Ficha Corrida

23/12/2014

Desinventando o jornalismo

aecio-sampaioOs mesmos interessados que desestabilizaram a Líbia, Egito, Síria, Ucrânia, que tentaram na Turquia, na Venezuela e no Brasil, são os mesmos que tentam manipular na Grécia. Por trás e na frente de todos, a CIA, os EUA, o capital financeiro internacional e as petroleiras. O que espanta é a desfaçatez, a idiotice da manipulação mais grosseira, como se fôssemos broncos, sem qualquer capacidade de discernimento.

Não é a Grécia que desinventa a democracia, mas a mídia de desinventa a informação. Informação só é válida se atende aos interesses de quem a finanCIA. A seleção do que se vai falar ou de que se vai calar é puramente ideológica e atende exclusivamente aos interesses dos donos dos meios de comunicação. O famoso Escândalo da Parabólica, envolvendo Rubens Ricúpero e Carlos Monforte, na Rede Globo, é emblemático do que estou dizendo.

Por que não traçar um paralelismo entre o que estão tentando fazer na Grécia com o que Carlos Sampaio & Aécio Neves estão tentando fazer no Brasil? Por que lá é desinvenção da democracia e o que estes dois palhaços estão tentando fazer no Brasil não é?!

CLÓVIS ROSSI

Grécia ‘desinventa’ a democracia

Risco de que a esquerda ganhe uma eventual eleição geral leva a manobras nada limpas ou democráticas

Atenas pode ter inventado a democracia, mas, agora, dirigentes gregos (e os mercados financeiros internacionais) estão em plena campanha terrorista para evitar que se pratique o mais simbólico ato democrático, que é o de votar.

Por partes:

1 – O Parlamento grego está votando para escolher um novo presidente. São necessários 200 votos, dos 300 congressistas, para que um candidato se eleja.

2 – O candidato da coalizão governista obteve, na primeira votação, apenas 160 votos. Nesta terça-feira, 23, faz-se a segunda votação, com idêntico quórum.

3 – Se de novo não forem alcançados os 200 votos, a porcentagem mínima cai para 180 na terceira e última votação, a se realizar dia 29.

4 – Se nem assim for eleito um presidente, é obrigatória a convocação de eleições gerais, estas sim destinadas a escolher quem governa, já que o presidente é uma figura apenas cerimonial.

Eleições, para meu gosto, são sempre a solução, não um problema.

Mas para a Grécia, presa no labirinto de sua formidável crise, convocar eleições gerais equivale a entregar o poder a uma certa Syriza (Coligação de Esquerdas), conforme demonstram todas as pesquisas.

E a Syriza é virulentamente contra o programa de austeridade implantado nos últimos anos e tido como responsável por um retrocesso econômico inédito em país que não enfrentou uma guerra.

A economia retrocedeu 25% nesses cinco anos de crise, o desemprego saltou de 8,3% para 27% e a dívida pública mantém-se em números assustadores (€ 322 bilhões, cerca de 170% do PIB).

A Syriza quer renegociar a dívida e implantar um programa de gastos sociais de cerca de € 11,6 bilhões –condições que são um anátema para os credores e para a troika (Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional e Comissão Europeia), a verdadeira gestora da economia local.

Para evitar que a eleição seja antecipada (o normal seria realizá-la em junho de 2016), o governo do conservador Antonis Samaras (Nova Democracia) está fazendo o diabo. Literalmente.

Segundo denúncia de um deputado do grupo Gregos Independentes, um intermediário supostamente em nome do governo ofereceu suborno para que votasse a favor de Stavros Dimas, o candidato oficialista à Presidência. O governo nega, como é fácil de imaginar.

Mas Samaras também tentou adoçar a boca dos congressistas ao prometer que, se elegerem um presidente (mesmo que não seja Dimas), antecipa a eleição geral para o fim de 2015, em vez de fazê-la no início do ano, como seria de regra caso não se consiga eleger o presidente.

Espera, com esse intervalo, que se consolide a tímida e incipiente recuperação da economia grega, o que, em tese, tiraria votos da Syriza.

É uma aposta nada democrática, mas que se explica pelos números de outra pesquisa, do Pew Research Center (EUA): 95% dos gregos se dizem insatisfeitos com a maneira como andam as coisas em seu país.

Votar na coligação que promete mudá-las radicalmente seria muito natural –e democrático.

crossi@uol.com.br

11/11/2014

Clóvis Rossi, da Folha, está proibido de falar do Brasil

Com a queda do Muro de Berlim os EUA construíram o Muro do México!

muroMuito estranho mas ao mesmo tempo muito coerente o comportamento do colunista da Folha, Clóvis Rossi. Fala com autoridade sobre o que aconteceu ou deixou de acontecer nas ditaduras sul-americanas, mas não põe uma vírgula a respeito daquilo que seu patrão resolveu chamar de ditabranda. Descobre agora o que a ALCA está produzindo no México graças à subserviência aos EUA. Fala do Muro de Berlim mas não fala do Muro que os EUA construiu na fronteira com o México. Se o México é tão bom para a ALCA por que seu povo não é tão bom para os EUA?

Se o México pode servir de porta de entrada para as toneladas de cocaína consumida nos EUA porque o povo Mexicano está proibido de passar por onde passa a cocaína? Clóvis Rossi poderia lembrar que Peña Nieto é da mesma estirpe de FHC, Carlos Menem e Fujimori. Mas um colunista da Folha jamais faria isso. Ao mesmo tempo festeja que nos demais países latinos o slogan “vivos levaram, vivos queremos”, silencia a respeito das milhares de vidas ceifadas pela ditadura brasileira. Não escreve nenhum linha a respeito do movimento que pede o retorno da ditadura no Brasil nem considerações a respeito das reiteradas decisões do Poder Judiciário contrário ao julgamento dos criminosos da Ditadura. Clovis Rossi poderia cobrar explicações porque nossos Tribunais Superiores estão protegendo criminosos de crimes imprescritíveis.

Por falar em corrupção policial, quantas vezes Clovis Rossi falou a respeito da vinculação dos governos do PSDB paulista com o PCC? Por que é tão fácil dar lição de moral de cuecas?  Por que não fala do narcotráfico do Brasil, em que um helicóptero com 450 kg de cocaína evapora do noticiário porque seus amigos são parte do todo?!

Clóvis Rossi não entendeu que, com a eleição de Lula, o Brasil seguiu caminho inverso do México. Abandonou o neoliberalismo da ALCA e a entrega das empresas públicas à iniciativa privada, como fez o PSDB com a SABESP. Deixou de tirar os sapatos para entrar nos EUA e se submete às regras de empobrecimento do FMI, como queria e fazia seu amigo FHC. Faltou também citar a velha e sempre atual frase do Porfírio Diaz: "Pobre México. Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos."

CLÓVIS ROSSI

Antes que sejamos México

O caso dos estudantes põe à prova a democracia mexicana e deveria servir de alerta também ao Brasil

Durante meu período como correspondente da Folha em Buenos Aires (1980/83), acompanhei incontáveis manifestações das "Madres" e, depois, das "Abuelas de Plaza de Mayo".

Bravas senhoras, de rostos vincados pelo tempo e pela dor, lenços brancos à cabeça, pedindo que lhes fossem devolvidos os filhos/netos que a repressão fizera desaparecer.

Na verdade, todos haviam sido mortos, mas era preciso gritar, uma e outra vez: "Vivos se los llevaron, vivos los queremos".

Gritos similares ouvi também no Chile e no Uruguai, outros dois países em que a selvageria do aparato repressor fizera vítimas em quantidade industrial.

Acabadas as ditaduras nesses três países e no resto da América Latina, com exceção de Cuba, o grito foi sendo paulatinamente substituído pelas explicações oficiais e/ou pelo julgamento e condenação dos responsáveis pelo genocídio.

Por isso, tomei um choque enorme ao ler que, no México deste 2014, o grito se repetiu. "Vivos se los llevaron, vivos los queremos", entoaram parentes e amigos dos 43 estudantes sequestrados em setembro e desaparecidos desde então.

O dramático nessa história é que, em vez de vivos, os parentes dos desaparecidos ouviram a informação oficial de que provavelmente vão recebê-los na forma de cinzas encontradas em sacos num rio.

Igualmente dramático é que o Brasil parece prestar pouca atenção a um episódio limite para a democracia mexicana, como se o Brasil fosse um paraíso de segurança e não houvesse, cá como lá, um conluio entre parte das forças repressivas e o narcotráfico.

Pondere você mesmo, leitor, se não vale para o Brasil, ao menos parcialmente, o que escreveu Enrique Krauze, intelectual mexicano de referência, sobre seu país para o "El País" desta segunda (10):

"O Mé­xi­co re­que­r um sis­te­ma de se­gu­rança e de jus­ti­ça que pro­te­ja o bem mais precioso, a vida hu­ma­na. A in­ces­san­te ma­ré do cri­me não só de­ve de­ter-­se, de­ve retroceder pela ação le­gí­ti­ma da lei. Ca­da dia que pa­ssa, o ci­da­dão –de­cep­cio­na­do de to­dos os par­ti­dos, os po­lí­ti­cos e a po­lí­ti­ca– afunda ainda mais no desânimo e no desespero".

Pondere também se não vale igualmente o apelo do cientista social Rubén Aguilar Valenzuela, no site Infolatam:

"No México moderno e inclusivo que todas e todos desejamos, é preciso superar a debilidade estrutural do sistema de segurança e de justiça. É uma obrigação irrenunciável dos três níveis de governo e também da sociedade".

Não lembra os debates da campanha eleitoral para presidente, em que tanto Dilma Rousseff como Aécio Neves prometeram envolver o governo central em uma área hoje entregue mais aos Estados, claramente impotentes para conter "a incessante maré do crime"?

