Ficha Corrida

04/01/2015

Bandido de olhos azuis

Não é porque meu filho tenha olhos azuis que eu não saiba que a máquina de propaganda de hollywood se especializou em colocar mexicanos no papel de bandidos. Nos filmes de faroeste eu sempre torci pelos bandidos, porque me pareciam mais críveis que os mocinhos ensaboados do velho oeste.

Agora descubro que o grande ator argentino, Ricardo Darín se recusou a desempenhar o papel de traficante mexicano, como se pode ver nesta entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=8rP9MRH8O6A

Quem quiser saber mais sobre os cubanos que os EUA aceitaram soltar para receberem de volta o bandido basta ler o livro do Fernando Moraes, Os últimos soldados da guerra fria. Enquanto os prisioneiros devolvidos a Cuba foram recebidos com festa como se recebem heróis, os EUA recebem de volta se bandido e o escondem. Essa é a grande diferença entre uma Ilha que não se ajoelha para o império da maldade.

Daqui alguns anos Hollywood vai produzir um filme para converter o bandido em mocinho e vai escalar algum latino, menos Ricardo Darin, para o papel de vilão.

Mistério do espião desaparecido

Duas semanas depois do anúncio de sua libertação após quase 20 anos de prisão, o suposto agente dos EUA em Cuba continua com seu paradeiro desconhecido

Silvia Ayuso Washington 3 ENE 2015 – 21:09 BRST

Rolando Sarraff aos 32 anos, e em uma imagem sem data. / AP

Onde está Rolando Sarraff Trujillo? Essa é a pergunta que muitos se fazem, não somente a família desse cubano supostamente libertado há mais de duas semanas após passar quase duas décadas em uma prisão de Cuba, acusado de espionagem.

Ninguém consegue encontrar Roly, seu apelido familiar. Esse homem de 51 anos é quem, para surpresa de sua própria família, vários veículos de comunicação norte-americanos identificaram como o misterioso agente que Washington conseguiu trocar, junto com o empreiteiro Alan Gross, por três espiões cubanos presos nos Estados Unidos. Esse acordo abriu as portas para o restabelecimento de relações diplomáticas com Havana, anunciado pelo presidente Barack Obama em 17 de dezembro.

Com essa decisão, os Estados Unidos colocavam fim em um dos mais longos capítulos da Guerra Fria. Mas os mistérios e rumores dignos de um romance da era soviética que ainda cercam a identidade do agente prometem seguir preenchendo novas páginas.

Washington continua sem confirmar ou desmentir abertamente que Rolando Sarraff seja na verdade esse espião que Obama chamou de “um dos mais importantes agentes de inteligência que os Estados Unidos tiveram em Cuba”.

mais informações

“Não vamos comentar nada, além de dizer que foi libertado em Cuba e transferido pelo Governo dos Estados Unidos”, disse uma fonte governamental para o EL PAÍS sob a condição de anonimato.

Mas veículos da imprensa, como o The New York Times, insistem que Roly é Sarraff. Especialistas em espionagem cubana dos dois lados também não duvidam dessa informação: desde Chris Simmons, antigo especialista em Cuba da Agência para a Inteligência de Defesa (DIA) dos EUA, a Domingo Amuchastegui, que trabalhou para a inteligência cubana até 1994. “Sem dúvida, o peixe grande [da troca] era Sarraff”, assegura Amuchastegui. O fato de seu nome ter vazado, se deve, na sua opinião, às pressões “para justificar a troca”. Sem um nome concreto, apontou, o acordo com Cuba poderia ter menos credibilidade.

O caso é que Sarraff, que durante todos os seus anos na prisão se comunicou regularmente com sua família – seus pais continuam em Cuba, ainda que suas irmãs vivam na Espanha –, não deu nenhum sinal de vida desde meados de dezembro. No dia 16, na véspera do anúncio de Obama, Roly não fez a ligação de praxe para seus pais. Pouco depois, sua família soube que havia saído da prisão de segurança máxima Villa Marista, onde esteve preso nos últimos meses. É aí que seu rastro some.

“Continuamos sem saber nada”, confirmou na sexta-feira sua irmã Vilma Sarraff, que mora na Espanha. Seus pais, que continuam morando em Havana, também não voltaram a ter notícias de seu filho. “O Governo de Cuba e o de Washington não disseram nada sobre o paradeiro de Rolando Sarraff”, corrobora Elizardo Sánchez. Sua organização, a Comissão Cubana para os Direitos Humanos e a Reconciliação Nacional (CCDHRN), faz um minucioso acompanhamento dos presos políticos em Cuba e Sarraff Trujillo esteve em suas listas durante anos.

Segundo Sánchez, “todo mundo infere que ele viajou para os Estados Unidos em 17 de dezembro. Nesse momento está no poder das autoridades norte-americanas, que deverão informar os pais de alguma forma, dois idosos que estão muito mal de saúde e desesperados pois não sabem do paradeiro de seu filho. Não estão respeitando o interesse dos pais e de outros familiares em saber de Rolando”, lamentou.

Amuchastegui não acredita, entretanto, que existirão novas notícias sobre Rolando Sarraff: “Esse senhor não será visto e nada se saberá dele durante algum tempo”.

“Ele não vai contatar ninguém, incluindo a família, porque por razões estritamente profissionais, a CIA, o FBI ou quem estiver trabalhando com ele nesse momento, precisa terminar um rigoroso procedimento, longo, tedioso, de comprovações, de perguntas, de interrogatórios que é indispensável”, frisou o antigo especialista em espionagem.

Mas, segundo fontes oficiais norte-americanas, o agente libertado “não está detido nem retido” e, se quiser, “poderia contatar sua família”. “É uma pessoa que passou por muitas coisas, e existem protocolos de segurança que devem ser respeitados, mas ele pode entrar em contato com sua família se quiser fazê-lo”, assegurou. O mistério continua, pois, sem solução.

Conciliação Cuba-EUA: Mistério do espião desaparecido | Internacional | EL PAÍS Brasil

16/07/2012

Fernando Morais: “PDVSA era uma espécie de país amigo da Venezuela. Chávez acabou com isso”

Filed under: Fernando Morais,PDVSA — Gilmar Crestani @ 10:10 pm

publicado em 16 de julho de 2012 às 20:46

por Jônatas Campos, de Caracas, para o Opera Mundi e a Radioagência NP

Autor de biografias como “A Ilha”, “Olga” e “Chatô, o Rei do Brasil”, o escritor Fernando Morais participou do 18º Foro de São Paulo, um dos maiores encontros de partidos de esquerda da América Latina. Em entrevista ao Opera Mundi e à Radioagência NP, o escritor falou sobre seu novo projeto, o documentário “A crise dos olhos azuis”.

O filme, que está em fase de captação das imagens, será sobre a crise da economia mundial em 2008 e terá entrevistas com ex-presidentes, empresários, economistas e líderes mundiais. O título do filme, que ainda não tem data para ser lançado, veio de uma frase proferida pelo ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva.

“É ‘roubado’ de uma declaração do Lula no G20, quando a crise estava estourando. Ele disse: ‘Essa crise não é latino-americana, não é asiática, nem africana. Essa crise tem cabelo loiro e olho azul.’”

Aproveitando uma das maiores reuniões de partidos de esquerda do mundo, o escritor conversou com personalidades como o ex-candidato radical à presidência da França Jean Luc Mélenchon, o jornalista espanhol Ignacio Ramonet e a deputada do partido comunista grego Liana Kanelli.

Fernando Morais confirmou que o presidente venezuelano Hugo Chávez Frias será um dos seus entrevistados. O escritor considera-se chavista e explica que na Venezuela há mais liberdade de imprensa do que em muitos lugares do mundo.

