Ficha Corrida

11/05/2010

De blog em blog

Filed under: RBS — Gilmar Crestani @ 2:23 am
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Parodiando a música do João de Almeida Neto, andam falando por aí, de Blog em Blog, o que pouca gente sabe… porque o Grupo RBS faz questão de esconder.
A relação carnal, da origem e crescimento, do Grupo RBS com a ditadura. É sempre assim, como no futebol, o jogador que levanta o braço para o juiz é sempre aquele que comete a falta ou, no gol do adversário, dá condições tirando-o do impedimento. Assim faz o Grupo RBS e seus funcionários. A principal infratora da liberdade de imprensa sempre que pega com a boca na butija parte para o ataque, defendendo o liberdade de imprensa que não pratica. Por isso, republico aqui o que saiu no Diário Gauche, do Cristóvão Feil, com o acréscimo do email do Keyser:

O jornal oficial da ditadura!

O jornal oficial da ditadura!

Penso que o jornal eletrônico Sul 21 – a ser lançado segunda-feira próxima, dia 10 – pode muito bem desempenhar o papel que o diário Última Hora cumpriu durante o governo Brizola no Rio Grande do Sul. Claro, guardadas as peculiaridades históricas que nos separam do final da década de 50 e início da década de 60. A própria administração pública estadual era distinta, o governo Brizola foi pródigo em reformas e também logrou reunir uma oposição reacionária que se fez muito forte, tanto que esta conseguiu eleger o governador Ildo Meneghetti, um dos mais repressivos da história sulina, e não por acaso, um dos mais medíocres.
Hoje, nem sabemos se a esquerda volta ao Piratini, tamanho é o embotamento cívico, cultural e econômico que pesa como chumbo sobre o estado e seu povo. Estamos no ponto mais rebaixado da nossa história como ente federado, até mesmo o tucano José Serra, ontem, não conseguiu disfarçar que pensa o mesmo sobre o RS.
O jornal Última Hora foi fundado pelo grande jornalista Samuel Wainer (foto), no início editado só no Rio, depois foi para São Paulo e mais adiante, Porto Alegre. Era um jornal vibrante, moderno e de grandes tiragens diárias. A redação era formada por jornalistas talentosos, muitos identificados com o trabalhismo radicalizado do governador Leonel Brizola, outros tantos com o Partido Comunista Brasileiro, o velho Partidão, entre os quais João Aveline.
Última Hora “morreu” – pode-se dizer assim – nos dias seguintes ao golpe de 1º de abril de 1964. Até o dia 5 de abril o jornal circulou com a mesma linha editorial combativa, de esquerda, mobilizador e informativo. Daí em diante, passou para uma linha de “neutralidade simpática” em relação ao golpe civil-militar, que veio para embrutecer o País por mais de duas décadas. UH havia circulado sem interrupção, praticamente, por quatro anos e dois meses em Porto Alegre, perfazendo exatas 1270 edições, conforme conta o jornalista, já falecido, Jefferson Barros, em seu livro “Golpe mata jornal” (1999), da Já Editora.
Amanhã, eu vou contar aqui como a Última Hora se transformou (se degradou) em Zero Hora, agora um jornal a serviço do regime ditatorial, e como um sócio minoritário de ZH, Maurício Sirotsky Sobrinho, junto com Ary de Carvalho, Ricardo Eichler, Otto Hoffmeister e o professor Dante de Laytano, conseguiu se constituir no dono singular do carro-chefe da RBS.
Quando do golpe de abril de 1964, o diretor de Última Hora, Ary de Carvalho, queria manter o jornal com a mesma equipe, estrutura e linha editorial. Samuel Wainer, que já estava refugiado numa embaixada e de lá ainda mandava no seu patrimônio, tomou a firme decisão de fechar o jornal. Uma nova empresa foi criada, com quatro sócios e igual número de cotas: Ary de Carvalho, Ricardo Eichler, Otto Hoffmeister e o professor Dante “Em Bagé as casas eram altas, porém brancas” de Laytano.

Logo adiante, Ary de Carvalho tornou-se único dono do jornal, uma vez que foi beneficiado com um empréstimo do Bradesco, de propriedade de seu amigo Amador Aguiar.