É preciso cobrar insistentemente a promessa, sob pena de o Brasil, se tudo continuar como está, cair no estado assim definido (falando do México) pelo colunista Antonio Navalón ("El País"):

"O pac­to si­nis­tro en­tre co­rrup­ção po­lí­ti­ca e cri­me or­ga­ni­za­do é mor­tal pa­ra qual­quer país".

crossi@uol.com.br

30/10/2014

Advogado do Fluminense diz que Fla-Flu emburrece

Filed under: Clóvis Rossi,Fla-Flu,Manipulação — Gilmar Crestani @ 8:17 am
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VTCComo sabemos, quando o Fluminense é rebaixado há sempre um advogado de porta de cadeia e uma pena de aluguel para se perfilarem ao lado do perdedor rebaixado. Quem é que na hora de denunciar problemas no governo federal põe a Dilma e o PT na manchete e quando acontece em São Paulo, dá como evento da natureza, sem dizer quem são os governantes nem o partido.

Quem fez a maior agressão nesta campanha? Os colegas do seu Clóvis Rossi, da Veja. No entanto ele não gasta uma vírgula para tratar do assunto. Talvez porque se trate de questão policial e ele atua na área do entretenimento dos patrões. 

A incitação ao ódio partem da Multilaser, do Banco Itaú, que financiaram as ofensas à Presidenta Dilma em plena abertura da Copa do Mundo. Aliás, comportamento muito comemorado pela torcida do fluminense das alterosas.

Tens razão, Clóvis Rossi, o VTC pra Presidenta não emburrece. É  a própria burrice!

CLÓVIS ROSSI

O Fla-Flu político emburrece

Política é paixão, OK, mas, quando o fígado derrota o coração, o debate fica pobre e todos perdemos

Estarrecido com a guerra na lama travada na campanha eleitoral, em especial nas redes sociais?

Triste, se é tucano, por ter perdido amigo petista ou vice-versa? Ou feliz, por ter descoberto que certas ausências preenchem uma lacuna?

Pois saiba que a exacerbação de sentimentos partidários não é um produto genuinamente brasileiro.

Na terça-feira (28), David Brooks, colunista do "New York Times", tratou precisamente desse assunto, que Cass Sunstein, da Escola de Direito da mitológica Harvard, batizou de "partyism" ("partidismo").

Nos EUA, ganhou características mais graves do que a lama espalhada pela internet. Sunstein lembrou, em coluna no mês passado, que pesquisas já haviam captado o fenômeno no remoto ano de 1960. Mas, àquela altura, eram só 5%, pouco mais ou menos, os republicanos e democratas que diziam que ficariam insatisfeitos se seus filhos se casassem com alguém do outro partido.

Cinquenta anos depois, subira para 49% a porcentagem dos republicanos que se incomodaria com essa situação, incômodo que afetaria 33% dos democratas.

Não há, que eu saiba, pesquisas no Brasil que contenham esse tipo de dados. Mas, a julgar pelo que se podia ler no Facebook, por exemplo, um petista vetaria casamento com um tucano e vice-versa.

Volto aos Estados Unidos e ao texto de Brooks: ele cita pesquisa dos cientistas políticos Shanto Iyengar e Sean Westwood que deram a estudantes mil currículos de outros estudantes para que os primeiros decidissem quem ganharia bolsas.

Os currículos incluíam pistas sobre a raça e sobre a preferência política dos candidatos. Claro que a raça teve influência: os estudantes negros preferiram colegas negros na base de 73% a 27%.

Mas tanto democratas como republicanos apontaram em 80% dos casos candidatos que concordavam politicamente com eles, mesmo quando outros estudantes tinham melhores credenciais.

Talvez seja diferente no Brasil porque há muito mais escolhas partidárias, tantas que o partido que elegeu a maior bancada na Câmara Federal, o PT, ocupará apenas 13,6% das cadeiras. É uma anomalia, mas talvez distribua melhor o ódio que vazou na campanha.

Espero, honestamente, que prospere a bem-humorada campanha iniciada no Facebook para que petistas e tucanos recomponham os laços eventualmente rompidos.

Concordo integralmente com as observações com que Brooks fecha sua coluna:

"Na maior parte do tempo, política é uma batalha entre interesses divergentes ou uma tentativa de equilibrar verdades parciais". Ou seja, nem os petistas nem os tucanos estão sempre 100% certos ou 100% errados.

Mas, prossegue, "nesse estado efervescente, torna-se [a política] uma batalha de luz e escuridão. Quando escolas, grupos comunitários e locais de trabalho se definem pela cor política de seus membros, (…), então toda comunidade fica mais burra porque não pode colher os benefícios de pontos de vista divergentes e de pensamentos em competição".

Abaixo a burrice, pois.

crossi@uol.com.br

24/04/2014

Clóvis, cobra outros… pica a verdade!

perua folha

Até à instalação da Comissão da Verdade, os jornais, incluindo a Folha, eram contra. Tanto que a Folha negava a ditadura, chamando-a de ditabranda. Depois de instalada, não conseguiram fazer uma reportagem sequer que se possa dar este nome. Divulgam de forma sucinta resultados. Tudo seria natural não fosse a Folha um órgão de informação. Portanto, se quem vive de informação sonega informação, o que esperar dos demais.

A Folha poderia começar divulgando tudo o que sabe a respeito da ditadura, inclusive qual era o papel da peruas/furgões no transporte dos presuntos para as valas clandestinas. O cinismo só é pior do que a cara de pau, duas características do empregado em relação ao seu patrão. A respeito da participação do patrão, Clóvis Rossi sonega a verdade em qualquer uma das suas possíveis versões.

CLÓVIS ROSSI

A verdade e suas versões

Brasil deveria imitar a Itália e divulgar todos os documentos disponíveis sobre os anos de chumbo

A melhor definição de reportagem que conheço pertence a Carl Bernstein, um dos dois repórteres do "Washington Post" que desvendaram o caso Watergate e, com isso, levaram à renúncia do presidente Richard Nixon.

Em palestra na USP, Bernstein a definiu como "a melhor versão da verdade possível de se obter".

É isso. Começa por duvidar implicitamente que exista uma VERDADE, assim maiúscula e incontrovertida. E continua por propor um exaustivo trabalho para chegar o mais perto possível de uma versão verossímil.

Se essa definição é correta, as comissões da verdade instaladas no Brasil estão com um problema: em vez de chegarem à melhor versão da verdade possível de se obter sobre a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, chegaram a duas "verdades", diametralmente opostas, o que significa que uma delas é necessariamente falsa.

Para a Comissão Nacional da Verdade, JK foi vítima de um acidente. Para a Comissão da Verdade da Câmara Municipal de São Paulo, foi assassinado.

folha_04Acredito na boa fé de ambas as comissões, o que me leva a crer que as conclusões opostas se deveram à dificuldade de se apurar os fatos depois de tantos anos decorridos (Juscelino morreu em agosto de 1976, há 38 anos).

O acidente é a versão mais anticlimática. Mais sedutora era a hipótese de um conjunto de crimes que teriam vitimado os três líderes civis que, àquela altura, se uniam contra a ditadura: João Goulart morreu em dezembro de 76, apenas quatro meses depois de JK, enquanto Carlos Lacerda morreu em maio de 1977.

Ou seja, em nove meses, desapareceram os principais nomes políticos e não-revolucionários da oposição ao regime.

Tentador, por isso, concluir que foram todos vítimas de um complô sinistro. As diferentes conclusões sobre o caso JK só contribuirão para manter no ar a teoria conspiratória, mais fascinante que mortes naturais ou por acidente.

É por isso que se torna ainda mais necessário que o Estado brasileiro copie decisão desta semana do novo governo italiano, que decidiu desclassificar todos os documentos relativos a uma série de atentados nos anos de chumbo, entre 1969 e 1984. Ou seja, são acontecimentos mais ou menos contemporâneos às mortes de Juscelino, Goulart e Lacerda.

Quem não quer ou não gosta da verdade pode até argumentar que, na Itália, é mais fácil abrir os arquivos porque o terrorismo era de particulares (a extrema direita e a Máfia), enquanto no Brasil o próprio Estado praticou terrorismo.

Na Itália, os documentos a serem liberados referem-se a oito grandes atentados, como a matança da estação ferroviária de Bolonha (tradicional feudo comunista), em que morreram 85 pessoas; e o massacre de Ustica, a derrubada, aparentemente por um míssil, de um avião comercial que fazia o trajeto Bolonha/Palermo, com 81 passageiros a bordo, ambos em 1980.

Tanto no Brasil como na Itália, só a liberação dos arquivos permitiria chegar à verdade, que é sempre melhor do que versões, ainda mais quando são conflitantes.

crossi@uol.com.br

13/04/2014

Colonismo de Aluguel

tio samCoincidentemente, os dois assuntos sobre os quais Clovis Rossi tem opiniões definitivas, Ucrânia e Venezuela, estão também em voga na Casa Branca. Por que Clóvis Rossi não se debruça sobre a situação atual da Líbia, do Iraque, do Paraguai ou mesmo Colômbia? Ora, vou desenhar como funciona a pena de aluguel, com as palavras do inquilino:

"Esse conflito forneceu à Unasul seu mais significativo teste até hoje; e, apesar dos resmungos domésticos e internacionais a respeito de sua independência [em relação ao governo], ela se mostrou à altura da ocasião", escreve David Smilde, lúcido blogueiro sobre Venezuela do Wola (Washington Office on Latin America).”

A qualidade dos argumentos apresentados pelo funcionário da Folha serve apenas para comprovar que o “raciocínio” está sempre de acordo com quem o finanCIA! Por que cargas d’água o pensamento e as análises do colonista estão sempre em conformidade com o que sai de Washington?!

Não é coincidência que a posição adotada por Clóvis Rossi em relação à Venezuela tenha de estar respaldada por um blogueiro do Washington Office on Latin America?! A desfaçatez, o mau caratismo, a subserviência, o capachismo é tão gritante que só capadócios e beócios não enxergam. A posição de todos os países da UNASUL só tem validade quando respaldada por um órgão acessório do Governo dos EUA! Faça-me o favor, né!

CLÓVIS ROSSI

Democracia, a chave na Venezuela

Primeiro diálogo com a oposição é bom começo, mas as dificuldades à frente são imensas e complexas

Comecemos pelo lado positivo do diálogo entre oposição e governo na Venezuela: "O importante é que se iniciou o caminho, que é o mais transcendental para um país", como diz Julio Lattan, presidente da Frente de Advogados Bolivarianos.