“O que os jornais daqui [da Venezuela] falam diariamente do Chávez, no Brasil ninguém fala. É de uma agressividade. E, no Brasil, dizem que não têm liberdade de expressão.”

Para Morais, a partir do governo do presidente Hugo Chávez os recursos do petróleo venezuelano estão sendo usados para o benefício da população.

“A PDVSA era uma espécie de país amigo da Venezuela. Não era propriedade de Estado. Você não podia pegar recurso da PDVSA para fazer escola, estrada, hospital. Não podia porque o estatuto não permitia, mesmo sendo uma empresa estatal, uma empresa pública. E o Chávez acabou com isso.”

Lembrando que hoje a Venezuela tem a maior reserva de petróleo do mundo, o escritor destaca que as obras de infraestrutura, os investimentos nas comunidades e na agricultura dão ao atual mandatário e candidato a reeleição a vantagem nas eleições deste ano.

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23/10/2011

Os últimos soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais

Filed under: Cuba,Democracia made in USA,Fernando Morais,Terrorismo de Estado — Gilmar Crestani @ 9:55 am
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Enviado por luisnassif, dom, 23/10/2011 – 09:07

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José Lannes

Acabo de ler o último livro do Fernando Morais. Trata-se de um documento histórico emocionante e elucidativo, sobre a saga de 14 agentes secretos cubanos nos Estados Unidos, de 1990 a 1998, reunidos na Rede Vespa e infiltrados em organizações de exilados cubanos que combatiam o governo de Cuba por meio de estratégias de terror: as bombas detonadas nos equipamentos de turismo do país, como forma de minar a nova base econômica cubana após o fim da União Soviética e a queda nas exportações de açúcar.

As informações da Rede Vespa permitiram evitar novos ataques terroristas, de forma similar a que os agentes da CIA fazem em várias regiões do  mundo para evitar ataques ao país. Descobertos por volta de 1995 pelo FBI, foram presos em 1998 dez agentes. Cinco fizeram acordo de delação premiada e outros cinco se negaram, esses últimos tendo sido processados e condenados pela Corte de Miami.

O emocionante consiste em acompanhar a saga de agentes secretos pobres, bem ao contrário do estereótipo do 007 holliwoodiano, com seus apertos financeiros e seus problemas familiares, pois todos entraram nos EUA como desertores e exilados.

O elucidativo é ver um caso claro de como a justiça não é cega. As acusações principais eram: espionagem, atuação como agentes estrangeiros sem registro junto ao governo, falsificação de documentos e perjúrio no preenchimento dos papéis de imigração. Acrescentou-se para o chefe da Rede e seus auxiliares diretos a acusação de homicídio, pelo abate de dois aviões Cessnas que haviam invadido o espaço territorial de Cuba. Das acusações gerais, a primeira consistia em que os agentes espionavam o governo dos Estados Unidos, o que não se provou, pois a ação da Rede era conhecer as estratégias de combate dos grupos de cubanos exilados e não dados secretos governamentais. As demais acusações gerais eram reais, pois os agentes ou entraram nos Estados Unidos com identidade falsa ou sob falso pretexto. A acusação ao chefe da expedição e seus auxiliares de culpabilidade sobre atos de defesa aérea de Cuba também não procedia.

A defesa tentou mudar a sede do julgamento de Miami para outra cidade da Flórida, indeferida pela juíza da comarca. Os agentes foram condenados unanimemente pelo júri popular por todas as acusações, mesmo as infundadas. Após seis meses, a juíza definiu as penas: a Gerardo Hernández, chefe da Rede, duas penas de prisão perpétua mais quinze anos de reclusão; a Ramón Labañino, a pena de prisão perpétua mais dezoito anos; a Tony Guerrero, prisão perpétua mais dez anos; a Fernando González, dezenove anos; e a René González, quinze anos.

O livro termina com o sentenciamento e uma boa dose de aturdimento, pelas pesadas sentenças proferidas em Miami, as primeiras condenações perpétuas por espionagem nos Estados Unidos, e sem a existência de obtenção e transmissão de um único documento secreto estatal. Como diz René Gonzalez, um dos agentes condenados, ao criticar as sentenças “porque nenhum país deve condenar os filhos de outro povo pelas mesmas razões que fariam heróis seus próprios filhos”. Quando se compara com outras condenações similares, a mão da justiça americana foi muitíssimo mais pesada para os cubanos. Em treze anos de prisão, os condenados que possuem família não a encontram, pois o governo americano não concede visto aos familiares que vivem em Cuba. A cegueira da justiça é uma utopia pela qual devemos lutar, mas não a realidade.

O livro torna-se um documento histórico para se aprender que fazemos a história, não como queremos, mas segundo as condições do momento.

Maiores informações do caso em www.freethefive.org e www.thecuban5.org

Os últimos soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais | Brasilianas.Org

12/10/2011

EUA: atores exigem liberdade para antiterrorista cubano

Artistas norte-americanos enviaram uma carta ao presidente Barack Obama para exigir a completa liberdade do antiterrorista cubano René González, informou nesta terça (11) o Comitê Internacional pela Liberdade dos Cinco Cubanos.
A carta faz parte da campanha Atores e Artistas Unidos pela Liberdade dos Cinco Cubanos e pede que González seja liberado para regressar, finalmente, a Cuba e reunir-se com seus familiares.
Entre as personalidades que assinaram a mensagem estão Edward Asner, Jackson Browne, Peter Coyote, Héctor Elizondo, Mike Farrell, Richard Foos, Danny Glover, Elliott Gould, Greg Landau, Francisco Letelier, Esai Morais, Michael Ou’Keefe, Bonnie Raitt, Susan Sarandon, Pete Seeger, Andy Spahn e Haskell Wexler.
René González, preso em 1998 e sentenciado em 2001 a 15 anos de prisão sob acusações de conspiração, fo0i libertado em 7 de outubro passado após cumprir sua sentença, mas uma juíza de Flórida negou-lhe permissão para viajar e reunir-se com sua família em Cuba.
"Não só a ordem para que cumpra três anos adicionais sob liberdade supervisionada nos Estados Unidos é abusiva, como também constitui um insulto gratuito que agrava ainda mais as já deterioradas relações entre ambos países", ressalta a carta.
O texto afirma ainda que “a decisão aumenta a dor da família, que encarará uma separação prolongada por mais três anos.
Durante os 13 anos em que René González permaneceu em uma prisão federal norte-americana, o governo de Washington negou vistos a sua esposa, Olga Salanueva, impedindo-a de visitá-lo, recordou a associação solidária com o povo cubano.
O documento a Obama adverte que, se González permanecer nos Estados Unidos, sua vida correrás perigo diante da agressividade de organizações violentas anticubanas sediadas sobretudo em Miami.
Os atores e artistas perguntam ao Presidente: "Como será garantida a integridade física de González no meio de um ambiente que gera tanta insegurança?"
O presidente Obama recentemente declarou que está aberto a novas relações com Cuba, pois esta é a oportunidade perfeita para comprovar sua boa vontade, permitindo que González se reúna com sua esposa, filhas e pais em Cuba: “É o tipo de gesto que poderia preparar essa nova relação”, afirmam os que assinam a carta.
O ator Mike Farrell declarou: “Eu rezo para que o presidente Obama entenda a injustiça cometida contra René González e os outros dos Cinco Cubanos em nome de jogos políticos. González cumpriusua injusta sentença e agora deve receber permissão para estar com a família, disse.
O patriota cubano faz parte do grupo conhecido internacionalmente como Os Cinco Heróis, que inclui Gerardo Hernández, Ramón Labañino, Antonio Guerrero, e Fernando González.
Os Cinco, como identifica a solidariedade internacional a esses lutadores contra o terrorismo, foram presos em 12 de setembro de 1998 na cidade de Miami. Um processo irregular e fraudulento, conduzido nos Estados Unidos, condenou-os em 2001 a penas que vão de dupla pena perpétua até 15 anos.
Redação Vermelho com informações da Prensa Latina