Ary relatou o caso ao repórter Jefferson Barros, assim: “O jornal cresceu. Comprei aquele terreno na avenida Ipiranga; estava construindo o prédio e me endividei junto ao BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul). Eu saia muito com o Maurício (Maurício Sirotsky Sobrinho), éramos muito boêmios. Numa madrugada, eu perguntei para ele: por que você não entra de sócio de Zero Hora? Ele respondeu: ‘Pô, a essa hora da manhã!’. Passaram-se alguns dias, eu lembrei o assunto e nós começamos. Eu disse: entra aí com 50%; esse talvez tenha sido o meu erro… Aí vendi 50% do jornal para o Maurício. Já estava com o prédio pela metade. Fui a Chicago e compramos a máquina de off set, mas estava sem fôlego financeiro, embora o jornal crescesse. Um dia o Maurício me propôs comprar mais 10%. Não aceitei. Disse que se vendesse só mais uma ação ele já seria o dono do jornal. Ele tentou, uma, duas, três vezes. Como não conseguiu me disse: ‘Não vou avalizar mais nada’. Se você não avalizar, respondi, você sabe o que vai acontecer: vamos subir a Ladeira (rua General Câmara, onde estão os cartórios de protesto de títulos). Aguentei seis meses, reformando títulos. Até que chegou um dia que eu atrasei um título na Crefisul. A Crefisul era o agente financeiro que tinha financiado a máquima. Com a valorização cambial a máquina já custava três vezes mais do que quando foi financiada. Quando fiz o empréstimo, o Aron Birmann (presidente da Crefisul) sugeriu que além da máquina, como garantia eu desse as ações da empresa. Aceitei, caucionei minhas ações. Quando houve o atraso da prestação fui intimado a pagar em 72 horas. Era uma combinação do Birmann com o Maurício, que era o avalista. Só me restou o acordo, e as ações foram parar nas mãos do Maurício, pelo preço nominal das cotas”.
“Ary não esquece a data: dia 21 de abril de 1970” – anota Jefferson Barros no seu livro “Golpe mata jornal”.
Perguntado se não procurou outra solução, Ary de Carvalho disse que procurou o “doutor” Breno Caldas, dono do Correio do Povo, principal diário do RS, então. “Tentei vender a Zero Hora para a Caldas Júnior. Mas o ‘doutor’ Breno tinha aquela coisa monárquica, a pretensão de ser o Estadão gaúcho. Não pensou 24 horas e recusou a oferta”, disse Ary.
O resto da história vocês sabem: a família Sirotsky fez de Zero Hora um jornal a serviço da ditadura civil-militar. Como recompensa, foi beneficiada com concessões públicas de rádios e TVs em todo o Rio Grande do Sul. Modernizaram suas empresas no âmbito tecnológico e nos métodos de gestão, mas a linha editorial permaneceu a mesma desde que foi criada há 40 anos, protagonista de um jornalismo diversionista, conservador, de má qualidade, fomentador das piores práticas sociais e sustentador ideológico dos governos mais medíocres.

Email do Keyser:
Kayser disse…
Sobre o assunto, encaminho um e-mail que recebi há algum tempo:
“HISTÓRIA DA COMPRA DA TV GAÚCHA (RBS) SEGUNDO BRENO CALDAS, DIRETOR DO CORREIO DO POVO
Para comemorar os 50 anos da RBS nada melhor do que ouvirmos a voz de Breno Caldas, o falecido proprietário do Correio do Povo e rádio Guaíba na entrevista que concedeu a José A. Pinheiro Machado, publicada no livro “Breno Caldas- Meio Século de Correio do Povo”.editora L&PM, 1987. Breno falava da famosa encampação da rádio Guaíba pelo Brizola em 1961 para transmissào da Campanha da Legalidade.
Breno Caldas- Não, no início era só a Guaíba. Só a Guaíba foi requisitada, ou então “encampada”, como disse o Brizola. As outras estações ficaram no ora veja. Aquele fato político da Legalidade teve uma repercussão enorme, as pessoas acompanhavam cada passo, cada lance, a audiência era expressiva. Aí a Rádio Gaúcha resolveu aderir ao negócio, pediu para entrar …e entrou. Depois de tudo, aconteceu um fato curioso. Um dia apareceu lá na Guaíba um diretor do Banco do Rio Grande e queria me dar dinheiro: disse que estava lá por ordem do governador para fornecer recursos, os recursos que eu precisasse, a título de indenização pela ocupação da rádio. Eu disse que não precisava, que não queria ….ele ficou surpreso: “Mas o que é que eu vou dizer ao governador?” “Diga que eu não quero dinheiro. No fim da ocupação, eu vou mandar uma conta, uma conta detalhada, correspondente exatamente às horas que ele ocupou a rádio.” E, realmente, quando terminou o negócio,nós fizemos lá as contas de quantas horas a rádio ficou no ar a serviço da Legalidade e deu uma coisa ridícula…25 contos de réis … Mandei a conta e eles pagaram. O nosso Maurício Sobrinho também resolveu mandar a conta da Gaúcha, embora a Gaúcha não tivesse sido requisitada ou encampada, mas sim tivesse aderido à Legalidade. Naquela época, o Maurício tinha comprado a TV Gaúcha do Balvé.. e lhe estava devendo 250 contos pelo período da Legalidade.. Então, na prática, o governo do Estado pagou a aquisição da TV Gaúcha…
A direçào da RBS nunca desmentiu nem explicou as palavras de Breno Caldas. “

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