Passemos agora ao papel da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), visto com desconfianças pela oposição e, no Brasil, pelos críticos da política externa: "Esse conflito forneceu à Unasul seu mais significativo teste até hoje; e, apesar dos resmungos domésticos e internacionais a respeito de sua independência [em relação ao governo], ela se mostrou à altura da ocasião", escreve David Smilde, lúcido blogueiro sobre Venezuela do Wola (Washington Office on Latin America).

Ou seja, a aposta do Brasil na Unasul e no diálogo passou airosamente pelo primeiro teste.

Mas era óbvio que essa primeira sessão não poderia ser suficiente para estabelecer a paz em um país tão tremendamente polarizado como a Venezuela.

Ressaltado o lado otimista, vamos às dificuldades. Primeira delas: sem incluir os estudantes, ausentes do diálogo desta semana, não há como desmontar as manifestações e pacificar a rua rebelada.

Segunda: sem que o governo se incline por anistiar os presos que participaram pacificamente das manifestações, é pouco provável que a oposição, mesmo a moderada (a única que foi ao diálogo), sente-se de novo à mesa.

Mas, mais importante que essas questões conjunturais, o que separa governo e oposição é a avaliação sobre o teor da democracia venezuelana. Para a oposição, é zero. Para o governo, é 100%.

Há fatos e opiniões que indicam que a oposição está mais perto da verdade. Para começar, recente pesquisa do Ivad (Instituto Venezuela de Análise de Dados) mostra que 55% dos consultados concordam com a oposição. Mais: o diretor para a América da respeitada Human Rights Watch, José Miguel Vivanco, diz que o Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela é apenas "um apêndice do Executivo".

Não há democracia de verdade sem independência dos Poderes.

Até a igreja local afirma que a origem dos protestos, que já duram dois meses, "é a pretensão do partido oficial e das autoridades da República de implantar o chamado plano da pátria (criado por Hugo Chávez), por trás do qual se esconde a imposição de um governo totalitário", como diz monsenhor Diego Padrón, presidente da Conferência Episcopal Venezuelana.

Se o presidente Nicolás Maduro quer mesmo, como disse durante o diálogo de paz, conduzir um processo que leve "a altíssimos níveis de respeito, coexistência, convivência, com base na tolerância", terá forçosamente que aumentar substancialmente o teor de democracia.

Tem força para tanto? Duvida o blogueiro Smilde: "Maduro não parece ser uma liderança suficientemente forte para adotar uma nova direção. Nem ninguém é na coalizão [governista]. Isso a coloca em posição pobre para fazer concessões em um diálogo". Equivale a dizer que a bola da pacificação está com o presidente –e meio murcha.

crossi@uol.com.br

19/01/2014

Diversionismo ou empulhação?

Filed under: Clóvis Rossi,Diversionismo,Rolezinho — Gilmar Crestani @ 9:31 am
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Sempre a mesma história. O Brasil é campeão da desigualdade e tome pau. Se não tivermos mais desigualdades, suspeito que alguns jornalistas ficarão muito tristes. Isto porque DIMUIR fica como se nada fosse diante do fato de que ainda PERSISTEM desigualdades. E aí vem o que há de pior no tipo de jornalismo praticado pelos grupos mafiomidiáticos: quando há propostas concretas para diminuir estas desigualdades, pau em quem tenta. As cotas, os PROUNI, os ENEM, os SISU, o aumento do IPTU nas áreas valorizadas pela oferta de serviços públicos, para diminuir aos que moram onde o serviço público não chegou, não são trazidos à baila. São todas iniciativas que buscam diminuir as desigualdades, mas, por questões ideológicas, a mídia prefere bater contra quem as toma, talvez com o único intuito de poder dizer: continuam nossas desigualdades!

Enquanto não dermos um rolezão nos grupos mafiomidiáticos continuaremos atados à desigualdade social. A depender das famiglias Sirotsky, Marinho, Mesquita, Frias e Civita a Suécia seria vetada como meta a ser buscada. A desigualdade é o alimento dos a$$oCIAdos do Instituto Millenium. Se pudessem, ajudariam a reimplantar a escravidão, como fizeram com a ditadura, apenas para poderem se dizer contra!

 

CLÓVIS ROSSI

Rolezinhos em Davos?

Relatório do Fórum Econômico Mundial aponta a desigualdade como o risco global mais inquietante

A presidente Dilma Rousseff tem um ponto favorável a apresentar em Davos, durante o encontro anual-2014 do Fórum Econômico Mundial: a suposta redução da desigualdade no Brasil.

Por partes:

1 – A crônica desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres aparece, pela terceira vez consecutiva, como o risco global com mais possibilidade de explodir, segundo o relatório "Riscos Globais" de 2014, preparado para o fórum por 700 peritos da academia, do mundo dos negócios e da política.

2 – No mundo rico, a desigualdade, além de crônica, é crescente. No Brasil, é crônica, mas decrescente, segundo a propaganda oficial.

Logo, o Brasil pode ser apresentado aos investidores, que formam a grande plateia de Davos, como um dos poucos países em que o risco global mais iminente está em queda.

Não é inteiramente verdade. O que diminuiu no Brasil foi a desigualdade entre assalariados.

Não há medição confiável sobre a desigualdade mais obscena, que é entre a renda do capital e a renda do trabalho.

Mas é razoável supor que esta até aumentou, dado que o governo dedica à, digamos, "bolsa-juros" (recebida pelos mais ricos) três vezes mais recursos que ao Bolsa Família, para os mais pobres.

Mas Dilma não precisa fazer essa ressalva, até porque ela não será cobrada pelo povo de Davos, que só se preocupa retoricamente com a desigualdade, exceção feita a umas poucas almas sensíveis.

De todo modo, o Brasil não é exceção quando o foco sobre desigualdade se fecha sobre os jovens.

O relatório do fórum se preocupa com o futuro da juventude, devido "à qualidade do acesso à educação, à marginalização das jovens gerações e ao alto nível de desemprego juvenil".

Os protestos de junho e os rolezinhos de agora mostram que a preocupação dos pesquisadores com os jovens se aplica também ao Brasil.

Menos mal que, no conjunto da América Latina, o desemprego juvenil seja menos brutal do que na média mundial (12,5% nestes trópicos, ante a média geral de quase 30%).

Ainda assim, suspeito que valha para o Brasil o comentário sobre a desigualdade no mundo feito sexta-feira para o jornal "El País" por Sandra León, professora da Universidade de York:

"O risco mais profundo e corrosivo da desigualdade se encontra na ruptura da coesão em que se sustenta a convivência social. Uma sociedade com amplas desigualdades está altamente incapacitada para alcançar um acordo básico sobre direitos e deveres".

Um segundo risco –este não presente no Brasil– é o de que a desigualdade leve à busca de alternativas políticas extremistas, como a neonazista Aurora Dourada da Grécia ou a xenófoba Frente Nacional francesa –ambas com chances de obter uma votação forte nas eleições para o Parlamento Europeu em maio deste ano.

No Brasil, a única novidade eleitoral dos últimos muitos anos foi Marina Silva, que está longe de ser extremista.

Tudo somado, os "rolezinhos" de certa forma pairarão sobre os Alpes suíços.

crossi@uol.com.br

08/01/2014

Colonista nervosinho

Filed under: Alexandre Schwartsman,Clóvis Rossi,Colonista,Janio de Freitas,Nervosinho — Gilmar Crestani @ 8:14 am
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O ex-estafeta de FHC vive de publicar o que seus senhores pede. Vassalo de interesses privados, Janio de Freitas, colega dele na Folha, fez, na “A campanha da moda”, seu retrato definitivo:

“A propósito: com as alterações do Bolsa Família pelo Brasil sem Miséria, retiraram-se 22 milhões de pessoas da faixa dita de pobreza extrema. Com o Minha Casa, Minha Vida, já passam de 1 milhão as moradias entregues, e mais umas 400 mil avançam para a conclusão neste ano. A cinco pessoas por família, são 7 milhões de beneficiados com um teto decente, água e saneamento.

Da mesma linhagem de economistas – a que domina nos meios de comunicação–, Alexandre Schwartsman dá à política que produziu aqueles resultados o qualificativo de “aposta fracassada”, porque só deu em “piora fiscal, descaso com a inflação e intervenção indiscriminada, predominando a ideologia onde deveria governar o pragmatismo”.

“Infelizmente” e “aposta fracassada” para quem? Para os 22 milhões que saíram da pobreza extrema, os 7 milhões que receberam ou receberão um teto em futuro próximo, os milhões que obtiveram emprego, os milhões ainda mais numerosos que tiveram melhoria salarial?”

lula fhc collorOutro colega de Schwartsman, Clóvis Rossi, também na Folha, sob o título “Quem deveria ficar "nervosinho", descreveu:

“Há algo de profundamente errado em um país, um certo Brasil, em que os ricos choram (e de barriga cheia), ao passo que os pobres parecem relativamente felizes.”

Pelo jeito, só anda nervosinho na Folha o vira-bostas de um governo que foi uma bosta, campeão apenas em rejeição. FHC conseguiu ser mais impopular que Collor… Claro, mas os beneficiários do PROER, os banqueiros, estavam e continuam com ele até hoje.

ALEXANDRE SCHWARTSMAN

O ministro nervosinho

A falta de compostura do ministro compromete mais sua já escassa capacidade de formulação de política

Muito embora o ministro da Fazenda tenha afirmado que sua decisão de antecipar o anúncio do resultado fiscal do ano passado (presumindo que não esteja errado, como esteve em outubro) fosse destinada a "acalmar os nervosinhos", não é preciso muito esforço para perceber que são seus próprios nervos que se encontram à flor da pele.

Caso não estivessem, talvez lhe fosse possível perceber a futilidade da sua iniciativa. A começar porque só alguém muito divorciado da realidade poderia acreditar que a divulgação de um número tão conspurcado quanto o dado oficial do superavit primário poderia moderar os receios do mercado.

