Ficha Corrida

03/07/2014

Após 20 anos cabeças de bagre continuam dando sopa

Filed under: Itamar Franco,Luis Nassif,Plano Real — Gilmar Crestani @ 9:37 am
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Onde estão os que, no Governo Itamar Franco, implantaram o Plano Real? Estão todos milionários. Eles, seus familiares e seus financiadores ideológicos. Alguns, como Pedro Parente e Pérsio Arida, aportaram na RBS. Foram acolhidos após os financiamentos subsidiados do BNDES para sanar o Grupo RBS. Os mesmos que se indignaram com o financiamento do BNDES na construção dos Estádios da Copa não dizem uma palavra sobre o financiamento do BNDES aos Grupos MafioMidiáticos.

20 anos do "Plano Real" e 7 anos de "Os Cabeças-de-Planilha"

qua, 02/07/2014 – 21:17

Do Blog de Fábio de Oliveira Ribeiro

A imprensa comemora as duas décadas do Plano Real. Pessoalmente, prefiro comemorar os 7 anos do livro de Luis Nassif que desvendou os mecanismos utilizados pelos gestores do Plano Real para enriquecer com a troca de moeda exatamente como Rui Barbosa e seus acessores fizeram durante o Encilhamento. Em homenagem aos 20 anos do Plano Real, portanto, republico aqui a resenha que fiz do livro "OS CABEÇAS-DE-PLANILHA".

Apesar de não ser celebridade da Rede Globo, Luis Nassif (http://luisnassifonline.blog.uol.com.br/ ) tem sido um dos jornalistas econômicos mais importante dos últimos 20 anos. Junto com Aloisio Biondi denunciou os abusos da privatização e apontou de forma clara, precisa e didática as falhas do Plano Real. Desafiando os consensos técnicos que preservam a desordem econômica e social brasileira, cuja única virtude é exatamente seu maior defeito (concentrar poder renda na mão de poucos), Nassif já tinha seu lugar garantido no Panteão de intelectuais honestos deste país. Em razão de seu novo livro, OS CABEÇAS-DE-PLANILHA (editoro, 2007), o jornalista merece uma atenção ainda maior.

Quais são as semelhanças entre a política econômica de Rui Barbosa de Fernando Henrique Cardoso? A resposta de Nassif pode ser resumida numa palavra: muitas. Nassif não só identificou as semelhanças como apontou como elas ocorreram e, principalmente, quem foram s maiores beneficiados.

Usando como referência teórica a obra de Friedrich List (Sistema Nacional de Economia Política), Nassif chegou a conclusão que o Brasil teve suas grandes janelas para se tornar um país desenvolvido. Perdeu ambas em razão da ganância oportunista dos responsáveis pela gestão econômica do país.

Antes da proclamação da República, Rui Barbosa se notabilizou em razão da critica a política econômica do Visconde de Ouro Preto. Rui escreveu muitos artigos para dizer que a mesma beneficiava escandalosamente o Banco Nacional do Brasil (que foi criado a partir do Banco Intercontinental, do Conde Figueiredo). Ouro Preto concedeu ao Banco Nacional o direito de emitir moeda e definir o cambio.

Após a proclamação da República, Rui Barbosa substituiu o Visconde de Ouro Preto com a missão de moralizar a administração financeira. Nassif sustenta que o novo ministro das finanças fez exatamente o oposto, ou seja, preservou a concentração do poder de emitir moeda e definir o cambio nas mãos dos Bancos privados. Fez isto sem consultar os demais colegas de ministério. Mas ao contrário de beneficiar apenas o Banco Nacional do Brasil, Rui Barbosa concedeu o privilégio a três Bancos: o primeiro no Rio de Janeiro, o segundo na Bahia e o terceiro em Porto Alegre.

A decisão de Rui Barbosa provou séria objeção dos outros ministros. A controvérsia acabou quando foi aprovada a criação de um banco emissor de moeda em São Paulo.

O dono do Banco emissor no Rio de Janeiro seria o Conselheiro Francisco de Paula Mayrink, amigo pessoal de Rio Barbosa. Mas o Banco dos Estados Unidos do Brasil criado por Mayrink nasceu sob suspeita de fraude, de falsificação de seu capital. O Encilhamento (como foi chamada a política econômica de Rui Barbosa), foi usado com maestria para alguns poucos brasileiros enriquecerem enquanto o país era levado à bancarrota.