EUA: atores exigem liberdade para antiterrorista cubano – Portal Vermelho

01/10/2011

Os últimos soldados da guerra fria

Filed under: Cuba,Democracia made in USA,Fernando Morais — Gilmar Crestani @ 12:19 pm
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Fernando Morais: ‘Bloqueio é uma metralhadora apontada para Cuba’

‘"Cuba é um país em guerra com a maior potência bélica do planeta" | Fotos: Ramiro Furquim/Sul21

Felipe Prestes

O jornalista Fernando Morais captou Cuba em dois momentos absolutamente diferentes. Em 1976, Morais escreveu a “A Ilha”, obra que o celebrizou e abriu as portas para sua carreira como autor de grandes reportagens em livro. Naquele momento, o repórter encontrou o socialismo funcionando a pleno vapor, com pouquíssimos descontentes.

O livro que acaba de lançar, “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, se passa na década de 1990 e mostra uma Cuba em fortíssima crise econômica decorrente do fim da União Soviética. Um país que se tornou um prato cheio para as dezenas de organizações anticastristas chefiadas por cubanos radicados na Flórida, que incentivavam e auxiliavam os conterrâneos que desejavam deixar a ilha. Com aviões a seu dispor, estas organizações se tornavam cada vez mais ameaçadoras para Cuba, desrespeitando totalmente o espaço aéreo do país, com voos despudorados sobre Havana.

Neste contexto, o governo cubano inicia a Operação Vespa, que consistiu no envio de 14 espiões que se infiltraram nestas organizações anticastristas.  Morais começou a pensar o livro no mesmo dia em que dez destes espiões foram descobertos pelo FBI e presos, em 1998, . “Eu comentei com a minha mulher: ‘Aqui tem um livro’”. O escritor solicitou documentos secretos ao governo cubano em seguida, mas só os obteve em 2005. A pesquisa, que incluiu 40 entrevistas, teve início em 2008.

Fernando Morais ainda revela profunda admiração pela Cuba revolucionária, que já não funciona tão bem quanto a que mostrou em “A Ilha”. “Relembro sempre do outdoor, que acho muito forte, que foi colocado na entrada de Havana quando o Papa João Paulo II esteve lá em 1998: ‘Nesta noite 200 milhões de crianças vão dormir na rua em todo o mundo. Nenhuma delas é cubana’”, diz.

Na última quinta-feira (29), Morais veio a Porto Alegre  para um debate sobre “Os Últimos Soldados da Guerra Fria” e conversou por cerca de 50 minutos com o Sul21 no restaurante do hotel em que estava hospedado. O jornalista defendeu as “correções de rumo” que estão sendo feitas na economia cubana e explicou que o bloqueio econômico que os Estados Unidos impõem a Cuba é muito mais prejudicial dos que as pessoas costumam pensar.  ”É uma metralhadora apontada para a cabeça da economia cubana”, afirma. Morais também falou sobre jornalismo, regulação da mídia e revelou quais podem ser seus próximos livros.

Morais defende a "mágica" cubana: "Apesar da tragédia econômica, Cuba é único país do Caribe e da América Latina que não tem mais desnutrição infantil" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Quando tu escreveste “A Ilha”, na década de 1970, Cuba era quase a realização de uma utopia, as coisas davam muito certo. Em “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, que se passa na década de 1990, Cuba já está em uma situação econômica muito ruim. Como tu avalias a diferença entre o país nestes dois momentos?

Fernando Morais – Havia uma dependência muito grande com a URSS. Cuba era quase um país da chamada Cortina de Ferro. Mantinha um nível de independência política muito grande, mas do ponto de vista econômico era um grau de dependência enorme. Quando acaba a URSS, a economia cubana sofre um baque que torna a sobrevivência da Revolução uma coisa milagrosa. Só se explica mesmo pela garra do povo cubano. O PIB desabou em 75%. Quando o PIB de um país cai 4 ou 5%, um presidente arranca os cabelos. Eles tiveram que fazer mágica para sobreviver. O inacreditável de tudo isto é que, apesar desta tragédia econômica, passados 20 anos do fim da URSS, dados recentes mostram que Cuba é o único país do Caribe e da América Latina que não tem mais desnutrição infantil. Zero. A taxa de mortalidade infantil é de 4,5 por mil. A dos Estados Unidos é de oito por mil. A do Brasil é de 22 por mil. Em São Paulo é de 11 por mil. No debate sobre o livro em Curitiba me perguntaram como eu continuo solidário à Revolução Cubana. Eu cito estes números e relembro sempre do outdoor, que acho muito forte, que foi colocado na entrada de Havana quando o Papa João Paulo II esteve lá em 1998: “Nesta noite 200 milhões de crianças vão dormir na rua em todo o mundo. Nenhuma delas é cubana”. É isso.

Sul21 – Imagino que tenham questionado no debate o fato de o poder estar concentrado com Fidel Castro e agora com seu irmão, o que muitos consideram uma ditadura.

Fernando Morais – É um país em guerra com a maior potência bélica do planeta. Não sei que cidade está a 160 quilômetros de Porto Alegre, para que as pessoas tenham a noção da distância entre Cuba e os Estados Unidos. E não é uma ameaça retórica. É real. Acho que não tem mais ninguém ingênuo depois que os americanos deram a volta no planeta para invadir o Iraque e o Afeganistão e do que fizeram agora na Líbia. Independentemente se Kadafi era um ditador ou não, eles atravessam o planeta e vão matar gente em um lugar que eles não sabem nem a língua. Se você der um mapa-múndi para os americanos, 99% não sabem onde ficam estes países. Os cubanos não são ingênuos de supor que estão a salvo de uma agressão militar, até porque já houve na Baía dos Porcos. Quando o Brasil entrou na Segunda Guerra, Getúlio baixou no dia seguinte leis que proibiam japoneses, alemães e italianos de falar seus idiomas na rua, de ler livros em suas línguas. Está havendo muita mudança econômica em Cuba. Raúl está corrigindo muita cagada que eles fizeram no começo. Agora, não acredito que haverá alguma mudança política enquanto não acabar o bloqueio econômico.

Sul21 – Como tu estás vendo estas mudanças econômicas?

Fernando Morais – São correções de rumo. Me lembro que nas primeiras vezes em que fui a Cuba, quem cortava seu cabelo era um barbeiro estatal. Você tinha uma unha encravada, tinha que arrumar um podólogo estatal. Não tinha nada que não fosse estatal. Um caso célebre é de uma empresa que era muito famosa que se chamava El Rey de la Papa Frita, que tinha centenas de quiosques em todo o país. Foi estatizada. Eles criaram um mecanismo em um ministério para cuidar da El Rey de la Papa Frita. Não podia dar certo. Foi uma revolução de um radicalismo só visto na Revolução Russa de 1917. Hoje está nos jornais que as pessoas podem comprar e revender carros. As pessoas já podem abrir pequenos negócios. Agora, saúde e educação continuam sendo de responsabilidade do Estado, nisto não se mexe. Cuba não vai voltar a ser puteiro dos Estados Unidos nunca.

Sul21 – O título do livro fala em últimos soldados da Guerra Fria. Mas pela nossa conversa, percebe-se que na verdade esta guerra ainda não acabou.

