Ficha Corrida

01/11/2014

A cada eleição a velha mídia aperfeiçoa o golpe

 

O Brasil quer alternância de poder: na mídia

1 de novembro de 2014 | 08:56 Autor: Miguel do Rosário

democratizar-midia

Na campanha eleitoral deste ano muito se falou em desejo de mudança, em alternância de poder, em atender os anseios das ruas.

Pois bem, não houve assunto mais abordado nas ruas do que a democratização da mídia. Não há poder que esteja há mais tempo sem alternância do que a mídia.

E não haverá mudança de fato no país se não mudarmos a mídia brasileira, que não faz justiça à nossa complexidade.

Que se tornou um obstáculo ao nosso desenvolvimento político, cultural e até mesmo econômico.

A mídia, claro, tenta sufocar o simples debate.

Os movimentos pela democratização da mídia não querem censurar ninguém.

E são muito mais críticos ao governo do que a nossa mídia tradicional.

A mídia tradicional quer o monopólio da crítica ao governo, porque sabe que o governo apenas se mobiliza quando criticado, então quem tem o poder de criticá-lo tem o poder de orientá-lo e, portanto, tem o poder de fato.

Os movimentos sociais também querem o poder para criticar o governo, para forçá-lo a fazer a reforma agrária, a reforma urbana e a reforma política.

Querem mais poder de crítica para forçarem o governo a investir em metrôs ao invés de elevar os juros.

E por aí vai.

*

O Brasil é maior que a Globo

O povo derrotou o golpe midiático e deu a vitória a Dilma. Agora o povo quer a democratização dos meios de comunicação, tarefa prioritária para o próximo governo. Até porque duvido muito que as forças progressistas vençam em 2018 se continuarem perdendo a batalha da comunicação.

31/10/2014

Por Marcelo Salles, no Brasil de Fato

Essas eleições entram para a História do Brasil como o momento mais nítido em que as corporações de mídia tentaram impor sua vontade ao povo. Mais do que em 1989, com a famosa edição do debate entre Lula e Collor. Mais do que em 2006, quando o foco do debate foi deslocado para pilhas de dinheiro expostas ad nauseam.

Em 2014 apostaram todas as fichas e, a contrário de outras vezes, não o fizeram veladamente. Assumiram seu papel de partido político de oposição, conforme conclamou Judith Brito, diretora-superintendente do Grupo Folha, vice-presidente da ANJ e colaboradora do Instituto Millenium.

Faltando 11 dias para o segundo turno do pleito, os institutos de pesquisa davam empate técnico entre os dois candidatos – Aécio Neves à frente 2 pontos, dentro da margem de erro.

Como resposta, a militância de esquerda foi às ruas, os movimentos sociais organizados reforçaram sua participação na campanha e a candidata à reeleição partiu para o enfrentamento nos debates. O mote era um só: comparar os governos tucanos e petistas, o que garantiu vantagem a Lula e Dilma em praticamente todos os setores. Se o oponente baixava o nível, a resposta vinha à altura.

Nos oito dias seguintes, Datafolha e Ibope registraram crescimento de Dilma. No primeiro, de 49% para 53%; no Ibope, de 49% para 54%. Enquanto isso, Aécio caiu de 51% para 46% (Ibope) e 51% a 47% (Datafolha). Dilma encerrou a campanha com vantagem de 6 a 8 pontos de vantagem, cenário praticamente impossível de ser invertido em 48 horas.

Aí surgiu a capa da revista Veja na sexta-feira, antevéspera do pleito, acusando, sem provas, Lula e Dilma de terem conhecimento de desvios na Petrobrás. De sexta até domingo a Veja atingiria algo entre 500 mil e 1 milhão de pessoas. A maioria das quais, no entanto, já tinham o voto decidido para Aécio. A capa da veja, por si só, merecia o repúdio na medida em que foi dado pela campanha do PT. A própria presidenta Dilma usou parte do tempo de propaganda eleitoral para denunciar a manobra da revista.

No entanto, foi o Jornal Nacional do sábado, véspera da eleição, o grande responsável pela interferência na vontade popular. No primeiro bloco, Dilma recebeu 5 minutos, com destaque no suposto medo de avião e nos problemas com a voz. Enquanto Aécio teve direito a 5’55’’ a apresentá-lo como alguém incansável, que trabalha durante o voo e aparece com a esposa e os filhos no colo (“um cara família”). Em outro trecho, as imagens saltadas em repetição durante comícios, com a bandeira do Brasil nas costas, revelam, como num filme de ação, um homem destemido que estaria preparado para conduzir o destino da Nação.

Logo no início do segundo bloco, o JN exibiu extensa reportagem sobre a capa da Veja. Aí, o que era de conhecimento de até 1 milhão de pessoas que já votariam Aécio, alcançou 30-40 milhões de pessoas, entre os quais um sem número de indecisos. Isto na véspera do pleito, sem que houvesse tempo para se organizar a estratégia de enfrentamento desse verdadeiro crime midiático. Como resultado, a vantagem de 6-8 pontos de Dilma caiu drasticamente, e quando terminou a apuração as urnas sacramentaram 51,5% x 48,5%.

O povo derrotou o golpe midiático e deu a vitória a Dilma. Agora o povo quer a democratização dos meios de comunicação, tarefa prioritária para o próximo governo. Até porque duvido muito que as forças progressistas vençam em 2018 se continuarem perdendo a batalha da comunicação.

