Ficha Corrida

09/06/2012

Ditadura e tortura? Não! Ditadura é tortura.

Filed under: Cláudio Guerra,Comissão da Verdade,Ditadura — Gilmar Crestani @ 9:49 pm

 

Entrevista de Claudio Guerra a Alberto Dines

Confesso que fui ver para não acreditar no que veria. Fui ver a entrevista de Alberto Dines  com o ex-policial Cláudio Guerra com maus olhos, com um espírito prévio para apontar as falhas, as mentiras no depoimento do matador de presos políticos. Mas esse preconceito, ou seja, a visão antes da experiência,  longe estava de uma pose. Não. É que a inteligência, a sensibilidade da gente  possui uma defesa contra o horror. Temos sempre uma região de conforto que recusa e se recusa à zona mais escura, aquela em que nos dizemos: “até aqui vai a dor – daqui não passarás”.

Então, de imediato, naquela atitude anterior à visão, na entrevista pude ver um Alberto Dines crédulo, como se ele não fosse um repórter experimentado. Aparecia nele uma sombra de assentimento, como é típico de qualquer repórter de televisão para um entrevistado, “sim, sim, sim”, a concordar com o queixo. Parecia nele não haver uma suspensão para a dúvida. E enquanto assim via, eu me afirmava: o matador arrependido age contra a Comissão da Verdade, na medida em que insinua “não procurem mais corpos desses militantes, porque foram queimados”. E mais me dizia: como o entrevistado Cláudio Guerra pode relacionar certos cadáveres a nomes? Qual a certeza de suas lembranças para os corpos de subversivos que ele fez sumir?

Ah, essas perguntas Dines não faz, eu me dizia, ele é um crédulo. Como é possível um cara ter, como o entrevistado fala, duas contas em um banco, numa, de nome falso, para receber o dinheiro extra por assassinatos, noutra, real, somente para a remuneração de funcionário? O repórter perdeu o ritmo, continuo a me dizer, pois existe uma tensão dramática em qualquer gênero, até mesmo em um trabalho jornalístico. E mais grave, o repórter pula a denúncia do terror. Ele salta o essencial, vou me dizendo. Então chego ao minuto e tempo 32.48, até o ponto 38.16 do vídeo da entrevista. E da voz do policial escuto, contra o que eu não queria ver e escutar, quando ele conta o estado em que encontrou pessoas de militantes, antes de jogá-las ao forno de uma usina:

“As mordidas (em Ana Rosa) eram mordidas humanas. Ela estava muito machucada… Eu creio que foi asfixia. O corpo dela sangrava, o corpo sangrando. Estava estourada por dentro. O marido, Wilson Silva, estava sem as unhas da mão, todo arrebentado”. E mais, como um acúmulo de evidências, neste preciso ponto de verdade, que pela percepção sabemos da memória de relatos dos necrotérios na ditadura:

“Todos os cadáveres que eu recebi eram seminus. Era um tipo assim, mais parecido com um calção que uma bermuda, não é? Porque as pessoas eram torturadas nuas, pau de arara era nu. As torturas ali de choque, nos órgãos genitais, muitos foram até castrados. Eram seminus, todos eles… O caso de Capistrano ele não estava todo esquartejado não. Ele estava com o braço direito decepado. Tinham arrancado o braço dele, de Capistrano. Os outros, na maioria eram fraturas expostas ao longo do corpo, com os ossos aparecendo, entendeu? A maioria. Na maioria era assim. Olha, são cenas que eu, é, pra mim me deixam fora, muito abalado narrar isso aqui. Pra mim é a pior época da luta de que eu participei foi essa aí”.        

Nesse preciso instante, há uma verossimilhança terrível no que o Matador de Presos Políticos Cláudio Guerra fala. Ele bate com tudo que pesquisamos e contra a nossa vontade aprendemos. E concluo, enfim: se nesse depoimento houver mentira, é a mentira mais próxima e vizinha da pior verdade que existe. Aquela verdade à qual nos recusamos, mas que ainda assim avança, sem respeitar o nosso horror.

