Ficha Corrida

27/04/2015

A guerra dos ditadores era contra agitadores

marcha dos zumbisNo dia de hoje a Folha republica matéria de 50 atrás. A guerra do ditadores eram contra os agitadores. Os agitadores de hoje querem a ditadura. Vá entender o mugido desta manada. O perigoso agitador era Miguel Arraes, avô de Eduardo Campos. Sim, ao invés de combater a corrupção e o ócio nas forças armadas, os ditadores faziam guerra aos agitadores.

Eleição legítima era feita na sauna, vestidos só de quepe. Mas para ditadores, era legítima.

Ah, se os coxinhas soubessem um pouco mais de história…

HÁ 50 ANOS

Costa e Silva reassume pasta da Guerra e adverte ‘agitadores’

DO BANCO DE DADOS – O general Arthur da Costa e Silva reassumiu ontem (26/4) o Ministério da Guerra e advertiu em seu discurso "os agitadores e traidores". "As Forças Armadas enfrentarão sem transigência toda e qualquer ação contrária aos supremos interesses da nação", disse.

A fala foi uma reação ao debate nas Forças Armadas sobre a libertação do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, no dia 21. Os generais temem que o fato seja visto como fraqueza do governo.

Costa e Silva também defendeu Castello Branco, afirmando que ele foi "eleito legitimamente pelos representantes do povo brasileiro".

21/04/2015

Saiba por que a velha mídia está falindo

Que o velho coronelismo eletrônico está de mal a pior não há dúvida. A divergência reside no diagnóstico. Por que, afinal, os velhos grupos mafiomidiáticos, assoCIAdos ao Instituto Millenium, estão falindo? Por que nem mesmo os velhos gorilas estão mais ao lado deles. Sem a velha parceria, definham a olhos vistos.

As boas reportagens que deveríamos esperar da velha mídia já não saem mais das rotativas. Estão ocupados demais em chamar a manada. Nem mesmo a marcha dos zumbis, tão bem acalentadas por eles, deu esperança aos golpistas. No aniversário do golpes, os golpistas perambulam pelas ruas. Como diria o Demóstenes Torres quando se lembra de Ronaldo Caiado, são cérebros vazios que perambulam à procura de uma ideia. Hoje, não há informação digna deste já nome nos meios que se auto proclamam de informação. São os sites independentes, como o Jornal Já, que trazem ares novos à para o mercado de informação.

O ‘Almanaque’ dos tempos de chumbo

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Luiz Cláudio Cunha

Enfim, uma boa notícia neste pântano de informações desalentadas que fazem cada vez mais opressivo o cotidiano dos brasileiros: nenhum quartel, nenhum general ousou comemorar a tragédia de 31 de março de 1964, o golpe militar que derrubou o presidente João Goulart e implantou a ditadura militar há 51 anos. O silêncio não foi produto de uma súbita conversão democrática, mas ordem sumária da comandante-suprema das Forças Armadas, a presidente, ex-guerrilheira e ex-torturada Dilma Rousseff.

Ainda assim, as faixas e gritos nada esparsos de grupos nas ruas que tentam jogar gasolina na fogueira da crise, pedindo a volta da ditadura e ‘intervenção militar já!’, mostram um dado preocupante que nivela gerações diferentes pela ignorância e pela nostalgia. Os mais jovens, ignorantes dos horrores que disseminou a ditadura ao longo de 21 anos, e os mais velhos, cínicos saudosos de benefícios do regime de força que ruiu em 1985 com o advento da democracia.

Em 23 de março passado, uma semana antes do aniversário do golpe de 1964, o Latin American Public Opinion Project (Lapop), um projeto de pesquisa coordenado em 28 nações das Américas pela Universidade Vanderbilt, do Tennessee (EUA), divulgou o seu Americas Barometer, desta vez medindo o apoio a um eventual golpe militar em cada comunidade nacional. Entre os 23 países pesquisados, o Brasil ocupa um constrangedor sexto lugar, com 47,6% de respostas positivas a um golpe militar em um ambiente de alta corrupção, no levantamento realizado em solo brasileiro pelo instituto Vox Populi, em 2014. O campeão de nostalgia é o Paraguai, que padeceu a mais longa ditadura do continente sob a era do general Alfredo Stroessner (1954-1989), com 56,1% de apoio dos paraguaios à volta dos militares sob a justificativa de combate à corrupção.

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A erosão da fé democrática no Brasil pode ser medida pelos gráficos que medem a temperatura do golpe, entre 2007 e 2014. Sete anos atrás, ainda no Governo Lula, 38,9% dos brasileiros justificavam a volta dos militares ao poder pelo pretexto da elevada corrupção. Em 2010, quando Dilma venceu a eleição presidencial, um de cada três brasileiros (35,5%) apoiava a intervenção militar. Quatro anos depois, a situação se agravou: em 2014, um de cada dois brasileiros (47,6%) justificava um golpe militar sob o pretexto da corrupção elevada.

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A crise de confiança na democracia persiste mesmo quando se cruza a pergunta central com o índice de aprovação da presidente Dilma Rousseff. No centro da oposição mais ferrenha ao Palácio do Planalto, os que consideram o Governo Dilma “ruim ou muito ruim”, o índice de simpatia a um golpe militar pela justificativa da corrupção chega a 52,8%, mais da metade dos consultados na pesquisa. Entre os indiferentes, que acham que o governo não é bom, nem ruim, a justificação ao golpe chega a 46,4%. O dado mais assombroso é entre a população que apoia Dilma e que considera seu governo “bom ou muito bom”: 45,6% dessa suposta base governista reagem à roubalheira com a solução radical e imbecil do golpe militar.

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Uma boa explicação para este surto autoritário dos brasileiros, manipulados ou não, está na memória fraca do país. Ao contrário do Brasil, os últimos países do ranking são justamente Argentina, Uruguai e Chile, parceiros da ditadura brasileira nos anos de chumbo das décadas de 1960-1980, quando o Cone Sul era o inferno do terrorismo de Estado imposto por generais que esmagavam a democracia e os opositores sob o mantra da luta antisubversiva.

O dever de casa

O Chile, com apenas um entre cinco chilenos apoiando um novo golpe militar (23,5%), é o ultimo país do ranking, ou o mais antipático à volta do regime dos generais. Logo acima estão Uruguai (28,8%) e Argentina (29,3%), mostrando a forte discordância da esmagadora maioria de seus povos ao arbítrio que hoje encanta tantos brasileiros de cabeça fraca ou mero oportunismo.

Existe uma razão forte que justifica esta acentuada debilidade democrática entre nós: o Brasil é o país mais leniente no processo de accountability, a devida prestação de contas necessária para a Justiça de transição que levou nossos vizinhos da treva da ditadura para a luz da democracia. Chilenos, uruguaios e argentinos fizeram o que os brasileiros demoraram a fazer, ou nunca fizeram. As Comissões da Verdade, por exemplo. A brasileira foi instalada apenas em 2012, 27 anos após a saída do Palácio do Planalto – pela porta dos fundos – do último ditador de plantão, o general João Baptista Figueiredo.

Quando os investigadores da Comissão Nacional da Verdade (CNV) começaram a levantar os nomes, endereços e fichas dos que serviram ao regime militar e praticaram ou testemunharam graves violações de direitos humanos, esbarraram no calendário tardio e na barreira intransponível do tempo. Boa parte de quem sabia ou cometia torturas já tinha morrido. Os sobreviventes, esmagados pela idade avançada, estavam todos com Alzheimer, Parkinson ou uma indisfarçável má vontade para abrir a porta, escavar lembranças ou compartilhar seus arquivos. Assim, o Brasil continua a ser a única grande ditadura da região que não tem um só militar condenado por duas décadas de arbítrio inesquecível.

Lerdo, preguiçoso, tardio na apuração dos crimes de lesa-humanidade praticados pelo regime dos generais de 1964, o Brasil não deu elementos nem argumentos para dissuadir os jovens de 2015 da defesa inconsequente que fazem agora de uma ditadura que não viveram e que insistem em desconhecer. Esse erro infantil não cometeram nossos vizinhos. Em 1983, no mesmo ano em que caiu a ditadura, a Argentina instalou a sua Comissão Nacional sobre Desaparecimento de Pessoas (Conadep), que investigou o período sangrento da “guerra suja”, entre a primeira junta militar, do general Jorge Videla (1976) e a última, do general Reynaldo Bignone (1983). Em 1985, apenas dois anos após o fim do regime militar, o Uruguai estabeleceu sua comissão sobre desaparecidos políticos. Em 2000, fez uma segunda, a Comissão para a Paz, que colheu os depoimentos para o relatório Uruguay Nunca Más. E o Chile, assim que Pinochet saiu da cena política, instituiu em 1990 a sua Comissão Nacional da Verdade e Reconciliação, encarregada de apurar os abusos praticados entre a queda de Salvador Allende, em 1973, e a retirada de Pinochet.

O Brasil, com a hipocrisia habitual, formou sua Comissão Nacional da Verdade cedendo à pressão nada sutil dos generais. Para não melindrar os comandantes militares, em vez de mirar especificamente o período de 21 anos da ditadura (1964-1985), fingiu que iria pesquisar abusos ao longo dos 43 anos entre duas Constituintes – as de 1945 e de 1988. Assim, os generais imaginavam nivelar suas décadas de arbítrio e terror militar aos governos de civis democraticamente eleitos como os de Eurico Gaspar Dutra, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart. (Tancredo Neves, eleito pelo Colégio Eleitoral que derrotou o candidato da ditadura Paulo Maluf, não chegou a exercer seu mandato).

Apesar da tentativa de cerceamento, a CNV não perdeu o foco no período da ditadura e fez avanços importantes, cumprindo com seriedade uma tarefa difícil, agravada por três obstáculos importantes: o cinismo dos comandantes militares, a tibieza do Palácio do Planalto e a omissão do Congresso Nacional.

