Ficha Corrida

20/09/2010

Para que tu saibas

Filed under: Cultura — Gilmar Crestani @ 9:57 pm
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Minha homenagem ao Gaúcho. De antigamente. Aquele acampado no Parque da Harmonia vive um momento de fantasia, como o carnaval. Como no evento do samba, o gauchismo de agora é um evento de aglomeramento, sem qualquer relação com o passado muito menos com o presente. Mas como se trata de algo para se vestir a fantasia, que venham as bombachas, os vestidos de prenda que parecem ter saído de um quadrilha caipira.

Pa usted, gauchos argentinos, José Larralde!

ou

E também Para que tu saibas, gaúcho de araque!

PARA QUE TU SAIBAS
versão de Marco Aurélio Campos
Para ti meu patrício
Simplesmente para ti,
que sabe, ou pensa saber tudo.
Para ti! Especialmente…
que gosta de ir a uma festa campeira.
Que é uma festa gaúcha,
das mais gloriosas festas do meu Pago,
tipicamente crioula,
ou simplesmente uma doma,
como tu a chamas,
e que de doma parceiro,
não tem nada, porque para quem sabe,
o nome é gineteada.

Pois bem…
Para ti. Para ti e para tantos outros,
que para testar um gaúcho, como prova
querem fazê-lo sempre usando um laço,
para que piale, retorcendo a eguada,
ou no corcovear baldoso, do aporreado,
que foi acostumado a plantar quem gineteia.

Para ti meu patrício,
Para que de uma vez por todas,
aprendas, ao ficar sabendo,
depois que eu rasquetear tua ignorância,
esclarecendo-a carinhosamente,
para falar-te apenas de coisas que conheço,
sem repetir jamais o que aprendi,
pelo que ouvi dizer,
para que sintas patrício irmão,
que não destrilho
para não sofrer depois, com comentários.

Vou te falar a respeito, apenas do meu tempo,
e nunca do tempo que ele, que dobrou meu velho.
Patrício amigo!
Entre outros, existe lá pelo meu Pago,
o domador de potros, o que laça,
o que piala, o que monta e as vezes gineteia.

O diarista, o mensal, o que tropeia,
o que semeia e colhe, compra e vende,
o que cura, o que marca, o que banha
O que num toso de mestre, grava o nome.
E o que com tentos de ñandutí tece esperança.

Gente terrunha,
que o próprio tempo jamais apagará,
porque são homens, esteios do meu Pago.

E há homens por lá,
que não chimarroneiam
ou comem carne como a maioria,
porque lhes faz mui mal,
tal qual a ti.

Existe o alambrador,
que sem saber, talvez montar num flete,
domou a pá, a alavanca, o espichador,
faz mil maneias, cerca califórnias e sangra.
“Esse também é gaúcho e crioulo companheiro!”

Moreja lá, o monteador,
que se faz lenheira, e que reponta na tropa lenhadeira,
novilhada de coronilhas, angicos e paus-ferro,
montando um pingo cortador,
com cabo, que é conhecido mais como machado,
“Esse também é gaúcho e crioulo companheiro!”

Outros existem! que agüentam mil corcovos,
e que no toso de uma velga bem tirada,
deixam suas marcas com letras de sementes
por essas noites frias, fratoreadas.
“Esses também são gaúchos e crioulos companheiro!”

Há o que junta jujos,
o que ordenha, o caseiro!
o que esquila, o aguateiro, o que insemina.
Há o ferreiro, que a marreta e bigorna,
ferra e cuida os fletes,
Há os que amam, os que apreendem e os que ensinam.
“Esses também são gaúchos e crioulos companheiro!”

Por ofício ou profissão,
posso te citar milhares,
mas virão sempre trançados com o crioulismo.
Desiste de procurar a diferença!
Unifica! É lei de patriotismo!
Por isso! Por isso te peço que compreendas,
porque certos julgamentos que tu fazes, nos doem tanto…

Eu não pialo!
Nunca pialei,
Mas lavrei, bati enxada e ondenhei mil vezes.
“Eu sou tão gaúcho ou mais, do que o que monta.”

Quero que saibas patrício,
que não digo o que digo,
por ser professor
ou me julgar melhor,
mas por ter vivido um pouco,
e ter sofrido muito,
calejando a alma em troca de experiência.

Ente de finalmente,
que é tão gaúcho,
o homem que trabalha na terra
desta terra ou deste Pago,
quanto o que laça, piala, gineteia
ou que escreve um livro com crioula consciência.

Orgulho gaúcho de sul-americano.
Orgulho mais lindo por ser brasileiro.
Orgulho macho de honra e decência.

Por isso companheiro, entende
que para saber,
te falta o que é prudência.
E para aprender, te sobra…
Se tiveres vergonha.

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