Ficha Corrida

19/05/2015

Machado de Assis

Ao mesmo tempo em que se comemora a revelação de uma foto histórica em que aparece Machado de Assis, é também constrangedor pensar no que pensaria o fundador e patrono da Academia Brasileira de Letras se soubesse que dela faz parte hoje não só sinhozinhos da Casa Grande como José Sarney e FHC, mas também notórios militantes da negação do racismo, como Merval Pereira. Roberto Marinho, que empregava o negacionista Ali Kamel, autor do famigerado “Não somos racistas”, conseguiu uma cadeira na academia graças ao do famoso editorial que saudou a chegada da ditadura. A captura de FHC via Miriam Dutra não é diferente da captura da Academia Brasileira de Letras via editoriais. Furtos, digo frutos, de uma mesma árvore.

A Academia, que um dia foi de Letras, hoje é de petas!

Missa Campal de 17 de maio de 1888

17 de maio de 201518 de maio de 2015Andrea Wanderley

Antonio Luiz Fereira. Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da Escravatura no Brasil, 1888. São Cristóvão, Rio de Janeiro.

Antonio Luiz Ferreira. Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da Escravatura no Brasil, 1888. São Cristóvão, Rio de Janeiro.

A Brasiliana Fotográfica identificou a presença de Machado de Assis na fotografia da Missa Campal de Ação de Graças pela Abolição da Escravatura realizada no dia 17 de maio de 1888, no Campo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. O autor da foto foi Antonio Luiz Ferreira.

A identificação de Machado de Assis foi confirmada por Eduardo Assis Duarte, doutor em Teoria da Literatura e Literatura Comparada (USP) e professor da Faculdade de Letras da UFMG , que considerou a fotografia um documento histórico da maior importância. Segundo ele, Machado de Assis teve uma “atitude mais ou menos esquiva na hora da foto, em que praticamente só o rosto aparece, dando a impressão de que procurou se esconder, mas sem conseguir realizar sua intenção totalmente. Atitude esta plenamente coerente com o jeito encolhido e de caramujo que sempre adotou em público, uma vez que dependia do emprego público para viver e eram muitas as perseguições políticas aos que defendiam abertamente o fim da escravidão.”

Eduardo Assis Duarte, que organizou “Machado de Assis afrodescendente” (2007) e a coleção “Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica” (2011, 4 vol.), e é coordenador do Literafro – Portal da Literatura Afro-brasileira, justificou a proximidade de Machado da princesa Isabel. Segundo ele, “Machado foi abolicionista em toda a sua vida e, a seu modo, criticou a escravidão desde seus primeiros escritos. Nunca defendeu o regime servil nem os escravocratas. Além disso, era amigo próximo de José do Patrocínio, o grande líder da campanha abolicionista e, junto com ele, foi à missa campal do dia 17, de lá saindo para com ele almoçar… Como Patrocínio sempre esteve próximo da princesa em todos esses momentos decisivos, é plenamente factível que levasse consigo o amigo para o palanque onde estava a regente imperial. A propósito, podemos ler no volume 3 da biografia escrita por Raimundo Magalhães Júnior :

‘Na manhã de 17 de maio, foi promovida uma grande missa campal, comemorativa da Abolição, em homenagem à Princesa Isabel, que compareceu, e houve em seguida um almoço festivo no Internato do Colégio Pedro II. Terminada a missa, José do Patrocínio foi para sua casa, à rua do Riachuelo, com dois amigos que convidara para almoçar em sua companhia: um deles era Ferreira Viana, ministro da Justiça do Gabinete de João Alfredo. E o outro era Machado de Assis, a quem, aliás, o grande tribuno abolicionista oferecera a carta autógrafa que recebera, em 1884, em Paris, de Victor Hugo.’ (MAGALHÃES JÚNIOR, Vida e obra de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira / INL-MEC, 1981, vol. 3, Maturidade, p. 125).”

