Ficha Corrida

08/07/2015

Aula Magna sobre golpes e golpistas

 

Jorge Furtado: a Casa Grande não aceita a ideia de que cada brasileiro vale um voto

7 de julho de 2015 | 12:29 Autor: Fernando Brito

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O cineasta Jorge Furtado, uma grande cabeça que pratica o “defeito intelectual” de filmar e falar para ser entendido, publicou ontem um ótimo artigo no blog da Casa de Cinema de Porto Alegre que é a encarnação da frase famosa de Alphonse Karr, editor do Le Figaro  na Paris do século 19:  plus ça change, plus c’est la même chose (quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas).

Furtado mata um pouco da frustração de vermos, neste momento, boa parte da intelectualidade e dos produtores de cultura artísticas estarem mudos diante da ofensiva neoconservadora, em si uma inimiga da criação, da fertilidade do pensamento e da vocação humanista do artista.

O pensamento humano é uma peça em contínua evolução e tudo que nos leva ou ameaça levar à selvageria é inimigo da inteligência.

E a inteligência que não defende o povo da qual se forma, o país no qual viceja, não é luz, é treva.

O golpe e os golpistas de sempre

Jorge Furtado

zhn“Pode-se considerar normal, dentro do quadro de anormalidade em que se gerou, o desenvolvimento da crise que explodiu na Petrobrás. A CPI prossegue seus trabalhos de apuração do que verdadeiramente ocorre na área do monopólio estatal do petróleo. O que não se pode, em hipótese alguma, considerar normal é a revelação, surgida no depoimento de um dos diretores demitidos, de que a Petrobras se dedica a prática de superfaturamento do material que importa. Mais uma razão, pois, para que se leve a cabo uma devassa rigorosa, completa, imparcial e implacável dos negócios da Petrobras”. Folha de S. Paulo, 31 de janeiro de 1964. (1)
“O governo federal, que tantas vezes se mostra particularmente sensível a duvidosas “forças populares”, e em seu nome pratica até desatinos, que atitude tomará diante da iniludível demonstração de ontem em São Paulo? Tentará caracterizá-la como uma “demonstração de reacionários”, ou “conservadores”, ou defensores de “estruturas arcaicas”? Folha de S. Paulo, 21 de março de 1964, comentando a “Marcha da Família”, que preparava o golpe militar. (2)

De tempos em tempos a democracia brasileira é interrompida por golpes patrocinados pelas suas elites. Os motivos alegados – já que os verdadeiros são inconfessáveis – são geralmente os mesmos: corrupção, desgoverno, bagunça, crise, populismo. Os golpistas e os jornais que os apoiam também variam pouco, sempre é a direita contrariada pela perda de poder, só muda o figurino e o cabelo.

Por coincidência, há uma perfeita relação entre o aumento do poder aquisitivo do salário mínimo, as conquistas de direitos das populações mais pobres e a revolta das elites contra os governos que as promovem. A Casa Grande não costuma aceitar docilmente esta ideia estranha de que cada um vale um voto e que, para chegar ao poder, precisa ganhar eleições. (3)

Os golpistas de hoje falam da corrupção do governo (que existe e é grave), mas não falam que os mesmos corruptores, que estão presos graças a uma lei sancionada por Dilma (4), financiam também a oposição (5). Aliás, enquanto empresas puderem financiar políticos (“Devolve, Gilmar!”) a sangria dos cofres públicos não vai ter fim.

Alegam que o governo petista “destruiu a Petrobrás”, o que é estranho, já que a empresa em maio atingiu o recorde de 3 milhões de barris por dia, um crescimento 10% em relação ao ano anterior (6). Dizem que a roubalheira na Petrobras é uma vergonha (e é mesmo!) mas não dizem que esta quadrilha que foi presa no governo Dilma começou a operar na Petrobrás ainda no primeiro mandato de FHC, quando o Ministro da Justiça (que manda no chefe da Polícia Federal) era Renan Calheiros, hoje investigado pelo esquema de corrupção (7). E que outras quadrilhas já roubavam a Petrobras bem antes desta, Paulo Francis denunciou a roubalheira em 1996, no governo de FHC, e por isso foi processado. (8)

Os golpistas de hoje podem, daqui a trinta anos, pedir desculpas por terem apoiado o golpe, podem alegar que estavam mal informados (e estão mesmo, muito mal informados), podem até se arrepender sinceramente. Só não podem alegar originalidade, nem esperar que a gente acredite neles, mais uma vez.

(1) http://acervo.folha.com.br/fsp/1964/01/31/2//4443034
(2) http://acervo.folha.com.br/fsp/1964/03/21/2//4447944
(3) http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/03/e-mesmo-a-corrupcao-que-deixa-a-elite-brasileira-furiosa.html
(4) http://g1.globo.com/politica/noticia/2013/08/dilma-sanciona-com-tres-vet…
(5) http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/11/1551204-dono-da-utc-tinha-con…
(6) http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2015/07/producao-de-petroleo-no-brasil-aumentou-10-2-em-maio
(7) http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/ex-gerente-da-petrobr…
(8) Paulo Francis e a Petrobrás no governo FHC: https://www.youtube.com/watch?v=BtJgGDsS-0c

Jorge Furtado: a Casa Grande não aceita a ideia de que cada brasileiro vale um voto | TIJOLAÇO | “A política, sem polêmica, é a arma das elites.”

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