demóstenes Torres cobra a demissão de Francisco Escórcio

Da Redação

[Foto: senador Demóstenes Torres (DEM-GO)]

Em pronunciamento nesta terça-feira (9), em Plenário, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) cobrou a exoneração do assessor da presidência do Senado, Francisco Escórcio, acusado pela revista Veja de ter ido a Goiânia solicitar a ajuda de um empresário para espioná-lo e ao senador Marconi Perillo (PSDB-GO). O plano incluiria a instalação de câmaras em um dos hangares do aeroporto da capital goiana.

Em resposta ao senador por Goiás, o presidente da Casa, senador Renan Calheiros, disse que afastou o funcionário e que ordenou a abertura de sindicância para apurar o caso. Demóstenes Torres, porém, rebateu dizendo que tal informação não correspondia à verdade e que o presidente do Senado poderia ir além. Em nota divulgada na segunda-feira, Renan repudiou alegações de que teria usado um servidor da instituição para "práticas inescrupulosas, imorais e ilegais".

– Todos aqui sabemos o quanto Francisco Escórcio é destrambelhado, para não usar um termo mais desqualificado. Não é Francisco Escórcio que irá me constranger. O Francisco Escórcio não é procurador-geral da República. O Francisco Escórcio não é ministro do Supremo Tribunal Federal. Ele não pode mandar investigar um senador. Ele não tem esse direito. Ele não tem essa competência legal – disse Demóstenes.

Demóstenes disse que manteve contato telefônico com o empresário Pedro Abraão, que teria confirmado a ida de Escórcio a Goiânia.

– Chiquinho Escórcio teria dito a ele que estava lá numa missão de ‘arapongagem’ e que estava resolvendo também problemas relativos ao Maranhão, mas queria me flagrar e flagrar o senador Marconi Perillo voando de forma ilegal – contou.

Por solicitação de Demóstenes, durante o seu discurso foi reproduzido o som da gravação de uma conversa de aproximadamente cinco minutos mantida entre o jornalista Leonardo Souza, da Folha de S. Paulo, e o advogado Heli Dourado, que também teria se reunido com Escórcio, em Goiânia.

– Vossa Excelência pode verificar, nessas declarações, primeiro, que a reunião aconteceu. Segundo, que Francisco Escórcio mandou buscar Pedrinho Abraão, convidou-o para ir lá. Terceiro, que eles falaram em nome de Vossa Excelência, ainda que indevidamente – disse Demóstenes, referindo-se a Renan Calheiros.

"Onde estamos?"

Depois de ouvir a gravação, o senador Valter Pereira (PMDB-MS) perguntou a Demóstenes Torres: "Onde estamos? No Senado Federal ou numa delegacia de polícia?". Em resposta, o senador pelo DEM goiano afirmou: "Vossa Excelência pode responder. Não sei qual a intenção da pergunta de Vossa Excelência, mas o Conselho de Ética é justamente para apurar quebra de decoro. É isso que Vossa Excelência quis dizer ou quis fazer uma defesa? Se quiser, faça, Vossa Excelência tem direito". Valter Pereira concluiu dizendo: "Estamos diante de um rosário de episódios que deprimem extremamente a imagem do Congresso".

Já o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) pediu que Renan se afastasse da presidência da Casa, como forma de se defender das acusações que pesam contra ele e para que o Senado volte à normalidade. Na avaliação de Cristovam, Demóstenes, "querendo ou não" mostrou que está faltando credibilidade a Renan para exercer a Presidência.

– Mesmo que o senhor esteja com a verdade, a credibilidade se esvaziou. Neste momento, seria um gesto patriótico e inteligente – patriótico para o país e inteligente do seu ponto de vista, da sua defesa – que o senhor não estivesse na presidência do Senado – argumentou Cristovam.

Quando Demóstenes quis conceder mais um parte, Renan o interrompeu dizendo que seu tempo estava esgotado. Demóstenes argumentou que Renan havia falado antes, por 20 minutos, quando teria, igualmente, cinco minutos para se pronunciar. O senador por Goiás exigiu tratamento igualitário. Renan desconsiderou a reclamação e declarou encerrado o tempo de Demóstenes, que agradeceu e deixou a tribuna.

