Ficha Corrida

21/09/2015

O apartheid carioca visto de Porto Alegre

Filed under: Apartheid,CPMF,Privatas do Caribe,Privatidoações,Saúde,Segurança Pública,Violência — Gilmar Crestani @ 10:48 pm
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cpmf boaNão conheço muito da realidade carioca, então vou falar da realidade porto-alegrense. Onde estão os espaços públicos para divertimento de quem não tem dinheiro pra frequenta espaços privados, até mesmo para praticarem esportes?

Os paradoxos da atualidade política podem se medidos por dois fatos vividos por mim.

Quando vim do interior para Porto Alegre, jogava futebol com um time de pedreiros da Vila Tronco nos campos do Cristal, atrás onde hoje há uma floricultura. Ali havia no mínimo dois campos. Nosso time competia com outros times da cidade em campos que já não existem mais: no Marinha, atrás do Chocolatão e onde hoje estão os prédios do TRF4 e Justiça Federal, no Humaitá, onde também havia vários campos e hoje está Arena da OAS.

Na mesma vila de onde vinham os meus colegas de time também estava localizado o Postão do INPS. Para consultar, eu tinha de ir para lá na madrugada para conseguir uma ficha e para ser atendido quase ao meio dia. Pois bem, hoje temos o SUS com atendimento gratuito, mas não temos mais os campos onde nos divertíamos. O atendimento à saúde melhorou graças ao forte investimento do governo federal. Para Lula e Dilma é investimento; para a oposição é gasto. 

A cidade está nas mãos da RBS. O PDT virou sigla de aluguel da RBS. E não é só porque albergou Lasier Martins. Começou com uma parceria com Vieira da Cunha no Governo Olívio Dutra. Olívio foi execrado por um lambe botas do Sartori. Já o atual prefeito, Fortunati, tem toda a condescendência da MAIOJAMA porque é “dado” a uma especulaçãozinha imobiliária. Desde Fogaça, Porto Alegre virou um mercado atrativo de espigões. O Cais Mauá é a cereja do Bolo. Não há espaço público para o público. Só pensam na privada. A RBS tomou conta até do gauchismo. No mês de setembro, os gaúchos botam uma fantasia e vão para o parque  Mauricio Sirotsky Sobrinho. Terminada a micareta da RBS, o espaço do acampamento volta a ser chamado pelo seu verdadeiro nome, Parque da Harmonia.

Como colorado, lembro do esforço que a RBS fez para que melasse o contrato do Inter com a Andrade Gutierrez. Queriam porque queriam participar da construção do estádio mas também do complexo hoteleiro ao redor.

Coincidentemente, a região da Vila Tronco continua nos noticiários. Não pelos pedreiros que lá moram e ganham a vida trabalhando duro, mas pelos constantes tiroteios envolvendo o narcotráfico. De nada adianta a polícia entrar lá atirando e assassinando pelas costas, como fizeram recentemente, com Ronaldo de Lima. Se houvesse real interesse em combater o narcotráfico bastaria cobrarem pela continuidade das investigações do heliPÓptero. Aliás, a região da Vila Tronco pode distribuir, mas quem tem poder aquisitivo para consumir cocaína mora nos bairros de onde parte marcha dos zumbis. Atualmente, o consumo de cocaína veste camisa Padrão FIFA com escudo da CBF.

Aliás, a CPMF é um bonito exemplo de como se pode financiar a saúde com dinheiro do narcotráfico. Mais vai ver se os narcotraficante e seus clientes são a favor da CPMF!

Há uma triste coincidência que irmanam gaúchos e cariocas: Rede Globo & RBS, assoCIAdas ao Instituto Millenium.

A praia será privatizada

O festival de arrastões nas praias no último fim de semana fez com que as autoridades e parte significativa da imprensa voltassem com força total a pedir medidas de exceção, tipo dar à Polícia Militar o direito de entrar num ônibus e retirar dele quem acharem com cara de ladrão. É muito mais fácil reprimir direitos individuais do que atacar as causas da proliferação de desajustados, entre elas a concentração de renda, a falência da educação federal, municipal e estadual, a falta de saneamento básico, de moradia digna etc.
A solução encontrada é novamente dar aos PMs o direito de entrar num coletivo e pinçar aqueles que lhes parecerem assaltantes. Mesmo que retirem dezenas de jovens que realmente iriam à praia roubar, se apenas uma pessoa que queria se divertir no fim de semana for impedida de aproveitar seu dia de folga já terá sido cometida uma injustiça irreparável.
Como ainda não está em vigor a solução simplista e inócua da redução da maioridade penal, querem subverter o estado de direito, que admite prisão de menores apenas em flagrante delito. Como não dão mais conta de policiar as praias, acham agora que a solução é manter os pobres longe delas. Ingenuamente, o secretário de Segurança disse que só vão andar nos ônibus, jovens que tiverem dinheiro para pagar a passagem. Ué, não deveria ser sempre assim?
Não sei se o fascismo à carioca _ vitaminado pelo pavor da classe média e pela revolta dessas legiões de jovens das periferias _ vai perder a queda de braço para o estado democrático de direito. Pra mim, falta pouco para colocarem grades e bilheteria nas praias. Vão acabar privatizando: entregam Ipanema, por exemplo, a uma grande empresa, como a Vivo ou a Coca-Cola, e esta toma conta do lugar, com cercas, bilheteria, segurança privada e banheiro químico pra todo mundo ficar numa boa enquanto o mundo explode lá fora. Já tiraram os pobres do Maracanã, está chegando a hora de tirá-los também das praias.
A onda nazi é tão forte que o próprio governador do Rio apoiou a ação repressiva dita preventiva, que escancara nosso fracasso como sociedade. A medida de Pezão, Beltrame e cia., ditatorial, racista e discricionária, é prima da tal presunção de culpa, usada em julgamentos quando se quer condenar o réu de qualquer jeito. E olhe que, diante do ódio que parte da classe média está nutrindo, essas iniciativas do estado são até moderadas. Tem coxinha que nem quer mais baixar a maioridade penal, quer é colocar todos esses adolescentes no paredão mesmo. Resta saber se os pitboys justiceiros de Copacabana serão tratados pela polícia e pela justiça da mesma forma que os ladrões da periferia.
O que me assusta é que os arrastões não têm ocorrido só nas praias, já se espalharam pelas ruas de Copacabana, Ipanema e Lagoa. A tragédia já se antecipou às medidas fascistas paliativas. Ouso dizer que nosso futuro, se a coisa continuar nessa progressão, é viver ao lado de uma faixa de Gaza cercada pelo Exército para que os ensandecidos não nos trucidem.
Para um país onde querem porque querem tirar uma presidente do cargo na marra, é um futuro bem factível.

http://www.rioacima1.blogspot.com.br/

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