Marcelo Salles é jornalista.

O Brasil quer alternância de poder: na mídia | TIJOLAÇO | “A política, sem polêmica, é a arma das elites.”

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29/06/2014

Perdeu, mercenário!

Filed under: Abril,Complexo de Vira-Lata,Fracassomaníacos,Golpistas,Grupo 1º Abril,Veja — Gilmar Crestani @ 10:58 pm
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Chefão da Abril: "Imprensa pecou feio. É a vida"

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Jornalista José Roberto Guzzo, membro do conselho editorial da Editora Abril e um dos responsáveis pela linha editorial de Veja, que previu estádios prontos apenas em 2038, reconhece a pisada de bola; "É bobagem tentar esconder ou inventar desculpas: muito melhor dizer logo de cara que a imprensa de alcance nacional pecou de novo, e pecou feio, ao prever durante meses seguidos que a Copa de 2014 ia ser um desastre sem limites. O Brasil, coitado, iria se envergonhar até o fim dos tempos com a exibição mundial da inépcia do governo", diz ele; "deu justamente o contrário", lamenta, antes de um conformado "é a vida"; de fato, a Abril perdeu de goleada ao apostar no mau humor

29 de Junho de 2014 às 05:56

247 – A revista Veja deste fim de semana traz um mea culpa de um dos homens fortes da Editora Abril, o jornalista José Roberto Guzzo, que já dirigiu Veja e Exame, pertence ao conselho editorial da casa e é um dos responsáveis pelas políticas editoriais do grupo. O texto, chamado "Errando à luz do sul", confirma a tese da presidente Dilma Rousseff, que na sexta-feira, falou que a imprensa nacional errou bastante ao prever um desastre na Copa (leia mais aqui).

Sem rodeios, Guzzo vai direto ao ponto. "É bobagem tentar esconder ou inventar desculpas: muito melhor dizer logo de cara que a imprensa de alcance nacional pecou de novo, e pecou feito, ao prever durante meses seguidos que a Copa de 2014 ia ser um desastre sem limites. O Brasil, coitado, iria se envergonhar até o fim dos tempos com a exibição mundial da inépcia do governo para executar qualquer projeto desse porte, mesmo tendo sete anos para entregar o serviço", diz ele.

"Deu justamente o contrário. A Copa de 2014, até agora, foi acima de tudo o triunfo do futebol", diz ele. "Para efeitos práticos, além disso, tudo funcionou: os desatinos da organização não impediram o espetáculo, os 600 000 visitantes estrangeiros acharam o Brasil o máximo e 24 horas depois de encerrado o primeiro jogo ninguém mais se lembrava dos horrores anunciados durante os últimos meses. É a vida", lamenta.

Guzzo reconhece ainda o risco das apostas erradas, como fez Veja ao prever que os estádios só ficariam prontos em 2038. "A Copa de 2014 é uma boa oportunidade para repetir que a imprensa erra, sim – mas erra em público, à luz do sol, e se errar muito acabará morrendo por falta de leitores, ouvintes e telespectadores. Ao contrário do governo, que jamais reconhece a mínima falha em nada que faça, a imprensa não pode esconder suas responsabilidades".

Na última linha, porém, ele faz um alerta. "Esperemos, agora, a Olimpíada do Rio de Janeiro". Será que Veja vai liderar o movimento #naovaiterolimpiada?

Chefão da Abril: "Imprensa pecou feio. É a vida" | Brasil 24/7

01/06/2014

Dossiê: Grupos MafioMidiáticos

Instituto Milleniumj

No organograma feito para o Instituto Millenium não consta o Grupo RBS que também faz dos Grupos MafioMidiáticos, que conduz, no relho, gaúchos e catarinenses, para seguirem, como manada,  o caminho aberto por suas équas madrinhas (Antonio Britto, Sergio Zambiase, Yeda Cruius, Ana Amélia Lemos, Lasier Martins)…

Ligações perigosas no trato da velha mídia, da publicidade e o novo jornalista

sab, 31/05/2014 – 09:30 – Atualizado em 31/05/2014 – 15:23

Enviado por Assis Ribeiro, do Medium.com

Da relação entre a velha mídia, publicidade e o novo jornalista

Um paralelo entre a crise da mídia e do jornalista tradicional e o auge do jornalista progressista. Este último está pronto para a sociedade. A sociedade está pronta para ele?

Por Henrique Alves Dias

Colaboraram: Fernando Lulia e Tatiana Mazzei.

Sobre o mito da imparcialidade:

Além de ser um texto de opinião, este autor entende a imparcialidade como mito, tendo em vista que toda produção humana está sujeita a parcialidade, sempre carregando traços dos ideais de seu produtor.
Este é um texto produzido seguindo ideais de esquerda.

Mídia tradicional em crise

Não é novidade que as grandes corporações de mídia tradicional observam quedas expressivas nos indicadores de audiência e, consequentemente, financeiros. No exterior muitas empresas se desfazem, aqui o caminho é parecido.

Com as mudanças de hábitos das pessoas, as empresas de comunicação se veem obrigadas a transformar seu modelo de negócios, caso queiram sobreviver na nova era. Neste texto vamos procurar entender o que está acontecendo no ambiente econômico e institucional da comunicação no Brasil e como isso afeta a vida da sociedade, o papel do jornalismo e a cidadania.

