Ficha Corrida

11/11/2014

Vidas Secas

Fatalidade é nascer no deserto. Em São Paulo, vender a SABESP para fazer caixa e deixar que o tempo decide se haverá ou não água não é fatalidade. Há muita coisa a explicar porque, depois de mais de 20 anos de gestão do PSDB, não houve um mínimo de investimento para remediar a situação. Privatizar a companhia de fornecimento de um bem essencial, em que a lógica do lucro se sobrepõe ao interesse público, dá nisso. E tudo poderia ser diferença se não houvesse uma manipulação obscena da velha mídia paulista. Se o interesse público se sobrepusesse ao interesse político-partidário, talvez as vítimas da crise d’água pudessem ter construído reservatórios, perfurado poços artesianos. Se a poluição é uma das causas, por que a velha mídia paulista e seus finanCIAdores ideológicos combateram a construção de ciclovias e o uso preferencial de transporte público (BRTs) em substituição ao transporte particular, de carros?!

O que antes acontecia no Nordeste, agora acontece em São Paulo. Com uma diferença. O governo federal, contra tudo e todos do Sul/Sudeste, está construindo um aqueduto para transpor o São Francisco e levar água aos nordestinos da Caatinga. Além disso, distribuiu centenas de milhares de cisternas. A solução, passadas as eleições, foi Alckmin ir a Dilma e pedir R$ 3,5 bilhões. Esse é o tal de choque de gestão do PSDB: privatizar o lucro e socializar os prejuízos.

O que fizeram os sucessivos governos do PSDB em São Paulo para evitar uma situação como esta? PRIVATIZARAM A SABESP!

Banho de caneca, filas na madrugada e até roubo de água: como é viver na seca

Renata Mendonça Enviada da BBC Brasil a Itu (SP)

  • 7 novembro 2014

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"É desumano. Chegou num ponto que a gente começou a ver situações inacreditáveis. Uma pessoa chegou na bica com uma arma e falou pro pessoal: ‘passa a água!’ Olha a inversão de valores que a gente tem."

Cenas como a descrita acima assustaram Victor Terraz, morador de Itu (102 km de São Paulo), a cidade mais afetada pela seca que assola o Estado de São Paulo. Assim como os outros 163 mil ituanos, ele tem sofrido com a falta de água na região, que já está há nove meses em racionamento.

A última vez que Victor e sua esposa Silvia tiveram água correndo pelas torneiras foi no dia 8 de setembro. De lá para cá, quase 60 dias se passaram e eles se viram obrigados a alterar suas tarefas diárias mais básicas para se adaptarem à "vida na seca".

Moradores na caixa d'água em Itu / Crédito: BBC Brasil Idosos, adultos e crianças: moradores de todas as idades buscam água para suprir a seca em Itu

"Começamos a tomar banho de caneca, dar descarga era só uma vez a cada três dias, a louça ficava mofando na pia porque não tinha água para lavar", contou Victor à BBC Brasil.

"Eu saio do trabalho e vou direto para a faculdade. Chego em casa às 23h e é nessa hora que eu consigo sair para ir na bica pegar água. Só que lá você passa uma, duas, às vezes três horas na fila para encher um galão. E no dia seguinte às 6h tem que estar de pé."

Ao entrar no apartamento localizado no Parque Industrial, um dos bairros em situação mais crítica em Itu, ele se desculpa: "Por favor, não repare a sujeira aqui em casa." Pela casa estavam espalhados galões, baldes e potes, mostrando que o jeito é armazenar água onde for possível.

No banheiro, baldes e bacias ocupam o lugar do box, um pote de sorvete virou a fonte de água para lavar as mãos e o rosto, e o vaso sanitário vive fechado para amenizar o mau cheiro. "Passei produto, Bom Ar, mas não tem muito jeito, o cheiro é esse mesmo, porque não tem descarga há meses, é só balde", lamenta Silvia.

Leia mais: Na cidade sem água, contas continuam chegando; entenda o ‘caos’ em Itu

Silvia e Victor / Crédito: BBC Brasil Silvia e Victor não recebem água em casa há dois meses

‘Calamidade’

O taxista Luiz Carlos da Costa também sentiu na pele o problema da seca em Itu. Depois de 20 dias sem abastecimento, ele chegou à conclusão de que "sem água, você perde a dignidade."

"Fiquei dois dias sem tomar banho porque não tinha água. Minha casa ficou imunda, num estado de calamidade", conta.

Para amenizar o problema, ele ia buscar água na bica do bairro enquanto tentava solicitar um caminhão pipa para a empresa que administra o abastecimento de água em Itu.

"Liguei várias vezes na Águas de Itu, ficava uma hora esperando só para ser atendido. Pedi para eles mandarem o caminhão, até me prontifiquei a ficar aqui esperando, mas só veio um nesse domingo, depois que eu já tinha comprado 2.500 litros de água."

A Águas de Itu é uma empresa privada que tem a concessão da prefeitura para o abastecimento de água da cidade. Em meio à crise, a companhia está disponibilizando caminhões pipa para levar água a residências, escolas, hospitais e prédios públicos. São cerca de 34 a 38 caminhões pipa por dia, segundo a empresa.

Filas na madrugada / Crédito: Divulgação Na falta de água, moradores fazem fila até de madrugada para abastecer galões nas bicas

Mas os caminhões viraram alvo de ‘ataques’ da população. No desespero da falta de água, alguns moradores chegaram a fazer emboscadas para conter os caminhões da empresa antes que eles chegassem ao seu destino.

"Aqui na rua, o caminhão foi passar só 1h30 da manhã, porque ele senão ele é atacado", explica Luiz Carlos.

"Os caminhões sofrem retaliações, teve um motorista de um deles que foi espancado, tudo isso por causa da briga pela água. Agora os caminhões que entram na cidade são escoltados pela guarda municipal para não dar problema", conta Victor.

Leia mais: Conheça soluções para a crise da água em 6 cidades do mundo

Conflitos

Buscando água nas bicas e caixas d’água espalhadas pela cidade, Luiz Carlos já viu de tudo. "A situação lá é desesperadora", resume.

"As filas são enormes, todo lugar que tem um poço, uma caixa, você tinha que ficar horas na fila e era uma briga, uma desavença pra ter água, pra encher um galão", conta.

Além das bicas, a prefeitura colocou algumas caixas d’água em bairros da cidade para que a população tivesse mais lugares para se abastecer.

"Não tem organização, é briga atrás de briga, não tem controle nenhum. Às vezes você está esperando, e o cara põe uma mangueira na torneira e vai encher quatro caixas de 1.000 litros no carro dele. Aí você discute, briga, mas ele também não tem culpa", relata Victor.

Garrafas de água / Crédito: BBC Brasil Para driblar a seca, moradores juntam todos os tipos de recipiente que possa armazenar água

A água virou tamanha raridade em Itu que, segundo relatos, passou a ser motivo até para roubo. Victor contou que já houve caso de assalto à mão armada na bica – não para roubar o carro ou a carteira, mas sim o galão de água dos primeiros da fila.

"Eu vi idosos correndo atrás de caminhão de água, eu chorei…nunca vi isso na minha vida", lamentou Luiz Carlos.

Leia mais: Maior crise hídrica de São Paulo expõe lentidão do governo e sistema frágil

Negócio

A escassez fez com que a água – e tudo relacionado a ela – virasse um ‘negócio’ lucrativo em Itu. Os preços de garrafas e galões de água mineral subiram no supermercado e, fora dele, os valores são ainda mais inflacionados.

Um caminhão pipa com 15 mil litros de água pode custar entre R$ 800 e R$ 1.500 em Itu. O preço dele fora do período de escassez é cerca de R$ 400.

Um dos produtos mais procurados pelo ituano hoje em dia para armazenar água no quintal, a caixa d’água, também sofreu um superfaturamento na cidade – uma de 1.000 litros, que custaria entre R$ 350 e R$ 400, pode sair por R$ 500 ou mais. A bomba d’água também ficou mais cara.

Morais, vendedor de galões / Crédito: BBC Brasil Morais decidiu fazer dinheiro vendendo galões nas bicas de Itu

Muitos vendem galões de plástico perto das bicas da cidade. Um deles, identificado apenas como Morais, contou que "o menor, de 20 litros, custa R$ 20…esse maior, de 50 litros, é R$ 100". Isso sem a água, que "a pessoa tem que encher aqui na bica."

Morais começa o serviço às 5h e termina às 18h. Segundo ele, dá para vender uma média de 30 galões de 50 litros por dia.

Mesmo com o negócio lucrativo, ele torce para que as chuvas voltem e acabem com a seca na cidade. "Também tive que buscar água na roça."

Banho de caneca, filas na madrugada e até roubo de água: como é viver na seca – BBC Brasil

Na cidade sem água, contas continuam chegando; entenda o ‘caos’ em Itu

Renata Mendonça Enviada da BBC Brasil a Itu (SP)

  • 7 novembro 2014

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Em Itu, a cidade mais seca de São Paulo – a 102 km da capital -, água na torneira é uma raridade. Moradores têm se virado comprando água ou abastecendo suas casas enchendo galões nas bicas espalhadas pela cidade. A conta de água, no entanto, ainda chega alta para alguns ituanos.

Thiago Ferreira, por exemplo, está há 45 dias sem uma gota na torneira. Suas duas últimas contas, porém, chegaram com cobranças dobradas.

"Não tem água nenhuma. Eu costumava pagar R$ 23, agora chegaram essas contas de R$ 57, R$ 63. Aí eu vim aqui reclamar, mas eles disseram que eu tenho que pagar. Vou fazer o quê?", disse à BBC Brasil.

Conta de água / Crédito: BBC Gabriel recebeu conta de R$ 63, mas não tem água em casa

A reportagem contatou a empresa Águas de Itu, empresa privada que tem a concessão da prefeitura para o abastecimento de água da cidade, que reconheceu estar tendo alguns problemas com cobranças indevidas.

"Na época de estiagem, as pessoas não se dão conta que na realidade elas estão gastando muito mais do que no tempo normal. Isso acontece porque elas reservam mais. E essa água ela utiliza", explica Maurício Camilo, coordenador de sistema operacional da Águas de Itu à BBC.

"Mas todas as contas anormais passam pelo financeiro. Então liga no 0800 para abrir solicitação de atendimento ou indo nas lojas e levando essa situação. Todos os casos são revistos."

Leia mais: Banho de caneca, filas na madrugada e até roubo de água: como é viver na seca

Gastos

Sem água na torneira, a alternativa encontrada pelos moradores tem sido comprar água. No condomínio Villa Verde, o síndico Mário Vanini conta que já gastou R$ 75 mil em caminhões pipa para abastecer os apartamentos dos 500 moradores desde fevereiro.

"Não recebemos água da rede há 28 dias. Mas nossa conta que era de R$ 5 mil agora está na faixa dos R$ 7 mil. Estamos comprando caminhões desde que começou o racionamento, já gastamos R$ 75 mil reais. Os moradores pagam uma taxa a mais de R$ 150 reais só de água", conta.

Mas os que não têm condição financeira de comprar água, tentam se virar como podem. Dona Rita, de 85 anos, mora com a filha, que fez um empréstimo para suprir os gastos com água.

"Minha filha gastou quase R$ 400 na caixa (d’água). Com mais os 1.000 litros de água que ela comprou, ficou em mais de R$ 500. Ela que fez um empréstimo pra pagar, porque eu sou pensionista, o que eu ganho não dá pra nada", lamenta.

Caos

Itu historicamente sofre com a falta de água todos os anos, mas em geral os racionamentos costumavam durar apenas os meses do inverno no meio do ano.

"Nós nos preparamos para uma estiagem de 30, 60, até 90 dias que é a estiagem que historicamente nós vivenciamos. Os investimentos foram feitos nessa ordem, o que nós não esperávamos, e aí não é só Itu, é uma seca prolongada como essa", disse Maurício Camilo.

Em meio ao caos na cidade, alguns tentam achar os culpados pela situação. Os moradores se revoltaram com a prefeitura, fizeram protestos em frente à Câmara dos Vereadores e alguns deles chegaram a atacar o comitê de campanha do deputado federal eleito Herculano Passos (PSD), que foi prefeito de Itu de 2005 a 2012 e é visto como ‘culpado’ pela situação por muitos ituanos.*

Protesto contra a crise da água em Itu / Crédito: Divulgação Moradores sofrem e protestam a falta de água em Itu; contas continuam chegando

A Águas de Itu também foi alvo de retaliações – os caminhões pipa da empresa que distribuíam água na cidade sofreram ataques de moradores.

Questionada pela reportagem sobre o que levou Itu a essa situação, a companhia citou a estiagem histórica e disse que, por conta dela, "todo o Estado precisará rever o planejamento com relação a água."

"Foi a pior estiagem dos últimos 100 anos. Itu sofre mais com essa situação pelas características do município de ter seus mananciais que nascem e morrem no município. Não temos nenhum rio intermunicipal. Tem que chover para que nós possamos ter a recuperação desses mananciais", explicou Maurício Camilo.

Leia mais: Conheça soluções para a crise da água em 6 cidades do mundo

Justificativas

Para o prefeito Antonio Tuíze (PSD) erros de administrações passadas contribuíram para a situação em que a cidade se encontra hoje.

"Por muitos anos, nós tivemos erros no direcionamento do abastecimento público na cidade, não é problema meu. Eu estou aqui há um ano e 10 meses e estou lutando para trazer investimentos", disse em entrevista no último final de semana ao jornal local Periscópio.

Obra de desassoreamento / Crédito: Divulgação Desassoreamento da Represa Fubaleiro – uma das obras para amenizar a falta de água

Para tentar administrar o problema na cidade, a prefeitura criou um Comitê de Gestão, com a participação de secretários municipais, de vereadores, da empresa Águas de Itu e da Associação dos Engenheiros. Esse comitê faz reuniões todas as manhãs para avaliar a situação do dia anterior e pensar em novas ações para o dia seguinte.

Dele saiu a ideia de distribuir caixas d’água em alguns pontos da cidade para aumentar os pontos de distribuição de água para a população. Foi de lá também que veio a ideia das duas obras recentes que Itu começou a fazer para amenizar o problema da seca, a captação de água dos ribeirões Mombaça e Pau D’Alho, que ficam na região.

O governador Geraldo Alckimin (PSDB) também prometeu ajudar o município e já destinou R$ 2 milhões para amenizar a situação em Itu. "Foram liberados 20 caminhões-pipa e estamos mandando também água da Sabesp, apesar de ser um serviço da prefeitura", anunciou o governador paulista.

Obra Mombaça / Crédito: BBC Brasil Obras para captação de água do Mombaça já começaram e estão previstas para terminar até janeiro

Chuvas

Nesta semana, Itu pode finalmente festejar a volta das chuvas na cidade. Na segunda-feira, no fim da tarde caiu um temporal que fez a alegria dos moradores.

Foram 40 milímetros de água caindo do céu – o equivalente ao que choveu em outubro inteiro -, que ajudaram a melhorar a situação dos reservatórios em Itu. Seriam necessários, porém, 300 milímetros até o fim do ano para a cidade rever o racionamento.

A chuva ‘abençoada’, no entanto, também causou estragos na cidade. Alguns pontos de alagamento foram registrados e, na Praça da Matriz – a principal da cidade -, uma rede de esgoto estourou, espalhando a sujeira acumulada pelas ruas. O cheiro forte fez comerciantes fecharem os negócios mais cedo e irem para casa.

"É comum você ter nas épocas de grande chuva os rompimentos de rede, o volume de água quando é grande tem alguns transtornos. Em todo momento quando tivermos chuvas fortes nós vamos ter problema, como nós tivemos problema quando não choveu", explicou Maurício Camilo.

*Procurado pela reportagem para comentar o problema da água em Itu, o deputado Herculano Passos não respondeu até o fechamento da reportagem. A prefeitura da cidade também não se manifestou.

Na cidade sem água, contas continuam chegando; entenda o ‘caos’ em Itu – BBC Brasil

2 Comentários »

  1. […] Fatalidade é nascer no deserto. Em São Paulo, vender a SABESP para fazer caixa e deixar que o tempo decide se haverá ou não água não é fatalidade. Há muita coisa a explicar porque, depois de mais d…  […]

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  2. […] Source: fichacorrida.wordpress.com […]

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