O biógrafo, continua Eduardo Assis Duarte, “não diz onde estava Machado durante a missa, mas pode-se concluir perfeitamente que ele compareceu e que estava junto a José do Patrocínio. Daí minha conclusão: se a imagem que aparece na foto não for de Machado, é de alguém muito parecido.”

Segundo Ubiratan Machado, jornalista, escritor, bibliófilo e autor do “Dicionário de Machado de Assis”, lançado pela Academia Brasileira de Letras, a identificação de Machado de Assis na foto foi uma dupla descoberta: “Não há dúvida que se trata do Machado, atrás de um senhor de barbas brancas e mil condecorações no peito. O fato do seu rosto estar um pouco escondido não atrapalha em nada a identificação. É o velho mestre, perto de completar 50 anos. Igualzinho aos dos retratos que conhecemos desta fase de sua vida.  A segunda revelação é a de Machado ter ido à missa de ação de graças, fato até hoje desconhecido pelos biógrafos. A foto tem ainda outra importância: mostrar que ele se preocupava com a libertação dos escravos, acabando de vez com a idiotice de alguns que afirmam ser ele indiferente ao destino da raça negra no Brasil. É a prova visual da alegria embriagadora que ele sentiu com a abolição, como narra em seu conhecido depoimento (Gazeta de Notícias, edição de 14 de maio de 1893).

Machado de Assis participou também, no dia 20 de maio de 1888, do préstito organizado pela Comissão de Imprensa para celebrar a Abolição. Na ocasião, ele desfilou no carro do fundador da Gazeta de Notícias, o Sr. Ferreira de Araújo (Gazeta de Notícias, edição de 21 e 22 de maio de 1888) . Antes dessas festividades, Machado havia sido agraciado com a Imperial Ordem da Rosa, que premiava civis e militares que houvessem se destacado por serviços prestados ao Estado ou por fidelidade ao imperador.

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Detalhe da foto

A Brasiliana Fotográfica convida os leitores a participar do desafio de identificar outras personalidades presentes na foto da solenidade. Abaixo, destacamos na foto e em sua silhueta o grupo em torno da princesa Isabel (1) e do conde D’Eu (2). Machado de Assis é o número 5. Possivelmente o número 7 é José do Patrocínio, atrás de um estandarte e segurando a mão de seu filho, então com três anos. Quem serão os outros?

MISSA 2

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Numeramos alguns dos presentes, mas a identificação de qualquer pessoa que esteja na fotografia é bem-vinda.

Um pouco da história da foto

A Missa Campal em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em 17 de maio de 1888, foi uma celebração de Ação de Graças pela libertação dos escravos no Brasil, decretada quatro dias antes, com a assinatura da Lei Áurea. A festividade contou com a presença da princesa Isabel, regente imperial do Brasil, e de seu marido, o conde D´Eu, príncipe consorte, que, na foto, está ao lado da princesa, além de autoridades e políticos. De acordo com os jornais da época, foi um “espetáculo imponente, majestoso e deslumbrante”, ocorrido em um “dia pardacento” que contrastava com a alegria da cidade.

Cerca de 30 mil pessoas estavam no Campo de São Cristóvão. Dentre elas, o fotógrafo Antonio Luiz Ferreira que há muito vinha documentando os eventos da campanha abolicionista brasileira desde suas votações e debates até as manifestações de rua e a aprovação da Lei Áurea. Não se conhece um evento de relevância nacional que tenha sido tão bem fotografado anteriormente no Brasil. No registro da missa campal é interessante observar a participação efetiva da multidão na foto, atraída pela presença da câmara fotográfica, o que proporciona um autêntico e abrangente retrato de grupo. Outra curiosidade é a cena de uma mãe passeando com seu filho atrás do palanque, talvez alheia à multidão, fazendo um contraponto de quietude à agitação da festa.

