Ficha Corrida

30/12/2014

Ódio à concorrência

Filed under: Ódio de Classe,Concorrência desleal,Fascismo,Hélio Schwartman,PSDB,PT — Gilmar Crestani @ 8:57 am
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Folha -Sep.-10-12.40O diagnóstico do passado é mais fácil do que prospectar o futuro. Nesta ciência  o colunista se sai bem. De fato, o PT detinha o monopólio moral. E era simples que assim fosse. Era pequeno, não ocupava o poder, não precisava negociar com outros partidos. O que acontece quando um partido quer ascender ao poder e tem de negociar com outras forças pode ser visto inclusive no Vaticano. O Banco Ambrosiano era uma ambrosia para deuses, semideuses e representantes divinos na Terra. O filme O Poderoso Chefão III mostra isso muito bem.

Voltando ao PT. Não sou nem nunca fui filiado. Com raríssimas exceções, tenho votado na legenda. E não tenho arrependimento.

Os problemas que vem ocorrendo no interior da legenda continuam sendo infinitamente inferiores ao que vinha e vem acontecendo no interior de outras legendas. Basta que se olhe para os resultados da aplicação da Lei da Ficha Limpa (Lei Complementar nº 135/2010). Apesar de ter menos de 5 anos, já que o STF autorizou sua aplicação somente a partir de 2012, produziu resultados estrondosos. E o próprio TSE mostra quem são os campeões das fichas sujas, como bem registrou a Revista Exame: “PSDB tem o maior número de barrados pelo Ficha Limpa”. O assunto, por ser indigesto, foi praticamente abandonado pela velha mídia. Não é pauta, não há grandes reportagens para explicar o fenômeno. Os colunistas não se debruçam para escarafunchar o diagnóstico severo do TSE. D. Judith Brito e a ANJ têm boas razões para isso…

Se o PSDB continua campeão depois que foi apeado do poder, imagina nos tempos da compra da reeleição e das privatidoações…. Contudo, isso não é notícia, porque notícia não é a regra, é a exceção. No ranking do TSE o PT perde feio a concorrência para os partidos tradicionais (PSDB, PMDB, DEM, PP, PSB) e ninguém faz a fatídica pergunta: por quê?

Há um fator que explica a tentativa da velha mídia de fazer grudar no PT a pecha de corrupto: a colaboração das instâncias superiores do Poder Judiciário. Os casos mais emblemáticos da corrupção da direita ou não são julgados ou os responsáveis são inocentados. Collor foi inocentado; Maluf foi inocentado; Robson Marinho está em vias de ser inocentado; o mensalão mineiro sequer foi julgado. E isso que alguns destes casos já foram julgados no exterior e os elementos, condenados. Mas no Brasil a alta cúpula do Poder Judiciário tem se mostrado célere com o PT e lerdo com a direita, criando este caldo fascista do ódio de classe defendido abertamente por Jorge Bornhausen, em artigo para a Folha, de querer exterminar com a “raça dos petistas”… A pureza étnica que a direita quer no PT não encontra mais sequer no seu o parceiro, o PSOL. O caso do cabo Benevuto Daciolo é elucidativo…

Então, porque toda esta preocupação com a pureza do PT? Simples. Os campões da Ficha Suja não querem concorrência. Imagine-se a honestidade, a pureza de propósitos, a ética de um Bornhausen, com sua longa trajetória nos vários partidos descendentes da ditadura (Arena, PFL, DEM)…

Quando alguém do PT é barrado, ganha capas de jornais e revistas e preciosos minutos nos telejornais. Aproveitam e criminalizam toda a agremiação. Afinal, como diz o colunista, “o descenso moral do PT não é um espetáculo bonito”, como se o descendo moral do demais partidos fosse um espetáculo bonito. Não, claro que não, mas os assoCIAdos do Instituto Millenium têm uma lógica muito própria: os nossos corruptos são melhores que os corruptos dos outros…

O que aconteceu, se pergunta Hélio Schwartsman? Simples, aumentou a concorrência, e isso não é visto com bons olhos para aqueles que detinham o monopólio, ou o cartel, palavra da moda em São Paulo…  A preocupação do colunista me faz lembrar um filme italiano, Concorrenza Sleale. Sua afinidade com Bornhausen no tratamento das questões petistas faz lembrar a leis raciais fascistas do tempo de Benito Mussolini.

Não é a pureza ou impureza do PT que incomoda, é  a Concorrenza Sleale

 

HÉLIO SCHWARTSMAN

O que aconteceu?

SÃO PAULO – Flashback para os anos 80. O então recém-surgido Partido dos Trabalhadores prometia um jeito diferente de fazer política. Era tão intransigente em relação a seus princípios que nem sequer negociava com outros partidos, mesmo aqueles que poderíamos classificar como de centro-esquerda.

No que diz respeito à moralidade pública, a legenda a cultuava com fervor religioso. Naqueles primeiros anos, o PT era o partido de onde surgiam quase todas as denúncias de corrupção e aquele cujos membros jamais apareciam nos escândalos.

Mesmo quem não gostava das ideias que o PT defendia, concordava que a legenda desempenhava papel relevante ao apresentar e exigir uma nova atitude dos políticos.

De volta ao presente. Dilma Rousseff, recém-eleita presidente pelo PT, propõe ao procurador-geral da República passar-lhe os nomes das pessoas que pretende nomear ministros para que ele diga se estão ou não envolvidas em alguma das delações premiadas relacionadas ao caso Petrobras. Ou seja, ela não apenas está negociando com legendas tão à direita quanto PP (o sucedâneo da Arena) como nem sequer está segura de que seus futuros auxiliares não sejam corruptos. Isso tudo, vale frisar, depois da experiência do mensalão, que atingiu em cheio a cúpula do PT.

O que aconteceu nos últimos 30 anos? Tenho algumas hipóteses, mas não uma resposta acabada. Assim, prefiro destacar o que, pelo menos para mim, foi um aprendizado. Ninguém exerce o monopólio da virtude. Embora um homem possa individualmente ser mais honesto do que outro, basta que reunamos um número razoavelmente grande de pessoas e lhes ofereçamos oportunidades um pouco mais tentadoras de tirar vantagens indevidas, para que as diferenças entre grupos maiores tendam a anular-se, retratando aquilo que chamamos de natureza humana.

O descenso moral do PT não é um espetáculo bonito, mas é didático.

helio@uol.com.br

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