TV

Nova marca para os programas da TV Globo na internet.
(Imagem:Facebook/Divulgação)

A TV Globo, maior emissora brasileira e segunda maior do mundo, perdeu consideráveis pontos de audiência nos últimos anos.Inicialmente, com o surgimento de programas como o Pânico na TV, naRedeTV!, e O Melhor do Brasil, na Record, os pontos que eram da Globo foram para estas e outras emissoras.
No último ano os pontos continuaram caindo, mas deixaram de ir para as demais emissoras. As pessoas simplesmente desligaram a TV e foram fazer outras coisas — provavelmente usar a internet.
Segundo o Ibope, em 2012 foram desligados cerca de 5% dos aparelhos de TV no Brasil.
Para mensurar o problema, o Jornal Nacional, principal telejornal da TV Globo, perdeu um terço de sua audiência desde 2000, segundo dados doIbope.

(Imagem: Programa Ooops!/Divulgação)

Se por um lado a audiência caiu, as Organizações Globo obtiveram receitarecorde em 2012, graças ao dinheiro dos anúncios publicitários que são veiculados na empresa da família Marinho.
Segundo informações da Revista Exame, o lucro da companhia atingiu R$ 2,9 bilhões, em 2012, crescimento de 36% em relação a 2011. Sua receita líquida avançou 32,4%, chegando a R$ 12,6 bilhões.
Como exemplo do roll de operações da empresa, além da principal emissora de TV do país, o grupo também detém jornais e revistas, além de participação em empresas como a Net e Sky, e nos canais pagos da Globosat, como SporTV, Multishow e Telecine.
Para se ter uma ideia, o mercado publicitário brasileiro cresceu 6% em 2012, totalizando um faturamento de R$ 44,8 bilhões, segundo o projeto Inter-Meios, Meio & Mensagem. Desse total, R$ 30 bilhões correspondem às vendas de espaço publicitário em mídia. As TVs abertas e pagas concentram R$ 20,8 bilhões, ou seja, 46% de todo o mercado publicitário.

A explicação para a publicidade se manter firme na TV, mesmo com queda de audiência, é o pagamento da bonificação por volume (BV), por parte da emissora.
Quem ajuda a entender como funciona o BV é Tatiana Mazzei, MBA em Gestão em Marketing pela Universidade Anhembi Morumbi e mestranda em Linguagens e Estéticas da Comunicação pela USP.

É uma prática comum de mercado, não só em TV, como em todos os demais meios. Digamos que trata-se de uma política da boa vizinhança, o famoso “eu te ajudo, você me ajuda”. Por exemplo: se um veículo não paga BV às agências, essas não mais o indicam, a não ser que o cliente realmente exija tal coisa. Caso contrário, dão prioridade aos “parceiros”.
Porém, é uma prática de mercado complexa e é como se também, para que se fizesse trabalhos, a agência não cobrasse seus percentuais de 20% e 15% de produção e mídia. E aí, nem de BV’s estamos falando.

Ainda segundo Tatiana Mazzei, a Globo ameniza a queda de audiência através de esforços multiplataforma:

Por exemplo, os planos de patrocínio do Campeonato Brasileiro estão com preços cada vez mais astronômicos, no entanto a audiência na TV caiu nos últimos anos. Para tentar minimizar isso, a emissora oferece o que chamamos de crossmedia, apresentando inserções dos patrocinadores também na Globo.com como “bônus”.

Agora cabe nos indagar uma pergunta: até quando as agências irão aceitar baixa audiência em troca de bonificação?
Por um lado, o desprestígio da mídia tradicional aumenta, em paralelo àascensão de uma mídia independente e rápida pela internet como opção de fonte de informação, por outro, a aceitação do BV por parte das agências de publicidade pode não durar muito tempo, se levar em conta que, segundo dados do Ibope, a emissora perdeu 30% de sua audiência, de 21,7 a 14,7, em 8 anos, de 2004 a 2012.

TV Globo perde 30% de sua audiência em 8 anos

Além dos problemas de audiência, há processos de investigação de sonegação de impostos envolvendo a emissora, que pode chegar a R$ 600 milhões e atingir a empresa duramente nos próximos anos.
Segundo anúncio feito pela Procuradoria da República do Distrito Federal, aGlobo é acusada de sonegar impostos referentes à exibição da Copa do Mundo de 2002. Também pesa sobre o conglomerado de mídia suspeitas de lavagem de dinheiro, crimes contra órgãos da administração direta e indireta da União e estelionato, em pedido de apuração feito por 17 entidades da sociedade civil, entre elas, o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC).

E se a Globo fez malabarismos e conseguiu aumentar o lucro, mesmo com audiência em baixa, o mesmo não acontece com concorrentes.

Em 2011, a Record ganhou o título de emissora que mais demite, tendo demitido 246 funcionários. A maior parte trabalhava no Recnov, o enorme complexo de dramaturgia que logo se mostrou um investimento mal dimensionado da emissora de Edir Macedo.
Tudo indica que aqui a crise não é apenas fruto da popularização da internet e da TV paga, mas de má administração.
Em 2012 foram 85 radialistas e jornalistas demitidos, enquanto a emissora via seu lucro aumentar cerca de 15%, segundo dados do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro.
Este ano, a emissora já demitiu mais de 500 funcionários, sendo mais de 100 um dia depois do 1° de maio, feriado do dia do trabalhador.

