Ficha Corrida

16/06/2013

Menoridade seletiva

Filed under: Alex Thomaz,Menoridade Penal — Gilmar Crestani @ 8:33 pm
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Eu colocaria, ainda, como exemplo, o caso do estuprador de Florianópolis. O menor que teria estuprado uma menina, colega de colégio, não apareceu nas telas dos telejornais da rede de comunicação dos pais. Tudo foi devidamente abafado. Em Porto Alegre as pessoas bem informadas ainda devem lembrar da Gangue da Matriz e do Caso Alex Thomaz.

O sensacionalismo, como se sabe, é seletivo, não estatístico
Pesquisa da CNT aponta que 93% dos brasileiros querem a redução da maioridade penal.
Mas há outros dados também significativos na mesma pesquisa: 69% dos brasileiros têm a convicção de que cresceu muito o número de crimes praticados por adolescentes, e outros 25% tem certeza de que eles pelo menos aumentaram.
Os números se equivalem, portanto: se 93% quer reduzir a maioridade, 94% tem a percepção de que o número de crimes envolvendo adolescentes aumentou.
É o que se pode chamar de política da comoção –quero mudar, porque sinto que piorou.
A percepção, no entanto, não reflete estatísticas, mas a abundância da cobertura policial pela mídia, e o destaque preferencial aos crimes de adolescentes.
Não bastassem os programas policialescos que vibram e multiplicam violências, também os telejornais gastam hoje mais da metade de seu tempo exclusivamente com as notícias policiais.
Da política à cultura, do futebol à economia, tudo é subtítulo do grande noticiário policial em que os meios de comunicação se transformaram.
Mas o sensacionalismo, como se sabe, é seletivo, não numérico.
Mais tempo é gasto com notícias de crimes que provocam mais emoções, e isso nada tem a ver com estatísticas.
A intermediação da imprensa provoca o resultado da pesquisa que depois é colhido pela própria mídia como base para justificar seus programas e suas campanhas, fechando o círculo vicioso das profecias que se auto-realizam.
Se ao invés de focar nos crimes praticados por adolescentes, por exemplo, fosse enfatizado no noticiário os crimes praticados com armas de fogo, é possível que as pessoas tivessem a percepção -real, pelo que se vê no cotidiano forense- de que o que aumenta mesmo é o número de crimes à mão armada, de menores ou maiores.
Quem sabe isso pudesse se refletir numa pesquisa acerca da retomada do referendo das armas?
Mas a imprensa tem uma responsabilidade maior ainda do que apenas o de indutora de pautas, e assim provocadora de anseios.
Na área da criminalidade, a reprodução contínua dos crimes, com a sua espetacularização tende a multiplicar a própria criminalidade.
Exemplo conhecido foi o número expressivo de sequestros de quintal que cresceu vertiginosamente com a intensa exposição das extorsões praticadas a empresários e industriais.
Muitos pequenos comerciantes ou profissionais liberais sofreram sequestros rudimentares na cola daqueles de grande repercussão midiática. É o que se teme ressurgir com os roubadores incendários –em relação aos poucos criminosos que hoje não têm acesso a armas de fogo.
Diversamente do que se pode supor, pelo registro das reportagens de maior impacto e destaque na televisão, não são os latrocidas que superlotam os locais de internação. Quase a metade dos adolescentes que cumprem medidas fechadas na Fundação Casa em São Paulo, foi levada para lá presa como microtraficante.
Uma alteração na legislação de entorpecentes, por exemplo, poderia ter um impacto relevante na desinternação, mas a falida guerra contra as drogas continua a amealhar inúmeros combatentes.
O que a pesquisa não soluciona é o intuito pragmático dos entrevistados, que dificilmente será alcançado.
A maioria das pessoas quer a redução da maioridade justamente porque espera que com isso reduza o número de crimes.
No entanto, a mesma punição já praticada aos maiores não tem tido esse efeito –e a Lei dos Crimes Hediondos foi o exemplo mais evidente do fracasso dessa política. As penas aumentaram, o encarceramento dobrou e o número de crimes não diminuiu.
O espanto de muitos pode ser explicado pelo desprezo absoluto da mídia ao fator criminógeno da prisão.
O convívio com criminosos mais perigosos, a falta de dignidade dos cárceres, a ausência de trabalho e de mecanismos de ressocialização, a omissão do Estado na segurança, enfim, tudo contribui para que a reincidência seja maior entre aqueles que cumprem pena dentro do sistema carcerário do que fora.
O senso comum pode indicar que o crime floresce com a sensação da impunidade.
Mas depois de preso, o abandono da família, as dificuldades no mercado de trabalho, o convívio com as lideranças do crime que cooptam numa teia de facilidades e ameaças, estabelecem vínculos ilícitos que serão cada vez mais difíceis de serem rompidos fora das grades.
Quanto mais cedo colocarmos os jovens na cadeia, é provável que tenhamos mais crimes e não menos.
Mas aí é só fazer uma nova pesquisa para saber se o brasileiro quer abaixar ainda mais a maioridade, aumentar as penas, instituir a tortura, pena de morte…

Sem Juízo, por Marcelo Semer

26/02/2013

ALEX THOMAS

Filed under: Alex Thomaz — Gilmar Crestani @ 12:07 am

Lembro como se fosse hoje! Republico a partir do Varal da Laura!

