Ficha Corrida

16/07/2016

Sou testemunha ocular

Filed under: Concurseiros,Ré Pública,Republicanismo — Gilmar Crestani @ 11:26 am
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Nasci na roça, trabalhei no serviço pesado da lavoura. Passei pela iniciativa privada, de pequenos negócios ao Bradesco. Fui professor. O retrato do Luis Nassif é pronto, completo e acabado. Perfeito. Apenas faltou definir melhor a origem social destes exemplos. Quem pode, por anos, se dedicar, como se fosse uma profissão, somente a prestar concurso público? Quem tem uma situação econômica segura, um respaldo negado a 99% da sociedade brasileira, para ficar 24 horas por dia focado no concurso?! E por aí também se explica o golpe paraguaio pela manutenção dos privilégios. O ódio às políticas sociais inclusivas é parte deste “negócio” que, pensam, lhes pertence, senão por direito, por hereditariedade. Convivo com pessoas que odeiam dividir uma sala de aula da UFRGS com pessoas de origem humilde, que chegam pelas cotas ou mesmo pela forma mais republicana do ENEM. O ódio ao ENEM, visivelmente por uma classe média branca, bem vestida, com espaço e voz nos meios mafiomidiáticos, ajuda a explicar um golpe para colocar notórios corruptos no lugar de uma pessoa honesta. A velha mídia é quem dá a sustentação teórica (“Não Somos Racistas, do Ali Kamel”).

A conjunção destas duas forças, da mídia e dos autoritários concurseiros, transformou a República numa ré pública. A caça obsessiva ao Lula é parte deste todo.

O Xadrez dos concurseiros, do servidor público à autoridade

sex, 15/07/2016 – 12:20 – Atualizado em 15/07/2016 – 12:47 – Luis Nassif

Nos últimos anos, tomou corpo um novo fenômeno no serviço público: os concurseiros, pessoas que, em algumas áreas selecionadas, entraram através de concursos disputadíssimos.

Os concurseiros mudaram a cara do serviço público. Vêm com preparo maior que os funcionários de carreiras tradicionais. Depois, o Estado banca cursos de mestrado e doutorado em universidades estrangeiras. Fogem do perfil tradicional de funcionário público.

Historicamente o serviço público oferece previsibilidade, uma aposentadoria que preserva ganhos e salários abaixo dos de mercado. Com as mudanças na última década, continuou oferecendo previsibilidade e aposentadoria, e salários iniciais muito acima dos salários de mercado.

Esse fenômeno gerou uma espécie nova de funcionário público sem vocação do pública e com ampla vocação de “autoridade”. Esse perfil de funcionário foi central na implementação do golpe, recebendo o respaldo da mídia para julgamentos de mérito de operações orçamentárias, como se tivessem sido ungidos pelo voto.

Tornaram-se verdadeiros militantes políticos – como foi o caso do procurador do Ministério Público das Contas.

Característica 1 – o retorno financeiro do valor investido na preparação do concurso.

Passar em concurso exige três anos de estudos ininterruptos e matrículas em cursos caros. Ou seja, investimento pesado em tempo e dinheiro e seletividade de classe socioeconômica. E as provas exigem memorização, não necessariamente vocação para a profissão pretendida. Entrando, o concurseiro irá casar essas vantagens com a dos ganhos, passando a pressionar o Estado para melhorias constantes nos rendimentos.

A expansão descontrolada do serviço público deve-se às pressões dessa nova classe.

Característica 2 – o servidor público e a síndrome da “autoridade”

Pega-se um jovem de pouco mais de 20 anos, confere-se um cargo regiamente remunerado, com salário inicial imbatível e, em cima disso, as prerrogativas de um poder de Estado. 

Grande parte dos concurseiros não se considera servidor público. Considera-se “autoridade”, segundo me relatam analistas tributários críticos do modelo atual de concurso.

Essa característica se deve ao fato do concurseiro dever seu status não à carreira implementada no serviço público, mas ao concurso que o transformou imediatamente em “autoridade” altamente remunerada.

Uma análise de caso pedagógica consiste em comparar o típico servidor público e um típico concurseiro: o primeiro, o procurador da República Celso Três, do Paraná; o segundo, o procurador Ailton Benedito, de Goiás.

O primeiro fez carreira no próprio Ministério Público, consagrando-se nas investigações do Banestado, um trabalho memorável que terminou abafado pelas autoridades superiores. Ignorou-se sua experiência no campo de batalha e foi isolado no interior do estado.

O segundo é um concurseiro que busca reconhecimento em bobagens inomináveis, como intimar o Itamarati a tomar providências contra a Venezuela por convocar jovens do Brasil para suas milícias digitais – a convocação era na Vila Brasil, subúrbio de Caracas.

Três jamais exporia o MPF a vexames, por ter feito a carreira no trabalho. Ou seja, criou uma lealdade e assimilou uma cultura do MPF. E deve sua reputação ao trabalho de campo, não a cursos de mestrado e doutorado.

Benedito – e outros colegas concurseiros de Goiás – não teve o menor pudor em expor o MPF a vexames ou às jogadas políticas do Instituto Millenium, por não ser servidor público, mas “autoridade”. Intimar o Itamarati, a Secom, a presidência da República torna-se um exercício banal de poder e amplamente desrespeitoso em relação à sua corporação.

Característica 3 – no concurso, o início da aposentadoria

Outra característica dos “concurseiros” é o fato de o primeiro salário ser muito elevado. Não há estímulo a se destacar nos serviços visando promoções. Muitos deles fazem do primeiro dia no serviço público o primeiro dia da contagem regressiva para a aposentadoria.

Compare-se o padrão Benedito de Procurador com, por exemplo, o funcionário do Banco do Brasil. Nos anos 90, o BB deu início a um profundo processo de transformações, visando tornar-se um banco de mercado. No final da década houve ajustes porque deixou-se de lado o fator serviço público. E constatou-se que os funcionários reagiam muito melhor quando confrontados com desafios de setor público. Ou seja, tinham que casar a disputa de mercado com a vocação pública. Nunca deixaram de se considerar servidores públicos. A carreira interna permitia que os funcionários gradativamente fossem assimilando os valores da corporação.

Fala-se muito em democratização trazida pelos concursos. Democratização foi o que o BB historicamente fez, permitindo que funcionários entrassem como contínuos e saíssem como diretores.

No caso dos “concurseiros”, isso não ocorre. O jovem inexperiente é jogado de chofre em uma função que lhe confere salário alto e poderes de Estado. A partir dali, tem-se uma carreira previsível e sem desafios.

Motivo 1 – a perda de valores do serviço público

O desenvolvimento brasileiro no século 20 foi fundamentalmente uma obra dos servidores públicos. Mesmos os cérebros que vinham de fora do Estado, tinham em elites da burocracia a matéria prima para empreender os grandes avanços necessários ao desenvolvimento. Banco do Brasil e Itamarati, posteriormente o Banco Central, o Planejamento, as estatais, sempre foram fornecedoras de quadros técnicos de alta qualidade. E esses servidores públicos tinham como missão transformar o país.

Para manter acesa a chama, foram criadas instituições públicas de formação, desde a Fundação Getúlio Vargas às Escolas públicas, a ENAP (Escola Nacional de Administração Pública), a Escola de Administração Fazendária.

No período Bresser-Pereira no Planejamento, e em bom período do governo Lula e início do governo Dilma, sentia-se uma sede de modernização no serviço público, de participar, de trazer novas ferramentas de gestão e planejamento.

Hoje em dia, perderam-se os liames que uniam as gerações anteriores às novas gerações de concurseiros.

Motivo 2 – o concurso em detrimento da carreira

Os concursos foram essenciais para impedir o aparelhamento da administração pública. Mas aboliu-se a carreira, ao jogar os concursados em cargos de relevo sem o devido preparativo.

Deveria haver um início mais modesto, e um plano de cargos e salários que fizessem o concurseiro crescer dentro do serviço público, entender as diversas etapas do seu trabalho, assimilar os valores e vestir a camisa de servidor público. Com muito orgulho

O Xadrez dos concurseiros, do servidor público à autoridade | GGN

1 Comentário »

  1. […] Nasci na roça, trabalhei no serviço pesado da lavoura. Passei pela iniciativa privada, de pequenos negócios ao Bradesco. Fui professor. O retrato do Luis Nassif é pronto, completo e acabado. Perfeito. Apenas faltou definir melhor a origem social destes exemplos. Quem pode, por anos, se dedicar, como se fosse uma profissão, somente a prestar concurso…  […]

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