Nassif é enfático ao afirmar que “…os golpes foram montados em cima de emissões primárias de ações. O comprador pagava 10% do valor da emissão; a empresa era lançada. Quando necessitava de mais capital, procedia a novas chamadas. Se o investidor não subscrevesse a nova chamada, perdia direito ao que já havia pago.” O resultado da jogada era sempre o mesmo “…as empresas não tinham como reduzir o valor das ações, que estavam amarradas ao valor nominal dos vencimentos. Resultava disso o encalhe dos lançamentos posteriores, inviabilizando as empresas e dando prejuízo integral aos acionistas.”

Ainda segundo o autor depois da “…especulação com ações, seguiu-se uma muito mais ampla, sofisticada e intensa com o câmbio, em geral pouco estudada, principalmente após a quebra do Banco Baring Brothers, inglês, especulando com câmbio na Argentina.” No Brasil de “…janeiro a abril, tal como Demétrio havia previsto, houve intensa desvalorização cambial, de cerca de 25%, seguida da volta da inflação. De uma taxa negativa de 16,1% em 1887, a inflação chegou a alcançar 84,9% em 1891, quando a especulação atingiu o seu auge.”

Luis Nassif esclarece que na verdade “… tinha havido um volume considerável de vendas cambiais a descoberto antes da safra. Os tomadores dos papéis passaram a atuar para forçar a baixa do câmbio. No momento da liquidação, quem tinha vendido a descoberto (isto é, sem dispor da mercadoria) foi obrigado a ir ao mercado adquirir cambiais a preços mais elevados. A corrida dos vendedores a descoberto deflagrou um jogo especulativo pesado, em que as somas jogadas eram sucessivamente elevadas.”

A especulação guarda muitas semelhanças com o jogo organizado. Em ambos só os grandes apostadores ganham sempre. No caso do jogo, quem o banca embolsa todas as apostas e paga os prêmios (que geralmente são inferiores ao arrecadado dos apostadores). Num surto de especulação, os grandes Bancos acabam se beneficiando das vulnerabilidades de cada um dos especuladores. Foi o que ocorreu no princípio da República. “Com a dinheirama inundando a economia e as reservas de ouro dos bancos podendo influenciar o mercado de câmbio, o movimento especulativo em torno da Bolsa de Valores atingiu ao máximo.”

Ao invés de estancar a sangria da economia real, Rui Barbosa patrocinou a fusão entre o Banco do Conselheiro Mayrink com o Nacional de Figueiredo. A medida agravou a crise. Pessoalmente, entretanto, Rui não foi prejudicado. Em virtude de suas relações perigosas com os banqueiros ele abocanhou a Presidência da Companhia Frigorífica e Pastoril Brasileira e o posto de consultor jurídico da Light and Power Co. Ltda. Em 1893 “…dois anos depois de deixar o governo, Rui estava suficientemente rico para comprar o palacete neoclássico na rua São Clemente, em Botafogo, que pertencera ao Barão da Lagoa”.

Durante o Encilhamento, Carlito, o jovem cunhado de Rui Barbosa também ficou rico. Registrou em suas memórias as seguintes palavras, que foram reproduzidas por Nassif:

“Minhas atividades em torno da Bolsa proporcionavam-me resultados que me faziam nadar em dinheiro. Os sucessos eram expostos na nossa rodada como tacadas. De quando em quando, uma de 20, 30, de 50 contos.”

As possibilidades do Real eram muito boas. A sociedade havia produzido uma série de consensos que culminou na elaboração da nova política econômica. O quadro internacional era favorável à modernização do país. “A remonetização era um jogo de xadrez com inúmeras possibilidades. Os economistas do Real poderiam ter escolhido o caminho da chamada monetizarão da dívida pública. No vencimento, em vez de títulos, o investidos receberia reais. A dívida seria monetizada, desapareceria, e o mercado teria que se reorganizar para reciclar os recursos, abrindo espaço para investimentos na atividade real.”

Não foi o que ocorreu. A exemplo do Encilhamento, o Plano Real foi usado pelos seus idealizadores mais para enriquecer do que para sanar as graves deficiências da ordem econômica e social brasileira. Quando ocorreu a troca de moedas a equipe econômica de Fernando Henrique Cardoso permitiu “…ganhos extraordinários para os grupos que foram antecipadamente informados sobre a lógica de apreciação do real. Era uma jogada irresponsável, mas que aconteceria apenas uma vez, permitindo uma ‘tacada’ – no jargão do mercado financeira, o golpe aproveitando a oportunidade única, termo, aliás, bastante utilizado por Carlito, o cunhado de Rui, para explicar suas operações.” Curiosamente, quando era estudante, Gustavo Franco, que foi o ideólogo do Real, chegou a escrever uma monografia sobre a política econômica de Rui Barbosa.