ALEX THOMAS: 25 ANOS DE DOR

26 de fevereiro de 1986.

Atlântida. Três horas da madrugada. 
Frescor da noite e tranquilidade permitiam a caminhada na avenida Paraguassu, entre as praias de Xangrilá e Atlântida, no litoral do Rio Grande do Sul. Cena comum até hoje: rindo e conversando voltavam para casa três adolescentes. Na época, Clarice, Leandro e Alex.

Vinham eles na descoberta alegre da vida sem preocupações por uma praia ainda tranqüila nos anos 80. Na frente de uma casa, uma senhora, a filha e  um rapaz observam de longe o trio faceiro que sequer havia bebido uma cervejinha para descontrair.

“Passei três dias chorando em casa, sem tomar banho, sem comer quase nada.”

“Essa dor não se supera nunca. Com o tempo, a dor ameniza. A solidariedade ajuda, mas nada faz esquecer. A gente não pode se martirizar e não se consegue mudar as coisas.”

De repente, um Monza e um Fiat Panorama.

De repente aqueles rapazes não tão jovens quanto eles: 
o office-boy Bolívar Canabarro Tróis Netto, 20 anos, que já respondia inquérito policial por lesões corporais; 
o estudante Daniel Sanches Hecker, 19 anos, 
o bancário Carlos Alberto Fiad do Amaral, 22 anos, 
e o funcionário da Assembléia Legislativa, Cid Olivério Borges, 19 anos, com antecedentes policiais e todos integrantes da Gang Praça da Matriz, de Porto Alegre. Com eles, mais três menores:
Fábio Delapieve Bressan (17), 
Márcio de Freitas Nunes (16) e 
José Carlos de Azevedo Moreira (15), o Zé do Brinco. Todos encaminhados para Febem.
Do nada, a vontade brutal do grupo de espancar, de humilhar, de machucar.

.

“Procurei centro espírita, um médium em Caçapava, uma psicóloga que orientou a pensar nas coisas boas que vivemos. Procurei tudo que fosse possível para buscar conforto.”

“Nada traz o filho de volta. Com essa data, as dores vieram de novo. A gente sabe que não é a única que vive esse sofrimento de perder um filho. E cada pessoa tem o seu tempo de luto. Eu sempre terei dois filhos. Só que um não está mais comigo.”

Clarice foge assustada, Leandro se desespera e tenta ajudar Alex, que tomba com um soco no rosto. Os dois se separam. Mais socos e um golpe final no peito do lajeadense, causando a ruptura do seu pulmão, do coração e fraturas nas costelas. Cid Borges, o responsável pela “voadora”.

“Perder um filho é diferente do que perder um irmão, um marido, os pais. Perder o filho é a maior dor do mundo.

É um sentimento que não tem palavras para descrever.

É uma ferida para sempre: às vezes abre, às vezes, fecha.

Mas ela sempre está ali.”

Alex Thomas ainda não completara 17 anos. “Não houve um motivo” – consta no processo.

“No primeiro Natal recebemos mais de duzentos cartões de todas pessoas e todos lugares possíveis, até de um presidiário. Mas o nosso Natal nunca mais foi o mesmo e nunca mais passei a data com minhas irmãs e seus filhos. Tudo perdeu o sentido.”

O julgamento aconteceu no dia  13 de junho de 1988 e durou 24 horas.

Bolívar Canabarro Tróis Netto – 9 anos de prisão em regime semi-aberto.

Daniel Sanches Hecker – absolvido, em tratamento na Clínica Pinel.

Carlos Alberto Fiad do Amaral – 8 anos de prisão em regime semi-aberto.

Cid Olivério Borges – 12 anos de prisão.

Logo, logo, todos estariam em liberdade e tocando suas vidas.

“Nunca os pais de qualquer um deles nos procurou. Nunca.

Nem os Direitos Humanos. Nunca.

Perder um filho é horrível, mas ser mãe de um assassino…”

25 anos atrás: o mais triste dos nossos verões.

“O Alex  era torcedor do Inter, mas jogava no Greminho do Tiro e Caça. Aqui, as luvas de goleiro… As medalhas… A camiseta… A gente tem que aprender a conviver com a saudade.”

Entrevista: Nersi Thomas.

Fonte: “O Caso Alex”, de Lígia Steigleder, Ed. Sagra.

VARAL DA LAURA: ALEX THOMAS: 25 ANOS DE DOR

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