Antonio Luiz Ferreira presenteou a princesa Isabel com 13 fotos de acontecimentos em torno da Abolição.  Essas fotos fazem parte da Coleção Princesa Isabel que se encontra em Portugal, conservada por seus descendentes. Além desses registros, Ferreira tirou duas fotos das duas missas realizadas no Campo de São Cristóvão no mesmo dia. Uma delas, a principal,  intitulada “Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da escravatura no Brasil”, é a que está aqui destacada e faz parte da Coleção Dom João de Orleans e Bragança. A outra missa foi celebrada pela Sociedade dos Homens de Cor da Irmandade de São Benedito. Outros três registros foram feitos por Ferreira no dia 22 de agosto de 1888 e documentaram o retorno do imperador Pedro II ao Brasil. Também foram ofertados à princesa Isabel.

Ao todo, Antonio Luiz Ferreira fotografou 18 cenas ligadas às celebrações de 1888 e com isso, apesar de ter tido uma carreira discreta, tornou-se um importante fotógrafo do século XIX. As imagens captadas por ele nessas datas tão marcantes da história do Brasil caracterizam-se pela expressividade dos rostos retratados, decorrência da relevância do fato e da fascinação causada pela câmara fotográfica.

Explore os detalhes da foto da Missa Campal

Contribuíram para esta pesquisa Elvia Bezerra (IMS) e Luciana Muniz (BN)

Análise de documento abolição da escravatura, fotografia, fotografia histórica, históra, Machado de Assis, missa campal, Princesa Isabel, São Cristóvão 3 Comentários

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← Dia da Abolição da Escravatura

  • Aquele de bigode e óculos, segunda pessoa à direita de Machado de Assis (logo abaixo da lança em primeiro plano, atrás de um homem calvo quase de costas) é muito parecido com o Valentim Magalhães!

  • À direita da Princesa Isabel , de roupa clara e chapéu escuro, está a sua amiga a Baronesa de Loreto.

Missa Campal de 17 de maio de 1888 | Brasiliana Fotográfica

28/06/2013

FHC entrou na turma de Sarney e Merval Pereira

Filed under: ABL,FHC,José Sarney,Merval Pereira — Gilmar Crestani @ 8:30 am
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A Academia Brasileira de Letras escolheu o brilhante autor da Teoria da Dependência. Resumidamente, FHC defendeu a teoria de que só seríamos independentes se fôssemos dependentes dos EUA! Os EUA adoraram. Os vira-latas e vira-bostas nacionais, idem. Então, nada mais natural que a fina flor da mordenidade, Sarney, FHC e Merval Pereira estejam juntos na ABL, o túmulo da modernidade.

FHC confirma favoritismo e é eleito para Academia Brasileira de Letras

Ex-presidente é escolhido por 34 dos 39 integrantes da ABL para vaga de João de Scantimburgo

Desempenho eleitoral foi o melhor de sua carreira, brincou o tucano, que presidiu o país entre 1995 e 2002

DO RIO

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, 82, foi eleito ontem para a Academia Brasileira de Letras com 34 dos 39 votos possíveis. Bem-humorado, disse que a vitória foi seu melhor desempenho eleitoral na carreira.

"Não há eleição fácil, mas o resultado foi o melhor", disse o novo imortal, em entrevista à Folha por telefone.

"Não interpreto os votos recebidos em termos políticos, é um reconhecimento do meu trabalho intelectual. Certamente há muitas opiniões políticas discordantes da minha lá e, não obstante, tiveram a generosidade de me aceitar."

A presidente da Academia, Ana Maria Machado, disse que Fernando Henrique "é um intelectual de respeito" e que sua participação se dará nessa esfera. "Não somos uma casa política, somos uma casa de cultura."

Doutor em sociologia e professor emérito da Universidade de São Paulo, Cardoso também lecionou em universidades como Stanford (EUA) e Cambridge (Inglaterra).

Entre suas obras destaca-se "Dependência e Desenvolvimento na América Latina" (1969), com Enzo Faletto.

"Essa eleição é um ato de respeito da Academia Brasileira de Letras à inteligência brasileira. A grande obra de Fernando Henrique Cardoso de sociólogo e cientista dá ainda mais corpo à Academia", disse o imortal Marcos Vilaça, ex-presidente da ABL, em comunicado oficial.