Ainda que, segundo o ministro, este tenha atingido um valor em torno de R$ 75 bilhões, sabe-se que apenas em novembro o montante de receitas não recorrentes atingiu nada menos do que R$ 35 bilhões, quase metade do saldo do ano. Na verdade, até novembro do ano passado, as receitas de concessões, dividendos e o Refis (o refinanciamento de dívidas tributárias em condições favoráveis) chegaram a R$ 59 bilhões. Assim, enquanto o número oficial do governo registra um superavit federal equivalente a 1,9% do PIB nos 12 meses terminados em novembro, o número corrigido –reflexo mais fiel do esforço fiscal– mal alcança 0,3% do PIB.

Nesse sentido, como todos os analistas sérios são capazes de corrigir tais dados (com pequenas diferenças de abordagem), ninguém deve ter ficado particularmente impressionado com o anúncio autolaudatório. Se o ministro esperava fanfarras em resposta à sua entrevista, deve ter ficado muito decepcionado.

Mais decepcionado, porém, ficou o mercado. Ao antecipar um resultado que nada vale e se esquivar de qualquer comprometimento mais firme acerca do desempenho fiscal futuro, a mensagem passada ao setor privado não poderia ser mais clara: não há nenhum plano que contemple a possibilidade de um ajuste fiscal neste ano que se inicia, nem talvez sequer nos próximos, dadas as convicções do governo sobre o tema.

A reação negativa, expressa na desvalorização da moeda e na elevação das taxas de juros, não ocorreu, assim, nem por acaso nem por força de fatores internacionais, mas sim em razão da percepção cada vez mais disseminada de piora dos fundamentos do país. Mais um tiro, enfim, que saiu pela culatra, marca registrada hoje em dia da gestão de política econômica no país.

Isto dito, o nervosismo do ministro também se escancara em sua relação com o mercado. Ao contrário de seus antecessores imediatos, que reagiam de forma serena mesmo quando divergiam da análise do setor privado, o ministro quase sempre busca o enfrentamento, apenas para mais tarde reconhecer –forçado pelas circunstâncias– seus equívocos crescentes, como, mais recentemente, no que se refere às mudanças de regras para as concessões de infraestrutura.

É natural, em face do desempenho medíocre da economia, que o ministro da Fazenda esteja sujeito a toda sorte de pressões, inclusive do próprio governo, cujos objetivos políticos dependem, em certa medida, de crescimento mais vigoroso do que o ostentado pelo Brasil nos últimos anos.

O que se espera, contudo, é que o titular do cargo tenha as condições de suportar essas tensões e que seja capaz de formular respostas efetivas aos problemas enfrentados no front econômico. Em particular, que suas falas não contribuam para o aprofundamento da crise de confiança que hoje assola o país.

Nesse último aspecto, a falta de compostura do ministro da Fazenda, mesmo depois que quase oito anos no cargo, revela sua inabilidade para trabalhar sob pressão e compromete ainda mais sua já escassa capacidade de formulação de política.

Num mundo caracterizado por preços elevados de commodities e liquidez mundial abundante, é mais fácil controlar os nervos; quando essas condições, porém, alteram-se para pior, quem não tem preparo fica mesmo "nervosinho".

alexandre.schwartsman@hotmail.com

ALEXANDRE SCHWARTSMAN, 50, ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central do Brasil no governo FHC.

14/07/2013

Consenso de Washington

Filed under: Clóvis Rossi,Consenso de Washington,FHC,Folha de São Paulo — Gilmar Crestani @ 11:04 pm
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Desde que o geocities disponibilizou ferramentas para se ter um blog pessoal, eu sempre mantive este costume. Em 2001 eu tinha um blog hospedado no hpg (home page gratuita). Reproduzo, para quem não tem memória do como foram os tempos de FHC, esta matéria da insuspeita, posto que efeagaceana, Folha de São Paulo de 26/08/2001.

CONSENSO DE WASHINGTON
Documento que se contrapõe à cartilha neoliberal prega o combate à má distribuição de renda na América Latina

Dissenso de Washington

CLÓVIS ROSSI
COLUNISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO, 26/08/2001
Onze anos depois de codificado pelo economista John Williamson, o "Consenso de Washington" é dado como fracassado e surge em seu lugar o "Dissenso de Washington".
Trata-se de um trabalho recém-concluído por uma comissão de três especialistas reunida por duas das principais instituições de pesquisa dos Estados Unidos, o CEIP (iniciais em inglês para Fundo Carnegie para a Paz Mundial) e o IAD (Diálogo Interamericano).
A principal responsável pelo trabalho é Nancy Birdsall, que foi vice-presidente-executiva do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e agora é diretora do Projeto Carnegie de Reforma Econômica. Especialista em pobreza na América Latina, de seus tempos no BID, Nancy trouxe para o centro das propostas, batizadas de "10+1", a necessidade de buscar a equidade, ou seja, combater a pobreza e a injusta distribuição de renda na América Latina, o subcontinente de maior desigualdade no planeta.
O "Consenso de Washington", ao contrário, deixou de lado esse tema, para centrar suas propostas na eficiência econômica.
O trabalho do CEIP/IAD, aliás, recupera a explicação de John Williamson, o codificador do "Consenso": "Deliberadamente exclui da lista [de propostas" tudo aquilo que fosse prioritariamente redistributivo, (…) porque senti que, na Washington dos anos 80, havia certo desdém pelos temas de equidade". O "Consenso" recomendava o fim das barreiras ao comércio internacional e aos investimentos, a venda de estatais e o ajuste fiscal e monetário.
Levou o nome da capital norte-americana porque tinha o apoio das organizações internacionais nela instaladas (Fundo Monetário, Banco Mundial, BID) e do Tesouro dos EUA. Suas propostas transformaram-se nas políticas hegemônicas em toda a América Latina nos anos 90 e até agora.
Onze anos depois, o "Dissenso" afirma sobre o "Consenso": "Seus resultados foram desalentadores em termos de crescimento econômico, redução da pobreza, redistribuição de renda e condições sociais". O trabalho do CEIP/IAD calça com números sua avaliação negativa. Por exemplo: o crescimento da economia na América Latina, nos anos 90, foi de apenas 3% ao ano na média, "apenas ligeiramente melhor que os 2% registrados na década de 80", chamada a "década perdida" exatamente pelo baixo crescimento.
Segundo exemplo: "O desemprego aumentou. E a pobreza continuou sendo ampla e generalizada. A América Latina ingressou no terceiro milênio com quase 150 milhões de pessoas, mais de um terço de sua população, vivendo na pobreza (com renda inferior aos US$ 2 diários). Quase 80 milhões de pessoas padecem de pobreza extrema, com ingressos inferiores a US$ 1 diário".
Por que o documento se chama "Dissenso"? Porque os autores assumem que "não existe consenso" para as 10+1 propostas apresentadas. "De fato, nossas ferramentas são polêmicas", admitem.
A crítica ao "Consenso" não significa, no entanto, que o "Dissenso" pregue a volta ao passado. Ao contrário. O texto diz que "análises minuciosas mostram que, sem as reformas [liberais feitas nos anos 90", a situação teria sido pior. A renda per capita e a produção teriam sido inferiores, a instabilidade teria sido maior, e seriam agravadas a pobreza e a desigualdade de rendas".
Não obstante, o novo documento diz que "esse tipo de raciocínio por contraposição -o de que, sem reforma, as coisas teriam sido piores- é pouco reconfortante para os pobres, para os cronicamente desempregados e para os numerosos cidadãos consternados e sufocados na região".
Em seguida, o documento descreve à perfeição o cenário eleitoral que caracteriza no momento a grande maioria dos países da América Latina, Brasil inclusive:
"Os políticos não podem esperar que aqueles eleitores que já se sentem marginalizados da prosperidade econômica -ou da esperança de alcançá-la- agradeçam a seus governos por não estarem pior do que estão".
O trabalho do CEIP/IAD propõe, por isso, o que chama de "novo paradigma, que explicitamente abarca como objetivos centrais a equidade e a redução da pobreza, isto é, como fins em sim mesmo e como mecanismos eficazes para promover um maior crescimento". A avaliação dos autores, para centrar a proposta no combate à miséria, é a de que "houve uma mudança diametral no discurso em torno dos objetivos econômicos e sociais", pondo ênfase mais na equidade que na eficiência econômica, ao contrário do que ocorria no início dos anos 90, quando nasceu o "Consenso de Washington".