A entrevista inteira pode ser vista aqui ( Veja o vídeo )

Urariano Mota – RecifeÉ pernambucano, jornalista e autor de "Soledad no Recife", recriação dos últimos dias de Soledad Barret, mulher do cabo Anselmo, executada pela equipe do Delegado Fleury com o auxílio de Anselmo.Entrevista de Claudio Guerra a Alberto Dines | Direto da Redação – 10 anos

04/05/2012

Assassinos sob bênção

 

O suposto plano da ditadura para assassinar Brizola

Enviado por luisnassif, sex, 04/05/2012 – 08:12

Por nadja rocha

Em Observação

Do iG

Ditadura tentou matar Brizola e culpar Igreja Católica

Assassinato não aconteceu, mas Cláudio Antônio Guerra revela que se disfarçou de padre durante ação contra ex-líder de esquerda

Tales Faria e Wilson Lima, iG Brasília

O ex-delegado do DOPS (Departamento de Ordem Político Social) do Espírito Santo, Cláudio Antônio Guerra, revela no livro “Memórias de uma Guerra Suja” que se disfarçou de padre para tentar assassinar Leonel Brizola, fundador do PDT e um dos líderes da resistência contra a ditadura militar. O disfarce era uma estratégia para responsabilizar a Igreja Católica pelo atentado.

Segundo Guerra, a operação foi comandada pelo coronel de Exército Freddie Perdigão (Serviço Nacional de Informações – SNI) e pelo comandante Antônio Vieira (Centro de Informações da Marinha – Cenimar). “Os militares também andavam muito aborrecidos com a Igreja Católica, que estava se alinhando à esquerda, pela abertura política”, afirma Guerra. Perdigão e Vieira também estavam à frente do atentado ao Riocentro.

Guerra levava também uma pasta com um revólver calibre 45. A arma era a preferida dos cubanos. A intenção também era ligar o governo de Fidel Castro ao assassinato. “Eu me lembro do boato de que Fidel Castro estava aborrecido por Brizola ter ficado com o dinheiro enviado por Cuba para financiar a guerrilha do Caparaó (o primeiro movimento de luta armada contra a ditadura militar). Os militares estimulavam esses boatos nos quartéis e entre nós”, revela Guerra. “Com o retorno de Brizola, os comentários sobre o dinheiro de Fidel apareciam aqui e ali”.

“O objetivo (do atentado) era implicar a Igreja Católica – resolveríamos dois problemas de uma vez só – e envolver os cubanos, insatisfeitos com a suspeita de desvio de verba para a guerrilha do Caparaó; daí a arma calibre 45”, aponta. “O objetivo, como sempre, era tumultuar o processo de redemocratização do Brasil”, reafirma o ex-delegado em depoimento ao jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto no livro que acaba de ser publicado pela editora Topbooks.

Plano

Ex-delegado do DOPS fala sobre atentado contra Brizola

A tentativa de assassinato ocorreu quando Brizola morava em Copacabana, no Rio de Janeiro. A data é incerta. Guerra conta que foi entre “a chegada dele do exílio, em 1979 e antes da demissão do chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva” em 1981. O ex-delegado afirma no livro que se hospedou no Hotel Apa, na rua República do Peru. O hotel existe até hoje. Ele se registrou com identidade e CPF falsos, concedidos pela Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro na época. “Quando precisava incorporar um personagem para realizar uma missão, eles forneciam tudo: CPF, identidade, tudo”, relata.