Outros dez candidatos, desconhecidos, disputaram com o ex-presidente a sucessão do jornalista João de Scantimburgo (1915-2013), morto em março deste ano.

Além dos 34 votos em FHC, houve uma abstenção (Ariano Suassuna) e quatro votos em branco –segundo acadêmicos ouvidos pela Folha, entre eles estariam Arnaldo Niskier e Alfredo Bosi.

PARES

Terceiro presidente a integrar a ABL, após Getúlio Vargas e José Sarney, o novo imortal se juntará a dois membros graduados de seu governo (1995-2002): o vice-presidente Marco Maciel e o ex-ministro das Relações Exteriores Celso Lafer.

Rosiska Darcy de Oliveira, 69, imortal empossada no último dia 15, também participou do governo do ex-presidente, como presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.

"Não houve nenhuma forma de pressão exercida por mim ou por meus colaboradores. Não fiz campanha, porque acho que é daquelas grandes questões: ou as pessoas acham que você tem mérito ou não acham", disse Fernando Henrique.

O ex-presidente ocupará a cadeira número 36, cujo patrono é o poeta Teófilo Dias (1854-1889) e que teve entre seus ocupantes o diplomata José Guilherme Merquior (1941-1991).

Sua posse deve ser marcada em um prazo de 60 dias a contar da data da eleição.

26/04/2013

Amaury na ABL

Filed under: ABL,FHC,Privataria Tucana,Privatas do Caribe — Gilmar Crestani @ 10:25 pm
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Amaury já é candidato !
A Privataria é Imortal !

FHC viajou o mundo para chamar aposentado de vagabundo !!!

Privataria fecha ruas do centro do Rio

O momento solene, na porta da Academia Brasileira de Letras

Miro exibe o documento que comprova: Amaury é candidato !!!

Quem é ele, quem é ele, diz aí você.
É o maldito FHC.
Chega de Privataria,
de demagogia intelectual.
Na nossa literatura, FHC é do mal.
Na nossa academia, a voz do povo é imortal.
Ele é tucano do bico de pau.
Foi chicote da ditadura e filho de general.
Viajou o mundo para chamar aposentado de vagabundo !

Com essa letra do samba de Enilson do Nascimento e uma trepidante banda, uma delegação especial do Barão de Itararé protocolou, nesta sexta-feira, no centro do Rio, na diretoria administrativa da Academia Brasileira de Letras, a candidatura de Amaury Ribeiro Junior à cadeira numero 36, a que também concorre Fernando Henrique Cardoso.
(No caso de FHC, trata-se da Plataforma-36, ou a P-36.)
Clique aqui para ler “Barão lança candidatura de Amaury”.
Do Sindicato dos Jornalistas, a barulhenta e divertida comitiva foi à ABL, de lá segue para a Cinelândia, presta homenagem a Getulio Vargas, em frente a seu busto, e ali mesmo deixa as águas rolarem, no inesquecivel Bar Amarelinho !
A Privataria é Imortal !!!
Paulo Henrique Amorim, com informações (precarias) de Miro Borges, presidente do Barão, no meio da confusão.

O livro do Amaury todo mundo leu. Os do FHC , só o Ataulfo Merval

Amaury já é candidato ! A Privataria é Imortal ! | Conversa Afiada

27/11/2011

Abaixo-assinado, por não considerar Merval, Imortal

Filed under: Abaixo Assinado,ABL,Merval Pereira — Gilmar Crestani @ 11:00 am

Enviado por luisnassif, sab, 26/11/2011 – 11:07

Por Marlova Neumann

Re: Mais críticas a escolha de Merval Pereira pela ABL

Os abaixo-assinados solicitam à Academia Brasileira de Letras a anulação da eleição realizada em 2 de junho de 2011, que resultou na escolha do jornalista Merval Pereira para suceder ao imortal Moacyr Scliar, último ocupante da cadeira de número 31. O pedido baseia-se no flagrante desrespeito ao segundo artigo do estatuto da própria Academia.