Estudo traz 10 ferramentas e 1 conselho aos ricos

DO COLUNISTA DA FOLHA

O "Dissenso" propõe dez ferramentas que podem ser adotadas pelos governos nacionais e uma que depende dos países ricos.
Esta última é a redução do protecionismo comercial dos países desenvolvidos, uma reivindicação permanente das nações em desenvolvimento, mas que não foi ouvida até agora.
"Na América Latina, maior acesso aos mercados dos países ricos é essencial para o crescimento com redução da pobreza. A assistência dos governos doadores não substitui possíveis benefícios de mercados abertos na Europa e na América do Norte", afirma o texto.
Além de Nancy Birdsall, o trabalho foi preparado também por Augusto de la Torre, assessor para América Latina e Caribe do Banco Mundial e ex-presidente do Banco Central do Equador, e por Rachel Menezes, pesquisadora do Diálogo Interamericano.
A comissão criada para promover a reforma nos moldes do estudo inclui funcionários do FMI, a economista brasileira Eliana Cardoso, o hoje primeiro-ministro do Peru no governo Alejandro Toledo, Roberto Daniño, o senador chileno Alejandro Foxley e o ex-presidente boliviano Gonzalo Sánchez de Lozada, entre outros.
Veja abaixo as ferramentas:
1 – Disciplina fiscal regulamentada.
Neste ponto, o texto segue a mais pura ortodoxia. Afirma que "a indisciplina fiscal -aquela pela qual os governos continuamente gastam mais do que arrecadam e mais do que podem financiar de maneira sustentável – tem altos custos para os pobres e para as classes médias emergentes".
Qualifica "disciplina fiscal" como "manter baixo o déficit em tempos de bonança" (não mais de 2% do PIB, o Produto Interno Bruto, a soma da produção de bens e serviços de um país).
Para comparação: o Brasil teve, nos 12 meses encerrados em junho, um déficit global de 5,37% do PIB.
2 – Equilibrar expansões e contrações do mercado.
A proposta visa, acima de tudo, evitar "a excessiva instabilidade financeira e econômica, causada pelas oscilações no fluxo de capitais externos e internos, por flutuações extremas nos preços das matérias primas e pela variação repentina do gasto público".
Em outras palavras, dar maior previsibilidade ao ciclo econômico, que, na América Latina, tem oscilado entre crescimento forte e queda igualmente forte.
O Brasil, por exemplo, cresceu 4,4% no ano passado, mas, este ano, tende a ter crescimento pífio.
O pressuposto, neste capítulo, é o de que "os pobres se beneficiam menos durante os processos expansivos, que é quando mais ganham os que possuem mais ativos reais e financeiros, e são os primeiros a perder os postos de trabalho quando ocorre uma recessão.
3 – Redes automáticas de proteção social.
Diz o documento que "um sistema moderno proporciona uma base de renda para os lares da classe trabalhadora e classe média, tanto quanto para os pobres. Durante as contrações (econômicas), devem ser de aplicação automática o gasto para emprego público de emergência e os subsídios para que as famílias possam assegurar a escolaridade das crianças".
O texto cita, como exemplos bem sucedidos, o programa "México Progride", criado em 1997 e que fornece subsídios escolares, suplementos nutricionais e aportes em dinheiro para a alimentação de quase 3 milhões de famílias, ou 30% do total de pobres.
Cita também o Bolsa-Escola, criado pelo governo petista do Distrito Federal, entre 1995 e 1998, que garantia salário-mínimo às famílias que mantivessem seus filhos entre 7 e 14 anos na escola.
4 – Escolas também para os pobres.
A ênfase na educação, como fator de redução da miséria e da desigualdade, é apontada como uma das duas recomendações que seriam consensuais (a outra é o combate à corrupção).
Diz o texto que "as reformas mais necessárias incluem maior autonomia para as escolas, menores subsídios para os que estão em condições de custear estudos superiores, e maior gasto público para programas pré-escolares".
Acrescenta que a política educacional deve também incluir a Internet, "mediante subsídios públicos, para assegurar que cada escola e cada comunidade se beneficiem deste revolucionário método para aceder ao conhecimento".
O BID chegou a calcular que o aumento de um ano na escolaridade da força de trabalho faria com que o crescimento econômico aumentasse um ponto percentual por ano, assim como se reduziria a desigualdade na renda.
5 – Tributar mais os ricos e gastar mais com os outros.
Trata-se, como é óbvio, de defender um sistema tributário menos regressivo.
Diz o texto que "a região depende, em grande medida, dos impostos ao consumo, que são regressivos". Propõe, por exemplo, "fechar as brechas legais e reduzir a evasão de impostos sobre a renda, o que faria aumentar a arrecadação sem aumentar a carga impositiva sobre os lares da classe trabalhadora e da classe média".
Diz o documento que a média de arrecadação na América Latina é de 18% do PIB contra entre 30 e 50% nos países avançados, mas lembra que o Brasil é a exceção, ao arrecadar 30% do PIB.
A proposta inclui um ponto altamente polêmico e inaceitável para o sistema financeiro, que é o de "estabelecer mecanismos para tributar as rendas provenientes de ativos no exterior".
6 – Dar oportunidade para a pequena empresa.
Justifica o texto: "A onerosa burocracia e a debilidade dos sistemas financeiros e judiciais interferem com as iniciativas de expansão dos pequenos empresários talentosos".
E propõe: "Exigências maiores no cumprimento de acordos creditícios, maior respeito pelos direitos de acionistas minoritários, supressão de créditos de favor outorgados pelos bancos estatais, e acesso à informação e serviços profissionais fomentariam a criação de empregos e de mais empresas pequenas".
O pressuposto do apoio à pequena empresa é óbvio: trata-se da maior fonte de emprego na região (criam "70% ou mais dos novos empregos na maior parte dos países").
7 – Reforçar os direitos dos trabalhadores.
Diz o trabalho que "os pobres padecem o custo de um regime trabalhista que dá pouca proteção ao trabalhador e tem excesso de regulamentação".
Completa: "A América Latina precisa proteger mais ativamente o trabalhador, em relação a seus direitos de associação e convênios coletivos, organizações sindicais mais independentes e democráticas, e mais proteção social para substituir a excessiva rigidez das regulamentações que freiam a mobilidade laboral e o crescimento".
O item relativo ao trabalho tem propostas para o gosto da esquerda ("participação mais ativa do Estado, para proteger convênios coletivos") e para a direita ("as leis deveriam permitir contratos de trabalho por hora, de tempo parcial e por temporada", claro que com as devidas garantias de proteção social proporcional).
8 – Abordar abertamente a discriminação.
"Um ataque decidido contra a pobreza e a desigualdade deve incluir um ataque frontal contra a discriminação", diz o texto.
Cobra da liderança política "derrubar as barreiras sociais e políticas que prejudicam os negros e os membros dos grupos indígenas, e, em alguns casos, as mulheres".
As minorias discriminadas são importantes numericamente na região: o texto fala em 40 milhões de indígenas (8% da população) e em 150 milhões de negros (29% da população, sendo que, no Brasil, a proporção chega a 45%).
Só o Brasil, aliás, tem dados para demonstrar que a desigualdade se dá em bases étnicas. O analfabetismo entre os negros duplica o dos brancos, e as habitações com serviço de esgoto, entre os brancos, são 74% contra apenas 50% entre os negros.
9 – Sanear o mercado de terras rurais.
Propõe "uma nova geração de programas de reforma agrária", capaz de "dar por fim oportunidades justas aos camponeses pobres".
Completa: "O novo enfoque enfatiza o crédito e a participação comunitária, e depende menos da centralização burocrática".
O documento enfatiza um ponto que é constantemente apontado por movimentos como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra) do Brasil: "A América Latina tem a maior desigualdade na posse da terra em comparação com qualquer outra região".
Acrescenta que, "em vários países, a desigualdade da propriedade rural está associada ao baixo crescimento e à persistente pobreza rural".
O trabalho diz que o fato de que apenas 8% do PIB latino-americano tenham origem na agricultura não torna menos importante o capítulo, porque "quase 20% da mão de obra depende da agricultura e mais de 60% dos pobres da região vivem em áreas rurais".
10 – Serviços públicos ao serviço dos consumidores.
O documento diz que "a insuficiência da infra-estrutura, da saúde pública e dos serviços regulatórios, como, por exemplo, a proteção do consumidor, foram prejudiciais para os pobres e os quase-pobres".
Acrescenta: "O que se poderia denominar de serviços regulatórios para o setor não-financeiro (controle da contaminação, da saúde pública e dos alimentos e a proteção do consumidor) nunca se consolidou na região, nem durante períodos de controle militar nem em tempos de democracia, quando a austeridade fiscal limitou qualquer incursão do Estado em novas atividades ou em outras, mais extensas".
Critica também o fato de que as privatizações de serviços públicos, uma das principais características do "Consenso de Washington", não foram aproveitadas como "modo de fazer chegar ao público em geral o benefício das vendas".
A íntegra do trabalho está no endereço eletrônico www.ceip.org/files/Publications/WashingtonContentious.asp?p=3&from=pubdate

SAIBA MAIS
"Consenso" foi criado nos EUA em 1989

DA REDAÇÃO
O Consenso de Washington ("Washington Consensus") é um termo cunhado pelo economista inglês radicado nos EUA John Williamson, em 1989, e sistematizado por ele durante seminário -bancado pelo governo americano- na capital do país em 1993. Trata-se de um leque de princípios que deveriam guiar os países subdesenvolvidos em sua rota de "ajustamento" político-econômico ao novo capitalismo global.
Não foram poucos os analistas que viram no Consenso de Washington a primeira síntese intelectual para a correlação de forças resultante do colapso do socialismo real.
O alvo imediato foi a América Latina, que seria, nas palavras do economista, cativa de uma "estrutura mental dos anos 60" -ligada a um modelo estatista, autárquico e protecionista de desenvolvimento. Mas a cartilha logo seria estendida para mais de 60 países em todo o mundo.
Os dez itens de mudanças preconizadas pelo economista inglês convergem com o receituário de FMI, Bird e Banco Mundial: privatizações, controle das contas públicas, desregulamentação e abertura aos mercados internacionais, entre outras medidas.
Um pressuposto básico nesse esquema é o de que tais reformas estruturais dariam sustentabilidade financeira ao Estado e possibilitariam o crescimento econômico e a equidade social.
O debate sobre o Consenso de Washington ganhou visibilidade no Brasil durante a campanha presidencial de 94. Um de seus marcos foi o artigo de José Luís Fiori (Mais!, 03/ 07/ 94), publicado dois dias depois do lançamento do real.
No texto, Fiori diz ser o "tecnopolítico" (junção de pragmatismo técnico e poder de decisão pública) o protagonista da "utopia" de Williamson, e apresenta Fernando Henrique Cardoso -então candidato a presidente, além de mentor da nova moeda- como o responsável pela "tradução" nacional da nova cartilha. "O Plano Real não foi concebido para eleger FHC", afirmou o professor da UFRJ, "foi FHC que foi concebido para viabilizar no Brasil a coalizão de poder capaz de dar sustentação e permanência ao programa de estabilização do FMI e dar viabilidade política ao que falta ser feito das reformas preconizadas pelo Banco Mundial".
FHC, em réplica publicada no Mais! na semana seguinte, apontava "estereótipos conspiratórios" nos argumentos de Fiori. Mas o conceito rapidamente se converteu em instrumento de crítica, da parte de concorrentes como Lula e Brizola, à face ideológica (e não puramente "técnica") e aos danos sociais do reformismo proposto por FHC.
Os protestos que vêm marcando as reuniões da cúpula do capitalismo mundial, de Seattle (1999) a Gênova (em julho deste ano) são um sintoma de repúdio, mesmo nos países desenvolvidos, a "efeitos colaterais" indesejáveis -entre eles, o desemprego-da bula prescrita em Washington anos atrás. (CAIO CARAMICO SOARES)

29/03/2013

Psico análise…

Filed under: Clóvis Rossi,Dilma — Gilmar Crestani @ 8:16 am
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Depois de ler a mão de banqueiro, os desejos do patrão, agora Clóvis Rossi também lê pensamentos… Esses vira-bostas não se dão ao respeito. Eu também leio pensamentos, inclusive o do Clóvis Rossi. Ele está pensando que todos os leitores da Folha são idiotas. Será?!