27/03/2012

VEJA, vai-se o último bastião dos consultórios de proctologia

Restam dois tipos de pessoas que ainda acreditam na Veja: os mal informados e os mal intencionados.

Luis Nassif afirma que redator-chefe da Veja trocou mais de 200 telefonemas com “bicheiro” preso pela Polícia Federal

Redação Comunique-se

Na manhã desta segunda-feira, 26, o jornalista Luis Nassif publicou no site Advivo que o redator-chefe e chefe da sucursal da revista Veja em Brasília, Policarpo Júnior, trocou mais de 200 telefonemas com o empresário Carlos Augusto de Almeida Ramos, conhecido como Carlinhos Cachoeira. Suspeito de chefiar uma quadrilha de exploração de jogos com máquinas caça-níqueis, o empresário foi preso no dia 29 de fevereiro, durante a Operação Monte Carlo da Polícia Federal.

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Policarpo Júnior foi alvo de críticas de Luis Nassif. Funcionário da Veja participou da edição 2008 do "Curso Abril de Jornalismo". (Imagem: Henrique Gualtieri/Abril)

Em seu blog, Nassif afirma que Policarpo Júnior conversa com Cachoeira sobre as reportagens publicadas pela Veja, além de trocar outras informações e receber elogios do “bicheiro”. O jornalista do Advivo ainda sugere que o funcionário da publicação da Editora Abril só foi promovido – desde janeiro é um dos quatro redatores-chefes da revista – devido à “associação” que fez com o empresário que está em um presido federal de segurança máxima em Mossoró, interior do Rio Grande do Norte.  
Nassif não poupa críticas ao jornalista da Veja e põe em xeque a conduta ética de seu colega de profissão. “Cada publicação costuma ter alguns repórteres incumbidos do trabalho sujo. Policarpo é mais que isso”, afirmou. “As gravações efetuadas mostram sinais incontestes de associação criminosa da revista com o bicheiro. São mais de 200 telefonemas trocados”, publicou. O diretor do Advivo também afirmou que “há indícios de que Cachoeira foi sócio da revista na maioria dos escândalos dos últimos anos”.
Integrante da redação da Veja em Brasília há mais de dez anos, Policarpo Júnior já foi repórter de política e atualmente acumula as funções de redator-chefe da revista – cargo que divide com Thaís Oyama, Fábio Altman e Lauro Jardim – e de chefe da sucursal na capital federal. Em 2005, foi o responsável por publicar que o então chefe do Departamento de Contratação e Administração de Material dos Correios, Maurício Marinho, foi flagrado recebendo R$ 3 mil de propina – caso considerado um dos precursores do “Escândalo do Mensalão”. A respeito das afirmações de Nassif, Policardo Júnior não se pronunciou até o momento.

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Última atualização em 26 Março 2012

Comentários

0#5 Sérgio Haroldo Ribeiro27-03-2012 03:25

Essa publicação, idolatrada pelas elites econômico-financeiras do país, sobrevive às custas da fabricação de escândalos. Enquanto houver maus brasileiros interessados em denegrir a imagem do Brasil, ela continuará a prosperar.

0#4 Jorge Sá de Miranda27-03-2012 01:52

Como e por que cachoeira passou a ser cliente preferencial do ex-ministro Marcio Thomaz Bastos, que pôs em campo uma equipe para defendê-lo das maracutais, malfeitos e outros bichos que cometeu? Já equeceram que cachoeira divulgou um vídeo que mostra que é achacado por waldomiro diniz, amigo pessoal e ex-assessor de josé dirceu?
Dizem que cachoeira tem muita coisa guardada que compromete muita gente fina, C#ZZ#?.

0#3 Gabriel Adami Mariani27-03-2012 00:30

ALGUEM AI DUVIDA? EM SE TRATANDO DE VEJA EU N~AO DUVIDO DE NADA…

0#2 Silene Balassiano26-03-2012 23:50

é difícil superar o autor da acusação, quando se fala em mais baixo.

-2#1 Antonio Meira da Rocha26-03-2012 20:57

Se confirmada esta informação, será o momento mais baixo da história do Jornalismo brasileiro!

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