"Art. 2º – Só podem ser membros efetivos da Academia os brasileiros que tenham, em qualquer dos gêneros de literatura, publicado obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livro de valor literário."

http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=5

undo a própria ABL informa em texto do seu site, o jornalista Merval Pereira publicousomente dois livros em sua longa carreira. O primeiro deles:

"Em 1979 recebeu o Prêmio Esso pela série de reportagens ‘A segunda guerra, sucessão de Geisel’, publicada no Jornal de Brasília e escrita em parceria com o então editor do jornal André Gustavo Stumpf. A série virou livro com o mesmo nome, editado pela Brasiliense, considerado referência para estudos da época e citado por brazilianistas, como Thomas Skidmore."

http://www.academia.org.br/abl/media/Merval%20Pereira.pdf

Assim, a primeira das duas únicas obras publicadas pelo jornalista Merval Pereira é uma edição em livro de uma série de reportagens. E não se trata de um livro de autor, mas de um parceria, a de um repórter com o seu então editor, situação em que não se pode determinar objetivamente o que é de um escritor e o que é do outro (embora se suspeite que o mérito maior caiba ao editor, como é de costume nesses casos).

Portanto, a despeito do elogio feito ao livro no texto da ABL ("considerado referência para estudos da época e citado por brazilianistas [sic – ‘brasilianistas’, segundo o ‘Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa’, da própria ABL], como Thomas Skidmore"), não se pode considerar "A segunda guerra" como uma "obra" na acepção pretendida pelo segundo artigo do estatuto, porque, logicamente, a avaliação do "reconhecido mérito" resta prejudicada neste caso.

Na mesma página da ABL, o texto registra outras participações do jornalista Merval Pereira em livros: artigos inéditos e colunas republicadas em coletâneas de vários autores, apresentações, prefácio e conto. Nenhum livro de sua própria autoria, a não ser "O Lulismo no Poder", lançado em 2010 já com vistas à eleição para acadêmico.

Bastaria esse fato para eliminar a própria possibilidade de participação do jornalista Merval Pereira na disputa pela cadeira 31 da ABL. O estatuto é claro ao se referir a obras de reconhecido mérito (repetindo: "obras", no plural). Ou seja, os acadêmicos deveriam poder estabelecer o mérito do candidato, com precisão e sem possibilidade de erro, lendo obrasde sua autoria. Mas o referido jornalista só possui um livro de autoria própria.

E, obviamente, nem se consideraria, no caso de "O Lulismo no Poder", a hipótese do lançamento de sua candidatura para aproveitar a alternativa relativa a "livro de valor literário" (note-se o singular), referida no segundo artigo.

Para eliminar essa possibilidade bastaria uma rápida análise de partes do prefácio escrito pelo próprio autor (itálicos acrescentados à transcrição):

. Metáforas infelizes (para dizer pouco):

"… o desenho do que seria o governo Lula desde os primeiros movimentos foi riscado comtintas mais leves no primeiro mandato, e com pinceladas mais fortes no segundo."

. Escolhas impróprias de termos:

" ‘Esse é o meu cara’, disse Obama em cena espalhada pelo mundo."

. Locuções verbais deselegantes:

"Da mesma forma, no plano internacional, Lula conseguiu convencer o Primeiro Mundo de que era o único a poder controlar os líderes esquerdistas autoritários, quase ditatoriais, queforam sendo eleitos na América Latina…"

"Quando se afirma como o principal líder de esquerda, para chegar à Presidência em 2002 teve que fazer o mesmo movimento para a centro-direita que já fora feito pelo PSDB, eacaba indo para o interior do país, tornando-se hegemônico no Nordeste."

Repare na, digamos, instabilidade dos tempos verbais.

. Repetições que revelam descuido estilístico:

"Embora já tenha dito mais de uma vez que nunca foi comunista, e que quem tem mais de 40 anos e continua sendo de esquerda tem problemas na cabeça, Lula tem uma formação de esquerda …"

. Ambiguidade na indicação dos referentes:

"O lulismo passou a ser uma força política baseada nos programas assistencialistas, na classe média ascendente e no carisma de Lula, que passou a ter o PT apenas como instrumento de sua vontade."

