Ficha Corrida

06/01/2014

Nove dias em Havana

Filed under: Cuba,Cubanos — Gilmar Crestani @ 10:44 pm
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cuba

É longo mas vale a pena ser lido.

Nove dias em Havana, por zegomes

seg, 06/01/2014 – 14:46 – Atualizado em 06/01/2014 – 17:10

Nove dias em Havana

Por zegomes

Nove dias comendo lagosta quase de graça.

De como, em Cuba, lembrei-me de Pinheirinho.

Eu e meus amigos fomos a Cuba. Estivemos zanzando em Havana de 1º a 09 de novembro/2013. Era uma velha ideia, minha e de meu amigo Salém e sua esposa Alice, sempre adiada. Em fevereiro/2013 disse pra meu parceiro Cássio: Vamos a Cuba em novembro, depois que você terminar a obra? Cássio, que vive no mundo da construção civil e das coisas práticas, respondeu-me: Onde fica isso? Vamos.

PREPARATIVOS PARA A VIAGEM

Decididos a viajar em novembro, passei a pesquisar as passagens na internet. A Cubana de Aviación sai de São Paulo em voo direto para Havana. Copa Airlines sai de várias cidades centro-norte e sul-americanas, entre elas Brasília, em voo internacional com conexão na Cidade do Panamá (Humm… desovam multidões de viajantes no aeroporto do Panamá, que é um imenso shopping, será se fizeram isso de propósito, será? As cucarachas não são bem vindas, mas o dinheirinho delas sim, recolhido lá longe, será se é isso?). Escolhi a Copa pela comodidade de sair direto de casa sem ter de dar a volta por São Paulo. Mais do que na hora de se quebrar esse monopólio das partidas internacionais serem centralizadas no Rio e São Paulo.

Compradas as passagens, comuniquei meus amigos Salém e Alice em Goiânia: Eu e Cássio já compramos as passagens para 01º de novembro. Vamos ou vão adiar mais uma vez? Responderam: Então agora é assim, vem comunicar já com as passagens compradas… É assim, sim, respondi, o sistema agora, como alguns dizem, é estilo Coréia do Norte (Dizem, às vezes, também  sistema Cuba, mas nessa situação, é melhor dizer sistema Coréia do Norte, afinal estamos namorando Cuba). Estamos avisando com oito meses de antecedência, não podem reclamar.

Dia seguinte ligaram: podemos convidar também o Cario e a Hilda? Claro.

Salém, Cario e eu somos de uma mesma turma do curso de medicina da Universidade Federal de Goiás, nos formamos no início dos anos 80, há mais de trinta anos. Depois disso nunca mais tinha visto o Cario, que se especializou em anestesiologia e foi trabalhar no interior de Goiás. Com Salém a relação continuou próxima, mesmo quando ele passou uns anos na França, se especializando em psiquiatria com foco na recuperação de dependentes químicos. Não é só um grande especialista, mas um ser humano raro. Feliz de quem é seu paciente e feliz de quem (como eu), teve a sorte de cruzar com ele e adquirir sua amizade. É a pessoa mais rica em “alteridade” que conheço. Quê? Alguém não conhece essa palavra chiquérrima? Bem, melhor é perguntar se alguém conhece, pois certo mesmo é que só os filósofos a usam com desenvoltura. Fui apresentado a ela recentemente, num texto escrito por um amigo filósofo em um Blog. À medida que eu lia o texto ia me parecendo que a palavra era usada no sentido mais ou menos assim de “ver o lado do outro”, “compreender a situação do outro”. Mas não acreditei que palavra tão… tão… como se pode dizer, tão refinada, pudesse significar coisinha tão trivial. Mas era isso mesmo. Fui ao dicionário de filosofia e constatei. Um dos significados da palavra é esse: ver o lado do outro, se por na condição do outro. Então posso dizer: Salém é a alteridade em pessoa. É a melhor definição que se pode dar dele.

Estava formada a nossa equipe de viagem: Salém, Cario, suas esposas Alice e Hilda, Cássio e eu.   “Éramos Seis”  rumo a Cuba.

O QUE A INTERNET E OS GUIAS RECOMENDAM

Após a pesquisa das passagens, passamos a buscar outras informações. Alice é boa pesquisadora. A internet e os guias Lonely Planet Cuba e Guia Visual Publifolha Cuba foram nossas fontes.