A RedeTV!, por sua vez, está praticamente falida, em crise há muito tempo. A equipe do Pânico na TV, então programa de maior audiência da emissora, deixou a casa em fevereiro de 2012 porque não recebia seus pagamentos em dia. Sem o carro chefe, os problemas da emissora só se agravaram. Vários dos funcionários da RedeTV! estão com pagamentos atrasados.
Mesmo antes da saída do Pânico, o quadro de funcionários da emissora já tinha se reduzido cerca de 20%.Cansados de trabalhar sem receber, os próprios funcionários pediram as contas.
Esse ano, começaram as demissões em massa. Em julho foram cortados 33 jornalistas. O programa Se Liga Brasil foi extinto dois meses antes. Em agosto, a emissora agoniza com as reações dos funcionários que ainda a integram. O jornalista Beto Filho conseguiu reverter na Justiça a verba de patrocínio da Bombril ao programa Mega Senha, totalizando R$ 500.000, ao pagamento de seus salários atrasados. Ao mesmo tempo, o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão e Televisão de São Paulo enviou à presidenta Dilma Rousseff uma carta pedindo a cassação da concessão de transmissão da RedeTV!.

A MTV, no Brasil franquiada pelo Grupo Abril, fecha as portas como TV aberta e vai para a TV paga em outubro, com outro formato, sendo tocada por sua dona original, a estadunidense Viacom, até que se encontre algum interessado na recompra dos direitos de uso da marca. A Abril tenta vender o espectro utilizado pelo canal, que ocupa a posição 32 UHF em São Paulo, para as igrejas Universal e Mundial, dos bispos Edir Macedo e Valdemiro Santiago, sem muito sucesso.
Em junho foram demitidos 70 da produção e 3 apresentadores. Os programas já não são mais gravados, sendo exibidos apenas em reprise.

Num aspecto geral, o saldo de audiência final de 2012 em relação a 2011, segundo dados do Ibope, foi:
Globo perde 10% (16.3 x 14.7), Record 13% (7.2 x 6.2), SBT 2% (5.7 x 5.6) eRedeTV! 37% (1.4 x 0.9). A única que se manteve foi a Bandeirantes, com 2.5.
Cada ponto de audiência representa 185 mil domicílios.

Revistas

No setor de revistaria, o caso é tão grave quanto na TV. No Grupo Abril — dono da revista de maior circulação nacional, a Veja —, os boatos da mídia que cobre a mídia dizem que serão cerca de 1.000 demissões e a extinção de 11 revistas só este ano.

Nos últimos dois meses foram 4 revistas encerradas (Bravo, Lola, Alfa eGloss). Fala-se na demissão de mais de 150 pessoas que trabalhavam nos editoriais dessas revistas, algumas com mais de 20 anos de de trabalho na empresa.
Outras publicações que tiveram profissionais demitidos foram Info, Recreio,Contigo, Claudia, Placar, Quatro Rodas, Viagem & Turismo e Men’s Health. Nessas últimas três, nem os diretores de redação — cargo mais alto em uma revista — foram poupados. Na Veja, foram 15 pessoas mandadas embora, sendo apenas um jornalista — um correspondente em NY —, as demais são pesquisadores e profissionais relacionados a arte. A Playboy só não foi fechada porque a multa contratual acordada com a dona da marca, que é estadunidense, é pior do que o prejuízo que a Abril está tendo com a revista. Quando o contrato atual acabar, a revista deve ser descontinuada. Algumas poucas pessoas foram reaproveitadas em outros veículos do grupo.

Além dos impressos, o portal Contigo foi fechado, a equipe foi transferida para o portal M de Mulher, que teve toda a sua equipe original demitida. O site Bebê.com também teve demissões.

Com o fim de algumas revistas, fica difícil para as outras continuarem em circulação, pois o lucro geral cai, impossibilitando a Abril de manter seu parque gráfico em atividade.
Por fim, um certo número de pessoas dos departamentos administrativostambém está sendo mandado embora.
Na noite do dia 9 de agosto o Tribunal Regional do Trabalho proibiu a Abrilde demitir mais 71 pessoas que estão na linha de corte da empresa. O motivo da proibição é a falta de acordo entre a editora e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP). Em audiência de conciliação no TRT, no dia 13 de agosto, decidiu-se que a Abril deve pagar mais dois salários e meio para cada um dos demitidos e prorrogar o convênio médico por seis meses.

Foram tantas demissões no icônico prédio da Marginal Tietê, que parte dos que restaram lá devem ser realocados para o outro prédio, da Marginal Pinheiros. Em um futuro breve, esse segundo prédio também deve ser substituído por um menor, já que a equipe — e o lucro — tende a diminuir e o aluguel do mesmo custa entre R$ 1 e 2 milhões por mês.

Acuada, a Abril diz que menos é mais e volta seus esforços para a Abril Educação, que cresce e investe em aquisição de escolas de idiomas e na criação de um selo de educação nos moldes do Objetivo — temam pela possibilidade de seus filhos frequentarem uma escola com livros feitos por Reinaldo Azevedo.

Para entender a crise da Abril, Fernando Lulia, economista pela PUC/SP e graduando em Filosofia pela USP, nos mostra e comenta os números financeiros alcançados pela Abril no ano passado.

Em 2012, a Abril S/A anunciou queda do lucro líquido de 65,5%, para R$ 64,17 milhões, ante R$ 185,88 milhões de 2011. Pesaram no resultado tanto a receita, que caiu de R$ 3,15 bilhões para R$ 2,98 bilhões, como o custo da operação, que aumentou de R$ 1,45 bilhão para R$ 1,58 bilhão, refletindo a crise de governança que passa o grupo, a queda na circulação geral de revistas, o menor número de anúncios e o desprestígio, que começa a se refletir nos balanços das empresas de mídia tradicionais.

Os números das principais revistas andam muito negativos para a editora da família Civita. Não é só para eles, a Globo já sofre os mesmos prejuízos da TV com suas revistas.

Os percentuais de queda mais agudos nas vendas das editoras Abril e Globo, de acordo com dados publicados pelo Instituto Verificador de Circulação(IVC), de 2010 a 2012 foram:
Editora Abril: Playboy (-38,52%), Capricho (-30,2%), Info Exame (-22,73%) eNova Escola (-16,83%). A Veja, carro chefe da editora, registrou queda menor (-1,35%), graças aos contratos milionários de venda para escolas públicas que tem com os governos estaduais, sobretudo de São Paulo, muitas vezes feitos sem licitação e questionados pela justiça.

Editora Globo: Época, que também é beneficiada pelos contratos com governos estaduais citados acima, de 408 mil para 389 mil (-4,5%), Marie Claire, de 206,2 mil para 182,7 (-11,4%), Galileu, de 149 mil para 127 mil (-15%), Quem, de 110,3 mil para 83,2 mil (-24,5%).

Jornais

No jornalismo, o cenário se repete. A Folha, diário de maior circulação e alcance nacional, viu a crise antes dos demais e passou a promover uma série de cortes nos últimos anos.
Já em 2011, a Folha passou por processo radical de reestruturação de operações e forte redução do quadro de funcionários, em resposta à crise da circulação, anúncios e aumento dos custos. Foram demitidos na ocasião quase 100 jornalistas, cerca de 20% do quadro de funcionários na época. Redatores, repórteres, editores, e jornalistas com mais de 20 anos de empresa foram demitidos sem justificativa. Foi extinto o caderno Folhateen, o caderno Dinheiro foi enxugado e passou-se a se chamar Mercado e trouxe como novidade o caderno Poder, com o objetivo de tratar da política nacional e da política econômica.

Voltando o foco para a internet, passou a utilizar o sistema de “paywall poroso”, em que o leitor pode ver um número limitado de 10 matérias, depois deve fazer cadastro para ter mais 11 matérias gratuitas, até que passa a poder ler apenas se for assinante. No último mês de junho, a Folhacompletou um ano de paywall, e divulgou um gráfico que mostra um aumento de 15% na base visitas ao site, sendo 4% o aumento de visitantes únicos e 189% a alta do número de assinantes digitais desde a adesão dopaywall.
Embora os indicadores sejam positivos, o número de assinantes digitais é baixíssimo e a Folha ainda registra prejuízo. Além disso, a assinatura mensal da versão online é mais barata que a versão impressa, os leitores não-assinantes do impresso somem e as demissões continuam inevitáveis.

No último mês de junho foi demitida toda a equipe do caderno Ilustríssima, o mesmo virou uma página no caderno Ilustrada. Já o caderno Equilíbrio foi extinto. No total, o número de demissões chegou a 10% do quadro de funcionários da empresa. Ou seja, na tentativa de contornar a crise a Folha enxugou mais de 30% do quadro de funcionários nos últimos três anos.Nem o coordenador da sucursal do Rio foi poupado.
O jornal Agora, da Folha, também registrou demissões.
Entre os demitidos esse ano, estão nomes do porte de Andreza Matais, ganhadora do Prêmio Esso de jornalismo em 2011 pela série que demonstrou o enriquecimento do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci. “Aos que acreditam que o jornalismo de qualidade faz bem à democracia resta torcer para que a travessia dê certo”, resumiu Suzana Singer, ombudsman da Folha em artigo no impresso.

Segundo o Índice Verificador de Circulação (IVC), a tiragem da Folha de São Paulo era de 350 mil unidades em 2002 e passou a 295 mil em 2010, umaqueda de 15,7%.

Se a Folha adotou um novo modelo de negócios, Estadão e O Globo, respectivamente segundo e terceiro maiores diários de circulação nacional, não seguiram o mesmo.

No Estadão, semanas antes do natal passado, foram demitidas mais de 30 pessoas que trabalhavam no portal online do jornal.
Ainda no ano passado, circulava em 31 de dezembro a última edição doJornal da Tarde, que pertencia ao Grupo Estado.
Nesse ano, falava-se no corte de 50 jornalistas da versão impressa doEstadão, até agora foram 20, sem contar os da sucursal do Rio.
Ao mesmo tempo, comunicado interno do diretor de conteúdo do jornal anunciava a reformulação do jornal — à semelhança da Folha — que, entre outras coisas, enxugou alguns cadernos e passou a não fazer distinção entre a edição para SP e a edição nacional, que circulava nos demais estados.
Na mesma semana, criou-se um grupo fechado no Facebook, denominado “exTadão”, em que se reúnem ex-funcionários, não apenas jornalistas, do jornal. Hoje o grupo possui 1672 membros.