Em OS CABEÇAS-DE-PLANILHA o jornalista Luis Nassif demonstra as artimanhas empregadas pelos gestores do Plano Real para encher suas algibeiras e corajosamente afirma que:

“Pérsio Arida era eminentemente técnico, via o plano como uma revanche do Cruzado e se preocupava com sua consistência. Só depois que saiu do governo se envolveu com o mercado, enriquecendo-se como sócio do complicadíssimo banqueiro Daniel Dantas, do Banco Opportunity. A gratidão dos colegas para com ele, e o reconhecimento de que perdera a chance de enriquecer, ao contrário dos demais, foram elementos centrais nas facilidades que encontrou para mobilizar fundos de pensão que permitiram a Daniel Dantas tornar-se um dos vencedores do processo de privatização brasileiro.”

“André Lara Resende via o plano como uma forma de enriquecimento e ascensão social.”

“Gustavo Franco era o ideólogo, mas casava com brilhantismo conhecimentos históricos, teóricos e de mercado. Era um personagem mais interessante que os demais – Pércio com seu rigor técnico, André com sua ambição de enriquecer.”

A obra de Luis Nassif aponta os descaminhos do Plano Real e da privatização. Demonstra como os gestores do mesmo desperdiçaram a segunda oportunidade para o país se tornar desenvolvido (exatamente como ocorreu na época do Encilhamento). O livro desmantela cada uma das mentiras, simplificações, distorções e meias-verdades que foram empregadas na década de 1990 para preservar os juros altos e câmbio superestimado apesar dos seus malefícios para o país (ou por causa dos benefícios pessoais que alguns auferiam). Mas não vou descer aos detalhes. Os interessados devem consultar OS CABEÇAS-DE-PLANILHA.

20 anos do "Plano Real" e 7 anos de "Os Cabeças-de-Planilha" | GGN

29/06/2014

Filhos do I-ta-mar

Filed under: Escândalo da Parabólica,FHC,Inflação,Itamar Franco,Plano Real — Gilmar Crestani @ 10:09 am
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Nos 20 anos do lançamento do Plano Real, a Folha esconde dos filhos o próprio pai. Cassado Collor, Itamar Franco assumiu a Presidência. Foi no governo dele lançado o plano de estabilização. A Folha tem bons motivos para esconder o pai, simplesmente porque a Folha quer tornar o ministro adotado pelo Itamar em pai do plano. Mas  o pai que a Folha quer é o mesmo que tinha uma funcionária da Globo como amante, Miriam Dutra. A moça engravidou e FHC assumiu a paternidade. É da natureza de FHC assumir as “coisas boas” que os outros fazem, como Rubens Ricúpero assumiu no famoso Escândalo da Parabólica… O tempo é senhor da razão, e os filhos de D. Ruth provaram, com exame de DNA, e por conheceram o próprio pai, que aquele não era de FHC, mas só filho da mãe… Se os filhos de D. Ruth não conhecessem FHC não teriam pedido exame de DNA para provar que aquilo que o pai dizia era mentira. E quem lucrou com a amante? Quem a escondeu na Espanha? Quem a sustentou na Espanha? E assim não se contou a história da captura do Governo do prof. Cardoso pela Rede Globo, que deu as cartas e jogou de mão…

Como se pode ver, o Plano de real também teve fdp!

Filhos do real

Geração que cresceu após a estabilização econômica, há 20 anos, chega ao mercado de trabalho com mais possibilidades de planejar sua carreira e seu futuro

INGRID FAGUNDEZDOUGLAS GAVRASDE SÃO PAULO

Geraldo Santos, 54, viveu dias difíceis nos corredores do supermercado Casa Santa Luzia, nos Jardins, em São Paulo. Remarcador de preços nos anos 1980, ele trocava etiquetas dos produtos várias vezes ao dia, enquanto se esquivava de clientes furiosos.

A cena era comum em mercados durante o período da hiperinflação, que fazia os preços variarem a toda hora.

Hoje, um dos filhos de Geraldo, Anderson, 29, é analista de importação na mesma loja e nunca precisou explicar a um cliente por que a comida estava mais cara.

Entre esses dois cenários está o lançamento do real, que ocorreu em 1º de julho de 1994, e conduziu a economia brasileira à estabilidade.

Anderson faz parte de uma geração que era criança nos anos 1980 e tem poucas lembranças das várias moedas que o país teve (cruzeiro, cruzado, cruzado novo"¦).