Cinismo e tibieza

Durante os 31 meses em que funcionou, a CNV lutou contra a explícita má vontade dos generais que negavam qualquer colaboração ou acesso a arquivos militares. O jornal O Globo chegou a divulgar um ofício do então comandante do Exército, general Enzo Peri, proibindo, em fevereiro de 2014, que os quartéis liberassem à CNV informações sobre torturas ou abusos de direitos humanos. A falta de seriedade dos comandantes militares ficou explícita na resposta debochada que Exército, Marinha e Aeronáutica deram ao circunstanciado requerimento enviado pela CNV pedindo informações, com nomes, datas e documentos, sobre nove casos de mortes sob tortura e 17 relatos de presos torturados em cinco quartéis do Exército, uma base da Aeronáutica e outra da Marinha.

Atropelando as evidências e desprezando a inteligência da opinião pública, os comandantes simplesmente negaram os fatos, sustentando que nunca houve “desvio de finalidade” nas instalações militares listadas pela CNV como centros de tortura. Os generais chegaram ao ponto de esquecer o mais notório deles, a sede do DOI-CODI do II Exército, na afamada Rua Tutóia, em São Paulo, onde em 1970 foi barbaramente torturada uma guerrilheira de 22 anos do grupo VAR-Palmares, codinomes “Estela” ou “Vanda”, identificada nas fichas da repressão como Dilma Rousseff, hoje presidente da República e, como tal, comandante suprema das Forças Armadas.

Dilma teve o mérito de convocar a CNV e o demérito de não assumir suas conclusões. No momento solene de entrega do relatório final de três volumes e 4.328 páginas, responsabilizando 377 agentes e todos os cinco generais-presidentes pela morte e desaparecimento de 434 pessoas na ditadura, a ex-guerrilheira e comandante-em-chefe simplesmente amarelou. A primeira ideia de Dilma, talvez para não melindrar os generais já agastados pela dura conclusão da comissão, foi receber o relatório numa cerimônia privada no Palácio do Planalto, restrita aos sete comissários da CNV. Parecia um evento envergonhado, quase clandestino, que provocou repulsa nas famílias de ex-presos políticos e de mortos e desaparecidos. Diante do escândalo iminente, Dilma recuou e abriu a cerimônia para um salão de acesso do palácio restrito a convidados.

A mesma tibieza foi exibida por Dilma em 31 de março de 2014, quando se recordava meio século do golpe militar. Mais preocupada com a reeleição do que com sua biografia, Dilma deixou passar o aniversário em branco, sem a elegância de convocar a rede de rádio e TV para marcar a data histórica com o seu depoimento autorizado de ex-presa política e ex-torturada, que chegou ao poder não pelas armas da resistência à ditadura, mas pelo voto democrático do eleitor. Dilma esqueceu que, ao lado do uruguaio José Pepe Mujica e da chilena Michelle Bachelet, ela é a única presidente da República no continente que carrega na carne e na alma as cicatrizes do regime brutal dos generais.

A omissão do Congresso se mostrou pela baixa repercussão ali do cinquentenário do golpe e a falta de apoio explícito às duras conclusões da CNV, que começam com duas recomendações essenciais para atender à consciência cívica e moral de um país leniente com a tortura e com a ditadura, hoje festejada nas ruas. A primeira das 29 medidas propostas pela CNV pede o reconhecimento, pelas Forças Armadas, de sua responsabilidade nas torturas e violências cometidas durante o regime de arbítrio – uma impossibilidade prática enquanto prevalecer o cinismo do Alto Comando e a apatia da comandante-suprema. A segunda medida, que se impõe como dever histórico e exigência de cortes internacionais, é a revogação da Lei de Anistia que a ditadura desenhou, em agosto de 1979, para beneficiar os torturadores com o privilégio da impunidade.

Num Parlamento com 513 deputados e 81 senadores, existem apenas duas propostas para revisar esta obscena “lei de autoanistia” que os militares fizeram aprovar por apenas cinco votos (206 a 201) num Congresso emasculado pelos atos institucionais para garantir à força a hegemonia na Câmara dos Deputados do partido da ditadura, a Arena (221 cadeiras), sobre a frente de oposições abrigada no MDB (186). Um projeto da deputada Luiza Erundina (PSB-SP) e outro do senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), ambos pedindo a revisão da Anistia de 1979 para permitir a punição aos torturadores, são as únicas manifestações parlamentares que confirmam a omissão e o desinteresse de um Congresso conservador, desatento à História e aos seus compromissos éticos para com a verdade.

O silêncio que inspira

Diante de generais cínicos, governantes tíbios e parlamentares omissos, restou o consolo do silêncio institucional das Forças Armadas no aniversário de 51 anos do golpe de 1964. Na terça-feira, 31 de março, um grupo meio constrangido de 30 militares da reserva se reuniu na Praça do Mallet, em Santa Maria – 300 km a oeste de Porto Alegre, no coração do Rio Grande do Sul –, situada ao lado de um quartel de artilharia, para uma louvação à derrubada de João Goulart. Na cidade está a segunda maior concentração de tropas do Exército brasileiro, 20 mil homens reunidos em torno da 3ª Divisão de Exército que comanda cinco brigadas blindadas e a maioria dos tanques pesados do país, e a poderosa base aérea de Camobi, onde a FAB mantém quatro esquadrões com caças de ataque e helicópteros de combate. Nenhum de seus integrantes estava no festejo envergonhado da praça. Na Vila Militar, na zona oeste do Rio de Janeiro, maior agrupamento de força terrestre da América Latina, com 60 mil homens, quase um terço do efetivo atual (222 mil homens) do Exército brasileiro, nenhum dos 51 quartéis da área fez qualquer alusão ou ato pelo aniversário de 31 de março. Prevaleceu o respeito à democracia, que os militares golpearam pela quebra da legalidade constitucional.

Assim, o Brasil nem lembrou os nomes dos novos comandantes militares, nomeados por Dilma na primeira semana de seu novo mandato, em janeiro passado. Foi a primeira troca de comando nas Forças Armadas feita por ela, que tinha herdado de Lula os chefes militares que sobreviviam no cargo desde 2007. Essa saudável, quase despercebida, rotina burocrática é uma prova do vigor democrático do país, que os irresponsáveis que hoje pedem a volta da ditadura não sabem valorizar. Os jornalistas que viveram e padeceram sob o regime militar sabem toda a diferença. Eram tempos duros, de medo e censura, em que todo editor competente ou repórter bem informado precisava ter, como fonte de referência obrigatória, um livro que hoje ninguém mais conhece e que ainda é editado todo ano: o Almanaque do Exército.

A primeira edição a chamar atenção das redações e dos jornalistas é a do ano da graça de 1964, um catatau de 910 páginas pesando 1.176 gramas. A leitura era inóspita, mas essencial para entender e prever o que aconteceria com o Brasil e a vida (e morte) dos brasileiros, a partir do golpe. O Almanaque, como hoje e sempre, trazia a tediosa relação de cursos e graduações de oficiais, colocados num ranking de merecimento que lhe garantia a precedência nas listas de promoções. Nas democracias, isso é uma irrelevância administrativa de exclusivo interesse da comunidade castrense. Na ditadura, o Almanaque vigente era mais importante do que a Constituição revogada e estuprada.

O guia das redações

Os repórteres e editores das grandes redações no Rio e São Paulo e das sucursais em Brasília aprenderam a decodificar as entranhas do Almanaque para tentar decifrar o que poderia acontecer com os intestinos do poder enfeixado pelos generais. Ele traduzia um mundo fechado, distante, alheio ao universo dos civis e das lideranças políticas a que deviam se subordinar, se imperasse o mandamento constitucional. Estabelecido o arbítrio, a lei e a ordem estavam escritas e transcritas no Almanaque. Virou leitura ainda mais necessária para entender o país a partir de setembro de 1969, quando o general Arthur da Costa e Silva, o segundo presidente de plantão do golpe, sofreu um derrame.

Na confusão de poder criada pelo vazio do chefe, a primeira medida do Alto Comando foi vetar a posse do vice-presidente, o civil Pedro Aleixo. Mas era preciso botar alguém no lugar do presidente entrevado, e não podia ser um civil como Aleixo. A solução era consultar os únicos eleitores habilitados da ditadura: os generais. Num país de 90 milhões de brasileiros, em 1969, apenas os 118 que tinham estrelas de general nos ombros estavam habilitados a escolher o sucessor do doente Costa e Silva. A esculhambação daqueles tempos estranhos foi anotada por um dos generais do Alto Comando, Antônio Carlos Muricy, e resgatadas no livro A Ditadura Escancarada pelo jornalista Elio Gaspari, que lia com lupa de exegeta as minúcias do Almanaque. Os 118 generais foram divididos em 11 distritos eleitorais. Com o cinismo de sempre, eles não classificavam aquilo de eleição, mas uma simples “consulta”. Alguns generais votavam em três nomes, outros em apenas um.

No III Exército, em Porto Alegre, só votaram generais. No I Exército, no Rio de Janeiro, os generais abriram a consulta para coronéis. Muricy espantou-se com essa democracia ampliada: “Nesse caso vamos acabar no cabo. Vamos ouvir o cabo…” A oficialidade mais jovem, que chegava a capitães e majores, simpatizava muito com o general de divisão Afonso Albuquerque Lima, da linha dura, mas nacionalista. Na Marinha, ele recebeu 37 votos dos 65 almirantes consultados. Um dos almirantes de quatro estrelas chamou ao seu gabinete um almirante de três, Heitor Lopes de Souza, que comandava o Corpo de Fuzileiros Navais. O quatro estrelas avisou que a Marinha apoiaria Albuquerque, conforme o relato de Gaspari:

– Só se você quiser. Os fuzileiros ficam com Médici – reagiu Souza.

– Isso não é uma consulta. É uma ordem – replicou o almirante.

– Ordem coisa nenhuma. Você comanda uma mesa. Eu comando 15 mil homens – lembrou o fuzileiro insubordinado.

– Nesse caso, mando prendê-lo – insistiu o almirante.

– E eu lhe dou uma rajada de metralhadora – atalhou o almirante Azambuja, chefe do Estado-Maior dos fuzileiros, apoiando a insubordinação.

