Ficha Corrida

09/09/2012

Fora da RBS, Mario Marcos virou jornalista

Filed under: Carlos Marighella,Mario Marcos,Robert Fisk — Gilmar Crestani @ 10:46 am

Fica provado que trabalhar na RBS faz mal à liberdade de expressão e o ambiente cerceia a criatividade. Como mostrava uma velha charge do Coojornal, o colonista da RBS tem toda liberdade de expressar a vontade do patrão.

“Vou contar um segredo: seu tio é Carlos Marighella”

Publicado em setembro 8, 2012por mariomarcos

O britânico de Kent Robert Fisk, 66 anos, uma das minhas admirações no jornalismo, costuma deixar claro nos seus textos, livros e colunas que é preciso sempre olhar por cima do muro para enxergar a verdade também do outro lado. Correspondente internacional do jornal The Independent, talvez o maior conhecedor da história e dos conflitos do Oriente Médio, Fisk mergulha nas razões de todos os lados. Não se limita a ouvir e acreditar nas versões oficiais, desconfia dos donos da verdade e rejeita aceitar os rótulos que principalmente os ocidentais costumam colar nos árabes, quase sempre sem distinções. Ele costuma angariar antipatias por esta atitude, por contrariar poderosos e denunciar mentiras (como aquela das armas de destruição em massa para justificar a invasão de um país) e, especialmente, pela irresistível vocação firmada em décadas de bom jornalismo de agir quase sempre com ceticismo – até que os fatos comprovem as informações recebidas.

De uns tempos para cá, felizmente, escritores, jornalistas, investigadores e cineastas brasileiros têm seguido o manual e olhado por cima do muro para preencher algumas lacunas de nossa história recente.

A exemplo de Fisk, são pessoas que não aceitam que a anistia signifique esquecer tudo, não se limitam a ouvir a palavra oficial, nem a repetir rótulos que ouviram ao longo das últimas décadas, especialmente pelos fiéis defensores da ditadura.

Investigam, buscam informações, apresentam o personagem e deixam que o público faça seu julgamento – livremente, sem censuras, como deve ser em uma democracia.

Isa Grinspum Ferraz (foto), uma cineasta nascida no Recife há 54 anos, fez assim. Foi atrás das peças para montar a vida de um dos personagens da história brasileira. O resultado é o documentário Marighella, em exibição nos cinemas, sobre o líder da Ação Libertadora Nacional, preso inúmeras vezes, torturado e por fim morto em uma rua de São Paulo pelos policiais do delegado Fleury. Era então o inimigo público número 1 da ditadura. Sobrinha de Carlos Marighella, Isa partiu de uma carta escrita pelo próprio tio para mostrar aos brasileiros quem foi realmente este militante que, ao contrário da imagem que construíram dele, não lutou apenas contra a ditadura militar. Ele fez parte de movimentos sociais desde as primeiras décadas do século passado, enfrentou o Estado Novo, foi preso, proscrito, viveu escondido e, de acordo com suas convicções, lutou quando houve o golpe de 1964.

Ao decidir pesquisar sobre a vida de seu tio, Isa recebeu das mãos de Clara, mulher do líder da ALN, uma pasta com os raros documentos preservados de Marighella (foto). Com base neles e em uma série de depoimentos de antigos companheiros de lutas, parceiros, pesquisadores, historiadores, jornalistas, Isa produziu um documentário valioso para se entender uma parte da história brasileira – e para se perceber como certas informações, repetidas como verdade por décadas, não resistem a uma rápida análise.

Filho de um italiano e de uma negra filha de escravos de uma tribo africana famosa por não aceitar a dominação passivamente, baiano de Salvador, herdou da mãe o DNA da rebeldia. Defendia, desde os anos 30, um modelo de sociedade tipicamente brasileiro. Comunista desde sempre, foi candidato e se elegeu deputado da Assembleia Constituinte de 1946, rejeitava sistemas políticos importados e achava que um programa social tipicamente brasileiro, para ser autêntico, tinha de incluir futebol, samba e carnaval – uma de suas paixões (era capaz de se fantasiar e desfilar pelas ruas mesmo quando era perseguido).

Sem imagens filmadas do tio, Isa edita seu filme a partir de fotos, filmes antigos de época, reportagens de jornais e as entrevistas com gente que conviveu com Marighella. Um dos depoimentos é do filho do primeiro casamento do líder da ALN, que só foi conhecer o pai aos sete anos.

– Ele chegou, me pegou no colo e foi como se nunca tivéssemos deixado de nos ver – recorda o filho, sem esconder a emoção.

Na narração do filme, Isa recorda que o tio chegava tarde e saía cedo, fazia raras visitas aos familiares, nunca dizia onde ia, lia muito e tinha paixão por poesia. Deixou várias delas no arquivo preservado por Clara e nas cartas escritas aos familiares. Uma delas remete à criatividade dos tempos de estudante. Durante uma prova de física, o então estudante Marighella explicou todos os detalhes e funções de um espelho, de raios a ângulos, de reflexos a curvas, em forma de poesia.

– Um dia, faz 40 anos, recorda Isa no início de seu filme, eu estava indo com meu pai para a escola e ele disse: ‘Vou te contar um segredo: seu tio Carlos é o Carlos Marighella’. Tio Carlos era casado com tia Clara. Eles estavam sempre aparecendo e desaparecendo de casa. Era carinhoso, brincalhão, escrevia poemas pra gente. Nunca tinha associado o rosto dele aos cartazes de ‘Procura-se’ espalhados pela cidade.

Isa fez como Robert Fisk. Não tenta convencer ninguém, apenas fala sobre um personagem que nem ela conhecia bem. Pesquisa, reconstitui, investiga. Ninguém precisa concordar com o que verá na tela, nem temer deixar o cinema simpatizando com o personagem, mas ao menos terá a chance de conhecer o outro lado da história para que eventuais julgamentos sejam mais justos.

Enfim, Isa leva seu público a olhar por cima do muro.

http://mariomarcos.wordpress.com/

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