Descobrimos:

Poderíamos nos hospedar em hotéis ou em casas de família, com diferenças grandes de preço. Escolhemos a Casa de Agustina no centro da cidade. Quem quiser fazer contato com ela é só jogar no Google: Casa de Agustina Centro Habana calle Neptuno con Industria e localizar seu e-mail. Ela também tem página no Facebook.   Salém e Alice optaram por ficar lá os nove dias. Eu e Cássio quisemos passar dois dias em um hotel cinco estrelas, o Hotel Nacional. Cario e Hilda, talvez por serem também empresários do agronegócio, cheios da alta grana, com fazenda e granjas no rico sudoeste de Goiás, optaram somente por hotel. Moradores do interior, não se comunicaram adequadamente conosco. Escolheram pela internet um hotel na Praça da Revolução e se hospedaram muito longe de nós e dos buchichos da cidade. Arrependeram-se. Tínhamos reservado para eles uma casa de família vizinha à de Dona Agustina, por indicação desta, já que ela dispõe apenas de dois quartos. Tivemos de desmarcar. Eles justificaram a preferência por hotel pelo fato de “fumarem muito e soltarem muito pum”. Ficariam constrangidos em casa de família.

Deveríamos providenciar a Tarjeta de Turista, uma espécie de visto para Cuba. Pode ser emitida no próprio check in pela Copa Airlines ou em Consulados de Cuba. Eu e Cássio fomos à Embaixada em Brasília. Cuba emite essa Tarjeta em uma folha à parte, sem carimbos no passaporte, justamente para evitar que o turista tenha problemas depois, sofra discriminação, em eventual viagem aos EUA.

Deveríamos ter um certificado internacional de vacina contra febre amarela. Cuba não exige, mas o Panamá sim, e como se passa duas horas, tanto na ida como na volta, no Shopping do Panamá (aquilo é um shopping, não um aeroporto), é necessário levar, pois pode ser exigido.

Deveríamos levar sempre algum papel higiênico. Verdade. Fora dos hotéis é um produto não disponível em locais públicos. Nem mesmo nos banheiros do Aeroporto José Marti, limpíssimos, modernos, encontra-se esse importante produto.

Aconselhável levar euros em vez de dólar. Verdade. Cuba impõe uma sobretaxa cambial sobre o dólar e com isso perde-se um pouco.

É necessário um seguro saúde para o período da viagem. O Cônsul cubano em Brasília nos disse que poderíamos fazer isso no aeroporto em Havana, mas a Copa Airlines asseverou-nos que sem ele não embarcaríamos em Brasília, pois era exigido no check in. Então o adquirimos aqui mesmo. Ao final, em nenhum momento da viagem alguém nos pediu comprovante de seguro saúde ou de vacina contra febre amarela. Nem no Shopping do Panamá, nem em Cuba.

CHEGADA A HAVANA

Após pegarmos nossa bagagem na esteira, nos dirigimos à saída do aeroporto. Conosco não houve revista de bagagens. No portão principal, tanto à direita como à esquerda há balcões onde você pode trocar o seu dinheiro por Cucs. Há filas. Aqui a primeira surpresa linguística: fila, em Cuba, se chama fila mesmo e não cola, como consta nos manuais de conversação em espanhol.

Ao trocar o dinheiro, deve-se fazer um cálculo aproximado de quanto se pretende gastar no país. No momento ainda há o sistema de dois câmbios, embora isso deva mudar logo, segundo os planos da área econômica do governo e as mudanças planejadas pela equipe de Raul Castro. Há os Pesos Conversíveis (Cucs) para estrangeiros (1 Cuc = 2,5 Reais) e os  Pesos Cubanos ou Moeda Nacional (1 Real = 60 Pesos Cubanos) que são a moeda de troca entre os cubanos.

Se o turista trocar dinheiro demais em Cucs e não gastá-los todos em Cuba, no retorno, no aeroporto, há um local, no segundo andar, onde pode trocar de volta por dólares ou euros. Não precisamos fazer isso porque administramos bem as trocas cambiais de modo que nossos últimos Cucs utilizamos para comprar algumas coisas no próprio aeroporto, na volta: Rum Santiago de Cuba Añejo, Rum Havana Club, camisetas, artesanato, etc.

Sempre importante lembrar-se de reservar 25 Cucs para pagar a taxa de embarque no retorno.  