Fernando Morais – Eu acho que ali foi o último episódio da Guerra Fria. Na verdade, é um anacronismo. A Guerra Fria acaba no dia em que acaba a URSS. Os Estados Unidos perderam o inimigo que alimentava isto. No entanto, ali no Caribe havia um microcosmo onde a Guerra Fria se mantinha.

Sul21 – Agora não se mantém?

Fernando Morais – Isso está, aos poucos, desaparecendo. Primeiro pela descoberta da rede de cubanos. Das denúncias feitas por Fidel a Bill Clinton, via Gabriel Garcia Marquez. E também por um problema generacional. Os jovens que vivem em Miami não estão mais interessados em jogar bombas em Cuba.

Morais diz que as organizações anticastristas estão ficando velhas | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Já não devem ter interesse em voltar para lá também e reinstalar o capitalismo.

Fernando Morais – Não, até porque eles não tiveram prejuízo nenhum. Eles nasceram depois das expropriações. Quinze dias atrás o Pablo Milanés foi fazer um show em Miami, em um grande estádio da American Airlines (a American Airlines Arena). Havia 15 mil pessoas aplaudindo ele dentro do estádio e do lado de fora uns quinze velhinhos com cartazes na mão o chamando de comunista sem-vergonha. Então, isso está diminuindo muito. É muito raro você encontrar um jovem entre as lideranças das dezenas de organizações anticastristas que existem na Flórida.

Sul21 – O bloqueio econômico é realmente o grande causador dos problemas econômicos de Cuba?

Fernando Morais – A maioria das pessoas não sabe o que é realmente o bloqueio. Acha que é só a impossibilidade dos dois países comerciarem e de cidadãos de um país visitarem o outro. É claro que apenas isto já afeta profundamente a economia cubana, porque na hora em que você permitir que o turista norte-americano visite Cuba, o turismo cubano vai multiplicar seu faturamento. Mas o problema maior são as imposições feitas a outros países. Há cerca de três anos, Cuba comprou da Toshiba uns 50 tomógrafos e o Japão não podia entregar, porque se um navio japonês atracar em Cuba fica proibido de atracar em portos norte-americanos durante não sei quantos meses. Há um trecho no livro em que o cônsul norte-americano no Rio de Janeiro procura o vice-presidente da Souza Cruz para ameaçá-lo porque a empresa tinha acabado de montar uma fábrica em Havana, em um terreno que fora expropriado da indústria americana. Deram com o nariz na porta. O bloqueio é uma coisa que até a OEA, que é controlada pelos EUA, já protestou. É uma metralhadora apontada para a cabeça da economia cubana.

Sul21 – O livro mostra que até mesmo Jimmy Carter acabou apelando para o eleitorado de Miami anticastrista quando sua popularidade estava em baixa. A gente vê agora que Obama vai vetar a criação do Estado Palestino. Tu estudaste muito o lobby das organizações anticastristas. Como funcionam estes lobbies?

Fernando Morais – Dinheiro. No caso do lobby cubano, além do dinheiro tem a importância que a Flórida desempenha nas eleições dos Estados Unidos. Foi lá que o Bush (filho) ganhou a primeira eleição, que dizem que foi roubada do Al Gore. No caso do lobby pró-Israel, é financiamento de campanha. Financiamento legal, tudo declaradinho. Os caras não são loucos de enfrentar isto. Perdem a eleição. No caso do lobby cubano, nenhum candidato desde Kennedy, seja democrata ou republicano, deixou de cumprir o ritual de ir beijar o anel dos barões da comunidade cubana em Miami. Se o Obama vier a fazer alguma coisa – seja no sentido de acabar com o bloqueio, seja no sentido de libertar os cinco (agentes cubanos que continuam presos nos EUA) – só vai fazer se for reeleito no ano que vem, o que está cada vez mais difícil. Se ele se reelege, não deverá satisfação nenhuma à comunidade cubana da Flórida, porque ninguém pode ser presidente dos EUA por mais de duas vezes, nem alternadamente.

Sul21 – Tu ouviste a notícia da prisão dos espiões cubanos no rádio e no mesmo momento pensou que dava um livro. Como foi isto?

Fernando Morais – No dia em que eles foram presos, em setembro de 1998, eu estava dentro de um táxi com minha mulher, num final de tarde, no trânsito infernal de São Paulo. No meio de um monte de notícias internacionais, de vulcão não sei onde, ele disse: “Dez agentes secretos cubanos foram presos hoje pelo FBI na Flórida. Estavam infiltrados todos eles em organizações de extrema-direita”. Em geral é o contrário, quem espia o mundo todo são os Estados Unidos, é o FBI, a CIA. Cuba lá dentro, nas “entranhas do monstro”, como dizem os cubanos. Eu comentei com a minha mulher: “Aqui tem um livro”. Levei quase dez anos para conseguir que os cubanos me entregassem o material secreto.

Sul21 – Então, desde aquele momento tu já começaste a fazer o livro?

Fernando Morais – Já. Na primeira vez em que fui a Cuba depois daquilo já bati na porta deles. No começo, Cuba nem reconhecia que eram agentes do governo, mesmo que já tivessem sido condenados à prisão perpétua nos EUA. Em 2005 eles me liberaram os documentos, mas eu estava fazendo a biografia do Paulo Coelho. Já tinha recebido adiantamento da editora, precisava entregar o livro. Quando acabei a biografia, em 2008, saí a campo. Fiquei dois anos pesquisando e um ano escrevendo.

Sul21 – Mas além dos documentos tu também fizeste entrevistas com os familiares dos espiões.

Fernando Morais – Tem 40 entrevistas. Conversas com familiares, com profissionais da área de inteligência, nos Estados Unidos conversas com líderes dos grupos cubanos de direita. Tem muita coisa em off com agentes do FBI aposentados, que me deram dicas. Fui a Nova Iorque entrevistar o Larry Rother, aquele repórter que disse que o Lula bebia, que queriam expulsar do Brasil. Ele foi chefe da sucursal do New York Times em Miami e os caras (grupos anticastristas) ameaçaram ele, cortaram os freios do carro dele, metralharam a porta da casa dele. Falei com os presos por internet e, quando falava por telefone, aproveitava as cotas de minutos que as famílias têm para falar com eles mensalmente. Como não sou nem parente, nem cidadão americano, não podia visitá-los na cadeia.

Processo de pesquisa do livro foi "saboroso", conta o jornalista | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21: Foi bem reportagem investigativa.

Fernando Morais – Típica reportagem investigativa. Tem que se virar para que as pessoas contem coisas que não estão querendo contar. Fiz tudo sozinho. Em geral uso jovens jornalistas, historiadores ou pessoas da área de Letras para fazer algumas pesquisa e entrevistas por mim. Nesta, eu achei tão saboroso que fiz tudo sozinho. Tive pessoas me ajudando apenas para marcar entrevistas, degravar as fitas. Tinha uma moça em Havana, uma jornalista, a Leslie. Em Miami tinha uma jornalista colombiana e no Brasil, uma jovem jornalista. Ela organizava as informações para mim.

Sul21 – É uma história que desperta o interesse em todo o mundo. Já tem edições em outros idiomas?

Fernando Morais – Tem duas editoras norte-americanas interessadas em lançar o livro. Em espanhol, já tem editora em Cuba, Venezuela e México. Em Portugal também. E já está vendido para cinema desde o começo, para um jovem investidor paulista Foi o que me ajudou porque foi uma pesquisa cara. No meio da pesquisa, o dinheiro havia acabado. Ele comprou os direitos. Está em campo para ver se amarra a produção com algum grande estúdio norte-americano.

Sul21 – Muitos jornalistas antigos falam que este tipo de reportagem morreu, principalmente nos veículos. Tu concordas com isto?

