Ficha Corrida

02/01/2014

O veneno da Folha e o antídoto da Paul Krugman

Filed under: Economia,Financiadores Ideológicos,Paul Krugman — Gilmar Crestani @ 9:06 am
Tags: ,

Bolsa Familia x Bolsa EsmolaCompare-se, a seguir, o que o sábio vira-bosta da Folha diz a respeito do déficit público (“algo em torno de 2%”) e o que o Nobel de Economia, Paul Krugman escreve a respeito dos limites do déficit exigidos pelo Tea Party & grupos mafiomidiáticos dos EUA: “marca dos 90% se tornou um verdadeiro evangelho”. Pois bem, para nossos colonistas a serviço da financeirização da economia, patrocinados pelo Itaú, 2% é um risco incalculável. Krugman mostra, mas abaixo, que mesmo o limite de 90% não significa nada, nem nos EUA nem em qualquer parte do mundo, a menos que seja banqueiro e acredite que a morte do paciente seja a solução para a doença.

Menos investimento público significa menos serviços e menos atividade econômica, cujo círculo vicioso se fecha com a consequência óbvia, menos arrecadação.

Raciocínio que até um burro como o Lula percebeu e por isso podemos festejar, ao contrário dos países onde a contenção de gastos como Espanha, Portugal, Grécia e França resultou no término do pagamento do décimo terceiro e um desemprego em torno de 26% na Espanha.

O que assusta nossos vira-latas é que as medidas adotadas a partir da marolinha de 2008 tem resultado em crescimento, embora baixo, da economia, e com pleno emprego.

A socialização dos lucros só tem um efeito colateral: ódio de classe.

A inveja talvez ainda seja o pior sentimento que um ser humano tem, e ele se manifesta no Brasil em todos os que vituperam contra programas destinados aos mais necessitados. E estes são todos aqueles que atacam o Bolsa Família mas silenciam diante dos subsídios, perdões de dívidas, parcelamentos no longo prazo, isenções fiscais e empréstimos a fundo perdido, todos destinados a quem já dispõe de boa condição de vida.

VINICIUS TORRES FREIRE

A única notícia de janeiro

Governo pode mudar a cara do ano com única decisão importante do mês: sua meta de gastos

O ANO DAS notícias econômicas agendadas não começa antes de fevereiro, no que mais interessa ao Brasil. Até lá, a única grande novidade, que pode fazer diferença para o ano inteiro, é o plano de gastos do governo federal para 2014 e sua atitude em relação aos gastos de Estados e municípios.

Pela lei orçamentária, o governo prometeu um superavit fiscal de apenas 1,1% do PIB, abaixo do provável 1,5% deste ano (que deve ser divulgado hoje). O superavit primário é a diferença entre receitas e despesas, excluídas aquelas com juros. Somando 1,1% do PIB de "poupança" do governo federal com 0,4% do PIB poupado por Estados e municípios (uma provável repetição do resultado de 2013, na melhor das hipóteses por ora), dá 1,5%.

Além de um resultado que não contém o crescimento da dívida pública (que seria algo em torno de 2%), o número implica uma despesa extra que não contribui também para o controle da inflação. Sem ajuda do governo, ou o Banco Central tem de elevar ainda mais os juros ou a evolução média dos preços vai continuar bordejando o limite de tolerância da inflação.

O governo prometeu divulgar sua meta até fevereiro. Precisa indicar como vai tratar com Estados e municípios, que dentro de certos limites têm autonomia, mas podem extrapolar essas balizas com a ajuda de empréstimos e outras mãozinhas do governo, como em 2013.

O Banco Central do Brasil toma sua primeira decisão sobre juros no dia 15 de janeiro. Além de já ter indicado que por ora não vai apertar mais o freio dos juros, esperando para ver o que acontece ao longo de 2014, o BC não terá informação relevante disponível até meados do mês.

O BC dos Estados Unidos tem reunião apenas nos dias 28 e 29 de janeiro (de onde pode sair informação relevante para o destino do preço do dólar no Brasil). A primeira pesquisa de inflação cheia a respeito de 2014 sai apenas dia 7 de fevereiro. O PIB de 2013 sai no final de fevereiro.