Após o câmbio, a busca por transporte para o centro de Havana. Aqui a segunda surpresa linguística: ônibus, em Cuba, se chama ômnibus mesmo, com um “m” a mais, e não autobus, como está nos manuais de espanhol. Diz-se também popularmente guagua, com o mesmo sentido de ônibus.

Deve-se esquecer os ônibus, há abundância de táxis (automóveis, vans, etc.). Combina-se o preço antes, informando o endereço (dirección) aonde se vai. Pagamos 30 Cucs por uma van, mais 5 de gorjeta. Não esqueça que o nome de gorjeta em espanhol é propina. Portanto, se disser “una propina para usted” receberá em retorno um largo sorriso de agradecimento e não uma cara encabulada!  Com propina e tudo, saiu a R$ 12,50 por pessoa a viagem até o centro de Havana, esquina da rua Indústria com Neptuno, onde fica o apartamento de Dona Agustina. Muito barato, pela distância. Antes, tínhamos deixado Cario e Hilda em seu hotel na Praça da Revolução (longe, longe de tudo, longe do mar! Uma infeliz escolha dos dois).

Após nos acomodarmos, Dona Agustina começou a nos dar alguns conselhos sobre a vida na Cidade de Havana (Isso não teríamos em nenhum hotel, Salém tem razão). Disse: Aqui em Havana não precisam ter medo de serem assaltados com arma de fogo ou facas. Esse tipo de violência não temos aqui (percebia-se um pouco de orgulho em sua voz), mas devem tomar cuidado para não ostentar correntes de ouro ou abrir carteiras recheadas de dinheiro em público. Pode acontecer de um “negrito” (Até em Cuba os negros são os culpados!) aparecer e zás – Fazia um movimento com a mão de quem estava arrancando de supetão a corrente do pescoço.

Dona Agustina jura que em Cuba ninguém passa fome, todos têm acesso à saúde e educação e todos (essa é mais raro de ouvir falar) têm acesso à moradia. Quando o morador não é dono do imóvel, paga um aluguel baixíssimo ao governo. Ela nos dizia isso num contexto de recomendação a que não ficássemos dando nosso dinheiro a qualquer um que aparecesse (jinetero): Aqui em Cuba ninguém passa fome (portanto não fiquem caindo na lábia dos jineteros e dando dinheiro para eles).

Afirmou também que é calúnia dizer que Cuba é comunista e que é uma ditadura. Nada disso. E que são chamados de gusanos (vermes) esses cubanos que se dedicam, a partir dos Estados Unidos, a difamar a pátria. Eles não têm amor à pátria.  É um doce, a velhinha.

PASSEANDO EM HAVANA. CUIDADO: OS JINETEROS!!!

Andar nas ruas de Havana exige apenas um pequeno cuidado: se você não gosta de assédio, não peça informações. Consulte o seu guia, solitário, e vá em frente. Será incomodado apenas pelos taxistas dos bicitáxis e cocotáxis que a cada instante oferecem uma corrida a 3 Cucs ou 05 Cucs, dependendo se eles interpretam a sua figura como mais ou menos endinheirado.

Agora, se você abordar alguém para pedir uma informação pode correr o risco, ainda mais se estiver em área turística (pois nem tudo na cidade, lógico, é zona turística), de se dirigir justamente a um jinetero. Ele não só dará as informações como fará questão de te acompanhar e se torna um grude (para quem está solitário e quer companhia pode ser maravilhoso).

Os Guias nos passam a impressão de que “jinetero” são aqueles vendedores molestos, sempre presentes em locais turísticos, que oferecem de tudo e são insistentes. Em Cuba jinetero é isso mesmo (quer levá-lo “ao melhor” restaurante, quer buscar prá você “os melhores” charutos, etc.), mas… Como o jinetero oferece todo tipo de serviços, pode oferecer também os serviços sexuais, e parece que o sentido da palavra está cada vez mais resvalando para “prostituto”.  Se usado no feminino, “jinetera”, o sentido é 100% prostituta. Garoto de programa é chamado de “pinguero”, mas, cada vez mais, “jinetero” se aproxima do sentido de “pinguero”.  Por isso, é uma palavra a ser usada com cuidado.

Tudo bem. Em Salvador os vendedores assediam para vender fitinhas do Senhor do Bomfim. Em Havana os jineteros querem nos arrastar para pequenas armadilhas de consumo.