Não o carisma de Lula, mas o próprio Lula. A propósito, teria sentido o lulismo basear-se no "carisma de José Serra"? Um bom redator evitaria a redundância.

Note-se o erro de informação: não se trata de "classe média ascendente", mas de "ascensão de 30 milhões de brasileiros à classe média".

. Denominações impróprias:

"… e ao mesmo tempo, com programas sociais assistencialistas como o Bolsa Família e oaumento do salário mínimo, deu-lhes a impressão de que pela primeira vez alguém olhava por eles."

Considerar o aumento do salário mínimo como exemplo da categoria "programa social assistencialista" não revela exatamente um raciocínio límpido e preciso.

Ou seria mais um caso de ambiguidade, causada pelo plural?

. Aliterações desagradáveis:

"A Lula interessa manter essa dicotomia, desde que seja ele o elo entre os dois lados, …"

. O famoso "trenzinho de quês":

"O mesmo Ministério da Cultura que apresentou em 2003 um projeto que foi considerado pelo cineasta Cacá Diegues uma manifestação stalinista oferece uma nova versão da Lei Rouanet, que tem o mesmo objetivo de direcionar os espetáculos culturais para ‘compromissos sociais’ que o governo considere adequados ao que imagina para o futuro do país."

Segue o trem:

"Conhecido pela má vontade que tem com a preservação dos bagres e das rãs, que muitas vezes interferem nas grandes obras que sonha construir, Lula…"

. Parágrafos que não seriam aceitos sequer numa redação do ensino fundamental, como este:

"O Lula hoje entrando no seu último ano de mandato expandido é um político empermanente ascensão popular, com uma votação que vai mudando territorialmente ao longo do tempo, até se transformar no principal líder da esquerda brasileira."

"Mandato expandido" em vez de "segundo mandato";

"Permanente ascensão popular" em vez de "contínua ascensão popular" (não há 100% de aprovação que resista a uma ascensão "permanente");

"Votação", para um presidente em segundo mandato?;

"Mudando territorialmente" de onde para onde –- do Brasil para a Argentina, por exemplo?;

"Até se transformar" –- locução que não combina, em termos temporais, com o princípio "O Lula hoje…": ele já é esse líder, ou ainda o será?

Note-se que esse erro de construção é comum no estilo do jornalista:

"O aparelhamento do Estado, que define a visão de Estado forte do governo Lula, vem (sic)se impondo de maneira crescente até se transformar em uma das bases de sustentação de sua política interna depois da crise financeira internacional de 2008."

. Parágrafos sem unidade, construídos à base de palavra-puxa-palavra:

"Especialmente sob a orientação de Frei Betto, que viria a ser seu assessor especial no Palácio do Planalto, deixando o governo desiludido (sic) com os rumos tomados pelo que deveria ser o programa estruturalmente transformador do governo Lula, o Fome Zero, substituído pelo Bolsa Família, de cunho acentuadamente assistencialista, sem grandes preocupações com mudanças estruturais da sociedade."

. Barbaridades lógicas, como as autocontradições óbvias, não percebidas pelo próprio autor por causa do afã na enumeração de críticas a seu alvo político predileto:

"Suas políticas de transferência de rendas (sic), embora não tenham alteradoestruturalmente a sociedade brasileira, tiraram milhões de cidadãos da miséria e fortalecerama classe média, que passou a incluir a maioria da população."

Como alguém consegue mudar a estrutura das classes sociais sem mudar estruturalmente a sociedade é um mistério que não foi explicado nas colunas do livro.

Pior. Mais adiante, o jornalista afirma sobre o programa efetivamente responsável por essa mudança estrutural:

"… [o] Bolsa Família, de cunho acentuadamente assistencialista, sem grandes preocupações com mudanças estruturais da sociedade."