O governo poderia preparar o terreno para o ano divulgando logo uma meta fiscal factível, cooperativa, e dar sinais de que vai limitar a capacidade de Estados e municípios saírem da linha. Coisa modesta, mas um modo de vacinar o país contra os riscos do ano, relativos à mudança da política monetária nos EUA e aos tumultos gerados por qualquer eleição.

Seria animador ter também logo um plano de privatização (concessão) de ferrovias e portos, mas o governo teima com um modelo ruim, inseguro e confuso. Espera-se que tenha aprendido alguma coisa com as concessões bem-sucedidas de rodovias: sem forçar a mão, estimulando a concorrência, conseguiu preços menores do que insistia em tabelar. Leilões animados e precoces não salvariam o ano econômico, mas ajudariam a passar uma borracha em 2013.

Por fim, a gente precisa ver como o Banco Central vai operar sua nova linha de intervenção no câmbio. Até agora, foi um trabalho prudente. Evitou acidentes, mas talvez tenha segurado demais o preço de um dólar ainda muito barato para as condições econômicas de um país com um deficit externo que quis namorar os 4% do PIB e com uma indústria estagnada faz mais de cinco anos.

vinit@uol.com.br

 

Falta um Paul Krugman no Brasil

Postado por Juremir em 30 de dezembro de 2013Uncategorized

Paul Krugman, prêmio Nobel de economia (isso mesmo!), passou mais um ano surrando os neoliberais, chamando direita de direita e mostrando que se pode ler o mundo de outra maneira. Seu último artigo, republicado pela Folha de S. Paulo, merece ser difundido com uma bandeira contra os clichês lacerdinhas. Eis um intelectual que pensar com autonomia.

*

Em 2012, o presidente Barack Obama, sempre esperançoso de que a razão venha a prevalecer, previu que sua reeleição serviria para enfim amainar a febre que toma o Partido Republicano. Isso não aconteceu.

Mas a intransigência da direita não foi o único problema a afligir o organismo político norte-americano em 2012. Também estávamos sofrendo de febre fiscal: a insistência, por virtualmente toda a elite política e mídia, em que os déficit orçamentários eram nosso mais urgente e importante problema econômico, ainda que o governo federal continuasse capaz de realizar captação a juros incrivelmente baixos. Em lugar de falar sobre desemprego em massa e a disparada na desigualdade, Washington mantinha foco quase exclusivo sobre a suposta necessidade de reduzir fortemente os gastos (o que agravaria a crise de emprego) e cortar selvagemente a rede de seguridade social (o que agravaria a desigualdade).

Por isso, a boa nova é que esta febre, ao contrário da febre do Tea Party, parece enfim ter amainado.

É verdade que os resmungões quanto ao déficit continuam ativos, e continuam a receber tratamento adulatório de parte de algumas organizações noticiosas. Como apontou recentemente a revista “Columbia Journalism Review”, muitos repórteres mantêm o hábito de “tratar o corte do déficit como um objetivo não ideológico, enquanto retratam outros pontos de vista como partidários ou parciais”. Mas os resmungões já não são capazes de definir os limites do que constitui “opinião respeitável”. Por exemplo, quando os suspeitos usuais recentemente lançaram um ataque contra a senadora Elizabeth Warren devido ao seu apelo por uma expansão da previdência social, o resultado claro da ação foi conferir maior estatura à senadora.

O que mudou? Eu sugeriria que ao menos quatro coisas aconteceram para desacreditar a ideologia do corte de déficit.

Primeiro, a premissa política por trás do “centrismo” – a de que os republicanos moderados estariam dispostos a se unir aos democratas em um grande acordo que combinaria aumentos de impostos e cortes de gastos – se tornou insustentável. Não existem republicanos moderados. Os debates que existem entre a ala Tea Party e a ala não Tea Party do partido se relacionam a estratégia política, e não a questões substantivas.

Segundo, a combinação entre uma alta na arrecadação e corte nos gastos fez com que a captação federal despencasse. Isso na verdade faz mal à economia, porque cortes prematuros de déficit danificam a nossa economia ainda enfraquecida – de fato, é provável que estivéssemos perto do pleno emprego, a esta altura, não fosse a austeridade fiscal sem precedentes adotada nos três últimos anos. Mas a queda do déficit iluminou a tática do medo, que tem papel tão central na causa “centrista”. Nem mesmo as projeções de longo prazo sobre o déficit federal parecem mais tão alarmantes.