O Globo, do Rio de Janeiro, parece ser o jornal mais atrasado entre os três maiores. Desde o começo da crise mundial do jornal impresso os responsáveis pelo diário das Organizações Globo diziam que o jornal não precisaria mudar seu formato para sobreviver. Agora, no fim de julho e começo de agosto, O Globo passou por reformulação gráfica, mas sem grandes mudanças práticas. O editor executivo do jornal dos Marinho diz que a empresa não deve apostar na versão online.

O jornal Valor Econômico, de propriedade 50% da Folha 50% das Organizações Globo, também promoveu demissões em massa nesse ano, fruto da expectativa frustrada até o momento da reestruturação promovida o ano passado. Em maio, o jornal demitiu cerca de 50 funcionários da redação, num corte que se estendeu a Rio de Janeiro e Brasília. A empresa não emitiu nenhum comunicado oficial. O corte foi decidido em conjunto entre asOrganizações Globo e o Grupo Folha, em função da necessidade de reduzir despesas para não prejudicar os investimentos da ordem de US$ 100 milhões feitos na nova plataforma digital Valor-PRO, lançada em novembro do ano passado, e que ainda não começou a gerar a receita esperada.

Entre as baixas desse ano, está Vera Saavedra Durão, jornalista, hoje com 65 anos, que abraçou a reportagem com a mesma paixão que lutou contra a ditadura, como militante da Vanguarda Revolucionária Palmares (Var-Palmares), onde foi companheira de Dilma Rousseff. Ficou dois anos na prisão, atuou como repórter de economia nos então principais jornais do país – O Globo, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil e Folha – e estava há 13 anos no jornal, na equipe que fundou o Valor Econômico em 2000.

A jornalista foi demitida quando estava de férias e em meio à informação que veio à tona de que ela fora alvo de espionagem da empresa Vale S/A, segundo denúncia de um ex-gerente de segurança, caso ainda investigado pelo Ministério Público do Rio. Ela sequer teve a oportunidade de conversar com o jornal sobre a denúncia, foi demitida antes e não obteve resposta do email que mandou à chefia sobre o assunto. “Depois de 13 anos trabalhando para engrandecer o jornal achei que teria direito a um período sabático e não a uma demissão”, lamenta ela, segundo informações da Agência Pública.

Outros grandes jornais que fecharam a versão impressa são:
Estado do Paraná, Jornal do Brasil e Gazeta Mercantil, esse último empregava cerca de 500 jornalistas. Pesquisa recente da consultoria estadunidenseFuture Exploration Network indica que deve acontecer em 2027 a morte do último jornal impresso no Brasil, nos EUA isso deve acontecer antes, já em 2017, o que explica a recente venda do jornal mais influente do país, The Washington Post, para o empreendedor digital Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon.


As dificuldades em um novo cenário

Deixando de lado o surgimento de novos meios, agora interativos, se for analisar o papel que a mídia tradicional, principalmente a impressa, teve até hoje, logo se percebe onde está o erro que está levando esse modelo para o ralo.

É algo bastante simples: a missão da mídia.

Qual é a missão de um jornal ou uma revista? Se for perguntar a um leitor, este vai dizer que a função é deixa-lo informado ou entretido. Se perguntar para um empresário de mídia, a resposta vai ser outra: servir de painel de visualização para a publicidade.

Desde a criação dos classificados — em linguagem publicitária, o saudoso tijolinho —, o jornal se tornou uma ferramenta para as empresas de propaganda. O “informar” deu lugar ao “capitalizar” e, com isso, a ânsia por uma base cada vez maior de leitores virou regra para a sobrevivência do meio, em detrimento da qualidade da informação, por um lado, e das regras e preceitos básicos do jornalismo, por outro.

Por que os jornais estão morrendo? Por dois motivos interligados:

  1. O leitor está abandonando a versão impressa para aproveitar as facilidades da versão online.
  2. Sem leitor não há anunciante, sem anunciante desaparece o orçamento do jornal, que antes empregava vários profissionais.

Como recuperar os danos? Encarando o universo online!

Alguns estão se adaptando a este novo cenário com novos modelos, como os casos citados da Folha e do Valor, além dos internacionais NY Times, dosEUA, e Financial Times, do Reino Unido. Porém, dificilmente estes jornais terão na tela o mesmo sucesso que tiveram no papel. Um jornal que pode ser exemplo da eficácia questionável desse novo modelo é o estadunidenseSan Francisco Chronicle, que desistiu do paywall no último dia 15 de agosto, sem explicar os motivos.

Os que apostam em banners em sites abertos já sabem que estes não são tão rentáveis quanto a publicidade era no impresso, além de que eles encontram a concorrência de sistemas de afiliados já consolidados, como oGoogle AdWords.
Os que seguem um modelo pago tem um grande ponto contra: aqui há muito conteúdo gratuito com qualidade.