No dia 1º, outra geração, que não teve contato com essa realidade, faz 20 anos.

‘GERAÇÃO REAL’

Diferentemente de seus pais, esse jovens entram no mercado de trabalho em um ambiente econômico mais favorável. Não é preciso gastar o dinheiro imediatamente para evitar que ele desvalorize, e a renda aumentou.

"Do ponto de vista econômico, o real foi um mundo novo. Havia períodos, no começo dos anos 1990, de 4% de inflação ao dia. Ficar com o dinheiro parado era perder", diz o professor de economia da UFRJ André Modenesi.

Com a necessidade de viver no curto prazo, era difícil planejar o orçamento doméstico, ainda mais a carreira ou a compra de um imóvel.

As trajetórias de Geraldo e Anderson expressam essa diferenças. O primeiro não fez faculdade, teve quatro filhos e ainda pagava a casa própria quando a caçula nasceu.

Já Anderson se formou, ainda mora com os pais e paga o apartamento onde vai viver depois de se casar.

Nos anos 1980, além de lidar com clientes irritados, Geraldo tinha que preencher a vitrine do açougue com abóboras, já que faltava carne.

Em casa, a situação também era preocupante. As contas apertavam o orçamento, enquanto a família crescia.

"Perdi noites de sono por causa das prestações. As crianças pediam coisas e não podia comprar. Era uma dor no coração", lembra Geraldo, hoje gerente da Santa Luzia.

Com 20 anos, o estudante Danilo Cardoso lembra do descontrole econômico apenas pelos registros na carteira de trabalho de sua avó. Ao ver o reajuste do salário para compensar a inflação, ele achava que o valor dobrava.

Do armário usado para estocar alimentos em casa, ficaram só as histórias. "Na minha infância tinha sumido."

De Mogi das Cruzes, Cardoso veio estudar em São Paulo bancado pela família. Em julho, fará intercâmbio na Colômbia. O estudante considera que tem mais liberdade para ousar em seus planos.

"Pude me mudar, estudar inglês, tive acesso a oportunidades que meus pais não tiveram. Me sinto tranquilo, mais do que imagino que eles se sentiam na minha idade."

Para o professor do departamento de Economia da PUC-Rio, Luiz Cunha, o Plano Real foi a condição fundamental para os jovens saírem da "corrida infindável" de viver em função da inflação.

"O ambiente no qual toma decisões é muito mais tranquilo. Ele tem mais informação, o amparo financeiro dos pais, pode escolher melhor."

Marcela Pacífico, 19, é a primeira em três gerações de sua família que pôde definir o começo de sua carreira. Neta de Lúcia Pacífico, presidente do Movimento das Donas de Casa e Consumidores de Minas Gerais, que fiscaliza preços, ela cresceu ouvindo as dificuldades da época.

"Minha mãe foi trabalhar aos 17 anos. Só depois fez graduação. Ela se arrepende."

Veja vídeo sobre as gerações pré e pós-real
folha.com/no1477901

27/02/2014

iReal

E não vamos nos esquecer que a Copa de 1994 a Globo vendeu o pai do Real por razões que só  hoje estão claras: a Globo, via Miriam Dutra, havia capturado FHC. FHC é tão pai do Real quando o é do filho de Miriam Dutra. Mas isso nada importa porque todos os que tinham de lucrar com sua chegada à Presidência foram muito bem aquinhoados pelo “cavalo de Tróia” da Globo.

INJUSTIÇAS

Janio de Freitas

A comemoração de 20 anos do Plano Real foi uma homenagem à injustiça. O plano só existiu porque Itamar Franco estava determinado a arriscar tudo contra a inflação. Antes de Fernando Henrique chegar à Fazenda, Itamar destituiu dois ministros, Paulo Haddad e Gustavo Krause, por relutarem em lançar um projeto anti-inflação radical, mais um, Eliseu Resende, por falta de condições políticas para a tarefa.

Fernando Henrique só lembrou Itamar Franco para falar do convite que lhe entregou o Ministério da Fazenda, e a versão é, no mínimo, imprecisa.

Foi ainda a persistência de Itamar que fez Fernando Henrique afinal desengavetar o plano, que já estava pronto há quase um semestre. E disso veio a outra injustiça da comemoração. André Lara Resende só foi citado no discurso de Fernando Henrique em cambulhada com uma fieira de nomes, presentes até quem não colaborou –ainda bem– sequer com vírgulas no projeto. André Lara, uma inteligência criativa, foi o artífice do plano, com a colaboração também imaginosa de Pérsio Arida.