O ex-delegado revela no livro “Memórias de uma Guerra Suja” foi até a porta do prédio onde Brizola montado na garupa de uma moto conduzida pelo tenente Molina, um militar do Cenimar. Normalmente o líder de esquerda saía de casa “um pouco antes do meio-dia”, pelas informações do SNI repassadas ao ex-delegado do DOPS. Naquele dia, Brizola não desceu e o atentado foi abortado. “Havia o interesse da comunidade de informações em eliminar Brizola, só que depois houve um retrocesso, uma mudança”, afirma Guerra.

Brizola sofreu uma tentativa de assassinato no Hotel Everest, no Rio de Janeiro, em 18 de janeiro de 1980, quatro meses depois de chegar do exílio. Uma bomba foi deixada na porta do apartamento do líder de esquerda mas desativada em seguida.

*Colaborou Adriano Ceolin, iG Brasília

O suposto plano da ditadura para assassinar Brizola | Brasilianas.Org

Os assassinos se assassinavam

 

Delegado Fleury foi assassinado por militares, conta ex-membro do DOPS

Da Redação

O delegado Sérgio Paranhos Fleury, titular da Delegacia de Investigações Criminais (DEIC) de São Paulo e um dos maiores símbolos da repressão violenta a opositores durante a ditadura militar no Brasil, teria sido assassinado por ordem dos próprios colegas de farda, revoltados com o processo de abertura política iniciado por Ernesto Geisel. A afirmação é de Cláudio Antônio Guerra, ex-delegado do Departamento de Operações Políticas e Sociais (DOPS) no Espírito Santo, em depoimento aos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros no livro “Memórias de uma guerra suja”, recém-publicado pela editora Topbooks.

Cláudio Guerra faz outras declarações igualmente impactantes no decorrer do livro. Até então um nome pouco citado entre entidades de defesa dos direitos humanos, o ex-delegado do DOPS traz revelações que podem ter grande peso nos trabalhos da Comissão da Verdade. Trata-se da primeira confissão de participação em eventos de grande importância no processo de resistência à redemocratização do país no final dos anos 70 e início dos anos 80.

Reprodução / Topbooks / iG

Cláudio Guerra alega que a conversão a igreja evangélica o levou a fazer confissões | Foto: Reprodução / Topbooks / iG

Após um período de certa fama no Espírito Santos no começo dos anos 70, quando era considerado um dos grandes nomes na luta contra a “bandidagem”, Cláudio Guerra caiu em desgraça e terminou preso pelo assassinato do bicheiro Jonathas Borlamarques de Souza – crime que ele diz ter sido cometido por outro policial, a mando de dois coronéis que comandavam a Secretaria de Segurança e o Departamento de Polícia. Foi condenado a outros 18 anos pelas mortes de sua primeira esposa e da cunhada, pena que está suspensa judicialmente. As confissões em “Memórias de uma guerra suja” ocorrem, segundo o ex-integrante do DOPS, depois de sua conversão a uma igreja evangélica. No momento, Guerra encontra-se sob proteção da Polícia Federal.

Em seu depoimento, ele admite ter participado do atentado ao Riocentro, durante as comemorações do Dia do trabalhador de 1981, em uma ação que pretendia provocar um “grande golpe contra o projeto de abertura democrática”. Revela, além disso, ter participado da ocultação de cadáveres de dez presos políticos, entre eles alguns líderes históricos do PCB, como David Capistrano e João Massena Mello. As informações sobre o livro foram divulgadas nesta quarta-feira (2) pelo iG.

“O delegado Fleury tinha de morrer”

O ex-integrante do DOPS diz ter participado da própria reunião que definiu a morte do delegado Fleury. “O delegado Fleury tinha de morrer. Foi uma decisão unânime de nossa comunidade, em São Paulo, numa votação feita em local público, o restaurante Baby Beef”, afirma Cláudio Guerra. A reunião que selou a morte de Fleury teria contado com a presença do coronel do Exército Ênio Pimentel da Silveira (o “Doutor Ney”); o coronel-aviador Juarez de Deus Gomes da Silva, da Divisão de Segurança e Informações do Ministério da Justiça; o delegado da Polícia Civil de São Paulo Aparecido Laertes Calandra; o coronel de Exército Freddie Perdigão, do Serviço Nacional de Informações (SNI); o comandante Antônio Vieira, do Cenimar; e o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do Departamento de Operações de Informações do 2º Exército (DOI-Codi).