Fernando Morais – Os donos dos veículos dizem que o leitor não quer mais saber de reportagens extensas, quer saber de hard news, de internet. Se isto fosse verdade meus livros não venderiam o que vendem. São todos livros de grande reportagem, e todos os dez entraram em listas de mais vendidos. Acho que as pessoas querem as duas coisas. Uma coisa é você entrar na internet agora e saber o que está acontecendo na Bolívia. Outra coisa é você ler uma boa história. Público tem. Precisa dinheiro para você pôr um repórter por dois, três meses em cima de um assunto. Eu sou um leitor ávido de papel. Uma das minhas alegrias era ler de manhã três, quatro jornais. Já não tenho tanta sedução assim. Os jornais hoje me lembram um verso profético do Gilberto Gil: “O jornal de manhã chega cedo, mas não traz o que quero saber/As notícias que leio, conheço, já sabia antes mesmo de ler”. Salvo uma ou outra coisa, você já leu antes na internet. Não acho que a internet vai acabar com o jornal. Mas acho que a única maneira do jornal em papel obter alguma vantagem sobre a internet é com opinião e com a grande reportagem, com matérias esteticamente trabalhadas. Dar tempo ao repórter burilar, escrever a reescrever. Se não, morrerão de fome.

Sul21 – Como tu vês a discussão que voltou à tona agora sobre a regulação da mídia?

Fernando Morais – Eu sou a favor, claro. Em primeiro lugar, televisão e rádio não são propriedade dos donos, é uma concessão com a sociedade está fazendo a eles, mas mesmo a mídia impressa precisa de regulação. Isso não significa ter censura, não. É ter normas. Um jornal não pode dar em manchete que você é batedor de carteira e no dia seguinte desmentir com uma notinha de três linhas. É inadmissível que seja assim. Eu sou absolutamente contra a censura. Vivi de 1968 a 1976 abaixo de censura. O censor sentava ao seu lado na redação. Não pode haver nenhuma instituição impune. Esta discussão, por exemplo, sobre o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Tem que ter o CNJ. Você não pode permitir, por exemplo, que a censura que era fardada se torne a censura togada. Agora, quem é que regula o direito da imprensa dizer que você é ladrão? Tem regulação no mundo inteiro. Tem muito mais nos países que são modelo para os nossos donos de jornal. Nos EUA, quem é dono de televisão não pode ter jornal. E as televisões que têm alcance nacional precisam de um percentual altíssimo de produção local e de produção independente. Aqui no Brasil, as grandes redes nacionais produzem tudo no São Paulo e no Rio de Janeiro. Os estados produzem apenas uma fatia pequenininha do seu noticiário.

"Este papo que os donos de jornal estão usando é para inibir quem defende a regulação. Não tem censura nenhuma" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Para a indústria cultural não é bom.

Fernando Morais – Claro que não. Um país com uma diversidade cultural como a nossa não pode ter uma emissora de televisão como a Globo, com 60% de audiência, com a concentração de produção como ela tem. Seria bom para também para ela comprar produção local. Seria uma forma de estimular produtoras no Brasil inteiro. E não tem nada que ver com censura. Este papo que os donos de jornal estão usando é para inibir a ação de quem defende a regulação. Não tem censura nenhuma.

Sul21 – Mas é difícil disseminar uma ideia contrária entre a população.

Fernando Morais – Claro, eles detêm o controle dos meios. Não adianta você querer dizer que isto não é censura no seu site, que atinge uma fatia pequena. Tem a Globo, o Estadão, a Folha, a Veja. Dos grandes, você tira a Carta Capital. O resto todo está martelando a cabeça das pessoas, dizendo que regulação é sinônimo de censura. Quando falo, mesmo para pessoas de cabeça aberta, que sou a favor da regulação, falam assim: “Quem diria, você que foi vítima da censura, agora está defendendo”.

Sul21 – Como estão andando as biografias do José Dirceu e do Lula?

Fernando Morais – Do José Dirceu eu estava trabalhando, ainda não desisti. Cheguei a ir a Cuba com ele, no lugar em que ele foi treinado, as pessoas que conviveram com ele, o médico que fez a cirurgia no rosto dele. Aí veio a cassação e ele teve que cuidar da vida dele. Pensamos em fazer um livro mais em primeira pessoa chamado 30 Meses, que seria a história dos bastidores do Governo Lula a partir da ótica dele. Ontem (quarta-feira, 28) ele lançou em Brasília um livro (Tempos de Planície), que acho que é um livro de ensaios, não de revelações. Com o Lula estou conversando há uns dois meses. Nem eu, nem ele sabemos bem o que se quer fazer.

"Governo Lula levou para o mundo das pessoas que comem três vezes por dia 30 milhões de habitantes" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Ele está plenamente disposto a fazer esta biografia?

Fernando Morais – A iniciativa foi dele, do pessoal ligado a ele. Me procuraram e propuseram um almoço com ele. Tenho uma relação antiga com o Lula. Na noite em que o sindicato foi invadido pelo Exército em 1979, estava lá dentro com ele. Pode rolar, pode dar um negócio legal. Vamos ver. É um momento bom porque eu estou na entressafra.

Sul21 – Não tem algum outro projeto em vista?

Fernando Morais – Tenho. Aliás, um projeto aqui no RS. Estou começando a conversar com a família do João Goulart para fazer algo não sobre a vida dele, mas sobre a morte.

Sul21 – É algo que está no ar.

Fernando Morais – É, aquilo não está devidamente esclarecido. Almocei na semana passada com a dona Maria Thereza (viúva de Jango) e com a Denise (filha). Vamos ver. Não descarto nenhuma possibilidade.

Sul21 – Como tu avalias o governo Lula?

Fernando Morais – Um governo que levou para o mundo das pessoas que comem três vezes por dia 30 milhões de habitantes. São três Chiles, cinco Dinamarcas de gente que não comia e que passou a comer. A política externa foi impecável. Altiva, independente, sem submissão. Acho que os tataranetos da gente, daqui duzentos anos, vão olhar para o Brasil dos séculos XX e XXI e vão ver dois governantes: Getúlio Vargas e Luis Inácio Lula da Silva.

Sul21 – E quanto ao governo Dilma?

Fernando Morais – Muito bem. Acho que está um pouco embaçado neste começo por estes rolos, de ladrões pendurados na administração, mas acho que vai ser tão bom quanto o do Lula. É a mesma família. São galhos da mesma árvore.

Sul 21 » Fernando Morais: ‘Bloqueio é uma metralhadora apontada para Cuba’

01/09/2011

Férias, é bom e eu gosto

Filed under: CIA,Fernando Morais — Gilmar Crestani @ 12:26 am
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Saí desta fria e fiquei me aquecendo uns dias no Nordeste. Este “sociólogo”, que não reza pela cartilha da Teoria da Dependência, observou por lá alguns aspectos que reputo interessantes.

1. Os aeroportos estão cheios. De gente feia. Aquela que trabalha todos os dias, não faz ginástica e por vezes almoça uma “quentinha” no trabalho.

2. Não vi mais os dinossauros do atraso, VASP e Varig. Estavam lá nas latarias das aeronaves estampados nomes esquisitos, como o nome dos passageiros. E não houve atraso nos voos, nem lanches, numa viagem de mais de 5 horas. Pensando bem, quem vai querer pagar R$ 300,00 a mais na passagem só para fazer uma refeição à bordo?

3. A BR101, do Aeroporto de Guararapes a Ipojuca, é uma buraqueira só. E não dá tempo para consertarem. Os operários estão todos ocupados ao longo da rodovia, num canteiro de obras que ocupa ambos os lados da rodovia. O concreto que serviria para tapar os buracos da estrada está sendo usado para levantar galpões das mais variadas grifes ao longo do caminho.