ANÁLISE

Dilma só disse na África o que sempre pensou e até já disse

CLÓVIS ROSSICOLUNISTA DA FOLHA

O que a presidente Dilma Rousseff disse na África do Sul sobre inflação e crescimento é rigorosamente o que ela pensa -e faz tempo, pelo menos desde que assumiu, há dois anos e três meses.

Não há, portanto, nenhuma razão nem para polêmica, nem para surpresa, nem para "manipulação", a não ser que a presidente tenha usado essa última palavra para se referir à especulação nos mercados. O lado cassino dos mercados, aliás, é suficientemente forte, para dispensar frases da presidente -felizes ou infelizes- nas apostas.

A primeira mais firme manifestação de Dilma em favor do crescimento se deu, curiosamente, às margens de outra cúpula dos Brics, a de abril de 2011 na China.

O governo mal completara cem dias, mas já estava em dúvida o empenho do Banco Central em trazer a inflação para o centro da meta, 4,5% então como agora.

No Fórum de Boao, considerado "Davos" da Ásia, Dilma reafirmou que são fundamentais "o controle da inflação e a estabilidade fiscal", para depois deixar claro que ambos não são um fim em si mesmo nem valor absoluto.

"Tem quer ter como objetivo criar condições para o crescimento e a inclusão social", disse. Nesse ponto, a presidente afirmou, com outras palavras, o que repetiria em Durban, ao criticar "políticas restritivas tanto nos países emergentes para conter a inflação como nos países avançados para promover a consolidação fiscal".

A presidente fez questão de se dizer favorável "ao controle da inflação e à estabilidade fiscal", desde que o objetivo seja crescimento com inclusão social, que é "questão-chave para todos nós".

Também na China Dilma deu por sepultados "os consensos que se criaram na história recente. Sob a égide do mercado ou do Estado, mostraram-se frágeis como castelos de cartas".

Não receitou, no entanto, um novo consenso, até porque afirmou não buscar "modelos únicos nem tampouco unanimidades". A única receita é fácil de dizer, difícil de descobrir: "O mundo do século 21 requer criatividade".

Vê-se agora que nem Dilma nem o mundo tiveram criatividade suficiente para pôr de pé outro modelo, se está superada, como ela crê, a política de "matar o doente [com juros altos] em vez de curar a doença [a inflação]".

Na vida real, a queda dos juros, praticada por seu governo, foi incapaz até agora de acelerar o crescimento. Pior: a "doença" da inflação parece mais viva e forte.

Mas é injusto dizer que a presidente é leniente com a inflação. Nenhum governante o é, desde que se tornaram famosos dois gráficos que Getúlio Bittencourt, então assessor de imprensa do presidente José Sarney, exibia a todos: a popularidade do presidente apontava para baixo sempre que a inflação embicava para cima e vice-versa.

Como não há político que não adore a popularidade, todos querem a inflação domesticada. Dilma também quer, desde que o crescimento não seja afetado no percurso. Como perpetrar a mágica é a matéria em que o governo está ficando em segunda época.

    26/08/2012

    O fracasso do jornalismo

    Filed under: Clóvis Rossi,Desigualdade Social — Gilmar Crestani @ 10:02 am

    Clóvis Rossi, se não tivesse que dar satisfação ao patrão pelo que escreve, lembraria que a CMPF foi extinta com seu apoio e do seu patrão. A CPMF era o tributo mais justo atingia a todos os que movimentos contas bancárias indistintamente. Desde os donos de jornais que não pagam impostos, como os traficantes. Através da CMPF era possível rastrear dinheiro usado para corromper, motivo que levou os grupos mafiomidiáticos a combaterem sua continuidade.  Que a taxação dos mais ricos não sai porque o jornal onde Rossi trabalha martela, diturnamente, para impedir. Que o impostômetro criado por impostores ganha espaço, mas o pouco que se destina aos mais pobres sofre ataque contínuo no jornal que o sustenta.  Aliás, fosse por gente como Rossi e seu patrão, o Bolsa Família sequer existiria. Quando Dilma baixou os juros, colonistas do tipo Rossi imprecaram contra. Todas as iniciativas que pudessem diminuir as desigualdades foram bombardeadas só para que hoje pudesse publicar o artigo abaixo. Cara-de-pau!

    CLÓVIS ROSSI

    Desigualdade, o fracasso da esquerda

    No Brasil, os mais ricos recebem do governo 13 vezes mais que a turma do Bolsa Família

    JÁ DEVE ser insuportável para os ufanistas de plantão receber a notícia, contida em relatório da ONU, de que o Brasil é o quarto país mais desigual de uma região, a América Latina, que é a mais desigual do mundo.

    O Brasil só é menos desigual que dois Estados semifalidos, Guatemala e Honduras, e que a Colômbia, em virtual guerra civil faz mais de meio século.

    Tenho, no entanto, um adendo triste para os ufanistas: é quase certo que não houve, ao contrário do que diz a ONU, uma redução na desigualdade brasileira.

    Explico: o único metro usado para medir a desigualdade chama-se índice de Gini, no qual o zero indica perfeita igualdade e 1 é o cúmulo da desigualdade. O Brasil de fato melhorou, de 1999 a 2009: seu índice passou de 0,52 para 0,47.

    Acontece que o índice mede apenas a diferença entre salários. Não consegue captar a desigualdade mais obscena que é entre o rendimento do capital e o do trabalho.

    Escreve, por exemplo, Reinaldo Gonçalves, professor titular de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, um dos raros economistas que continuaram de esquerda após o PT chegar ao poder:

    "Com raras exceções, essas políticas [as do governo Lula] limitam-se a alterar a distribuição da renda na classe trabalhadora (salários, aposentadorias e benefícios) sem alterações substantivas na distribuição funcional da renda, que inclui, além do salário e das transferências, as rendas do capital (lucro, juro e aluguel)."

    Há pelo menos um dado que faz suspeitar seriamente de que a tal distribuição funcional da renda piorou: no ano passado, o governo federal dedicou 5,72% do PIB ao pagamento de juros de sua dívida. Já o Bolsa Família, o programa de ajuda aos mais pobres, consumiu magro 0,4% do PIB.

    Resumo da história: para 13.330.714 famílias cadastradas no Bolsa Família, vai 0,4% do PIB. Para um número infinitamente menor, mas cujo tamanho exato se desconhece, a doação, digamos assim, é 13 vezes maior.

    Como é possível, nesse cenário, que se repete ano após ano, reduzir-se a desigualdade na renda?

    O que, sim, diminuiu foi a pobreza, no Brasil como na América Latina. Em 20 anos (até 2009), a taxa de pobres caiu de 48% para 33%, informa a ONU. Mesmo nesse capítulo, o Brasil continua mal na foto: Argentina, Chile e Uruguai têm 12% de pobres, enquanto, no Brasil, a taxa quase duplica (22%).

    Essa queda ajuda a explicar a popularidade de Lula/Dilma, Hugo Chávez, Rafael Correa, Michelle Bachelet (mais popular que seu sucessor, o conservador Sebastián Piñera), Evo Morales (em queda, mas ainda popular), José Mujica.

    Para o pobre, que mal podia comprar arroz, adquirir geladeira importa mais do que saber se o rico, que já podia comprar um arrozal inteiro, compra agora helicópteros ou aviões, em vez de geladeiras, que sempre teve.

    Mas os governos supostamente de esquerda e suas políticas pró-pobres não foram capazes de tirar a América Latina do papel de campeã mundial da desigualdade. Ou ela é inoxidável ou eles precisam reinventar-se.

    crossi@uol.com.br

    11/04/2012

    Quando a mão certa é a contramão

    Filed under: Brasil,Clóvis Rossi,Dilma — Gilmar Crestani @ 8:39 am

    Na contramão do colonista da Folha de São Paulo, não acredito que “O problema é que os serviços públicos entregues como contrapartida dos tributos é que são ruins ou ausentes.” Afinal, existe serviço mais caro que o telefônico no Brasil? E no entanto quando se precisa resolver um problema qualquer envolvendo as empresas privadas de telefonia é melhor rezar que buscar auxílio. Vai pagar uma conta num banco privado. Quando tempo espera na fila? É que, para os financiadores da mídia, falar do serviço público é a melhor forma de escamotear os maus serviços da privada.

    Quando a mão certa é a contramão

    Por: Clovis Rossi | 05 de abril de 2012

    O ministro Guido Mantega, o presidente da Câmara Marco Maia e Dilma. A presidente Dilma Rousseff anunciou na terça-feira um conjunto de medidas para estimular a economia. Houve muitas críticas, algumas delas até eventualmente corretas do ponto de vista técnico. Mas a única acusação que seria injusta é a da falta de coerência.Explico: a presidente tem sistematicamente lamentado o tratamento que a Europa está dando à crise, adotando apenas medidas de ajuste, sem se preocupar com o essencial que é o crescimento econômico. Logo, para ser coerente, Dilma não poderia ficar de braços cruzados, assistindo passivamente a desaceleração da economia brasileira.É óbvio que o problema no Brasil não tem um décimo da gravidade alcançada na Europa ou mesmo nos Estados Unido. Os países europeus ou estão estagnados ou em recessão, ao passo que o Brasil continua crescendo, embora menos do que no luminoso ano de 2010, em que o crescimento superou os 7% – e, diga-se, foi um dos fatores que ajudou a eleger Dilma naquele ano.Além disso, enquanto o desemprego aumenta ou se mantém muito elevado na Europa, no Brasil há quase, quase, o pleno emprego.
    Mesmo assim, a presidente está fazendo uma aposta no aumento do investimento, tanto público como privado, única maneira de assegurar um crescimento sustentável no futuro próximo.A intenção do governo é levar a taxa de investimento dos atuais 19% do PIB para algo próximo de 25%, se possível em seu período de governo, que vai até 2014.Como o PIB brasileiro é de cerca de US$ 2,5 trilhões, o programa anunciado significará um esforço para investir algo em torno de US$ 150 bilhões, em prazo que a presidente não especificou.É um número significativo para uma economia ainda emergente.Outra intenção da presidente coincide com a grande queixa do empresariado e dos mortais comuns: reformar o sistema tributário, uma enorme confusão, além de representar uma carga considerada excessiva. Do meu ponto de vista, não é que a carga seja de fato excessiva. O problema é que os serviços públicos entregues como contrapartida dos tributos é que são ruins ou ausentes."Tenho plena consciência de que o Brasil precisa reduzir sua carga tributária", disse a presidente, em uma entrevista na Índia, na qual antecipou partes do programa anunciado na terça-feira.Mas a reforma tributária será lenta e pontual porque, segundo ela, só no futuro, “talvez seja possível encaminhar uma reforma global”, em vista “dos vários interesses envolvidos na questão”. Citou como o principal deles a distribuição da arrecadação entre União, Estados e municípios". Por isso, Dilma defende uma discussão “calma, tranquila e realista”, enquanto toma “medidas pontuais que, no conjunto, permitem que se crie uma desoneração maior, o que é fundamental para o país crescer”.Outro aspecto em que a presidente trafega na contramão do rigor fiscal europeu é na sua análise dos gastos do governo, duramente decepados na Europa.No Brasil, diz Dilma, gastos de consumo do governo, que obviamente não são investimento, terão que aumentar em alguns setores, “principalmente quando se trata da saúde e da educação”.Para Dilma, é preciso, por exemplo, ampliar o número de médicos, porque o Brasil tem uma das menores taxas de médicos por habitante (1,8 para cada mil brasileiros).A presidente diz que “a população reclama de duas coisas, falta de médicos e, portanto, de falta de atendimento. Não é investimento, mas vamos ter que gastar e ao mesmo tempo aumentar a taxa de investimento”.Imagino que esse bom senso, pelo menos do meu ponto de vista, esteja por trás da popularidade de Dilma: a mais recente pesquisa lhe dá 77% de aprovação, quatro pontos acima do nível atingido no mesmo período de 2011. É um resultado igual ao melhor momento de Luiz Inácio Lula da Silva, supostamente campeão de popularidade de todos os tempos.O problema é que o governo Dilma tem aprovação bem menor (56%) do que a da pessoa Dilma.Dá para traduzir assim: o que a presidente pretende e/ou diz merece mais aplausos do que o seu governo é efetivamente capaz de realizar.

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    28/12/2011

    No ranking do Rossi, só dá o PIB da Folha

    Filed under: Amaury Ribeiro Jr.,Brasil,Clóvis Rossi,Economia — Gilmar Crestani @ 8:08 am

    Rossi, como todo colonista à serviço do serrismo, na Folha de São Paulo, só se dá por satisfeito se puder sentar a pua na Dilma ou em algum subalterno. Ele consegue citar Larry Rother, Gustavo Patu e Vinicius Torres Freire. Está faltando na lista do Rossi o jornalista mais em evidência no Brasil de hoje, que é Amaury Riberio Jr, taxidermista do tucanato. Se o Brasil não tivesse sido estraçalhado pelas sete pragas do PSDB não estaria hoje melhor colocado no ranking de desenvolvimento humano?

    O Brasil cresce, amadurece e só os vira-latas continuam obtusos, sem conseguir reconhecer que se o Brasil está chegando lá, aos trancos e barrancos, se deve à determinação de dois governantes: Lula e Dilma.

    O Brasil cresce. E amadurece?

    Por: Clovis Rossi | 27 de diciembre de 2011

    Há cerca de três anos, Larry Rohter, então correspondente do New York Times no Brasil, escreveu um livro com o título "Deu no New York Times". Era uma coleção dos principais assuntos de que havia tratado em seu período como correspondente, mas o título era também uma brincadeira com a mania dos brasileiros de se impressionar muito mais com o que se publica no exterior a respeito do país – especialmente se escrito em inglês – do que com o que sai em português na mídia local.
    Ex-colônias provavelmente têm, todas, essa característica de um certa genuflexão diante da metrópole, mesmo de metrópoles, caso dos Estados Unidos, que não foram a colonizadora original, embora, nos tempos contemporâneos, imponham um evidente colonialismo cultural.
    Por isso mesmo, quando um jornal em inglês, no caso o Guardian, recolheu avaliação de um centro britânico de estudos segundo o qual o Brasil ultrapassara o Reino Unido e se tornara a sexta economia do planeta, me preparei mentalmente para ver um festival de ufanismo, para ver o país enrolar-se na bandeira e festejar o progresso.

    Felizmente, me enganei. Foi notícia, claro, como não poderia deixar de ser. Até El País, que não tem sede nem no país ultrapassado nem no país promovido, deu a informação, discretamente mas deu.
    A principal fonte de informação dos brasileiros – o Jornal Nacional, o telejornal das 20h30 da Rede Globo – também reproduziu a notícia, mas cuidou de deixar bem claro que um país com uma população enorme como o Brasil (quase 200 milhões) não é mais rico que um país com população bem menor, como o Reino Unido, só porque a soma dos bens e serviços por ele produzido é maior.
    Dividido pela população, o PIB inglês é mais ou menos o triplo do brasileiro, cuidou também de ressaltar Gustavo Patu, na Folha de S. Paulo, ele que é um dos mais lúcidos analistas das contas brasileiras. Mas Patu não desprezou o sexto lugar. Escreveu: "Não é irrelevante, portanto, a projeção de que o PIB brasileiro deverá superar neste ano o do Reino Unido e proporcionar ao país o status de sexta maior economia mundial".
    E explicou: "Embora facilitada pela crise europeia, a ascensão do país não é fortuita. Assim como os outros gigantes emergentes, caso de China, Índia e Rússia, o Brasil escalou a hierarquia da geopolítica internacional quando voltou a exibir um processo mais consistente de crescimento".
    Da mesma forma, Vinicius Torres Freire, um dos mais competentes colunistas econômicos do jornalismo brasileiro, lembrou que o PIB per capita do Brasil "ainda anda lá pelo 70.o lugar. Sabemos que somos mais pobrinhos que os britânicos".
    Sabemos também que, em matéria de desenvolvimento humano, o Brasil ocupa um vergonhoso 84.o lugar, posto ainda mais vergonhoso quando se torna a sexta economia do planeta.
    O único ufanismo partiu do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para quem, em 20 anos, o Brasil atingirá o padrão europeu de hoje. "Otimismo exagerado", rebateu Patu, para acrescentar: "No ritmo atual, só depois de 2040 a renda per capita brasileira atingirá o padrão britânico de hoje -para não falar da qualidade da educação, da saúde, das instituições".
    Tudo somado, tem-se que o Brasil não apenas está crescendo de forma mais consistente como está amadurecendo o suficiente para não entrar nem em depressão nem em euforia quando alguma coisa sobre ele, negativa ou positiva, aparece em inglês – ou qualquer outro idioma.
    Se essas duas características realmente se mantiverem, esse menino chamado Brasil ainda irá longe.

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    18/09/2011

    Até que enfim, um Rossi sensato

    Filed under: Clóvis Rossi,Crise Financeira Européia — Gilmar Crestani @ 9:01 am

     

    E para os sem-banco, nada?

    E vieram os grandes bancos centrais do planeta como o sétimo de cavalaria para salvar –de novo– a banca. Para ela, prometem recursos "ilimitados". Quem é que não sonhou, pelo menos uma vez, em fracassar na vida e mesmo assim ver mantida a mesada "ilimitada" de papai?

    Nada contra o pacote dos BCs. Não cheguei ainda a ser tão anarquista a ponto de torcer para que os bancos quebrem. Sei que, se quebrarem, penaremos muito mais os mortais comuns que os "senhores do universo" como são banqueiros e assemelhados. É só lembrar a crise de 2008/09: provocou a perda de emprego para 30 milhões de pessoas no mundo todo. Nenhuma delas era banqueiro ou assemelhado.

    Ao contrário: continuaram recebendo salários e bônus obscenos.

    É sempre bom lembrar que, antes da decisão dos BCs na quinta-feira de socorrer a banca, os governos haviam despejado quantidades igualmente "ilimitadas" de recursos (os meus, os seus, os nossos recursos) no auxílio ao sistema financeiro na crise de 2008/09. O total exato nunca se soube, mas há quem fale em pelo menos US$ 4,5 trilhões, o que dá uns dois "Brasis".

    Nem com essa montanha de dinheiro, a banca conseguiu restabelecer sua plena saúde, de que dá prova a necessidade de os bancos centrais voltarem a estender uma rede de proteção.

    O problema desse socorro não está nele em si, mas no fato de que os governos não mostram idêntica disposição ou sabedoria para atacar os problemas de fundo dos mortais comuns.

    Qual é o problema? Vejamos um breve resumo nas palavras de Christine Lagarde, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, que não chega a ser uma instituição de esquerda ou próxima do anarquismo.

    "O alto desemprego, perene, sobretudo entre os jovens; a austeridade fiscal que erode as proteções sociais; a sensação de injustiça e de que os mercados têm prioridade sobre a economia real […], alimentam crise de confiança", disse Lagarde na quinta-feira.

    Luciana Coelho, a notável correspondente da Folha em Washington, pôs dados concretos na questão do desemprego. Reproduzo:

    "Desde o estouro da crise, há exatos três anos, o desemprego paira em 9% nos EUA (fechou agosto a 9,1%) e em 10% na União Europeia –na Espanha, chega a 20%.

    A situação é mais grave para os jovens, entre os quais os índices duplicam e a tendência é de alta.

    Nos EUA, 1 em cada 4 pessoas de 16 a 19 anos que entrou (ou quer entrar) no mercado de trabalho está sem emprego. Já na UE, o desemprego está em 20,7% para quem tem até 25 anos –a Espanha tem o quadro mais grave, com quase metade dos jovens (46,2%) parada".

    Pois é. Só mesmo por má fé ou incompetência alguém pode imaginar que os pacotes de austeridade que se tornaram moeda corrente na Europa sirvam para reduzir o desemprego e o empobrecimento dos sem-banco. É só visitar o caso da Grécia: nos três anos de austeridade, o desemprego subiu de 7% para os atuais 16,1%, o segundo mais alto da Europa, após Espanha, e o próprio ministro de Economia avisa que não é para esperar o fim da recessão antes de que termine 2012.

    Depois ainda há quem acuse de vandalismo os "indignados" da Espanha, da Grécia, de Portugal e por aí vai.

    Folha.com – Clóvis Rossi – E para os sem-banco, nada? – 16/09/2011

    22/08/2011

    Clóvis Rossi é um banana

    Filed under: Abobado,Clóvis Rossi,Colonista — Gilmar Crestani @ 7:04 am

    Elementar, meu caro Rossi, nossa imprensa é mais corrupta que qualquer político em atividade, excluindo o Maluf. E Maluf nunca foi condenado pela justiça. Assim como não saberia listar todos os políticos em atividade que apoiaram a ditadura, também não conseguir dizer que jornais ou revistas NÃO apoiaram a ditadura. Mas de uma coisa tenho certeza, a empresa para a qual o senhor trabalha chamou a ditadura de ditabranda, e o senhor, bananão, ficou calado trabalhando para ela. Vá se descascar!

    19/08/2011-14h44

    Há os indignados e há os bananas

    O Brasil e a Índia têm nota igualmente baixa, aliás próximas uma da outra, no IPC, o Índice de Percepção de Corrupção da Transparência Internacional, respeitada ONG que mede não a corrupção propriamente dita, porque é "imedível", mas como ela é percebida em cada país.

    A nota do Brasil, no IPC mais recente, foi 3,7; a da Índia, 3,3. Ambos os países a anos-luz da Dinamarca e seus 9,3, a primeira colocada em limpeza.

    Se a percepção é parecida no Brasil e na Índia, então a reação em cada país também é parecida, certo? Errado, completamente errado. Na Índia, Anna Hazare, militante anti-corrupção, está iniciando nesta sexta-feira uma greve de fome em um parque público, acompanhado por milhares de seguidores.

    No Brasil, o pessoal manda cartas indignadas para os jornais, mas não tira o traseiro da cadeira para se manifestar.

    A repercussão das diferentes atitudes é inexoravelmente diferente: o movimento de Hazare está em todos os meios de comunicação de respeito no mundo todo, Brasil inclusive. Já a passividade do brasileiro ganhou uma perplexa coluna de Juan Arias, notável jornalista espanhol (um respeitado "vaticanólogo", aliás), hoje correspondente de "El País" no Brasil.

    Arias se perguntava porquê não havia no Brasil nada nem remotamente parecido com o movimento dos "indignados" que não sai das ruas da sua Espanha (sólido crítico do Vaticano, aposto que Arias, se estivesse em Madri, estaria nas ruas agora, ao lado dos que protestam contra o que consideram gastos excessivos para receber o papa Bento 16, em um momento de aperto orçamentário generalizado).

    O que chama a atenção, na comparação Brasil x Índia, é o fato de que os escândalos mais recentes no gigante asiático têm pontos de contato com o noticiário brasileiro.

    Há, por exemplo, fundadas suspeitas de gastos abusivos para organizar os Jogos da Commonwealth, a comunidade de países que foram colônias britânicas. No Brasil, a organização da Copa do Mundo-2014 está cercada de temores, mas ninguém, até agora, fez qualquer protesto público parecido com o da Índia.

    Nesta, há também suspeitas sobre negociatas no setor de telecomunicações. No Brasil, uma empresa do ramo comprou outra, o que era proibido por lei. A empresa foi punida? Não, a lei foi modificada (no governo Lula), para permitir o negócio. Você ouviu falar de alguma manifestação a respeito?

    Se você preferir outra comparação, mudemos de continente e fiquemos aqui nas imediações: os estudantes chilenos, como os indignados espanhóis, não saem das ruas, exigindo educação pública e de qualidade. Preciso dizer que, em todas as avaliações internacionais comparativas, o Brasil fica sempre nos últimos lugares? Os estudantes brasileiros se mobilizam? Sim, para exigir meia entrada nos cinemas, atitude positivamente revolucionária.

    Difícil escapar à constatação de que não somos indignados e, sim, bananas.

    Folha.com – Clóvis Rossi – Há os indignados e há os bananas – 19/08/2011

    13/08/2011

    Clóvis Rossi volta à planície

    Filed under: Clóvis Rossi — Gilmar Crestani @ 8:15 am

    De guru à crítico dos mercados, Clóvis Rossi dá os anéis para não perder dos dedos de prosa. Faz mea culpa, mas livra os patrões. Ele não lembra, mas o Primeiro Fórum Social Mundial de Porto Alegre já fazia a crítica dos mercados…

    12/08/2011-12h20

    Erramos. E continuamos errando

    O jornalismo tem sua parte de culpa na crise global. Não digo todo o jornalismo porque sempre há exceções, para o bem ou para o mal. Mas que nos transformamos em tambor acrítico e passivo dos tais mercados, não tenho a menor dúvida.

    Não é preciso recuar muito no tempo para apontar problemas graves no noticiário econômico dos jornais. Não fomos capazes, por exemplo, de antecipar a Grande Recessão que começou em 2007, com a crise das hipotecas "subprime" nos Estados Unidos, e, no ano seguinte, virou uma crise ampla, geral e irrestrita.

    Em defesa do jornalismo, poder-se-ia dizer que ninguém previu a crise. Nem economistas nem governos. O único que a anunciou tornou-se famoso por isso. Chama-se Nouriel Roubini.

    Mesmo assim tenho lá minhas dúvidas. Acompanho Roubini faz anos, porque ele é frequentador regular dos encontros anuais do Fórum de Davos, que eu sigo faz 21 anos. Roubini fazia sempre, antes de estourar a crise, o papel de profeta do apocalipse, até folclorizado por isso. Vivia repetindo, ano após ano: a crise vem aí, a crise vem aí, a crise vem aí.

    Ninguém o levava a sério. Nos anos imediatamente anteriores à explosão, ele se hospedava no mesmo hotel que eu, o Banhof Terminus, o popular Hotel da Estação, porque fica bem em frente à estação de trem de Davos Platz. Três estrelas, familiar, aconchegante, mas modesto para um guru. Muitas vezes, tomávamos café da manhã no mesmo horário. Ele estava sempre sozinho, lendo seu "Financial Times".

    Depois da crise, quando passou de profeta do apocalipse a oráculo, Roubini mudou de hotel para um mais luxuoso e por onde ia estava sempre cercado de um mundão de gente ávida por ouvir o profeta.

    Voltemos ao fio da meada. Se não fomos capazes de antever a crise, depois dela não aprendemos nada. Repetimos mecanicamente o que diz o mercado sobre as causas desta segunda etapa do imbróglio. Só esporadicamente aparece uma voz sensata como a de Heiner Flassbeck, diretor da Divisão de Globalização e Estratégias de Desenvolvimento da Unctad (Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento), ex-vice-ministro de Finanças da Alemanha (1998-1999), entrevistado na quinta-feira por Eleonora de Lucena, da Folha.

    Flassbeck diz que os ortodoxos (deveria ter acrescentado também os mercados) "chamam a crise, claramente causada pelos mercados financeiros, de ‘crise da dívida dos governos’. Não tem nada a ver com crise da dívida. Os governos pagaram alguns jogadores irresponsáveis das finanças, e por isso a dívida dos governos é maior do que há cinco anos. É luta ideológica contra os governos. Nada a ver com pesquisa acadêmica séria".

    Pode-se concordar ou não com essa análise (eu concordo integralmente), mas não se pode, no noticiário, encampar a visão dos ortodoxos/mercado e omitir os demais pontos de vista. É um erro que cometemos diariamente, sempre com as exceções que apenas confirmam a regra.

    Erro tanto mais grave porque Flassbeck não se limita a apontar o problema. Sugere também uma saída, assim: "Uma forte regulação nos mercados financeiros, impedindo apostas de cassino e forçando investimentos reais. Um sistema monetário global diferente, no qual as moedas não sejam determinadas pelo mercado. E nova regulamentação para as commodities, na qual seus preços não sejam mais determinados pelo mercado financeiro".

    De novo, pode-se concordar ou não com ele, mas é incorreto limitar-se a propor unicamente a saída que defendem mercados e ortodoxos: cortar, cortar, cortar os gastos do governo.

    Para não esticar demais, vale lembrar os pretextos que o mercado menciona para a subida ou queda das bolsas, e que nós reproduzimos sempre passiva e acriticamente.

    Exemplo desta semana: na terça-feira, as bolsas subiram, depois de vários dias de quedas espetaculares. Qual a explicação que apareceu em praticamente todos os jornais? O Fed, o banco central dos EUA, decidira manter entre 0% e 0,25% a taxa de juros (e até 2013). Logo, aplicar em papeis cujo rendimento depende de juros ficara menos atraente.

    Bom, no dia seguinte, as bolsas sofreram nova surra espetacular, apesar de os juros continuarem obviamente onde estavam. A nova "explicação" foi a de que a nota da França seria rebaixada pelas agências de "rating". Boato, puro boato. Nem importou o fato de que o boato foi desmentido por duas das agências, além do próprio governo.

    Já é ruim o jornalismo reproduzir boatos, mesmo que originados no mercado. Pior fica não lembrar que, mesmo que houvesse o rebaixamento, não significa nada. Tanto não significa que os Estados Unidos tiveram sua nota rebaixada na sexta-feira pela Standard and Poor’s e, não obstante, seus títulos se valorizaram fortemente na segunda-feira.

    Custava lembrar que a S&P e demais agências de avaliação de risco fracassaram miseravelmente no pré-crise, ao manter o triplo A para, entre outros, o Lehman Brothers, cuja quebra foi o catalizador da Grande Depressão?

    É só comparar: se, digamos, Antonio Palocci for nomeado amanhã ou depois para um novo cargo, público ou privado, todos os jornais sérios lembrarão seus antecedentes, logo nas linhas iniciais do noticiário. Quando a S&P rebaixou a nota americana, não houve a menção correspondente a seu passado ou, quando houve, foi em texto marginal, sem a ênfase atribuída ao rebaixamento.

    Clóvis Rossi

    Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às terças, quintas e domingos no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo".

    Folha.com – Clóvis Rossi – Erramos. E continuamos errando – 12/08/2011

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