Finalmente, o novo jornalismo

Embora crises não sejam sinônimo de felicidade, a sociedade como um todo tem muito que o comemorar. Graças aos novos meios, saímos do status de reféns da frequente manipulação copiosa da informação pelos grandes grupos de mídia nacionais e passamos a ser produtores de nosso próprio conteúdo.
Dois exemplos claros e atuais são a agência Pública, que é uma organização de jornalistas independentes que produzem e fomentam a produção de conteúdo jornalístico investigativo de qualidade e fidedigno, e a equipeNINJA — sigla para Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação —, que traz a realidade dos protestos que vêm ocorrendo desde junho deste ano sem as já conhecidas distorções da grande mídia.

Enquanto os grandes jornais passam a, só agora, olhar a web como o futuro, já fazem anos que muitos jornalistas, cada um especializado em alguma área, se tornaram blogueiros, tendo consolidado sua audiência. São osblogueiros progressistas, conhecidos atualmente e que, em rede, fazem o contraponto diário da grande mídia. São eles, os precursores, para citas alguns: Luís Nassif, Luís Carlos Azenha, Rodrigo Viana, Altamiro Borges e Eduardo Guimarães.

Com a crise da grande mídia, de alternativo, esse passa a ser o perfil do novo jornalista: alguém que criou seu próprio veículo, é especializado em algum assunto, conquistou seu próprio público e, mesmo que perca em número de público para os grandes portais, não tem que manter uma equipe grande nem tem tantos gastos com infraestrutura.

Mas ainda assim tem gastos, precisa manter seus serviços de alguma forma. Para tanto, alguns utilizam banners, o que não é o modelo ideal, já que a informação volta a ser refém da publicidade. Outros recorrem a doações dos leitores, o que pode ser um modelo justo, mas dificilmente vai custear o sustento desse profissional.

Uma terceira alternativa ainda não é realidade, mas parece ser a ideal: o custeio por incentivos governamentais, algo semelhante ao Vale-Cultura e aLei Rouanet.
Assim como a cultura, acesso à informação de qualidade é um direito do cidadão, logo o governo tem um papel importante aqui também.

O Vale-Cultura é um vale que o trabalhador que ganhar até cinco salários mínimos deve receber. O valor é de R$ 50 mensais, debitados em cartão magnético, e poderá ser gasto na compra de produtos e serviços culturais como teatro, cinema, livros, CDs, DVDs. O vale deve começar a ser debitado a partir de setembro deste ano e deve ser custeado pelas empresas, que receberão em troca dedução fiscal do governo. Já a Lei Rouanet é uma lei que incentiva o financiamento de produções culturais, sancionada em 1991.

Nesse caso, para a sociedade como um todo o “Vale-Informação” serviria para fomentar a produção de informação de qualidade de forma democrática, com pluralidade, e para o novo jornalista, o vale significaria a manutenção de seus serviços.
O cidadão escolheria com qual veículo gastar o seu vale, mas o foco do programa deve ser os veículos menores, realmente independentes.
No caso de uma lei aos moldes da Rouanet, esta serviria para cobrir os custos de manutenção dos serviços e incentivar a produção jornalística de qualidade a longo prazo, mas novamente o foco deve ser os veículos menores, independentes.

Já existem modelos semelhantes de incentivo ao jornalismo por parte do governo em outros países. Se engana quem pensa que esse incentivo faz com que a liberdade de imprensa fique refém da arbitrariedade do governo. O ranking abaixo, publicado pela freepress com dados dos Repórteres Sem Fronteiras, mostra que o que acontece é exatamente o contrário: os países que mais incentivam o jornalismo são os com maior liberdade de imprensa, já que a função jornalística não se restringe às mãos dos oligopólios.

(Imagem: Freepress)

As ferramentas para a democratização da mídia já são uma realidade, só falta o custeio disso. Em paralelo a uma proposta efetiva, via lei de iniciativa popular ou projeto de lei pelo Congresso que democratize os meios de comunicação, regule o setor econômica, financeira e judicialmente e impeça o poder desmesurado e a concentração de mercado que há sobre a informação no Brasil, processo de concentração e oligopólio sobre a informação que remonta aos tempos da Ditadura. No longo prazo, só a educação garante a efetiva consciência do cidadão.

Visto como está, o jornalismo alternativo e independente ganha prestígio e mantém a qualidade, como é sua característica, mas tem sérios desafios de sustentabilidade e custeio. No caminho contrário, a grande mídia impressa e televisiva – já que na internet o ambiente é mais democrático – continua a monopolizar a informação e prestar um desserviço ao país, cobrindo casos com arbitrariedade, interpretando como se estivesse reportando e pautando o noticiário diário segundo os seus interesses econômicos e políticos.

Sintoma maior desse descompasso entre a informação passada pela mídia tradicional e a democracia no Brasil foram as pesquisas sistemáticas de popularidade do governo Lula, que chegou a alcançar 70% de aprovação, com uma mídia que, mais do que desaprovava o governo, em medidas de política econômica e institucionais, desprezava o presidente pessoalmente, em editoriais, cobertura de mídia e televisiva que chegavam ao ridículo. É por mais vozes, mais opiniões, mais contrapontos que o Brasil urge. Neste ponto, as perspectivas de transformação para um novo jornalismo no Brasil que emerge são reais, tendo como foco as novas mídias e o papel do novo jornalista.