4. Nos hotéis, onde antes predominavam europeus, agora só há latinos. Muitos brasileiros, alguns argentinos e poucos outros sul-americanos. Dos europeus, só aqueles casados com brasileiras… Quiçá em busca de emprego no Porto de SUAPE.

soldadosfernando5. Debaixo do guarda sol, com um olho nas crianças aproveitei para ler, e recomendo, “Os últimos Soldados da Guerra Fria”, do Fernando Morais. Tudo aquilo que intuímos pelo que acompanhamos pela internet, Fernando Morais põe os pingos nos iis. Os EUA são o verdadeiro celeiro do terrorismo. Não há crime de repercussão política impactante em qualquer país que não tenha um porção, por menor que seja, de participação de porcos daquela pocilga. Não foi mero acaso que tentaram invadir Cuba pela Baía dos Porcos… A verdadeira fábrica em série de terroristas pertence ao que comumente conhecemos por uma sigla simpática, CIA. CIA de criminosos.

6. Alguns dias de curtição em família não tem preço! Para os demais, cheques sem fundo…

22/08/2011

"Os Últimos Soldados da Guerra Fria”

Revista do Brasil – Edição 62 – Agosto de 2011

Na rota da Rede Vespa

Por: Paulo Donizetti de Souza, Revista do Brasil

Na rota da Rede Vespa

Morais recebeu a RdB com exclusividade em seu escritório (Foto © Jailton Garcia)

Os caras saem de Cuba como traidores, como desertores, gente que roubou avião… Um deles arrancou com o avião e pousou quase em pane seca em Miami. As mulheres não sabiam, os filhos não sabiam, não podiam saber

O agente René Gonzáles foi o primeiro a entrar na Flórida, em 1990. Saiu de Havana simulando ser um traidor da revolução cooptado pelo sonho americano. Nos dois anos seguintes, seria seguido por outros 13 companheiros, entre eles duas mulheres. A Rede Vespa estava pronta, com a missão de infiltrar-se entre organizações de direita que jamais digeriram a revolução de 1959. Com apoio de empresários e políticos norte-americanos, essas organizações contratavam mercenários para sabotagens como lançar pragas contra as lavouras e interferir nas comunicações do aeroporto de Havana. No início dos anos 1990, passaram a privilegiar o terror à indústria do turismo, base da economia da Ilha depois da derrocada da União Soviética. As ações incluíam de rajadas de metralhadoras contra turistas em praias cubanas a atentados a bomba em hotéis. As reclamações diplomaticamente dirigidas ao governo americano eram ignoradas.

Distante apenas 160 quilômetros do maior império militar do mundo, restava ao governo cubano, para defender-se, a inteligência. Os agentes da Rede Vespa, disfarçados em profissões inusitadas como instrutor de salsa em Key West ou personal trainer de milionários de Miami, conseguiram proteger seu país de centenas dessas operações. Em 1998, uma ofensiva do FBI levou à captura dos agentes. Quatro esca­param. Outros cinco negociaram a liberdade em troca de informações. Restaram René e seus companheiros Fernando González, Antonio Guerrero, Ramón Labañino e Gerardo Hernán. Fiéis à sua causa, desde aquela época estão encarcerados em diferentes presídios de segurança máxima, condenados pela Justiça americana a penas de 15 anos a prisão perpétua.

Habituado a grandes reportagens, o jornalista e escritor Fernando Morais foi atrás da história. O autor de A Ilha (1976, atualizado em 2001) e das biografias de Olga Benário Prestes, Assis Chateaubriand e Paulo Coelho (traduzido em mais de 40 países) conhece o caminho das pedras e dá a suas histórias narrativas cinematográficas. Olga­ foi o primeiro a ir para as telas. Chatô, o Rei do Brasil está filmado. Toca dos Leões, livro que tem como pano de fundo o sequestro do publicitário Washington Olivetto, já está nas mãos da produtora de Fernando Meirelles. Corações Sujos, uma história da imigração japonesa na Segunda Guerra Mundial, foi sucesso no Festival de Paulínia e estreia em breve em circuito comercial. E, antes mesmo de ser escrito, Os Últimos Soldados da Guerra Fria, lançado este mês pela Companhia das Letras, teve seus direitos vendidos para cinema. Trata-se, segundo o autor, de uma história eletrizante como um romance policial. Pena que, a exemplo dos 50 anos de agressões norte-americanas a Cuba, nenhuma de suas 350 páginas tenha uma linha sequer de ficção. É tudo verdade.

O filme Cidadão Kane, que completa 70 anos, fez história no cinema inspirado no poder de um magnata da mídia, o vaidoso e excêntrico William Randolph­ Hearst. Assis Chateaubriand se encaixaria no papel?
Sim, o Chatô foi um Hearst brasileiro, com características tropicais. Provavelmente, um dos homens mais poderosos da primeira metade do século 20. Talvez nem Getúlio tenha tido tanto poder quanto ele. O Cruzeiro foi a única revista no Brasil a vender 700 mil exemplares em banca, numa época em que o Brasil tinha 40 milhões de habitantes e índices de analfabetismo altíssimos. Acho que nem Roberto Marinho teve tanto poder. É um personagem fascinante, e com excentricidades muito peculiares, como aquela mania de condecorar autoridades com a Ordem do Jagunço. Ele punha um gibão de couro de bode fedorento e um chapéu de cangaceiro no condecorado e batia com um punhal enferrujado – fez isso com o Churchill. As pessoas ressaltam que ele usava seus veículos para fazer chantagem, mas foi assim que montou o Masp, que é um museu público, não é da família Chateaubriand, não é dos Diários Associados, não ficou para os filhos. Tudo isso conseguido na ponta da faca.

Seria também comparável a outra figura agora em evidência pelos escândalos em seus jornais britânicos, Rupert Murdoch? 
É bem diferente. O Murdoch não tem a riqueza humana que o Chatô tinha. Compará-los é injusto com o Chatô.

Murdoch seria um ícone desse tipo de jornalismo que se faz hoje, que não investiga, é pautado, movido a “fontes” e releases?
O Murdoch, você pode dizer sem medo de cometer injustiça, é um cara de direita. Do Chatô você não podia dizer isso stricto sensu. No golpe de 64 ele ajuda os militares e depois rompe. No dia em que o avião do Castello Branco se arrebenta numa montanha no Ceará ele dá uma festa, celebra com champanhe a morte do ex-ditador.Morais pesquisou durante três anos

Tem um outdoor em Cuba que diz: “Esta noite 200 milhões de crianças vão dormir naruaemtodoo mundo. Nenhuma delas é cubana”. Que país pode fazer isso? É por isso que sou solidário

E a produção do filme Chatô, o Rei do Brasil, será finalizada um dia?
O Guilherme diz que o filme está pronto. (O ator e diretor Guilherme Fontes comprou os direitos do livro e começou a filmá-lo em 1995; depois de consumir mais de R$ 8 milhões, teve a prestação de contas rejeitada pelo TCU, não conseguiu terminar a obra nem obteve mais recursos.) A única coisa que eu sei é que o Guilherme é honesto. Ele não se apropriou de dinheiro público, certamente tem menos bens hoje do que há 16 anos, quando comprou os direitos do livro, e eu não sei se foi má administração. Enfim, cinema não é a minha praia, embora eu já tenha tido outros livros vendidos para o cinema. Teve o Olga, agora o Corações Sujos vai estrear.