17/10/2011

Só vermes se apropriam de cadáveres

Filed under: FHC,Isto é PSDB!,Itamar Franco — Gilmar Crestani @ 6:57 am
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Uma ofensa a Itamar

Os criadores do programa do PSDB, que foi ao ar ontem, apropriaram-se, sem qualquer constrangimento, de êxitos do governo do grande mineiro, atribuindo-os ao PSDB. A subtração não foi apenas a do Plano Real. Não tiveram os autores do programa nenhum pudor de atribuir “ao governo do PSDB”, a introdução dos medicamentos genéricos, uma criação do ministro Jamil Haddad.

Mauro Santayana

Com seu ceticismo habitual, Tancredo Neves dizia que os melhores cemitérios do mundo são os brasileiros. Uma vez aqui sepultado, o morto, quando muito, é lembrado na missa do sétimo dia. E se houver missa de ano, só estarão presentes alguns familiares e os amigos pessoais sobreviventes.
Com Itamar Franco, que teve o corpo cremado, o esquecimento parece ter sido mais rápido. Os criadores do programa do PSDB, que foi ao ar ontem, apropriaram-se, sem qualquer constrangimento, de êxitos do governo do grande mineiro, atribuindo-os ao PSDB. O governo de Itamar foi suprapartidário. Foi tanto do PSDB quanto do PMDB e do PFL, do PDT e do PT – se consideramos a presença de Luíza Erundina no comando da Secretaria de Administração. Exercido sem qualquer vinculação partidária, foi um dos raros momentos da História Brasileira em que houve admirável consenso, com a única restrição do PT. O Partido dos Trabalhadores, em sua disposição de disputar a Presidência, talvez não tivesse alternativa, a não ser buscar o próprio espaço. Os demais compreenderam a necessidade de ajudar o Presidente a administrar cautelosamente o intervalo, antes das eleições presidenciais de 1994.
Quanto à apropriação do Plano Real por parte de Fernando Henrique, já estamos acostumados a esse ilícito ético. Se formos admitir que o Plano é do PSDB, porque Fernando Henrique era ministro da Fazenda quando ele foi elaborado, talvez fosse melhor atribuí-lo ao financista alemão Hjalmar Schacht, que interrompeu a voragem hiperinflacionária da Alemanha, em novembro de 1923, ao criar o “Rettenmark”, cuja formula serviu de modelo ao Real. Não fosse a coragem de Itamar – em assumir o Plano depois de revisá-lo minuciosamente, como bom matemático que foi – e não teríamos debelado a inflação.
Quem deu credibilidade popular ao real foi a autoridade política e ética de Itamar Franco. Mas a subtração não foi apenas a do Plano Real. Não tiveram os autores do programa nenhum pudor de atribuir “ao governo do PSDB”, a introdução dos medicamentos genéricos, uma criação do Ministro Jamil Haddad. Outra corajosa decisão de Itamar, relutantemente adotada pela equipe econômica, e sugerida pelo economista Dércio Garcia Munhoz, foi a de transferir para o Ministério da Saúde, que já não dispunha de recursos mínimos, os elevados lucros do Banco Central naquele exercício.
O grande êxito de Itamar, no entanto, foi de natureza ética. O Presidente não titubeou, um só momento, em corrigir imediatamente os desvios identificados. Demitiu, sumariamente, o Ministro Eliseu Resende, seu amigo pessoal, quando ele não soube explicar o pagamento de diárias de hotel por uma empreiteira, e mandou que outro amigo e Ministro da Casa Civil, Henrique Hargreaves, se licenciasse do cargo e fosse responder a uma comissão parlamentar de inquérito. Inocentado pela CPI, Hargreaves retornou ao seu lugar no Planalto.
Itamar criou uma Comissão de Investigações para apurar as denúncias de corrupção no poder executivo, constituída de pessoas estranhas ao governo, e de indiscutível idoneidade moral, como os advogados Modesto Carvalhosa e Cândido Mendes, entre outras. No final de seu mandato, Itamar entregou a Fernando Henrique, no ato da transmissão do cargo, um relatório parcial da equipe. Quando todos esperavam que o novo presidente mantivesse a Comissão, necessária à transparência do governo, ele dissolveu-a como um de seus primeiros atos – e não tomou conhecimento do relatório.
Poderiam ter respeitado o grande morto.

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

Carta Maior – Mauro Santayana – Uma ofensa a Itamar

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