. Afirmações que beiram o ridículo:

"Conhecido pela má vontade que tem com a preservação dos bagres e das rãs, que muitas vezes interferem nas grandes obras que sonha construir, Lula …"

. "Explicações" desprovidas de qualquer valor intelectual ou científico:

"… a ajuda do destino, quase um pleonasmo em se tratando da sua carreira".

. Análises políticas de um simplismo espantoso:

"Já se disse que o líder populista se diferencia do estadista porque o primeiro pensa na próxima eleição, enquanto o outro pensa na próxima geração. Lula é um político do primeiro tipo, tem uma visão de curto prazo que supera suas preocupações com o futuro, exceto quando se trata de si mesmo."

Ou seja, o presidente que, pela primeira vez, fez do "país do futuro" um país do presente, na visão da mídia internacional, é justamente aquele que tem "visão de curto prazo" e que não "pensa na próxima geração". 

. Erros profissionais ressaltados pelo próprio jornalista, conhecido por suas previsões que não abandonam a esfera da imaginação pessoal –- não exatamente um exemplo de "reconhecido mérito" profissional:

"A seleção de colunas não pretende ser um trabalho de historiador, mas um registro a quente da história em tempo real, um trabalho jornalístico que muitas vezes peca pelo registro apressado dos acontecimentos ou pelas previsões que não se concretizam."

Mais: "…deixei no livro colunas que anteciparam situações que não se concretizaram e análises que não se confirmaram."

http://www.imil.org.br/wp-content/uploads/2010/10/Introdu%C3%A7%C3%A3o-D…

Mérito, por favor.

Os fatos descritos acima provam que a eleição do jornalista Merval Pereira para a cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras deu-se em total desacordo com o segundo artigo do estatuto da instituição. A decisão, portanto, não deve ser referendada pela Academia, sob pena de suspeita de favorecimento a um dos candidatos.

Caso a ABL decida manter o resultado da votação, a instituição fica, desde já, obrigada a vir a público e esclarecer qual é a utilidade real do segundo artigo do seu estatuto, ou então em que pontos do único livro atribuído exclusivamente a Merval Pereira se encontra o "valor literário" exigido por aquele artigo como pré-requisito para a participação do candidato.

Os abaixo-assinados também solicitam à Academia Brasileira de Letras o estabelecimento da proibição de candidaturas de não-escritores que tenham lançado um livro somente para concorrerem a uma cadeira na ABL, deixando claro aos pretendentes que o segundo artigo do estatuto refere-se a "obras", e não apenas a uma obra individual.

Por O Escritor

Dirijam suas críticas e elogios a nós, por favor: a Equipe de Criação do Curso Básico de Jornalismo Manipulativo. A petição foi criada na época da escolha de Merval para a ABL.

http://cbjm.wordpress.com/2011/06/03/a-eleicao-ilegitima-de-merval-pereira-para-a-abl/

http://www.ipetitions.com/petition/mervalnaabl/

Evidentemente, trata-se de uma brincadeira séria. Ninguém imaginou que a Academia voltaria atrás em sua decisão. Queríamos apenas ressaltar, primeiro, a ilegitimidade da eleição, por não ter respeitado o próprio estatuto da ABL, e segundo, a "excelência" do estilo do jornalista, evidenciada por aquele prefácio.

Participar da luta política (e também da literária), sim, mas sem perder o bom humor. A gente se diverte.

http://cbjm.wordpress.com

Abaixo-assinado, por não considerar Merval, Imortal | Brasilianas.Org

28/09/2011

ABL e Globo, tudo a ver

Filed under: ABL,Merval Pereira,Rede Globo de Corrupção — Gilmar Crestani @ 9:40 pm

Certa vez, uma apresentadora da Globo, escalada para cobrir o carnaval na Avenida, recebeu da direção a incumbência de entrevistar um conhecido sambista, integrante da Velha Guarda da Portela, a famosa escola de samba do subúrbio carioca de Madureira.