Esse não foi o Cacá Diegues quem comprou os direitos para filmar?
Quem tinha adquirido originalmente os direitos para filmar Corações Sujos era o Cacá Diegues, mas ele vendeu para o Vicente Amorim, filho do Celso Amorim. É um bom cineasta. Assisti à exibição no Festival de Paulínia, ficou uma beleza. Esse livro que estou lançando agora também vai virar filme. E foi comprado antes de eu escrever. Tem um jovem aqui de São Paulo, chamado Rodrigo Teixeira, que é um investidor. Ele compra argumentos, histórias, para depois chamar diretores. O que permitiu que eu fizesse 20 viagens para Cuba e para os Estados Unidos nos últimos três anos foi o adiantamento que recebi da editora mais o direito que recebi para o filme. Além disso, vendi para a O2, do Fernando Meirelles, o Toca dos Leões, que é a história da W/Brasil, do Washington Olivetto. Eu estava trabalhando com o Washington quando ele foi sequestrado (em 11 de dezembro de 2001; ficou 53 dias em cativeiro), então comecei a investigar o sequestro junto com a polícia, com a família.

Você falou do Toca dos Leões. É por causa desse livro que o Ronaldo Caiado…
Está me processando. E eu prefiro não falar disso. Há um processo, e falar sobre algo que está sub judice pode acabar soando como uma manifestação de afronta à Justiça.

Então vamos ao livro dos cinco cubanos, Os Últimos Soldados da Guerra Fria.
Eu estava num táxi com a minha mulher quando ouvi no rádio que agentes de inteligência cubana tinham sido presos havia algumas horas. Originalmente eram 14, quatro escaparam. Cinco traíram, fizeram delação premiada, estão em algum lugar do mundo, com nome falso. E cinco não aceitaram fazer acordo, disseram: “Não somos espiões, nunca quisemos nem queremos tocar num único documento norte-americano, viemos aqui para nos infiltrar em organizações de extrema direita que estavam colocando bombas em Cuba, sobretudo na indústria turística”.

Que foi o que salvou Cuba nos anos 1990.
Foi a atividade que salvou Cuba depois do fim da União Soviética. E quando ouvi essa história no rádio, comentei com a minha mulher: “Pô, isso aí dá um livro”. Na primeira oportunidade que tive de ir à Cuba, comentei com amigos lá da direção do partido: “Eu quero fazer essa história”. Eles diziam que isso podia comprometer a segurança pessoal de muita gente, que era segredo de Estado, e toda vez que voltava a Cuba eu insistia. Em 2005, fui a Havana para a bienal do livro. Na véspera de eu voltar para o Brasil, toca o meu celular. Era o Ricardo Alarcón, presidente da Assembleia Nacional. Eu estava jantando no Floridita, e ele foi até lá: “Ainda está interessado na história dos cinco?” Em 2008, comecei a falar com familiares, ouvi gente envolvida com eles, governo, inteligência, militares. Ao longo desses três anos pude entrevistar alguns dos presos, porque eles estão em cinco prisões de segurança máxima, cada uma em um estado, com regimentos diferentes. Algumas permitiam que eu falasse por internet, outras não. Nas que não permitiam, eu chegava por meio da família, que tinha uma cota de telefonemas mensal; mandava perguntas pelas mulheres, filhos e tal.

Pouca gente em Cuba sabia dessa missão?
Ninguém! Só altíssimo escalão, Fidel, Raúl Castro e mais dois ou três dirigentes do partido. Os caras saem de Cuba como traidores, como desertores, gente que roubou avião… Teve um deles que arrancou com o avião de lá e pousou quase em pane seca em Miami. As mulheres não sabiam, os filhos não sabiam, não podiam saber. Era uma coisa dolorosa, porque a mulher era apontada na rua como a mulher do gusano (traidor). Tem uma passagem da filha de um deles, hoje já casada, que com 11, 12 anos estava com o primo jogando um jogo qualquer. Ganhou dez vezes seguidas e virou para o priminho e disse: “Eu sou mais nova do que você e sou campeã”. E ele: “Mas meu pai não é gusano, o seu é”. Pô, a menina avançou nele. Então, esse tipo de tragédia humana tem um impacto muito grande.Fernando Morais, escritor, julho 2011 (Foto Jailton Garcia)

Um americano, Allan Gross, foi a Cuba duas vezes. Na primeira conseguiu botar bomba e escapar. Na na segunda foi preso, a partir de informações mandadas pelos cinco. Ia colocar bombas por US$ 7.500. É uma história de dar calafrio

Haja frieza.
Tem coisas muito interessantes. Um deles era comandante de uma coluna de tanques na África, durante a guerra de Angola, e foi dar aula de salsa em Key West, que é um paraíso gay. Então, era um sujeito com formação em Engenharia Aeronáutica na Ucrânia, na União Soviética, que ia dar aula de salsa para os gays em Key West. Outro era comandante de MIG, de caça-bombardeiro, tinha longa experiência em combates, e foi trabalhar como personal trainer, fazer ginástica com milionários de Miami. Outro, o Gerardo, que chefiava o grupo, vendia charges para jornal em Miami. Estamos acostumados com os filmes de James Bond, em que a vida do agente de inteligência é cercada de champanhe, mulheres, glamour. Imagina: todos moravam em quitinete, alguns tinham carro, nenhum tinha celular, que começava a aparecer. O primeiro que vai para lá, o René, vai em 1990, depois vão os outros. Em 1992 a equipe, a chamada Rede Vespa, estava montada.

E a ação deles nos EUA conseguiu evitar…
Conseguiu evitar dezenas, centenas de atentados e permitiu a prisão de vários mercenários, alguns dos quais eu pude entrevistar. Mercenários estrangeiros que eram contratados pelo pessoal de Miami para botar bomba em hotel, em avião, agência de turismo cubana. O turismo estava salvando a revolução, então era o que tinham de destruir. É uma história muito dramática e ao mesmo tempo eletrizante, você lê como quem lê um romance policial. Tem histórias incríveis. Tem uma correspondência secreta entre o Fidel e o Bill Clinton, com informações que os cinco mandaram de Miami para Havana, e o pombo-correio entre o Fidel e o Clinton era o Gabriel García Márquez. (O objetivo era alertar o governo americano para que impedisse os atentados.)

Você falou com autoridades americanas. Há quem defenda afrouxar a pena, soltura?
Tenho uma declaração do ex-presidente Jimmy Carter dizendo que espera que o Barack Obama indulte a pena deles e os coloque em liberdade. O processo judicial tem um erro atrás do outro. Primeiro, o fato de eles terem sido julgados em Miami, que é uma cidade visceralmente anticubana, anticastrista. Um funcionário da Casa Branca declarou o seguinte: “Julgar agentes de inteligência cubanos em Miami é o mesmo que julgar agentes de inteligência israelenses em Teerã”. É a crônica da condenação anunciada. O pessoal do FBI não pode falar oficialmente, mas conversei com muita gente em off que me deu dicas de onde procurar documentos. Folheei 30.000 páginas de material que eles mandaram para Havana, selecionei 6.000 folhas de papel para trazer e trabalhar em cima.  O FBI já estava de olho neles três anos antes de prendê-los. Entrou em todas as casas clandestinamente e todos os dias copiava tudo que eles estavam mandando para Cuba. E esse material eu peguei todo. Tive acesso a grampo telefônico, filmagem de gente preparando atentado, transcrição de conversa de mercenários. Abundância de material secreto.

Quem contratava mercenários?
Era gente da extrema direita cubana, que começou a se exilar, gente que perdeu banco, usina, indústria, e fica em Miami financiando o terror contra Cuba. Então, esses mercenários recebiam em média US$ 1.500 por bomba. Tem um deles preso em Cuba. Foi condenado à morte por fuzilamento e teve a pena comutada para 30 anos de prisão.

Alguma expectativa de que isso possa resultar em acordo para os cinco cubanos?
Eu acho que pode ser objeto de troca.

Mas esses mercenários não têm valor nenhum para os americanos…
Claro… Tem um americano lá, Allan Gross, que foi a Cuba duas vezes. Na primeira conseguiu botar bomba e escapar, e na segunda foi preso, a partir de informações mandadas pelos cinco. Ia colocar cinco ou seis bombas por US$ 7.500. Eu fui falar com ele. É uma história de dar calafrio.

E, com relação ao pedido de Carter a Obama, alguma expectativa?
Eu não sei. O Obama primeiro tem de resolver essa pepineira em que ele está lá. E ele não pode desagradar a bancada anticastrista, ele depende de maioria no Congresso, como todo mundo. Eu tenho esperança de que o Obama possa indultá-los não neste mandato, mas se for reeleito. Se indultar agora, a dificuldade de se reeleger vai ser grande, por isso e pela soma dos problemas que está vivendo.

Você, que vai tanto a Cuba, vê alguma perspectiva de mudança, de abertura do regime?
O problema é o seguinte: você não pode ver Cuba como vê um país qualquer, não se pode discutir a realidade cubana sem considerar o bloqueio. A maioria das pessoas nem sabe o que é o bloqueio. Por exemplo, um navio japonês que aporte em Cuba – porque o país comprou dez tomógrafos da Toshiba, no Japão – assim que atraca num porto cubano, ficará não sei quantos meses sem poder atracar em portos norte-americanos. Eles multam empresas pelo mundo. A expressão que usam não é “comercializar”, é “traficar” com Cuba. São 50 anos de agressões, nenhum outro país na história foi vítima da agressão norte-americana durante tanto tempo em todos os sentidos, militar, político, econômico, diplomático.Fernando Morais, jornalista, julho 2011 (Foto Jailton Garcia)

A biografia do Paulo Coelho, um personagem humano, um fenômeno literário,  permitiu que eu contasse um pouco sobre o Brasil da época. Enquanto resistíamos à ditadura, ele estava fumando maconha

Você não acha que o regime, mantido há 50 anos, ficou um tanto decrépito?
O Raúl Castro já fez alguns acenos de abertura. É evidente que eles radicalizaram muito quando a revolução triunfou. Pô, estatizaram até quiosques de batata frita. Aí você tem de criar um ministério com um bando de burocratas para administrar quiosques de batata frita. Não é papel do Estado… Eu tenho uma unha do pé encravada e, em Cuba, toda vez que precisei de uma podóloga era do Estado. Aparar a barba, cortar o cabelo? Barbeiro do Estado. Então, é evidente que assim você desenvolve um dinossauro burocrático, e os cubanos percebem isso.

O bloqueio justifica o regime tão fechado?
Esse tipo de pergunta precisaria de horas para ser respondida com um pouco de consistência. Então, prefiro usar imagens. Muita gente me pergunta por que sou solidário à Revolução Cubana até hoje se é um regime que tem tantas mazelas. Eu costumo responder o seguinte: tem um outdoor em Cuba que diz “Esta noite 200 milhões de crianças vão dormir na rua em todo o mundo. Nenhuma delas é cubana”. Que país pode fazer isso? A França? Imagina! No inverno, você vê imigrantes dormindo embaixo das pontes. No Japão? Eu fui ao Japão duas vezes para fazer o Corações Sujos, e você vê velhinhos morando em caixas de papelão na rua, pedindo dinheiro. Em Nova York tem miseráveis. Falo de países do primeiríssimo mundo. Em Cuba você não vê ninguém descalço, banguela. É por isso que sou solidário. Você pode dizer que a liberdade é um valor universal. Tudo bem, mas eles transformaram um bordel norte-americano em um país civilizado, um país exemplar. Pode abrir, ter liberdade de expressão, de organização, partidária? Eu acho que, enquanto houver bloqueio e os Estados Unidos forem inimigos tão agressivos da Revolução Cubana, é difícil.

O bloqueio é questão de honra, ou pirraça?
É loucura! Cuba tem o PIB da Daslu, uma economia de nada, e é um país de 10 milhões de habitantes. A maior potência bélica, econômica e militar do planeta está ali, a 160 quilômetros de distância. É a distância de São Paulo a Piracicaba, do Rio de Janeiro a Juiz de Fora. São 50 anos de agressão de toda natureza. O Fidel mandou para o Bill Clinton um contêiner do tamanho desta mesa com fitas de vídeo, áudios, grampos, dossiês dizendo quem eram os caras que estavam em Miami financiando o terrorismo. Por que não prenderam? Podem dizer o que quiserem, que sou dinossauro, não me importo. Uma das poucas coisas boas que eu conquistei na vida foi a minha independência. As pessoas me perguntam por que escrevi a biografia do Paulo Coelho depois de ter escrito um livro sobre Cuba…

E por que escreveu biografia do Paulo Coelho?
Porque eu quis. E porque acho o Paulo um personagem interessante, humano, é um fenômeno literário e permitiu que eu contasse um pouco sobre o Brasil na época da ditadura para um público talvez alheio a essa história e por meio de alguém que não era militante. Enquanto estávamos enfrentando a ditadura, ele estava fumando maconha. É um pedaço do Brasil ou não é? Essa independência é o maior bem de que eu disponho.

Mas, entre você e Marco Maciel, a Academia Brasileira de Letras ainda preferiu o Maciel…
Que não tinha escrito livro nenhum e me deu uma surra (em 2003). Foram 30 votos a 9. Mas tive voto do Carlos Heitor Cony, do Celso Furtado, do João Ubaldo. Então eu não perdi, ganhei.

O que acrescentaria ser integrante da ABL?
Olha, se você olhar para a lista dos membros da Academia, vai ver que seria um privilégio conviver com boa parte deles. Não todos, claro. Tem o Merval Pereira, mas tem o João Ubaldo, o Antonio Callado, o Alfredo Bosi, tinha o Celso Furtado… Gente interessante, me acrescentaria muito. Se eu tivesse oportunidade, me candidataria de novo, sem o menor pudor.

O nível de leitura está melhorando no Brasil?
Consumindo mais livro, está. Existe uma dezena ou mais de autores que vivem exclusivamente de livros. Não levo vida de rico, mas vivo razoavelmente bem, tenho um escritório, meu carro, viajo… Enriquecer, não, mas dá para viver disso. Também não sustento amante, não cheiro cocaína… Meu único vício caro são meus charutinhos, que já estão depauperando minha garganta. Não tenho um terno. Casei no ano passado e tive de alugar.

O livro é o futuro da grande reportagem?
Para mim tem sido nos últimos 30 anos. Todos os meus livros – esse é o décimo – poderiam ser publicados em jornais e em revistas. E hoje tem uma coisa fascinante, a internet. Eu achava que a liberdade de expressão, sobretudo nos meios eletrônicos, ia ser conquistada nas barricadas, nas tribunas, e a tecnologia foi mais rápida que a ideologia. Hoje, se você tiver um notebook e uma linha telefônica, pode ser seu próprio Roberto Marinho. Se tiver o que dizer, vai ter audiência. Hoje você monta uma estação de televisão com uma linha telefônica e um notebook. O Paulo Coelho está fazendo uma experiência interessante, colocar os livros na internet, de graça. Achei que fosse destruir as vendas, e está vendendo mais. A Amazon em 2010 vendeu mais livros virtuais do que físicos, pode ser um indicador, não sei. Mas uma revolução está acontecendo nas nossas barbas.

Na rota da Rede Vespa — Rede Brasil Atual

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