Reprodução

"Fleury não obedecia mais a ninguém, agindo por conta própria. E exorbitava", diz ex-integrante do DOPS | Foto: Reprodução

“Fleury tinha se tornado um homem rico desviando dinheiro dos empresários que pagavam para sustentar as ações clandestinas do regime militar. Não obedecia mais a ninguém, agindo por conta própria. E exorbitava”, diz Cláudio Guerra, apontando também o vício em cocaína de Fleury. “Cansei de ver”, afirma. A versão oficial é de que o delegado Fleury morreu em um acidente de lancha em Ilhabela. Guerra afirma ter dado a ideia de fazer tudo parecer um acidente, além de ter sido o primeiro enviado para cometer o assassinato. Porém, após surgir a notícia de que Fleury tinha adquirido uma lancha, a execução acabou ficando a cargo do Centro de Informações da Marinha (Cenimar).

Militantes foram incinerados em usina de açúcar

Cláudio Guerra confessa ter sido um dos principais encarregados de matar adversários da ditadura durante os anos 70 e 80. Entre outros, ele afirma ter executado pessoalmente militantes de esquerda como Nestor Veras, do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB). “Ele tinha sido muito torturado e estava agonizando”, conta Guerra. “Eu lhe dei o tiro de misericórdia, na verdade dois, um no peito e outro na cabeça. Estava preso na Delegacia de Furtos em Belo Horizonte. Após tirá-lo de lá, o levamos para uma mata e demos os tiros”.

A mando de seus superiores, o ex-delegado do DOPS diz ter executado outros militantes, como Ronaldo Mouth Queiroz, estudante universitário e membro da Aliança Libertadora Nacional – ALN, além de Emanuel Bezerra Santos, Manoel Lisboa de Moura e Manoel Aleixo da Silva – três integrantes do Partido Comunista Revolucionário (PCR).

Reprodução / Topbooks / iG

Livro escrito por Marcelo Netto e Rogério Medeiros acaba de ser lançado | Foto: Reprodução / Topbooks / iG

Em outro trecho, Cláudio Guerra admite ter atuado para ocultar cadáveres de pelo menos dez opositores da ditadura, incinerados em uma usina de açúcar no norte do RJ chamada Cambahyba. A sugestão de usar os fornos para incinerar cadáveres teria vindo do próprio Cláudio Guerra. A usina era de propriedade do ex-vice-governador do Rio de Janeiro Heli Ribeiro, que recebia armas do Exército para combater sem-terra da região e que, segundo Guerra, “faria o que fosse preciso para evitar que o comunismo tomasse o poder no Brasil”.

Teriam sido incinerados João Batista e Joaquim Pires Cerveira, presos na Argentina pela equipe do delegado Fleury; Ana Rosa Kucinsk (que apresentava sinais de violência sexual, de acordo com Guerra); Wilson Silva (que teria tido as unhas da mão direita arrancadas); Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira e Eduardo Collier Filho, militantes da Ação Popular Marxista Leninista (APML); e David Capistrano, João Massena Mello, José Roman e Luiz Ignácio Maranhão Filho, dirigentes históricos do PCB. Capistrano teve a mão direita arrancada, de acordo com Cláudio Guerra.

Riocentro: “Era evidente que muitas pessoas morreriam pisoteadas após explosão”

Cláudio Guerra também admite participação direta no atentado no Riocentro, em 1981. Além disso, afirma ter participado de “várias equipes” que promoveram ações contra a abertura democrática no Brasil. No Riocentro, a bomba teria, segundo Guerra, explodido por engano no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário, por um erro do capitão Wilson Luís Chaves Machado, que conduzia o veículo que transportava o artefato. “Aquela bomba era uma das três que deveriam explodir no show. O capitão Wilson estacionou o veículo embaixo de um fio de alta tensão e a carga elétrica desse fio, a energia que passava em cima do Puma, fechou o circuito da bomba, provocando a explosão. O erro foi do capitão”, conta o ex-delegado do DOPS.

Teriam participado da operação Freddie Perdigão, coronel do Exército e integrante do Serviço Nacional de Informações (SNI); o comandante Antônio Vieira, do Centro de Informações da Marinha (Cenimar); e e o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do Departamento de Operações de Informações do 2º Exército (DOI-Codi).

Reprodução / OAB

"Aquela bomba era uma das três que deveriam explodir no show", diz Cláudio Guerra sobre atentado no Riocentro em 1981 | Foto: Reprodução / OAB

“O destino daquela bomba era o palco. Tratava-se de um artefato de grande poder destruidor. O efeito da carga explosiva no ambiente festivo, onde deveriam se apresentar uns oitenta artistas famosos, seria devastador. A expansão da explosão e a onda de pânico dentro do Riocentro gerariam consequências desastrosas. Era evidente que muitas pessoas morreriam pisoteadas”, conta Cláudio Guerra, que teria sido encarregado de prender os esquerdistas que seriam responsabilizados pelo atentado.

Segundo ele, todos os serviços de apoio do Riocentro, incluindo policiamento e assistência médica, foram temporariamente suspensos, de forma a potencializar a quantidade de vítimas. Além disso, placas de trânsito foram pichadas com a sigla da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), para dar a entender que o ataque tinha sido uma ação da esquerda. A explosão prematura da bomba, porém, acabou forçando os participantes a abortar a missão.

Inquérito sobre morte de Fleury pode ser reaberto, diz procuradora

Após a divulgação das informações, a procuradora da república Eugênia Fávaro defendeu, em declarações ao iG, a reabertura do inquérito sobre a morte do delegado Sérgio Paranhos Fleury. “Este relato tem uma série de novos elementos e revelações muito, muito importantes. Vamos pedir que o inquérito sobre a morte do delegado seja reaberto. Afinal, não deixa de ser um homicídio comum”, afirmou a procuradora, integrante do grupo designado pelo Ministério Público Federal para atuar juridicamente contra ex-torturadores e criminosos ligados à ditadura militar.

Por sua vez, o deputado estadual paulista Adriano Diogo (PT), presidente da Comissão da Verdade criada pela Assembleia Legislativa de São Paulo, defendeu a convocação do ex-delegado do DOPS Cláudio Guerra para depor. “Embora ele seja do Espírito Santo, tem informações sobre vários crimes ocorridos em São Paulo”, afirma o deputado, lembrando que a comissão paulista tem autorização para trabalhar em qualquer lugar do Brasil.

Sul 21 » Delegado Fleury foi assassinado por militares, conta ex-membro do DOPS

03/05/2012

Bandidos da ditadura: Cláudio Guerra

Filed under: Cláudio Guerra,Comissão da Verdade,Ditadura — Gilmar Crestani @ 8:38 am

 

Tales Faria: Militantes foram incinerados em usina de açúcar durante a ditadura militar

publicado em 2 de maio de 2012 às 14:43

“Militantes de esquerda foram incinerados em usina de açúcar”

Delegado revela em livro que viraram cinzas os corpos de David Capistrano, Ana Rosa Kucinski e outros oito opositores da ditadura

Tales Faria, iG Brasília | 02/05/2012 10:15:53 – Atualizada às 02/05/2012 12:27:53

Ele lançou bombas por todo o país e participou, em 1981 no Rio de Janeiro, do atentado contra o show do 1º de Maio no Pavilhão do Riocentro. Esteve envolvido no assassinato de aproximadamente uma centena de pessoas durante a ditadura militar. Trata-se de um delegado capixaba que herdou os subordinados do delegado paulista Sérgio Paranhos Fleury nas forças de resistência violenta à redemocratização do Brasil.

