Ficha Corrida

26/03/2016

Entre TAP e GOLpes

OBScena: na mesa com Gilmar, um produto da adega Salazar

vinho golpeComo diria nosso velho e inestimável Barão de Itararé, “há qualquer coisa no ar, além dos aviões de carreira.” A parte risível desta tragicomédia está em que os principais golpistas aparecem em todas as listas. Os sempre ausentes, e por isso odiados pela Rede Goebbels, são, ora vejam, Lula e Dilma…

Como a situação, apesar de ridícula, não é pra risada, outro bardo, mais sisudo, merece entrar em cena. Shakespeare, na peça Hamlet, ao tratar das conspirações palacianas, nos legou algumas frases antológicas: "Há algo de podre no reino do Gilmar." Para que não nos apressemos em nominar os podres, outra frase nos ajudará compreender a filosofia por trás dos nossos santos do pau-oco: “Há mais coisas entre o céu e a terra, Gilmar, do que sonha a nossa vã filosofia".

A temperatura cresce à medida que o fogo alcança os calcanhares dos  golpistas. Para salvar a própria pele, querem jogar a água da democracia fora com a criança. Criança, não, quase balzaquiana.

Nem chegou aos trinta e nossa “Constituição Cidadã”, como batizou Ulisses Guimarães, vem sendo usada como papel higiênico por ninguém menos que o cavalo de Tróia deixado no STF por FHC. Logo FHC que, via Banco Itaú, como entregou Pedro Corrêa, ex-deputado do PP, comprou votos para adultera-la, que palavra mais apropriada ao ato e às personagens, com a emenda da própria reeleição. Não foi uma emenda para quem viesse depois, mas para mudar as regras durante o jogo e beneficiar o time que estava em campo. Foi sob os auspícios deste estupro coletivo que uma das personagens mais caricatas, hoje motivo de piada de português, foi colocada no STF. E não foi por falta de aviso.

Em artigo publicado na Folha de São Paulo em 08 de maio de 2002, Dalmo Dallari escreveu a respeito da indicação de Gilmar Mendes por FHC: “Se essa indicação vier a ser aprovada pelo Senado, não há exagero em afirmar que estarão correndo sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a própria normalidade constitucional.”

Dallari não é nenhum profeta.

Ele apenas conhecia o indicado, porquê estava sendo indicado e por quem. Gilmar Mendes fez, todos os dias e horas de sua estadia naquela corte, por comprovar o fatídico diagnóstico.

O convescote dos golpistas em Lisboa lembra o Pato Laqueado chinês. Vale lembrar que foi no Pato Laqueado, restaurante e prato típico chinês, que Cleto Falcão anunciou aos atônitos diplomatas Collor de Mello como o futuro Presidente do Brasil.

O intuito de Gilmar Mendes, ao que parece, é, diante de um autêntico bacalhau, levantar um brinde à chacota, com um autêntico vinho da casa IDP:

– Contemplai, oh! portugas, meu trio de golpistas!

O escritor português, veja texto abaixo, diz que a TAP é a única beneficiada como evento reduzido. TAP, também conhecida por Tamancos Aéreos Portugueses, é também abreviação de Tapetão, cujo nomen iuris é Golpe Paraguaio

Assim como os três mosqueteiros eram quatro, o trio de golpistas é uma quadrilha.

Trio de Golpistas

Como não lembrar, no aniversário de 20 anos de seu passamento, da música Vira-Vira dos Mamonas Assassinas, um hino em homenagem à epopeia dos golpistas em terras lusitanas:

Fui convidado pra uma tal de suruba
Não pude ir, Maria foi no meu lugar
Depois de uma semana ela voltou "pra" casa
Toda arregaçada, não podia nem sentar
Quando vi aquilo fiquei assustado
Maria chorando começou a me explicar
Daí então eu fiquei aliviado
E dei graças a Deus porque ela foi no meu lugar!

 

Um imbróglio em Lisboa

Escritor português comenta, em artigo, o golpe político-judicial em curso no Brasil e a viagem de Michel Temer ao país europeu, cancelada para que o vice-presidente possa participar de reunião do PMDB que vai decidir se a sigla romperá ou não com o governo…

25 de março de 2016

Escritor português comenta, em artigo, o golpe político-judicial em curso no Brasil e a viagem de Michel Temer ao país europeu, cancelada para que o vice-presidente possa participar de reunião do PMDB que vai decidir se a sigla romperá ou não com o governo de Dilma Rousseff

Por Francisco Louçã*

Quem se lembrou de uma coisa destas? Admitamos que o seminário “luso-brasileiro” que vai decorrer na Faculdade de Direito de Lisboa já estava programado antes da crise desencadeada pela golpaça político-judicial em curso no Brasil. Se assim for, há uma questão a que falta responder: como é que se lembraram de marcar um seminário sobre o futuro constitucional do Brasil (e de Portugal, olha só) para o 52º aniversário do golpe que derrubou um presidente eleito e instaurou uma ditadura militar? Como não há coincidências na vida, ou fugiu o pé para o chinelo ou é uma declaração de guerra com um atlântico pelo meio. Presumo que seja o chinelo.

Também não lembraria a ninguém que o vice-presidente brasileiro, e primeiro potencial beneficiário da eventual deposição de Dilma Roussef, escolha sair do país por uns dias precisamente quando o seu partido, o PMDB, tomará a decisão de sair do governo e se juntar aos parlamentares derrubistas. Mas é isso que anuncia o programa do evento. Pior, acrescenta outros pesos-pesados da direita, estes do PSDB, José Serra e Aécio Neves, sendo que o primeiro não estava previsto no programa original. O que os levaria a levantar voo do Brasil para se limitarem a conspirar por telefone?

Só haveria uma razão, procurarem um endosso internacional para as suas diligências, fazerem-se fotografar ao lado das autoridades de Portugal. Se era esse o objectivo, fracassou. Os serviços do Presidente português anunciaram que a agenda não lhe permite ir ao seminário e até o ex-primeiro ministro Passos Coelho se pôs de fora.

O detalhe da exclusão de Passos acrescenta ainda algum picante à história, dado que o PÚBLICO revela que “já Jorge de Miranda garante que a presença do ex-primeiro-ministro levantou dúvidas quanto à pertinência académica do seu contributo”. Excelente: o seminário era de tão alta qualidade que os organizadores se esqueceram de consultar a “pertinência académica” do “contributo” dos oradores que convidaram. Passos deve estar reconhecido por mais esta. Paulo Portas, que também foi anunciado para o encontro, mantém-se mais discreto e, adivinho, de fora do imbróglio. Resta saber se Maria Luís Albuquerque, anunciada no Brasil como professora da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, abrilhantará o encontro com a sua presença.

Ficando deserto de autoridades, o seminário limitar-se-á então, se ainda se vier a manter com tantos abandonos, a uma conversa entre juristas e políticos brasileiros sobre a graça do golpe que está a decorrer. Suponho que só a TAP agradecerá a cortesia.

Nota (16.30, dia 24): o vice-presidente do Brasil cancelou a sua viagem. O benefício da TAP com o evento será mais reduzido.

Francisco Louçã, nascido em Lisboa, economista. Foi deputado (1999-2012) e é professor de economia na Universidade de Lisboa. Os últimos livros que publicou foram “A Dividadura” e “Isto é um Assalto” (Bertrand, 2012 e 2013), ambos com Mariana Mortágua, “Os Burgueses” (Bertrand, 2014, com J. Teixeira Lopes e J. Costa) e “A Solução Novo Escudo” (Lua de Papel, 2014, com João Ferreira do Amaral)

Foto de capa: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Um imbróglio em Lisboa – Portal Fórum

2 Comentários »

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