No final desse exótico processo eleitoral, o comandante do III Exército, general Emílio Garrastazú Médici, ganhou 77 referências na “consulta” a 102 generais, bem mais do que os 38 que preferiam Albuquerque. Na liturgia da ditadura, ficou expresso que um general de exército, de quatro estrelas, não poderia ser derrotado por outro de três estrelas, um mero general de divisão. Os galões da tropa lembravam a hierarquia, que sustenta a estrutura dos quartéis e que ajudou a justificar o golpe contra Goulart em 1964. Um episódio mostra isso com mais contundência. Nos dias confusos logo após o derrame de Costa e Silva, o senador Daniel Krieger, da Arena gaúcha, foi chamado a Porto Alegre para receber em primeira mão do general Emílio Médici a sugestão de chapa que ele levaria ao Alto Comando para a sucessão presidencial: Jarbas Passarinho, coronel da reserva do Exército e então ministro do Trabalho, para presidente, e Krieger para vice. A versão foi contada pelo próprio Passarinho, em 2010, ao repórter Geneton Moraes Neto, daGloboNews.

Decifrando signos

O delírio esbarrou na frase definitiva do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e futuro ministro do Exército de Médici, general Orlando Geisel, de reluzentes quatro estrelas: “Gosto muito do Passarinho, mas não bato continência para coronel…” A partir daí, a leitura atenta doAlmanaque virou norma de serviço para o jornalista que pretendia cobrir com precisão a política fardada do país. A cada nova edição, a cada nova lista de promoções, era preciso interpretar os códigos embutidos no perfil dos 14 iluminados generais-de-exército que integrariam o próximo Alto Comando, centro inacessível de poder aos brasileiros comuns que não tinham voto nem estrela. Um comando de tropa, um curso, uma viagem, uma antiga subordinação na academia militar ou nos grandes comandos poderiam decifrar o pensamento do novo general. Um militar mais liberal ou um perfil de linha dura apontariam um novo equilíbrio de forças que levariam o Brasil para a abertura ou para o endurecimento político. Era fundamental consultar e interpretar o Almanaque para entender a estranha mecânica do poder e seus desdobramentos.

Esse tempo de primazia verde-oliva e obsessão pelo Almanaque, felizmente, passou. Virou interesse específico apenas de quem vive o cotidiano do quartel, interessado na sua exclusiva evolução profissional, com acontece em todo regime democrático que observa os limites institucionais das Forças Armadas nos termos soberanos da Constituição, que não será jamais ultrapassada por um mero Almanaque.

Nada expressa melhor esta evolução democrática do que o perfil dos novos comandantes militares nomeados por Dilma e que ninguém – ainda bem – conhece. Nem é necessário consultar o Almanaque, basta digitar os seus nomes no Google. Assim, o jornalista que assina este texto, nascido em abril de 1951 em Caxias do Sul (RS), descobriu um dado aparentemente consolador: pela primeira vez é mais velho do que os homens que comandam o Exército, a Marinha e a Aeronáutica.

Todos os três possuem fichas imaculadamente limpas na questão dos direitos humanos e da lealdade à democracia, um contraste animador diante de antecessores e comandantes que ficaram marcados, décadas atrás, pela brutalidade que inspiravam ou admitiam em seus subordinados no auge das violências da ditadura – e que nunca apareciam nas páginas do Almanaque.

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Fora do Almanaque

O general Eduardo Dias da Costa Villas-Boas, nascido em novembro de 1951 em Cruz Alta (RS), só ingressou na escola de cadetes de Campinas em março de 1967, duas semanas antes de Costa e Silva suceder Castelo Branco. Virou aspirante de Infantaria na Academia das Agulhas Negras no final de 1973, quando Médici liderava a terceira e última missão do Exército no Araguaia – a “Operação Marajoara”, envolvendo 400 homens sob o comando do CIE, o Centro de Informações do Exército. Um ano depois, a guerrilha do PCdoB estava dizimada. Villas Boas chegou a segundo tenente em agosto de 1974, cinco meses após a posse de Ernesto Geisel, e a primeiro-tenente em agosto de 1976, quatro meses antes da “Chacina da Lapa” – a operação do DOI-CODI contra o Comitê Central do PCdoB no bairro paulistano da Lapa, que matou três dirigentes do partido, incluindo Ângelo Arroyo e Pedro Pomar. Foi promovido a major no Governo Sarney, em 1986, a tenente-coronel no Governo Collor, em 1991, e a coronel no Governo FHC, em 1996. Conseguiu suas duas estrelas de general de brigada em 2003, no Governo Lula, e as quatro estrelas do topo da carreira, general de exército, no Governo Dilma, em 2011.

Nesse longo período, até pela idade, o novo comandante do Exército esteve distante dos horrores e abusos cometidos pelos camaradas de farda durante a ditadura. Só viu o comunismo de perto em Pequim, no início da década de 1990, quando era adjunto do adido militar na embaixada do Brasil na China.

O comandante da Marinha, almirante de esquadra Eduardo Bacellar Leal Ferreira, nascido em junho de 1952 no Rio de Janeiro (RJ), virou guarda-marinha aos 22 anos, em dezembro de 1974, quando Ernesto Geisel já estava no Planalto. Chegou a primeiro tenente em agosto de 1977, quatro meses após Geisel fechar o Congresso para o “Pacote de Abril” que inventou o senador biônico, estendeu o mandato de presidente para seis anos, cancelou as eleições diretas para governador em 1978 e garantiu a maioria da Arena no Colégio Eleitoral pela ampliação artificial das bancadas governistas nos grotões mais pobres do Norte e Nordeste. Virou capitão tenente em agosto de 1979, três dias após Figueiredo assinar a Lei de Anistia que anistiou os torturadores, e chegou a capitão de corveta em agosto de 1985, na ressaca das “Diretas-Já”. Ganhou a estrela de contra almirante em 2004, no Governo Lula, e chegou a topo como almirante de esquadra em 2013 no Governo Dilma.

Por fim, o comandante da Aeronáutica, tenente brigadeiro do ar Nivaldo Luiz Rossato, nascido em agosto de 1951 em São Gabriel (RS). Virou aspirante da FAB em dezembro de 1975, no segundo ano do Governo Geisel, e capitão em agosto de 1981, quatro meses após o atentado do Riocentro, no Rio, que feriu de morte o terrorismo do DOI-CODI, infartou o presidente João Figueiredo e implodiu o sonho do general Octávio Medeiros (chefe do SNI) de ser o sexto presidente do ciclo militar. Ganhou a estrela de oficial general como brigadeiro do ar em 2003, no Governo Lula, e chegou ao limite da carreira com as quatro estrelas de tenente brigadeiro do ar em 2011, no Governo Dilma.

Um detalhe extra, que não está em nenhum Almanaque e ainda não pode ser localizado no Google: nos dias agitados que antecediam o golpe, no frescor de nossos 12 anos, eu e o futuro comandante da FAB frequentávamos, sem saber, as mesmas ruas de sua cidade natal, São Gabriel, para onde tinha me mudado quatro anos antes. Talvez tenhamos nos cruzado, de bicicleta, pelas largas calçadas da pacata Praça Fernando Abbot, no centro da cidade, onde todos os moleques se divertiam sem compromisso.

Eu e o brigadeiro Rossato nunca nos conhecemos. Nem poderia imaginar que aquele desconhecido guri de São Gabriel ingressaria depois na carreira militar, sobreviveria incólume aos anos de chumbo da ditadura que estava nascendo e se tornaria, na segunda década do novo milênio, o comandante da Aeronáutica de um governo democrático, exercido por uma ex-presa política e ex-torturada de um regime que, nos idos de março de 1964, ainda não perturbava a paz daquela praça no interior distante do Rio Grande do Sul.

Nada disso, afinal, estava escrito no Almanaque.

***

Luiz Cláudio Cunha, jornalista, é autor de Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios (L&PM, 2008)

Leia também:

O ‘Almanaque’ dos tempos de chumbo – Jornal Já | Porto Alegre | Rio Grande do Sul

12/03/2015

Clube militar: “nós matávamos por muito menos”

avante-soldados-para-tras-14453-MLB3355656801_112012-FÉ impressionante falta da memória destes gorilas. Collor foi parceiro da ditadura, cria da Globo. O PP descende diretamente da ARENA, cria da ditadura. E aí vem estes celerados Tonton Macoute nos querer dar lição de moral. Por que será que todo sem vergonha sempre é o primeiro que nos quer dar lição de moral?!

Quem colocou Collor no governo federal foi gorilas como estes do Clube Militar, razão pela qual deveriam ter se esforçado mais para tirarem-no de lá. Melhor do que limpar é não sujar. Se não conseguem não se sujarem, que pelo menos aprendam a usar papel higiênico.

A única guerra que estes caras enfrentaram foi estuprar depois que vítima estava no pau-de-arara. Perseguiam todos os que pensavam diferente. Quem não conseguia fugir, prendiam sem mandado, torturavam por prazer, estupravam por falta de mãe, e matavam porque gorila não conhece o pai.

Para quem preferiu o cheiro de cavalo ao do povo não é de admirar que se perfile ao lado da massa cheirosa para dar golpe. Estes caras só são valentes com arma na mão e desde que o adversário esteja preso. É por isso que a melhor história do nosso heroísmo militar tenha sido escrito por Dionísio da Silva: “Avante, soldados: para trás!”

Eles podem pensar que todos somos como os filhos deles. Mas, como nos demais assuntos que metem o bico sem serem chamados, erram feio. Nem todo mundo nasceu para bater continência e servir de rabo entre as pernas.

Se eles tivessem vencido o Paraguai sem ajuda da Argentina, Uruguai e Inglaterra, aí talvez merecessem dar palpite. Por enquanto, que o milico não vá além de lustrar os próprios botões!

Clube militar: Collor foi afastado por menos

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“Estamos acompanhando com preocupação esse desgaste grande não só do Executivo, mas também do Legislativo. Vemos com apreensão como tudo isso vai acabar”, disse o representante da entidade, general Sérgio Costa de Castro; segundo ele, os protestos populares contra a presidente Dilma Rousseff se assemelham ao momento anterior ao golpe de 64; ele cita o caso de corrupção na Petrobras e afirma que o ex-presidente Fernando Collor de Mello foi afastado do cargo “por muito menos”

12 de Março de 2015 às 07:29

247 – O Clube Militar se mostra favorável ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. Em entrevista ao site do Valor, o representante da entidade, general Sérgio Costa de Castro cita o caso de corrupção na Petrobras, que “gera muita insegurança no país” e diz que o ex-presidente Fernando Collor de Mello foi afastado do cargo “por muito menos”.

“Estamos acompanhando com preocupação esse desgaste grande não só do Executivo, mas também do Legislativo. Vemos com apreensão como tudo isso vai acabar”, afirma.

Segundo ele, os protestos populares contra a presidente Dilma Rousseff se assemelham ao momento anterior ao golpe de 64, mas afastou a possibilidade de intervenção das Forças Armadas, embora ressalte: “Estamos vivendo uma época em que tudo pode acontecer” (leia mais).

Clube militar: Collor foi afastado por menos | Brasil 24/7

06/03/2015

Fundo do poço: assassinos e estupradores da ditadura agora cobram moralidade

Filed under: Aracely,Clube Militar,Ditadura,Energúmenos,Estupro,Gorilas — Gilmar Crestani @ 8:28 am
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Clube Militar lançará campanha pela ‘moralidade nacional’

DO RIO – O Clube Militar, no Rio, lança no próximo dia 19 uma campanha pela "moralidade nacional". A intenção é realizar debates e divulgar textos na internet com o combate à corrupção como tema principal.

O clube divulgou uma lista com 31 nomes, entre militares da reserva, jornalistas e políticos que, de acordo com a associação, aderiram à ideia.

Em uma carta, o grupo diz que a iniciativa surgiu "com a constatação de que valores da sociedade apresentam diversas distorções". "Os direitos de minorias prevalecendo sobre os da maioria" seriam uma delas, segundo o clube.

A informação surpreendeu o jornalista Fernando Gabeira, que aparece como signatário."Autorizei a utilização de meus textos no site. sobre esta questão não estou sabendo de nada. Não li o documento."

Para o general Gilberto Pimentel, presidente do clube, a pretensão é que a iniciativa "seja de todos que amam, verdadeiramente, o Brasil".

02/11/2014

Marcha dos vadios perde até para a marcha das vadias

Taí uma sugestão. Para engrossar o caldo, quem sabe na próxima manifestações os golpistas pedem conselho aos organizadores da marcha das vadias. Dizer que teve mais gente na marcha das vadias é pleonasmo. Enquanto a Marcha das Vadias contou com gente em busca da igualdade de direitos para homens e mulheres de qualquer credo, raça ou ideologia, a marca dos vadios só contou com ratazanas golpistas.

Quem tem como ídolos Lobão e Bolsonaro só pode fazer sucesso mesmo é na mídia de esgoto.

Não é só coincidência que este tipo de manifestação ocorra na terra dos Integralistas, camisas verdes, da TFP, do Plínio Correa de Oliveira, do Ademar de Barros, do Jânio Quadros, de FHC, de José Serra, do Orestes Quércia, do Paulo Maluf, do Celso Pitta… e do Tiririca! Com o perdão do Tiririca, que pelo menos não é golpista.

As mesmas marchas que antecederam o golpe de 1964, com a liga das famílias católicas, é também o berço da Opus Dei, o famigerado ramo do conservadorismo católico nascido na terra da Inquisição, com Josemaria Escrivá..

Ato por impeachment de Dilma reúne 2,5 mil em São Paulo

RICARDO CHAPOLA – O ESTADO DE S. PAULO

01 Novembro 2014 | 15h 35

Na Avenida Paulista, grupo pediu ainda a intervenção militar no País

Atualizado às 22h11

RELACIONADAS

SÃO PAULO – Um ato em defesa do impeachment da presidente Dilma Rousseff, convocado pelas redes sociais, reuniu neste sábado, 1º, segundo a Polícia Militar presente no local, cerca de 2,5 mil pessoas na região da Avenida Paulista, área central de São Paulo. A manifestação foi marcada também pela defesa de nova intervenção militar no País.

“Se você acha que democracia é isso que temos aqui, então sou a favor da volta do militarismo”, disse o investigador de polícia Sergio Salgi, de 46 anos. Ele foi ao ato com uma faixa com os dizeres “SOS Forças Armadas”. Gritos como “Viva a PM” foram entoados pelos manifestantes.

O deputado federal eleito Eduardo Bolsonaro (PSC) – filho do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) – discursou em cima do único carro de som do ato e disse que, se seu pai tivesse se candidato a presidente este ano, teria “fuzilado” a presidente – reeleita no domingo passado. “Ele teria fuzilado Dilma Rousseff se fosse candidato."

Gabriela Biló/EstadãoCerca de 2,5 mil pessoas, segundo a PM, participaram de ato contra o atual governo

Marcola. O filho de Bolsonaro disse ainda que votaria em Marcola – apelido de Marcos Willians Camacho, líder da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) -, mas não em Dilma. “Dizia na campanha: voto no Marcola, mas não em Dilma. Pelo menos ele tem palavra.”

Na internet, o ato deste sábado teve a confirmação de mais de 100 mil pessoas. Manifestantes carregavam cartazes com mensagens como “Intervenção militar já”, “PT é o câncer do Brasil” e “Fraude nas urnas”. “(As urnas) são fraudáveis. Qualquer um que não é analfabeto sabe disso”, afirmou o perito Ricardo Molina, em discurso.

O ato seguiu em direção ao Parque do Ibirapuera e, no caminho, houve uma ameaça de racha do movimento – entre grupos que defendiam um novo golpe militar e outros que desejavam apenas protestar contra a eleição de Dilma. “Exigimos a recontabilização dos votos. Não tem ninguém golpista aqui”, disse o músico Lobão, após conferir no celular a repercussão da manifestação.

Durante o trajeto até o Ibirapuera, moradores da região balançaram bandeiras do PT nas janelas. “Vai pra Cuba”, reagiram os manifestantes – alguns levavam bandeiras do ex-candidato do PSDB a presidente Aécio Neves.

Em Brasília, cerca de 500 pessoas, segundo a PM, também protestaram contra Dilma na Esplanada dos Ministérios. / COLABOROU RICARDO DELLA COLETTA

29/09/2014

Gorila só tem coragem com arma na mão e com adversário algemado

Filed under: Assassinato,Ditadura,Estupro,Golpe Militar,Gorilas,Milicos,Tortura — Gilmar Crestani @ 8:02 am
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Caros senhores signatários do ‘Manifesto à nação brasileira’

Se existe tanto orgulho e regozijo dos 21 anos de ditadura no Brasil, por que se calar diante das convocações da Comissão Nacional da Verdade?

Caroline Silveira Bauer

Arquivo

Esta é uma carta escrita por uma historiadora, nascida no início da década de 1980, e que dedicou os últimos doze anos ao estudo da ditadura civil-militar brasileira. Embora não tenha vivido “integralmente este período” – o que me daria uma pretensa legitimidade enquanto testemunha – as credenciais de historiadora permitem que eu contraponha a memória dos senhores sobre a ditadura – porque não ousaria chamar seu pronunciamento de história – a partir de alguns questionamentos comuns a um pesquisador, ou parafraseando Brecht, a um operário que lê.
Não me prolongarei em relação à tortura. Frente às evidências empíricas – documentais e testemunhais – de seu emprego como prática sistemática pela ditadura, de seu ensinamento em cursos de interrogatório (assumido anteriormente por generais que assinam esse manifesto), as teses de “casos pontuais” ou “excessos” carecem de legitimidade. A tortura foi regra, e não exceção durante o regime discricionário. E, se foram casos que não contavam com a aprovação da alta oficialidade, por que não foram investigados e os responsáveis punidos no momento em que as denúncias ocorriam? A impunidade também foi um erro, assim como os desaparecidos políticos?
Me deterei, um pouco mais, na tentativa de lhes explicar a ineficácia argumentativa da “teoria dos dois lados”, ou “teoria dos dois demônios”, como ficou conhecida a tentativa de equiparação entre os crimes cometidos pelo Estado e os oriundos da violência revolucionária das organizações guerrilheiras. Os senhores realmente acreditam que o Estado e seu aparato de informações e repressão pode ser comparado a ações de guerra revolucionária?
Em meus estudos, aprendi que, enquanto cidadã, eu posso delinquir – e, possivelmente, serei julgada e condenada pelos meus atos (a não ser que seja agraciada por uma lei de anistia, como a de 1979). No entanto, o Estado, cuja função última é garantir minha integridade e segurança, deve utilizar os recursos jurídicos existentes para pautar suas ações – e não cometer crimes, como o sequestro, a tortura, a morte e o desaparecimento. Mesmo que seus “inimigos” desejassem regimes socialistas e comunistas, e aos senhores lhes competia a defesa do “Estado brasileiro de organizações que desejavam implantar regimes espúrios em nosso país” ainda assim lhes cabia a exceção, a morte, o desaparecimento?
Questiono-os mais uma vez, quanto aos “erros” cometidos: houve investigação, processo e condenação – algumas vezes, à prisão perpétua e à morte – de integrantes da esquerda armada; e os senhores, generais? Responderam aos seus “erros”? Será que os “dois lados” não valem, também, para a responsabilização penal? Afinal de contas, se os senhores assumem que foram anistiados – em bom juridiquês, isentos de punibilidade – isso não significa que os senhores admitem terem cometido crimes? – sim, por que como anistiar um crime que não existiu?
Existe a possibilidade de comparar o tribunal penal militar ao qual foram submetidos os “subversivos” a uma comissão que não possui prerrogativas punitivas, apenas de averiguação de fatos, de uma “verdade histórica”? E, por falar em “verdade histórica”, para encerrar esse tópico, talvez seja importante lembrar que o trabalhismo, eixo da política de João Goulart, presidente à época do golpe civil-militar, está muito longe de uma ameaça comunista e/ou de subversão. Então, quem deu o primeiro passo? E, mesmo que houvesse guerrilha antes de 31 de março de 1964, existia a necessidade de uma quebra da ordem constitucional e supressão da democracia?
Caros senhores, em que pese as críticas que podem ser feitas ao trabalho da Comissão Nacional da Verdade, se não há avanços em suas investigações é porque, em parte, não há colaboração dos senhores. Se existe tanto orgulho e regozijo dos 21 anos de ditadura, por que se calar diante das convocações da comissão? Não seria a possibilidade dos senhores manifestarem sua opinião, como em um legítimo regime democrático? Ainda sobre a comissão, creio que falte maiores informações para os senhores, mas não há pagamento de nenhuma indenização por dito órgão – apenas pela Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e pela Comissão de Anistia. Tal “bolsa ditadura” se trata de uma medida compensatória pela dificuldade ou impossibilidade de reparar as sequelas da tortura, os traumas do desaparecimento, e a ausência gerada pela morte. “Bolsa ditadura”, paga com o erário público, o mesmo que mantém as voluptuosas aposentadorias que os senhores recebem por cumprirem os ditames “do Exército de Caxias”.
Quanto ao pedido de desculpas, talvez não lhes compita, mas sim à presidenta, comandante-em-chefe das Forças Armadas e representante do Estado brasileiro, que espero que assuma um compromisso ético e moral que não permita se orgulhar de um passado ditatorial, responsável por sequelas individuais e coletivas que impregnam a democracia. Os senhores podem manifestar-se individualmente, se assim desejarem e se os destinatários desse ato assim o quiserem, pois acredito que eles querem muito mais; nem desculpa, nem perdão: mas justiça!
(*) Caroline Silveira Bauer é professora de História Contemporânea na Universidade Federal de Pelotas. Doutora pela Universidade Federal do Rio Grade do Sul e pela Universitat de Barcelona, é autora do livro "Brasil e Argentina: ditaduras, desaparecimentos e políticas de memória".

27/09/2014

Como funciona uma cabeça sem cérebro?

ditadura era issoVou explicar. O bandido chega na casa do general. Prende o sujeito no banheiro, tortura, estupra, e depois faz guisado dele para que possa descer pela privada. O filho do general reage aos bandidos. Na cabeça destes gorilas, o culpado é filho que reage, não o bandido que invade a casa, expulsa os inquilinos, prende, tortura, estupra, mata e desova o resto em covas clandestinas. Vou dar de barbada que o gorila tenha razão, que a violência partiu da esquerda. Derrubar um governo com uso de tanques não é violência? Só na cabeça de um anencefálico cabe um raciocínio destes. Estes caras não são nada sem uma arma na mão. E com uma arma na mão até o Fernandinho Beira-Mar era macho!

Meu deus, estes caras, com uma arma na mão se acharam reis da cocada preta. São excremento no lixo!

Generais recusam desculpas por ditadura

Manifesto ataca Defesa e Comissão da Verdade

DE SÃO PAULO

Um grupo de generais da reserva do Exército divulgou, na sexta (26), manifesto de repúdio ao ministro da Defesa, Celso Amorim, e com duras críticas à atuação da Comissão Nacional da Verdade.

Assinado por 27 oficiais que tiveram postos de comando durante a ditadura militar (1964-85), o documento diz que Exército, Marinha e Aeronáutica não devem qualquer pedido de desculpas pelos crimes cometidos no período.

"Abominamos peremptoriamente a recente declaração do senhor ministro da Defesa à Comissão da Verdade de que as Forças Armadas aprovaram e praticaram atos que violaram direitos humanos no período", afirma a nota.

A manifestação é uma resposta a um ofício encaminhado por Amorim à Comissão da Verdade admitindo, pela primeira vez, que as Forças Armadas não têm condições de negar a ocorrência de mortes e crimes na ditadura.

O manifesto dos generais diz que a violência no período partiu da esquerda armada e que a Comissão da Verdade "açula" as Forças Armadas ao investigar somente os crimes cometidos pelo Estado. "Temos orgulho do passado e do presente de nossas Forças Armadas. Se houver pedido de desculpas, será por parte do ministro. Do Exército de Caxias não virão! Nós sempre externaremos a nossa convicção de que salvamos o Brasil!", conclui a nota.

A presidente Dilma Rousseff limitou-se a dizer que as leis precisam ser cumpridas.

22/09/2014

Gorilas sadomasoquistas: para dar prazer aos EUA, torturaram até índios

Filed under: Aikewara,Assassinato,Índio,Ditadura,Gorilas,Tortura — Gilmar Crestani @ 7:49 am
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ditadura era issoMilico quando rouba o poder só faz merda!

YWYNUHU SURUÍ

TENDÊNCIAS/DEBATES

O primeiro povo indígena anistiado

Por mais que haja reparação, nunca sairão da memória dos Aikewara as cenas de terror presenciadas na repressão à guerrilha do Araguaia

Nós, Aikewara, povo tupi-guarani conhecido como "Suruí do Pará", escrevemos este artigo para que todos saibam por que na sexta-feira, 19 de setembro, nós nos tornamos o primeiro grupo de indígenas considerado anistiado político e por que esse dia é histórico para nós e para os povos indígenas deste país.

Esperamos 40 anos para que o Estado brasileiro reconhecesse a violência sofrida por nós, dentro e fora de casa, sem saber o porquê da presença daqueles homens fardados na aldeia para "caçar" pessoas –pergunta que eles próprios, nossos pais e avós, se faziam: por que os "marehai" (forma como chamamos os militares na nossa língua) estavam matando aquelas pessoas no Araguaia?

Durante três anos, de 1971 a 1973, os Aikewara viveram assustados quando ouviam qualquer barulho de carro ou avião. Logo pensavam que seriam mortos. Muitos tinham insônia, não conseguiam dormir tranquilos porque o tempo todo eram ameaçados por soldados do Exército brasileiro.

As mulheres ficavam apavoradas ao ouvir a tradução de quem sabia falar um pouquinho de português, de que os soldados estavam ordenando que as crianças se calassem e, que se fizessem qualquer barulho, eles matariam todos. E todos os homens adultos da aldeia foram levados para servir de guias para os "marehai" na mata –que conhecemos bem porque é a nossa terra.

Sem comer direito, andando por dias e dias, obrigados a levar cargas pesadas nas costas, aos empurrões, gritos e ameaças, dormindo ao relento na mata e adoecendo.

Por mais que seja feita uma reparação, nunca sairão da memória do povo Aikewara as cenas de terror e tortura que todos na aldeia presenciaram e sofreram no período da repressão à guerrilha do Araguaia, sendo prisioneiros em suas próprias casas, mantidos em cárcere privado, sem direito de buscar o seu próprio alimento. Crianças, idosos e mulheres passavam fome porque lhes fora tirado o direito de ir e vir em nossa própria terra.

Por muitos e muitos anos ouvimos essa história contada pelos nossos avós desde que éramos pequenos. Hoje somos pais e alguns já são avôs ou avós. Agora entendemos por que eles nos contavam e por que temos que continuar contando por meio de narrativas, maneira como são repassados os ensinamentos, as histórias do povo Aikewara para nossos filhos e netos.

Em meio a tantas lindas histórias que aprendemos ouvindo para poder repassar adiante de geração em geração –para que nunca acabem–, não era dessa maneira que nós gostaríamos de fazer parte da história do nosso país.

É triste saber que para viver na democracia foi preciso lutar e perder tantas vidas. Para ter liberdade foram perdidas vidas de verdadeiros heróis que não podem jamais ser esquecidos –e cujas lutas foram interrompidas com violência e mortes. Graças a essas corajosas pessoas é que podemos nos manifestar para fazer valer nossos direitos à saúde, à educação, à moradia e ao transporte de qualidade, garantidos na Constituição Federal.

Agora reconhecidos como anistiados políticos pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, ainda esperamos a principal reparação que existe, e que é coletiva: a regularização e desintrusão da terra indígena Tuwa Apekuokawera, parte do nosso território, excluída há 40 anos. É só com a devolução e proteção do nosso território que poderemos voltar a viver mais tranquilamente depois de tudo o que nossos pais e avós sofreram.

YWYNUHU SURUÍ, 30, é integrante do povo Aikewara e diretor da Escola Indígena Moroneikó, na Terra Indígena Sororó, sudeste do Pará

09/09/2014

Campanha: bote um milico num fusca e mande-o pro RIOCENTRO!

Para quem não entendeu, a Wikipédia desenha: Atentado do Riocentro!

O antipetismo do Clube Militar e a vala comum do esquecimento, por Denise Ribeiro

Roberto Bitenco…

ter, 09/09/2014 – 08:36

Por Denise Felipe Ribeiro (*)

Após a derrocada dos regimes ditatoriais-militares no Cone Sul, a partir de meados dos anos 1980, teve início o processo de reconstrução democrática. Entre os grandes desafios aí colocados estão a pacificação, a mudança nas relações entre civis e militares e as questões relacionadas a como lidar com o passado autoritário. Foram então adotadas algumas medidas denominadas como políticas de justiça de transição, que buscam o estabelecimento da noção de não-repetição de atos arbitrários por parte do Estado e de uma maior confiança dos cidadãos nas instituições. Tais objetivos seriam alcançados por intermédio do conhecimento dos fatos (direito à verdade e à memória), da indenização aos que sofreram perseguições (reparação), da responsabilização daqueles que agiram de forma ilegal e perpetraram crimes contra a humanidade (restabelecimento do preceito de justiça e devido processo legal) e da reforma das instituições, particularmente os órgãos de segurança, para que estas sejam vocacionadas para a vida democrática.

No Brasil, somente em 1995, o Estado reconheceu a sua responsabilidade pelas mortes e desaparecimentos ocorridos no curso do período ditatorial. No mesmo ano, foi criada a Comissão Especial de Anistia, que contemplou empregados do setor privado, de empresas públicas e mistas, dirigentes e representantes sindicais, e a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. No final do governo FHC, a Lei 10.559/2002 responsabilizou o Estado por torturas, prisões arbitrárias, demissões, transferências por razões políticas, sequestros, compelimento ao exílio e à clandestinidade, banimentos e expurgos, determinando o pagamento de indenizações aos atingidos.

Ao longo dos governos petistas, ainda que com uma série de limitações, as ações de justiça de transição têm sido postas em prática, particularmente no que diz respeito ao tema da memória e verdade. Projetos como o Direito à Memória e Verdade, de 2006, que registrou oficialmente as mortes e desaparecimentos, e as Caravanas da Anistia, que fazem julgamentos simbólicos públicos em várias cidades onde ocorreram perseguições, se inserem nas ações que propõem o conhecimento do passado como uma forma de garantir a não repetição dos fatos e trazer mudanças significativas nas instituições, tendo em vista a (re)construção democrática. A criação do projeto Memórias Reveladas, em 2009, ao reunir, preservar e facilitar o acesso à documentação referente ao período ditatorial se insere nesse conjunto de ações de promoção do direito à verdade e à memória. Ademais, em 2012, teve início uma das mais significativas ações de justiça de transição: a Comissão Nacional da Verdade.

A despeito das cobranças feitas ao governo brasileiro pelas cortes internacionais de direitos humanos, especialmente a OEA, para que sejam investigados os crimes contra a humanidade perpetrados pelo regime civil-militar brasileiro, e punidos os agentes envolvidos, ainda existem muitas resistências contra as medidas de justiça de transição. Essas resistências têm feito com que, lamentavelmente, o governo brasileiro não tenha tomado as medidas exigidas pela Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso dos desaparecimentos do Araguaia. Entre os atores sociais que criticam de modo mais encarniçado essas políticas, encontram-se os setores das Forças Armadas que defendem publicamente o período ditatorial, sobretudo o Clube Militar. A instituição, criada em 1887, com participação na proclamação da República e nos debates sobre a exploração do petróleo que resultaram na criação da Petrobras, ficou mais marcada pelo protagonismo em movimentos golpistas, especialmente aquele que destituiu o Presidente João Goulart, em 1964. É essa instituição que todos os anos, no dia 31 de março, reúne os seus membros na sede do Rio de Janeiro para comemorar o que dizem ser a “revolução democrática”.

O antipetismo, publicizado de maneira desinibida pela instituição militar, por meio de um recente manifesto de apoio à candidata Marina Silva, reflete e tenta disfarçar a enorme contrariedade em relação às medidas de justiça e verdade promovidas pelo governo federal. Não à toa, o manifesto foi publicado logo após a candidata pesebista ter se posicionado de modo contrário à revisão da Lei da Anistia e à punição de torturadores. O documento do Clube Militar vai ao encontro de outras ações como a do general Enzo Peri, comandante do Exército, que teria proibido a colaboração dos quarteis com as investigações da Comissão da Verdade.

O que o apoio do Clube Militar à candidata Marina Silva tende a revelar, por trás do saliente antipetismo e de uma suposta contrariedade em relação a denúncias de corrupção, é o potencial compromisso da candidata de que todos os avanços acima mencionados sejam jogados na vala comum do esquecimento.

(*) Denise Felipe Ribeiro – mestre em História (UFF) e profa. da SME-Rio, atua em pesquisas sobre a ditadura civil-militar de 1964 e o processo de Anistia.

Imagens

O antipetismo do Clube Militar e a vala comum do esquecimento, por Denise Ribeiro | GGN

23/08/2014

Enzo Peri é aluno da escola Nanci Andrighi

Filed under: Covardes,Ditadura,Enzo Peri,Exército,Gorilas,Nancy Andrighi — Gilmar Crestani @ 9:35 am
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Dilma BonnerA covardia do Exército Brasileiro não se resume em pegar em armas para derrubar governo eleito. Continua com o uso das mesmas armas para prender, torturar, estuprar, assassinar e esquartejar, suprassumo da covardia, esconder os pedaços de corpos. Não poderia ser diferente o comportamento de gorilas cujo cérebro cabe numa cápsula. Hoje, são cartuchos vazios, com medo da meleca que saiu de dentro deles. Pior do que a covardia é a proteção que alguns membros do Poder Judiciário dá aos açougueiros de gente. A Ministra do STJ, Nanci Andrighi, ao declarar que a lei da Anistia limpa o crime dos criminosos, cospe nos cadáveres que ainda permanecem escondidos nos porões do Exército.

A Bomba do Riocentro, por exemplo, foi colocada depois da Lei de Anistia, mas pela lei dos acobertadores, está perdoado. O silêncio do exército é comprado pelos grupos mafiomidiáticos que se beneficiaram da ditadura. O Globo, Zero Hora saudaram a chegada da ditadura. Com ela prosperaram e hoje não querem ver os arquivos abertos para que não apareça as digitais dos seus donos.

Os sequazes continuam fazendo escola. Os métodos ditatoriais de interrogatório foram incorporados por William Bonner.

Chefe do Exército impõe silêncio sobre crimes da ditadura

Documento do general Enzo Peri proíbe que unidades militares deem informações sobre crimes do período

Procurador considera ato ilegal e quer ação contra comandante do Exército por sonegar informações públicas

DE SÃO PAULO

Ofício assinado pelo general Enzo Peri, comandante do Exército, proíbe que unidades militares deem informações sobre crimes ou violências praticadas em suas dependências durante a ditadura militar (1964-1985).

Em documento encaminhado a subordinados em fevereiro, Enzo disse que qualquer informação referente ao tema deveria ser respondido exclusivamente por seu gabinete.

A descoberta do ofício foi do Ministério Público Federal, que o recebeu após ter informações negadas pelo Hospital Central do Exército, conforme informou nesta sexta (22) o jornal "O Globo".

"A respeito do assunto, informo a esse comando que pedidos/requisições de documentos realizados pelo Poder Executivo, Poder Legislativo, Ministério Público, Defensoria Pública e missivistas que tenham relação ao período de 1964 a 1985 serão respondidos, exclusivamente, por intermédio do gabinete do comandante do Exército", diz trecho do documento assinado pelo general Enzo Peri.

Atualmente, há mais de 200 investigações em curso no Ministério Público Federal sobre crimes e violências ocorridas na ditadura. Em uma delas, sobre a morte de um militante no Hospital Central do Exército no Rio, o procurador Sérgio Suiama recebeu o ofício ao solicitar dados sobre o episódio.

Por considerar o gesto de Enzo ilegal, Suiama vai pedir que a Procuradoria-Geral da República ingresse com uma representação contra o comandante do Exército pelo ato de avocar, o que resultou na sonegação de informações.

"Há uma centralização indevida de informações que é contrária à lei. Não dá para o chefe de um órgão avocar para si a decisão de passar ou não determinada informação", disse o procurador.

Exército, Marinha e Aeronáutica tratam a ditadura como um tabu. Além de evitar reconhecer os erros e os crimes praticados no passado, as Forças Armadas se negam a colaborar com investigações sobre o tema. A Comissão Nacional da Verdade reclama das dificuldades e obstáculos criados pelas Forças.

"O problema não é o passado, o problema é o comandante do Exército presente decidir, em um Estado Democrático de Direito, o que deve e o que não deve ser informado à sociedade", ressaltou o procurador Sérgio Suiama.

O Exército não comentou o ofício assinado por Enzo Peri. Na tarde desta sexta não havia ninguém no centro de comunicação da Força para comentar o episódio. O general nunca se pronunciou publicamente sobre a ditadura.

    26/04/2014

    A herança da ditadura está morta em lugar desconhecido

    ditadura (2)Eu acho adequado que todo aquele que é favorável à ditadura deveria ter algum familiar preso, de preferência filho, torturado, morto, esquartejado e largado em lugar desconhecido para nunca mais ser encontrado. Aí, talvez, possam compreender o que significa uma ditadura como a que tivemos com os gorilas no poder.

    ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR

    A dor de não saber

    A ditadura levou a professora; o que houve, e por que alguns colegas lhe negaram apoio?

    Quinta-feira, 23 de outubro de 1975. A Congregação, órgão máximo do Instituto de Química da USP, está reunida para uma decisão importante: o que fazer a respeito da professora Ana Rosa Kucinski, desaparecida havia 19 meses.

    Em 22 de abril de 1974, Ana Rosa, de 32 anos, disse aos colegas que iria ao centro da cidade almoçar com o marido, o físico Wilson da Silva. No trabalho, Wilson contou algo semelhante: almoçaria com a mulher e depois voltaria ao escritório.

    Nunca mais foram vistos. Ambos militavam no que restava da Ação Libertadora Nacional, organização armada de esquerda. Os poucos integrantes ainda vivos eram perseguidos com especial brutalidade pelo regime militar.

    Confirmado o desaparecimento, a família da Ana Rosa iniciou uma cruzada. Recorreu à Organização dos Estados Americanos, ao Departamento de Estado dos EUA, levou o caso ao general Golbery, chefe da Casa Civil do governo Geisel, com intermediação do então arcebispo de São Paulo, d. Paulo Evaristo Arns.

    Pressionado, o ministro da Justiça, Armando Falcão, disse em nota oficial que Ana Rosa não estava presa. Era uma "terrorista foragida". Apesar das mentiras de Falcão, as evidências eram fortes: Ana Rosa havia sido levada pela repressão.

    O reitor da USP, Orlando Marques de Paiva, monta um grupo para analisar o caso. No burocratês uspiano, uma "comissão processante", formada por um representante da consultoria jurídica da universidade, Cassio Raposo do Amaral, mais dois professores: um da própria Química, Geraldo Vicentini, e outro da Odontologia, Henrique Tastaldi, que estava se aposentando para depois ser recontratado pelo IQ.

    Apesar das evidências fornecidas pela família, que apontavam para uma captura pelo aparato repressor, a comissão faz um relato frio. Prende-se às faltas de Ana Rosa, e às consequências trabalhistas. Recomenda dispensar a professora.

    O parecer é encaminhado à Congregação. Quinze professores do Instituto de Química estão reunidos. Por razões até hoje desconhecidas, o assíduo presidente do colegiado, Paschoal Senise, não comparece. Walter Colli, da bioquímica, também não está.

    Em votação secreta, por 13 votos a favor e dois em branco, a instância máxima do Instituto de Química da USP demite Ana Rosa Kucinski por "abandono de função".

    No livro semificcional "K", o jornalista Bernardo Kucinski, irmão de Ana Rosa, especula como teria sido esse encontro. Com base na ata da reunião, e imaginando o que pensavam os envolvidos, Kucinski constrói um quadro em que, por razões diversas –convicções reacionárias, estratégia, omissão, covardia–, os votantes permitem que uma injustiça aconteça.

    Mas outros pesquisadores, que analisaram recentemente o processo, têm uma visão mais nuançada. Tiram o foco da Congregação e destacam a etapa anterior, a do duro relatório da comissão processante, que teria selado o desfecho do caso.

    Independente do ponto de vista, muitas perguntas sobre a Congregação jamais terão resposta.

    De quem foram os dois votos em branco? E foram de protesto, ou saíram em branco por uma trivialidade qualquer? Por que o professor Senise, que nunca faltava, se ausentou?

    E mais: por que o grupo, que incluía gente de esquerda, votou maciçamente para demitir uma professora que eles sabiam ter sido levada pela repressão? Foram forçados, ou votaram com a consciência? Por que não optaram por algo mais brando, como uma suspensão?

    A historiadora Janice Theodoro da Silva, presidente em exercício da Comissão da Verdade da USP, esquadrinhou a papelada. E prefere não especular sobre as motivações da Congregação.

    "Como a gente não sabe, eu não julgo", ela diz. "Temos de conviver com a dor de não saber."

    Uma dor que os colegas de Ana Rosa na USP conhecem bem.

    Em depoimento emocionado (youtu.be/VcrR1JbfH9w), a hoje professora aposentada Shirley Schreier descreve a última vez em que viu Ana Rosa. Na juventude, foram muito próximas. Depois Shirley mergulhou no trabalho e ficou sem tempo para a amiga.

    Pouco antes de desaparecer, Ana foi à sala de Shirley conversar. Percebeu que ela estava ocupada, disse que viria outro dia. Jamais voltaram a se ver.

    Terça-feira passada houve uma cerimônia no IQ. Na data exata dos 40 anos do desaparecimento, finalmente o instituto pediu desculpas à família de Ana Rosa Kucinski. A demissão foi revogada.

    Nos jardins da instituição, uma escultura da artista Kimi Nii –uma flor metálica– agora homenageia a cientista que a ditadura assassinou.

    cby2k@uol.com.br

    27/03/2014

    Ué, seu Rossi, mas teu patrão não falou que a dita foi branda?!

    O que causa espécie não é este animal confessar que destroçava pessoas durante a ditadura. Estes animais com forma humana sempre existiram e existirão. A tristeza me vem de pessoas pretensamente inteligentes que se congratulam com o regime cuja única obra foi deixar aflorar, e proteger, os instintos mais animalescos que se pode ver em qualquer espécie animal. Aliás, nunca é demais lembrar que os atuais grandes grupos de mídia, a$$oCIAdos ao Instituto Millenium, não só se congratularam com a ditadura, como dela retiram o sumo do seu crescimento. Sem ditadura não existiria Rede Globo, Grupo RBS, Grupo Folha da Manhã, Estadão, Abril/Veja. Seriam todos jornais de bairro. Até hoje a Rede Globo admitiu que errou ao apoiar a ditadura, mas não pediu desculpas nem devolveu o que lucrou com ela, a ditadura. A Folha achou por bem publicar que não foi ditadura, mas ditabranda. Logo a Folha que emprestava as peruas que distribuíam o jornal para que agentes do tipo Paulo Malhães pudessem desovar junto com o matutino os presuntos fabricados à noite nos porões da ditadura. Mas como diz a manada de muares por aí, na ditadura não havia corrupção. Pois é, matar quem denunciava a corrupção também não era corrupção. ERA PRAZER!

    Clóvis Rossi é um jornalista como muitos no Brasil que clamam por liberdade de expressão. Qual a liberdade que ele tem de escrever sobre o papel de seu patrão e da empresa do patrão na produção de Paulo Malhães?

    Paulo MalhoesCLÓVIS ROSSI

    O orgulho do assassino

    Confissões do coronel Malhães chocam pelo sadismo, mas não por contar o que já se sabia

    Mesmo para quem lidou durante muitos anos com a questão dos direitos humanos, no Brasil e na América Latina, é chocante ler o depoimento do coronel reformado Paulo Malhães à Comissão Nacional da Verdade (folha.com/no1430795).

    Mas choca apenas pelo sadismo revelado pelo oficial e pela frieza com que confessa crimes bárbaros. O fato de que havia torturas e assassinatos já era arquiconhecido e, portanto, não pode provocar surpresa, a não ser em distraídos, desavisados ou viúvas da ditadura, como os que promoveram a fracassada reedição da Marcha da Família.

    De todo modo, creio que seja uma das primeiras vezes, talvez até mesmo a primeira, em que um torturador –e não um torturado– admite os fatos como os fatos se passaram. Com o adicional de que era um oficial cuja função lhe permitia ter pleno conhecimento de tais fatos.

    José Carlos Dias, o advogado que o interrogou na CNV, chamou o coronel reformado de "sádico e exibicionista".

    É verdade, mas é preciso ter claro que o sadismo e o exibicionismo podem ser características específicas de um ou de outro oficial (há mais Malhães por aí), mas a violência contra os opositores do regime era uma política de Estado, não uma iniciativa dos porões.

    Estes só acrescentavam o sadismo, mas o esquema geral tinha a aprovação das cúpulas militares e, por extensão, da cúpula do poder político, à época ocupada por generais.

    Matar, torturar, fazer desaparecer –tudo isso era um sistema, bem documentado, de resto, nos livros desse notável Elio Gaspari sobre o período militar, o mais completo balanço jamais publicado a respeito (acabam de ser lançadas reedições atualizadas).

    É por isso que se torna inaceitável o silêncio das Forças Armadas a respeito do que ocorreu no período.

    Alegar que o que houve no Brasil, em dados momentos dos anos 60 e 70, foi uma guerra contra a subversão não resiste a uma análise séria. Tanto é assim que o coronel Malhães descreveu como os torturadores faziam para dificultar ou impossibilitar a identificação dos torturados que matavam.

    Ora, mesmo numa guerra, há normas e códigos, entre os quais o de devolver os cadáveres.

    Se trataram de fazê-los desaparecer ou de dificultar a identificação, só pode ser porque sabiam que estavam fazendo algo ilegal, errado, absurdo, de uma violência (no caso contra os familiares em busca de informações) adicional à já insuportável violência que é o assassinato e/ou a tortura.

    Vamos ser claros: houve, sim, alguns choques armados entre opositores e repressores, mas a maior parte das mortes foi assassinato puro e simples.

    Tudo bem que houve uma anistia para ambos os lados e que a maioria aceita que ela era indispensável para poder virar a página e tocar adiante o país.

    Ainda assim, não deixa de ser incômodo saber que um assassino e torturador confesso anda por aí livre e sem ter sido submetido ao menor constrangimento. Um assassino que se orgulha dessa condição.

    crossi@uol.com.br

      26/03/2014

      E a Folha ainda tem coragem de chamar de Ditabranda

      Filed under: Animais,Ditabranda,Ditadura,Gorilas,Paulo Malhães — Gilmar Crestani @ 8:49 am
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      Uma dita bem dura para quem defende ditadura! Todos os que, como o DCE da UFRGS, admitem a ditadura merecem uma sessão, ou secção, com o Coronel Paulo Malhães…

      ditando a duraCoronel admite ter matado na ditadura

      Em depoimento à Comissão da Verdade, Paulo Malhães diz que corpos eram mutilados para evitar reconhecimento

      Oficial reformado contraria entrevistas e diz ter descumprido ordem para sumir com ossada de Rubens Paiva

      BERNARDO MELLO FRANCO, DO RIO, para a FOLHA

      Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, o coronel reformado do Exército Paulo Malhães, 76, admitiu ontem que torturou, matou e ocultou cadáveres de presos políticos durante a ditadura militar (1964-1985).

      Ele disse não se arrepender de nada e narrou como funcionava a chamada Casa da Morte, em Petrópolis (RJ), centro de torturas clandestino onde teriam sido assassinadas cerca de 20 pessoas.

      Levado em cadeira de rodas e usando camisa cinza, terno bege e óculos escuros, o militar chocou integrantes da comissão pela frieza com que respondia às perguntas.

      "Quantas pessoas o senhor matou?", quis saber o ex-ministro José Carlos Dias. "Tantas quanto foram necessárias", respondeu o coronel. "Arrepende-se de alguma morte?" "Não." "Quantos torturou?" "Difícil dizer, mas foram muitos", devolveu.

      Sem demonstrar incômodo, Malhães defendeu a tortura como método de investigação e explicou como mutilava cadáveres para evitar que fossem identificados.

      "A tortura é um meio. Se o senhor quer saber a verdade, tem que me apertar", disse, acrescentando que aprova o método para presos comuns.

      Questionado sobre as mutilações de cadáveres, descreveu a prática como uma "necessidade" e disse que os corpos não eram enterrados "para não deixar rastros".

      "Naquela época, não existia DNA. Quando você vai se desfazer de um corpo, quais partes podem determinar quem é a pessoa? Arcada dentária e digitais", disse.

      "Quebrava os dentes. As mãos, [cortava] daqui para cima", explicou, apontando as próprias falanges.

      Chamando as vítimas da repressão de "terroristas", Malhães disse não ter remorsos. "Quando vejo uma pessoa reclamar que um ente querido morreu, pergunto: se tivesse ficado ao lado da esposa e dos filhos, isso teria acontecido?", acrescentou.

      Parentes de desaparecidos, ex-presos políticos e a única sobrevivente da Casa da Morte, Inês Etienne Romeu, foram à sede do Arquivo Nacional para ouvir o oficial. Ele só aceitou falar diante da comissão e dos jornalistas.

      Confrontado com nomes e fotos de vítimas, Malhães alegou que não conseguia reconhecê-los. Também se recusou a indicar colegas da repressão, com raras exceções.

      Numa delas, disse ter recebido ordem do coronel Coelho Neto, então subchefe do CIE (Centro de Informações do Exército), para ocultar a ossada do ex-deputado Rubens Paiva, morto em 1971. Mas afirmou não ter executado a tarefa, contrariando o que disse recentemente aos jornais "O Dia" e "O Globo".

      Ele também apontou o coronel Cyro Guedes Etchegoyen, chefe de contrainformações do CIE, como comandante da Casa da Morte.

      "Mesmo com tantos anos de advocacia, me choquei com a descrição da mutilação de arcadas dentárias e digitais", disse o ex-ministro José Carlos Dias. "Eu não diria que ele foi corajoso. É um exibicionista, um sádico."

      Em depoimento à Comissão da Verdade no dia 15, a ex-presa política Inês Etienne Romeu, apontou seis agentes da ditadura como torturadores que trabalhavam na Casa da Morte.

      15/03/2014

      Não há obra honesta obtida com arma na mão

      Filed under: Golpe Militar,Gorilas — Gilmar Crestani @ 12:55 pm
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      A única vitória do Exército Brasileiro foi contra o Paraguai, simplesmente porque os exércitos da Argentina e Inglaterra primeiro mataram os paraguaios… E a melhor obra que retrata a campanha do Paraguai é Avante, soldados: para trás, do Dionísio da Silva.