A moça, pouco afeita ao trabalho de repórter, sobretudo em matéria ao vivo, não vacilou.  Ao se ver frente a frente com o encanecido sambista, tascou-lhe  a pergunta: “- o que é preciso para fazer parte da Velha Guarda da Portela?”.

Até hoje não se sabe se o sambista levou a sério a pergunta ou partiu para a gozação em cima da moça. E a resposta veio no mesmo tom da pergunta: “ora, basta ficar velho”.

Passados tantos anos, o que parecia uma pergunta idiota se encaixa como uma luva aos dias atuais.  Transfiro aqui para os acadêmicos, não das escolas de samba, mas da Academia Brasileira de Letras, a pergunta da reporter: “- o que é preciso para fazer parte da ABL?”.

Se nossos imortais fossem coerentes com os princípios que levaram à criação da Casa de Machado de Assis, diriam:  “ora, basta escrever livros”.

Mas, infelizmente, nossos acadêmicos mais uma vez pisaram na bola, escolhendo para a cadeira vaga com a morte de Moacir Scliar, um não-escritor de livros.  Os acadêmicos optaram por um colunista de jornal, preterindo Antonio Torres, escritor consagrado, com vasta obra literária reconhecida em vários países do mundo.

Consta que Merval Pereira publicou dois livros: um em 1979, escrito a quatro mãos, e outro no ano passado, com artigos publicados no jornal O Globo.

A “eleição”  de Merval dá sequência a uma prática que vem se tornando tradição na ABL: a escolha de escritores que não escrevem livros, caso do próprio patrão de Merval, o já falecido “companheiro” Roberto Marinho.   Não se conhece a obra literária de Marinho, o que dele se conhece bem é o trabalho que desenvolveu ao longo dos anos, sabidamente com a ajuda dos governos militares,  que redundou na construção de um império tão poderoso que todos o temem, até mesmo aqueles a quem cumpre conceder os direitos de explorar a indústria televisiva.

Merval não foi o primeiro nem será o último.  Durante o regime militar, os nossos imortais escritores elegeram um general,  Aurélio de Lira Tavares, que tinha sido Ministro do Exército da ditadura.  Com obra literária próxima do zero.

Entre os criticos da escolha de Merval, está Luis Nassif, que escreveu em seu blog:

“A ABL, a casa de Machado de Assis, que deveria ser a guardiã implacável dos valores da literatura, a defensora intransigente da meritocracia, a defensora dos escritores, o selo de qualidade, o passaporte final para a posteridade, é uma casa menor, em alguns momentos parecendo mais uma cloaca de fazenda do que um lugar de luzes e de letras”.

Não é preciso ser muito esperto para entender o porquê da escolha do jornalista. Volto ao Nassif:

“Merval tem a visibilidade e o poder proporcionados pela Rede Globo. Tem moeda de troca – o espaço na TV Globo, podendo abastecer o ego dos seus pares e as demandas da ABL. Poderia até ganhar prêmios jornalísticos, jamais a maior condecoração da literatura brasileira”.

A escolha de um jornalista com prestigio dentro do Grupo Globo aparentemente faz parte de uma estratégia da ABL de criar fatos para se manter na mídia.  Uma espécie de “toma lá, dá cá”, para usar a expressão da moda.  “A gente escolhe um jornalista para tomar o chá das cinco conosco e vocês tiram nosso clubinho do ostracismo”.

Não faz muito tempo, os acadêmicos  concederam a medalha Machado de Assis, a honraria maxima da ABL, ao craque de futebol e pagodeiro, Ronaldinho Gaucho.  Visivelmente constrangido, Ronaldinho disse que foi bom estar ali por iria pedir “uma dicas” de livros aos acadêmicos.  Dizem que na entrada do prédio da Academia, constava o nome do visitante como Dr. Ronaldinho.

Depois de dar uma medalha a Ronaldinho e arranjar uma cadeirinha pro Merval sentar, a ABL para ser coerente precisa arranjar uma outra para o bispo Edir Macedo.  É ou não é?

ABL e Globo, tudo a ver | Direto da Redação – 10 anos

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