Apesar disso, o nome de Cláudio Guerra nunca esteve em listas de entidades de defesa dos direitos humanos. Mas com o lançamento do livro “Memórias de uma guerra suja”, que acaba de ser editado, esse ex-delegado do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) entrará para a história como um dos principais terroristas de direita que já existiu no País.

Mais do que esse novo personagem, o depoimento recolhido pelos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros, ao longo dos últimos dois anos, traz revelações bombásticas sobre alguns dos acontecimentos mais marcantes das décadas de 70 e 80.

Revelações sobre o próprio caso do Riocentro; o assassinato do jornalista Alexandre Von Baumgarten, em 1982; a morte do delegado Fleury; a aproximação entre o crime organizado e setores militares na luta para manter a repressão; e dos nomes de alguns dos financiadores privados das ações do terrorismo de Estado que se estabeleceu naquele período.

A reportagem do iG teve acesso ao livro, editado pela Topbooks. O relato de Cláudio Guerra é impressionante. Tão detalhado e objetivo que tem tudo para se tornar um dos roteiros de trabalho da Comissão da verdade, criada para apurar violações aos direitos humanos entre 1946 e 1988, período que inclui a ditadura militar (1964-1988).

David Capistrano, Massena, Kucinski e outros incinerados

Cláudio Guerra conta, por exemplo, como incinerou os corpos de dez presos políticos numa usina de açúcar do norte Estado do Rio de Janeiro. Corpos que nunca mais serão encontrados – conforme ele testemunha – de militantes de esquerda que foram torturados barbaramente.

“Em determinado momento da guerra contra os adversários do regime passamos a discutir o que fazer com os corpos dos eliminados na luta clandestina. Estávamos no final de 1973. Precisávamos ter um plano. Embora a imprensa estivesse sob censura, havia resistência interna e no exterior contra os atos clandestinos, a tortura e as mortes.”

Os dez presos incinerados

– João Batista e Joaquim Pires Cerveira, presos na Argentina pela equipe do delegado Fleury;

– Ana Rosa Kucinski e Wilson Silva, “a mulher apresentava marcas de mordidas pelo corpo, talvez por ter sido violentada sexualmente, e o jovem não tinha as unhas da mão direita”;

– David Capistrano (“lhe haviam arrancado a mão direita”) , João Massena Mello, José Roman e Luiz Ignácio Maranhão Filho, dirigentes históricos do PCB;

– Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira e Eduardo Collier Filho, militantes da Ação Popular Marxista Leninista (APML).

O delegado lembrou do ex-vice-governador do Rio de Janeiro Heli Ribeiro, proprietário da usina de açúcar Cambahyba, localizada no município de Campos, a quem ele fornecia armas regularmente para combater os sem-terra da região. Heli Ribeiro, segundo conta, “faria o que fosse preciso para evitar que o comunismo tomasse o poder no Brasil”.

Cláudio Guerra revelou a amizade com o dono da usina para seus superiores: o coronel da cavalaria do Exército Freddie Perdigão Pereira, que trabalhava para o Serviço Nacional de Informações (SNI), e o comandante da Marinha Antônio Vieira, que atuava no Centro de Informações da Marinha (Cenimar).

Afirma que levou, então, os dois comandantes até a fazenda:

“O local foi aprovado. O forno da usina era enorme. Ideal para transformar em cinzas qualquer vestígio humano.”

“A usina passou, em contrapartida, a receber benefícios dos militares pelos bons serviços prestados. Era um período de dificuldade econômica e os usineiros da região estavam pendurados em dívidas. Mas o pessoal da Cambahyba, não. Eles tinham acesso fácil a financiamentos e outros benefícios que o Estado poderia prestar.”

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