É preciso se perguntar, por fim, pelo governo Dilma, que se elegeu com uma proposta de Reforma dos Meios a ser encaminhada nos primeiros anos de mandato, e pela sensibilidade do ministro das Comunicações que, é forçoso reconhecer, trabalha de acordo com as limitações que o poder econômico e político da grande mídia exerce.

16/06/2013

A fruta, podre, não cai longe do pé

Filed under: Abril,Giancarlo Civita,Rogério Zagallo — Gilmar Crestani @ 7:41 pm
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A Veja e seus assinantes se merecem.  Foram feitos um para o outro. Mas há remédio, e a lista é grande, para esta paranoia contra movimentos sociais,  AQUI

A cobertura homicida dos protestos de SP feita pela Veja

Paulo Nogueira 16 de junho de 2013

Os manifestantes são chamados de ‘terroristas’, ‘vândalos’ e ‘vagabundos’ —  e um artigo no site sugere passar ‘fogo neles’.

Gianca com o pai

Gianca com o pai

Por um curto período, respondi a Giancarlo Civita na Abril.

Eu era diretor superintendente das revistas masculinas da Abril, na época, começo dos anos 2000.

Gianca, hoje com 50 anos, era um chefe de cabeça muito mais arejada que a média dos comandantes da Abril.

Lembro uma vez que o alto comando da Abril ficou indignado porque a Vip, então em minha órbita, publicou um artigo de humor sobre como montar uma suruba.

Era um artigo que não ‘cabia’ na arvorezinha da Abril, conforme se falava naqueles dias quando aparecia algum texto que fugisse do convencional.

Os queixumes chegaram a mim, e fui conversar com Gianca. Ele riu.

Tinha mente aberta: como seu irmão caçula, Titi, chefiara a MTV, muito mais liberal em costumes que a Abril.

Fiz esse introito porque me pergunto se Gianca e Titi concordam com a cobertura que a Veja vem dando em seu site às manifestações de protestos de jovens paulistanos.

É uma cobertura odiosa e que incita à violência policial ao se referir aos manifestantes como ‘terroristas’, ‘baderneiros’, ‘vândalos’, ‘vagabundos’ e ‘remelentos’.

O tom remete ao do promotor Rogério Zagallo, que disse que se a tropa de choque atirasse nas pessoas que o prendiam no trânsito ele trataria de arquivar o inquérito em sua jurisdição.

Não vou entrar no mérito da desconexão com a sociedade: como mostra o Datafolha, a maioria expressiva dos paulistanos apoia os protestos mesmo enfrentando, eventualmente, algum transtorno pessoal, como um trânsito parado.

Não vou me deter nessa desconexão, repito, embora todos saibamos quanto faz mal a uma publicação ir tão acintosamente contra um movimento a que as pessoas são favoráveis.

(Lembremos quanto a Folha lucrou ao apoiar o movimento Diretas Já, e quanto a Globo ficou manchada em sua reputação por ignorá-lo.)

Vou me limitar à cobertura escabrosa, em si.

Titi é agora a voz da Abril

Titi é agora a voz da Abril

É o triunfo da ignorância radical, do conservadorismo desvairado, do reacionarismo enraivecido e da violência jornalística.

Gianca, hoje no lugar do pai como presidente, lê isso? E Titi, como responsável pela voz da casa?

Por textos nesse tom destrutivo a Veja acabou se tornando, como notou a Forbes ao falar da morte de Roberto Civita, uma das publicações mais odiadas do Brasil.

É incrível, mas até os anos 1990 a Veja era uma revista intensamente admirada.

Perdeu o pé com a entrada de Lula. Isso já foi falado no Diário algumas vezes. A perda de pé estava ligada a Roberto Civita. Ele se tornou obcecado com Lula num grau que o fez transformar o que fora uma grande revista num panfleto desprezível.

A questão é que a revista já está sob nova administração, a de Gianca e Titi.

Vai continuar do mesmo jeito?

O ódio extremo jorra do blog de Reinaldo Azevedo, uma aberração. Os adjetivos que usei alguns parágrados atrás estão todos em seu blog.

Já seria um problema, em si. Mas a coisa ganha ainda mais dimensão pela influência sinistra que Azevedo exerce sobre os outros dois blogueiros da Veja, Augusto Nunes e Ricardo Setti. Ambos, num comportamento de manada, basicamente reforçam o que Azevedo escreve.

Setti reproduziu em seu blog um artigo do publicitário Neil Ferreira que manda dar ‘fogo neles’, os manifestantes.

“São Paulo está sob intenso ataque, numa guerra suja e covarde, que a mídia assustada chama de ‘Protesto’”, diz o artigo (?) copiado e colado por Setti. “Protesto uma pinoia: terrorismo.”

Vamos entender.

Se a percepção de “terrorismo” se consagra – o que não vai acontecer, felizmente – estará justificado o assassinato dos manifestantes.

Não acredito que o jovial Gianca, a quem respondi por algum tempo, compartilhe ideias tão selvagens, tão perigosas – e que além do mais são tão amplamente rejeitadas pelas pessoas.

Também não acredito que Titi concorde com tanta brutalidade jornalística.

Mas eles, os herdeiros do pai, estão assinando, indiretamente, essas barbaridades.

Sobre o autor: Paulo Nogueira Veja todos os posts do autor Paulo Nogueira

O jornalista Paulo Nogueira, baseado em Londres, é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

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