Ficha Corrida

10/11/2013

Quando a ironia depende de explicação

Filed under: Falha de São Paulo,Folha de São Paulo,FolhaLeka — Gilmar Crestani @ 10:09 am
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O brilhante cronista não precisava ter ido longe para comprovar a máxima do Millôr: “No Brasil, a ironia precisa ser explicada”. O veículo em que trabalha conseguiu na justiça a censura ao Blog “Falha de São Paulo” que ironizava o discurso catastrofista da Folha.  Prata, que é um bom cronista, esqueceu de um detalhe que faz toda diferença na ironia. O local, o contexto. Como se diz, não se fala de corda em casa de enforcado. Na Folha de Eliane Cantanhêde, de Demétrio Magnoli, de Reinaldo Azevedo, e outros do mesmo quilate, o conteúdo que Prata vendia por ironia é prática corrente. Afinal que veículo publicou como verdadeira uma Ficha Falsa da Dilma? Quem ousou chamar a ditadura de ditabranda? E não era ironia, não…

As ideias caricatas da crônica “Guinada à Direita”, que eram para ser de ironia, foram absorvidas como uma guinada do autor à direita. Se tivesse sido publicada na Carta Capital ou na Carta Maior teria mais chances, mas em veículos em que aquele discurso é água corrente, diária e  ininterrupta, foi acolhido como mais um nas hostes que tenta ironizar. E, para bem da verdade, não é só na Folha que o escracho de direita é moeda corrente. Todos os veículos coordenados pelo Instituto Millenium produzem o escracho como fato do cotidiano. Infelizmente, o nível de seu público toma tudo como verdade, luz a ser seguida. Parodiando a citação do autor, a surpresa não é como pode isso, tomar ironia como posição, ter acontecido. A surpresa que remete à pergunta é onde o autor vive que ainda não tinha lido este tipo de discurso nas páginas da Folha, Veja, Globo, Estadão Zero Hora (Percival Puggina)? Isto é, porque não acontece mais vezes?!

Ainda falta, para melhor diagnosticar o que se passa nos meios mafiomidiáticos, distinguir sarcasmo de ironia. O sarcasmo é direto e diminui o outro para causar constrangimento. Na maioria das vezes o sarcasmo contém inveja, despeito, rancor, que busca diminuir o interlocutor.  A ironia é mais sutil e diminui a si mesmo para projetar no outro os defeitos que diz ter, para fazer ver o oposto do que diz. O brutucu que quer ser engraçado, comete sarcasmo. O inteligente, que tem senso de humor, ironiza para faz ver, de maneira sutil, o absurdo ou para provocar desconforto intelectual em virtude de preconceitos geralmente culturais. É sempre uma boa sacada, que eleva o interlocutor.

ANTONIO PRATA

Abaixo, a ironia

Volto ao tema para que não haja riscos de reforçar ideias que tentei ridicularizar

Domingo passado, escrevi aqui uma crônica em que satirizava o discurso mais raivoso da direita brasileira. Muita gente não entendeu: alguns se chocaram pensando que eu de fato acreditava que o problema do país era a suposta supremacia de negros, homossexuais, feministas, índios e o "poderosíssimo lobby dos antropólogos"; outros me chocaram, cumprimentando-me pela coragem (!) de apontar os verdadeiros culpados por nosso atraso. Volto ao tema para que não haja risco algum de eu estar reforçando as ideias nefastas que tentei ridicularizar.

Uma sátira é uma caricatura. Escolhemos certos traços de uma obra e produzimos outra, exagerando tais características. Narizes aparecem desproporcionalmente grandes, orelhas podem ser maiores que a cabeça, um bigode talvez chegue até o chão. É como se puséssemos uma lupa nos defeitos do original, a fim de expô-los.

Na crônica de domingo, achei que havia carregado o bastante nas tintas retrógradas para que a sátira ficasse evidente. Descrevi um quadro que, pensava eu, só poderia ser pintado por um paranoico delirante. No país bisonho do meu texto, José Maria Marin e o pastor Marco Feliciano eram de esquerda, os brancos estavam escanteados por negros, que ocupavam a direção das empresas, as mesas do Fasano e os assentos de primeira classe dos aviões. O Brasil (segundo maior exportador de soja do mundo) não era, na crônica, uma potência agrícola, por culpa das reservas indígenas. No fim, me levantava contra "as bichas" e "o crioléu". O texto não estava suficientemente descolado da realidade para que todos percebessem a impossibilidade de ser literal?

Talvez, infelizmente, não: fui menos grosseiro, violento e delirante na sátira do que muitos têm sido a sério. Poucos dias antes da crônica ser publicada, um vereador afirmou em discurso que os mendigos deveriam virar "ração pra peixe". Com esse pano de fundo, ser "apenas" racista, machista, homo e demofóbico pode não soar absurdo. Quem se chocou achou o personagem equivocado, mas plausível. Quem me cumprimentou achou minha "análise" perfeitamente coerente. Ora, só dá para concordar com o texto se você acreditar que as cotas criaram uma elite negra e oprimiram os brancos, acabando com a "meritocracia que reinava por estes costados desde a chegada de Cabral", se achar que os 20 anos de ditadura foram "20 anos de paz" e que é legítimo e bem-vindo levantar-se contra "as bichas" e "o crioléu".

Em "Hanna e Suas Irmãs", do Woody Allen, Lee, uma das irmãs, é casada com um intelectual rabugento chamado Frederick. Lá pelas tantas, o personagem assiste a um documentário sobre Auschwitz, em que o narrador indaga "como isso foi possível?". Frederick bufa e resmunga: "A pergunta não é essa! Do jeito que as pessoas são, a pergunta é: como não acontece mais vezes?". Esta semana, diante dos e-mails elogiosos que recebi, a fala me voltou algumas vezes à memória: "Como não acontece mais vezes?". Vontade é o que não falta, por aí –e, infelizmente, não estou sendo irônico.

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1 Comentário »

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