Falando em usar o medo para fins táticos, 2013 foi o ano em que os jornalistas e o público enfim se cansaram dos meninos que gritam “é o lobo”. Houve um momento em que as audiências ouviam com imensa atenção as previsões de calamidade fiscal – por exemplo quando Erskine Bowles e Alan Simpson, co-presidentes da comissão criada por Obama para estudar o problema da dívida pública, alertaram que uma crise fiscal severa era provável dentro de dois anos. Mas isso aconteceu quase três anos atrás.

Por fim, ao longo de 2013, os argumentos intelectuais em favor do pânico quanto à dívida desabaram. Normalmente, debates técnicos entre economistas têm relativamente pouco impacto sobre o mundo político, porque os políticos quase sempre conseguem encontrar especialistas – ou, em muitos casos, “especialistas” – dispostos a lhes dizer o que eles desejam ouvir. Mas o que aconteceu no ano que estamos deixando para trás pode ser a exceção.

Para aqueles que não prestaram atenção ou esqueceram, por diversos anos os resmungões quanto ao déficit, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, dependeram fortemente de um estudo conduzido por dois respeitados economistas, Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, segundo o qual a dívida pública tem efeito negativo severo sobre o crescimento quando excede os 90% do Produto Interno Bruto (PIB). Desde o começo, muitos economistas expressaram ceticismo quanto a essa alegação. Parecia imediatamente óbvio, acima de tudo, que era o crescimento lento que causava dívida alta, e não o contrário – como certamente foi o caso, por exemplo, no Japão e na Itália. Mas nos círculos políticos, a marca dos 90% se tornou um verdadeiro evangelho.

Mas Thomas Herndon, um aluno de pós-graduação na Universidade de Massachusetts, decidiu recalcular os dados usados para o estudo e constatou que o aparente despenhadeiro de crescimento que surgia quando a dívida passava dos 90% do PIB desaparecia com a correção de um pequeno erro e o acréscimo de alguns fatores de cálculo adicionais.

A verdade é que os resmungões quanto ao déficit não chegaram à sua posição com base em provas estatísticas. Como diz o velho ditado, eles usaram o trabalho de Reinhart e Rogoff do mesmo jeito que um bêbado usa um poste – para amparo, e não iluminação. E então perderam subitamente esse amparo, e com ele a capacidade de fingir que sua agenda ideológica é justificada por necessidades econômicas.

Mas será que isso ainda importa? Seria possível alegar que não – que os resmungões quanto ao déficit perderam o controle do diálogo mas continuamos a fazer coisas terríveis, como o corte dos benefícios aos desempregados em longo prazo. No entanto, ainda que a política continue terrível, estamos enfim começando a falar de questões reais, como a desigualdade, e não de uma falsa crise fiscal. E isso certamente representa um passo na direção certa.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

5 Comentários »

  1. […] Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, explica de onde vem a energia que move as idéias da direita. Se verificarmos bem, no Brasil os […]

    Pingback por Ideias da direita são movidas à pólvora | MANHAS & MANHÃS — 30/10/2014 @ 12:46 pm | Responder

  2. […] Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, explica de onde vem a energia que move as idéias da direita. Se verificarmos bem, no Brasil os […]

    Pingback por Ideias da direita são movidas à pólvora | Ficha Corrida — 30/10/2014 @ 9:28 am | Responder

  3. […] poucos tem acesso e, destes, menos ainda leem Paul Krugman. Um dos economistas mais lúcidos, prêmio Nobel, que, em linguagem simples, traduz de forma […]

    Pingback por A desigualdade impulsionada pelos governos | Ficha Corrida — 26/04/2014 @ 12:01 pm | Responder

  4. […] economista e Nobel, Paul Krugman, fez um diagnóstico completo e impiedoso a respeito do tipo de serviço que jornais e neoliberais […]

    Pingback por Folha exige para o Brasil receita europeia | Ficha Corrida — 05/01/2014 @ 10:32 am | Responder

  5. […] See on fichacorrida.wordpress.com […]

    Pingback por O veneno da Folha e o antídoto da Paul Krugman | EVS NOTÍCIAS. — 02/01/2014 @ 7:28 pm | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: