Ficha Corrida

21/11/2014

Corrupção e roubo em ritmo industrial

ricardo semlerRicardo Semler, tucano declarado, ficou famoso, no final dos anos 80, com o livro Virando a Própria Mesa. Na época, eu estava numa encruzilhada; continuar professor e bancário, e com proposta de trabalhar na Itália. Estava lendo tudo o que aparecia e foi assim que descobri este livro que virou best-seller simplesmente porque um empresário, jovem e meio maluco, revolucionou a forma de ver o mundo dizendo barbaridades inadmissíveis para alguns empresários como “encarar os funcionários como seres humanos”. Virou colunista da Folha e, na sequência, ganhou o prêmio de empresário do ano no início dos anos 90.

Eis que ressurge das cinzas para dizer coisas do tipo “Nunca se roubou tão pouco”. E arrola uma série de situações pelas quais suas muitas empresas passaram. Deixa bem claro que não votou nem vota no PT, mas que nenhum presidente teria deixado a Polícia Federal ser uma polícia Federal como fizeram Lula e Dilma. Quem não lembra do Jornal Nacional noticiando as grandes operações da Polícia Federal… arrancando maconha no polígono das secas…

Goste-se ou não do PT, só não admite isso os mal informados e os mal intencionados.

RICARDO SEMLER, na FOLHA DE SÃO PAULO

TENDÊNCIAS/DEBATES

Nunca se roubou tão pouco

Não sendo petista, e sim tucano, sinto-me à vontade para constatar que essa onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país

Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80, 90 e até recentemente. Em 40 anos de persistentes tentativas, nada feito.

Não há no mundo dos negócios quem não saiba disso. Nem qualquer um dos 86 mil honrados funcionários que nada ganham com a bandalheira da cúpula.

Os porcentuais caíram, foi só isso que mudou. Até em Paris sabia-se dos "cochons des dix pour cent", os porquinhos que cobravam 10% por fora sobre a totalidade de importação de barris de petróleo em décadas passadas.

Agora tem gente fazendo passeata pela volta dos militares ao poder e uma elite escandalizada com os desvios na Petrobras. Santa hipocrisia. Onde estavam os envergonhados do país nas décadas em que houve evasão de R$ 1 trilhão –cem vezes mais do que o caso Petrobras– pelos empresários?

Virou moda fugir disso tudo para Miami, mas é justamente a turma de Miami que compra lá com dinheiro sonegado daqui. Que fingimento é esse?

Vejo as pessoas vociferarem contra os nordestinos que garantiram a vitória da presidente Dilma Rousseff. Garantir renda para quem sempre foi preterido no desenvolvimento deveria ser motivo de princípio e de orgulho para um bom brasileiro. Tanto faz o partido.

Não sendo petista, e sim tucano, com ficha orgulhosamente assinada por Franco Montoro, Mário Covas, José Serra e FHC, sinto-me à vontade para constatar que essa onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país.

É ingênuo quem acha que poderia ter acontecido com qualquer presidente. Com bandalheiras vastamente maiores, nunca a Polícia Federal teria tido autonomia para prender corruptos cujos tentáculos levam ao próprio governo.

Votei pelo fim de um longo ciclo do PT, porque Dilma e o partido dela enfiaram os pés pelas mãos em termos de postura, aceite do sistema corrupto e políticas econômicas.

Mas Dilma agora lidera a todos nós, e preside o país num momento de muito orgulho e esperança. Deixemos de ser hipócritas e reconheçamos que estamos a andar à frente, e velozmente, neste quesito.

A coisa não para na Petrobras. Há dezenas de outras estatais com esqueletos parecidos no armário. É raro ganhar uma concessão ou construir uma estrada sem os tentáculos sórdidos das empresas bandidas.

O que muitos não sabem é que é igualmente difícil vender para muitas montadoras e incontáveis multinacionais sem antes dar propina para o diretor de compras.

É lógico que a defesa desses executivos presos vão entrar novamente com habeas corpus, vários deles serão soltos, mas o susto e o passo à frente está dado. Daqui não se volta atrás como país.

A turma global que monitora a corrupção estima que 0,8% do PIB brasileiro é roubado. Esse número já foi de 3,1%, e estimam ter sido na casa de 5% há poucas décadas. O roubo está caindo, mas como a represa da Cantareira, em São Paulo, está a desnudar o volume barrento.

Boa parte sempre foi gasta com os partidos que se alugam por dinheiro vivo, e votos que são comprados no Congresso há décadas. E são os grandes partidos que os brasileiros reconduzem desde sempre.

Cada um de nós tem um dedão na lama. Afinal, quem de nós não aceitou um pagamento sem recibo para médico, deu uma cervejinha para um guarda ou passou escritura de casa por um valor menor?

Deixemos de cinismo. O antídoto contra esse veneno sistêmico é homeopático. Deixemos instalar o processo de cura, que é do país, e não de um partido.

O lodo desse veneno pode ser diluído, sim, com muita determinação e serenidade, e sem arroubos de vergonha ou repugnância cínicas. Não sejamos o volume morto, não permitamos que o barro triunfe novamente. Ninguém precisa ser alertado, cada de nós sabe o que precisa fazer em vez de resmungar.

RICARDO SEMLER, 55, empresário, é sócio da Semco Partners. Foi professor visitante da Harvard Law School e professor de MBA no MIT – Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA)

5 Comentários »

  1. […] tucano de alta plumagem, autor de Virando a própria mesa, saiu em defesa da Dilma afirmando que nunca se roubou tão pouco. A velha mídia não quis nem saber. Para proteger Eduardo CUnha, FHC/Brasif, José Tarja Preta […]

    Pingback por Juca Kfouri, para desespero do Aécio, não deixa o golpe virar pó | Ficha Corrida do GOLPE — 04/09/2016 @ 8:54 pm | Responder

  2. […] escreveu o Marcelo Semler, nunca se roubou tão pouco, mas o que importa é que isso propicia criminalizar o PT, caçar Lula e dar o golpe em Dilma. O […]

    Pingback por Pó, pará investigador! | Ficha Corrida — 26/06/2016 @ 9:13 am | Responder

  3. […] bem disse Ricardo Semler, se nunca se roubou tão pouco, porque tanta denúncia? Para atacar o governo que não quer transformar a Petrobras em […]

    Pingback por Petrobras no Pasquim de 1987 | Flávio Chaves — 27/12/2015 @ 12:08 am | Responder

  4. Li os três livros que Ricardo Semler escreveu e assisti a peça de teatro que escreveu (Xeque ou Mate, salvo engano, com Raul Cortez). Li o livro virando a própria mesa umas 5 vezes e o outro você está louco umas três. Embrulhando o peixe li uma vez só. Os artigos na folha (que deu origem a embrulhando o peixe) eu li muitos. A coerência e ousadia sempre foram sua marca. Ele costuma falar do que entende e sempre com um olhar inovador. Tem prestígio internacional e nacional, não é qualquer voz que está falando o que fala. Acho que é um bom momento para deixarmos o partidarismo de lado e ver as coisas com uma visão mais ampla. Interessante que comungo bem com suas ideias. As eleições foram feitas da forma que sempre foi então não dá para querer mudar o jogo depois de terminado. Não dá prá fazer como determinados times que caem e sobem na caneta, é preciso baixar a bola coloca-la no campo e jogar prá valer. Acho que Semler está fazendo uma boa proposta de entendimento. Que tal quem nunca roubou nada passar a cuidar daquilo que deveria ser realmente público. Eu tenho as mãos limpas e a consciência principalmente. Obrigado. Moacir

    Comentário por Moacir Gomes — 25/11/2014 @ 11:32 am | Responder

  5. […] Há três diferenças  básicas em relação aos governos anteriores, como bem notou Ricardo Semler com seu artigo, na Folha de Hoje, “Nunca se roubou tão pouco”. […]

    Pingback por Corrupção empresarial | Ficha Corrida — 21/11/2014 @ 9:08 am | Responder


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