      Que vantagem há em ser militar, tomar o poder pela arma, prender aqueles que discordam, amarra-los, aproveitar que estão presos e torturá-los, estuprá-los  para depois matá-los?!

      E se dissolvêssemos o Exército?

      Postado em 14 Mar 2014

      por : Paulo Nogueira

      Para que eles servem?

      A petulância assombrosa do general Paulo Chagas me perturba.

      Quem ele pensa que é para insinuar que o Brasil precisa dos militares no poder? Não bastou a tragédia política, econômica e social que os generais no poder impuseram ao país por mais de duas décadas?

      Os militares favelizaram o Brasil ao servirem de babás para os ricos e de carrascos para os pobres.

      Foi monstruosa a concentração de renda sob eles, e quando eles bateram em retirada a situação já era completamente insustentável para a ditadura.

      Ou saíam pelas próprias pernas ou seriam enxotados, para simplificar.

      Ao ler as provocações de Chagas a propósito dos 50 anos do golpe, me veio à cabeça um texto do escritor e jornalista Antônio Callado publicado em novembro de 1964 no finado Correio da Manhã, então um grande jornal.

      Callado (1917-1997) enxergou o óbvio: o melhor para o Brasil seria, simplesmente, dissolver o Exército.

      Não somos bélicos. Não temos pretensões imperialistas. Para que o custo de manter um Exército?

      Quando Callado escreveu, a questão era ainda mais atual. Fazia muito tempo que o Exército se intrometia na vida política, e o golpe de 1964 ainda não completara um ano.

      “Devemos procurar na América Latina os meios de nos livrarmos do Exército”, escreveu ele.

      Havia dois modelos, segundo Callado. Um era Cuba. Ele cita um autor cubano que conta que foi liquidado em Cuba “o velho Exército mercenário, estruturado e recrutado na base da submissão ao imperialismo, do serviço dos exploradores e da exploração do povo”.

      Seus integrantes foram “licenciados ou reformados e pensionados, de acordo com a idade”.

      Que tal?

      O segundo exemplo oferecido por Callado era a Costa Rica, uma das democracias mais vigorosas do continente.

      Em 1948, a Costa Rica dissolveu o “caro Exército” e instalou como única força armada uma polícia de 1600 homens. Callado notava o alto gasto da Costa Rica com educação, em vez de armas.

      “Nosso Exército só serve para complicar as coisas”, escreveu ele.

      Callado terminou o artigo com uma história reveladora. O “truculento” general Góis Monteiro tivera uma explosão de cólera ao saber que o Brasil, na segunda guerra, decidira ceder bases aos americanos.

      Uma pessoa próxima quis saber a razão da indignação do general. Patriotismo, nacionalismo, alguma coisa do gênero?

      A resposta era bem mais prosaica.

      O general estava positivamente incomodado com a possibilidade de que os soldados americanos comessem as brasileiras. A honra das vaginas nacionais devia ser protegida.

      Pausa para rir.

      Pronto.

      Clap, clap, clap póstumos para Callado.

      De pé.

      Paulo Nogueira

      Sobre o Autor

      O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

      Diário do Centro do Mundo » E se dissolvêssemos o Exército?

      12/03/2014

      Ditadura, para desinformados e mal intencionados

      Filed under: Assassinato,Ditadura,Golpe Militar,Golpismo,Gorilas,Tortura — Gilmar Crestani @ 9:20 am
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      Ditadura e corrupcaoA lógica é simples. Se alguém conhecido ainda se declara favorável à ditadura restam duas alternativas: primeira, internar o psicopata num hospital psiquiátrico; 2) segunda, afastar-se, para sua segurança e da família, do elemento que aprova torturar inocentes, estuprar, assassinar e depois esconder o corpo.

      Do Estadão

      No tempo da ditadura

      Marcelo Rubens Paiva

      “Como é que a gente faz hoje quando entra num táxi e o motorista diz que tempos bons eram os da ditadura?”, me perguntou o amigo Nirlando Beirão.

      Diz que:

      No tempo da ditadura, a gente não podia escrever sobre o tempo da ditadura, nem qualificar o regime como uma ditadura. No tempo da ditadura, ao invés de uma análise crítica sobre a ditadura, digo regime, neste espaço teria um poema de Camões ou uma receita de bolo, pois seria censurada.

      Todo mundo que era contra a ditadura era comunista. Todos se tornaram suspeitos, subversivos em potencial. E muitos que, em 1964, conspiraram com os militares, na missão de impedir que comunistas tomassem o poder, e o Brasil se transformasse numa diabólica ditadura do proletário, perceberam a manobra e foram depois acusados de ligações com comunistas.

      No primeiro ato da ditadura, o AI-1 (Ato Institucional Número 1), baixado pela Junta Militar em 9 de abril de 1964, cassaram os opositores dos comunistas, os trabalhistas: João Goulart, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, parte da bancada do PTB, partido fundado por Getúlio Vargas, como Almino Afonso e meu pai, Jânio Quadros, Miguel Arraes, o deputado católico Plínio de Arruda Sampaio, o economista Celso Furtado, o jornalista Samuel Weiner, até o presidente da Petrobras, marechal Osvino Alves. Nenhum deles era comunista.

      Entre outros cassados, estavam membros da corporação que mais perseguições sofreu durante a ditadura: os próprios militares, como o general-de-brigada Assis Brasil, o chefe do Gabinete Militar, Luís Tavares da Cunha Melo, e os almirantes Cândido de Aragão e Araújo Suzano. Milhares de oficiais foram expulsos das Forças Armadas durante a ditadura.

      Bem antes ditadura, o PCB (Partido Comunista do Brasil) já era ilegal, e seus líderes, eles, sim, comunistas, viviam na clandestinidade. A intenção do Golpe de 64 era impedir o avanço comunista no Brasil e restaurar a democracia em dois anos. Não demorou muito, o ex-presidente Juscelino Kubitschek, candidato à reeleição, foi cassado acusado de corrupção e colaborar com comunistas.

      No primeiro teste eleitoral, em 1965, não foram eleitos os candidatos dos militares em Minas Gerais e Guanabara. Baixaram o AI-2 (Ato Institucional Número Dois). Partidos políticos foram extintos. Poder Judiciário sofreu intervenção. Foram reabertos processos de cassação. Carlos Lacerda, então aliado, dormiu conspirador e acordou subversivo.

      O novo partido da situação, Arena, não engrenava. Iria ser derrotado nos Estados mais populosos. A paciência dos militares se esgotou: o AI-3 foi baixado em 1966, determinando que eleição de governadores seria indireta, executada por colégios eleitorais, e prefeitos das capitais, estâncias e cidades de segurança nacional seriam nomeados.

      O AI-4, de 1966, revogou definitivamente a Constituição de 1946 e proclamou outra. O AI-5, de 1968, suspendeu as garantias constitucionais da Constituição que tinham acabado de promulgar. Despachos da presidência de República passaram a valer mais que leis. Congresso, Assembleias Legislativas e Câmeras dos Vereadores foram fechados por um ano. O Presidente podia decretar intervenção de Estados e Municípios. Estavam proibidas atividades e manifestação de natureza política e suspenso o direito de habeas corpus.

      Finalmente, parte da sociedade civil que apoiou o Golpe percebeu que militares não sabiam negociar nem ser contrariados. Não têm intimidades com jogo político. Na essência, não praticam a democracia: obedecem sem questionar um comando, uma hierarquia imposta de cima para baixo.

      Foram acusados de comunistas os subversivos dom Elder Câmara, dom Pedro Casaldáliga e dom Paulo Evaristo Arns, que se encontrara em 1964 em Três Rios com tropas do general Olimpio Mourão Filho, deflagrador do Golpe, para oferecer assistência religiosa.

      Nos tempos da ditadura, não se discutiam os grandes investimentos. Militares construíram uma usina nuclear com tecnologia obsoleta, numa região de difícil evacuação, e duas estradas paralelas ao Rio Amazonas, a Transamazônica e a Perimetral Norte, que foram tomadas pela floresta anos depois, devastando nações indígenas. Estatizaram companhias telefônicas e de energia. Colaboraram para o desmantelamento da malha ferroviária brasileira.

      Editores de livros, como Ênio da Silveira, foram presos. Jornalistas, como toda a redação do Pasquim, entre eles, Paulo Francis, foram presos. Até um escritor no início simpático ao Golpe, como Rubem Fonseca, foi censurado. Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos e expulsos do Brasil. Raul Seixas foi convidado a se retirar, depois de ironizar o regime com “sou a mosca que pousou na sua sopa”. Chico Buarque se exilou. Teatros foram depredados, atores espancados. Parte da classe teatral, como Zé Celso e Boal, foi embora. Glauber Rocha também se mandou.

      O contrabando e o jogo do bicho se associaram a agentes da repressão e se fortaleceram. O crime organizado nasceu. A promiscuidade entre polícia e bandido, tema do filme Lúcio Flávio (Babenco), se consolidou na ditadura, que promoveu e anistiou depois torturadores. O Comando Vermelho surgiu num presídio da ditadura.

      Ao terminar em março de 1985, a ditadura deixou uma inflação que virou hiper (a acumulada de 1984 foi de 223,90%), uma moeda desvalorizada (um dólar valia 4.160 cruzeiros), uma dívida externa que nos levou à moratória (FMI suspendeu em fevereiro de 1985 o crédito ao Brasil, que não cumpria as metas depois de sete tentativas). Outra herança: desmantelamento do ensino público.

      O Brasil é governado há 20 anos por três subversivos acusados de comunistas pela ditadura: FHC, ex-professor da USP cassado e exilado, Lula, sindicalista cassado e preso, e Dilma, terrorista acusada de liderar uma organização clandestina que praticava a luta armada. Líderes do antigo PCB fundaram o PPS. Todos estão na legalidade e participam da vida democrática, como o PCB e seu racha, o PCdoB, parte da base aliada.

      O Brasil talvez tenha sido vítima de uma das maiores farsas da História: nunca correu o risco de virar comunista.

      No tempo da ditadura, por Marcelo Rubens Paiva | GGN

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