Saímos para almoçar. Nós seis. Pesquisamos no Guia e fomos a um restaurante na Rua Campanário. Estava fechado. Havia algumas pessoas sentadas nas calçadas, em frente a seus prédios (muito comum, em Centro Habana. Como aquelas pessoas de cidades pequenas, do interior, que se postam em suas cadeiras de balanço, à tardezinha, vendo a vida passar e fofocando). Disseram-nos: Está fechado porque não pagaram os impostos. De repente, do nada, apareceram em nossa frente dois rapazes. Ambos negros. Um, muito bonito e falante, Pablo. Outro, quase gordinho, meio estrábico, tímido, Michel.

O falante Pablo, com verve de malandro carioca das antigas, disse que ia nos levar a um restaurante especial e pedia que nós os seguíssemos, já andando. Vira esquina e vira esquina e nós atrás de Pablo, eu parei e disse para os meus companheiros: Se quiserem, vamos embora. Pode ser alguma armadilha e eu não quero ser o culpado. Então Salém (sempre Salém, compreensivo com as “classes populares”) disse: Que pode nos acontecer? São 13hs, a rua está cheia de gente, vamos lá ver em que isso vai dar. Continuamos.

Pablo, enfim, entrou em um Paladar, que é um restaurante particular. Eu dei cinco Cucs para cada um e disse adeus, na esperança de que fossem embora. Nos sentamos. Comida e bebida caras. Os dois sentaram juntos, porque Alice convidara. Falei baixinho pra Alice que eu já tinha dado a gorjeta deles e que devia ser uma coisa ou outra: ou a gorjeta ou a comida. Mas falei por falar, dando o caso por encerrado, porque ninguém seria grosseiro a ponto de escorraçá-los da mesa. Para minha surpresa, Alice tomou a gorjeta deles. E os dois almoçaram conosco.

Percebemos que os jineteros usam uma tática espertinha. Eles levam os turistas para bares ou restaurantes e recebem comissões desses locais. Cássio viu quando Pablo recebeu sua comissão do proprietário. Consequentemente as comidas e bebidas são mais caras.

Pablo e Michel são universitários. Estudam turismo na Universidade de Havana. Tão logo acabamos a refeição e estávamos ainda bebericando rum, Pablo se propôs a adquirir os melhores charutos para nós. Principiou uma negociação com Cario. Deleguei a função de negociador a Cássio.

Cássio se gaba de ser bom de catira. Não sei se essa palavra é nacional. Em Goiás e Minas ela é uma dança. Pelo menos de Goiás prá cima (Tocantins, Piauí, Maranhão) significa também negócio, rolo, gambira, troca-troca ou venda de coisas novas ou usadas entre particulares. Bem, Cássio Bom de Catira foi delegado por mim para negociar com o esperto Pablo algumas caixas de charutos Monte Cristo e Cohyba.   Só o fiz porque Cario estava junto, negociando os charutos dele, e entendia bem o espanhol. Acho que Cássio nunca tinha ouvido antes alguém falar espanhol, mas, pelo que ouvi de longe, os três se entenderam bem, negociando preços, descontos, etc. Quando chegamos em casa descobrimos, por Dona Agustina, que havíamos perdido 20 Cucs em cada caixa comprada. Ela tinha um sobrinho que fornecia a preços menores. Só Salém e Alice ainda não tinham comprado e se deram bem. Lamentações de nossa parte. Cássio, consternado em ter sido passado para trás e arranhado sua fama de catireiro que nunca sai perdendo, arrumou a desculpa de que não entendia bem o que Pablo falava. Pode ser, Cássio, mas seu desempenho me fez lembrar de Seu Percival, pai de Salém, que gosta de alertar sempre, em suas conversas: touro que sai de sua terra pode ter que virar vaca (em outras terras). Acho que ele diz isso para meter medo nos filhos e mantê-los em Goiás, sob suas asas. Velhinho esperto.

Pois é. Jinetero é isso. A maneira quase inocente da turma de Cuba se virar com esses turistas endinheirados, cheios de dólares, que aparecem por lá. Como Dona Agustina falou (e outros cubanos também nos confirmaram), sem navalhas, sem tiros. Meu amigo Salém, especialista em alteridade, como já sabemos, compreensivo com a situação do outro, pode falar: deixem o vendedor de fitinha em Salvador e o jinetero em Havana ganharem a vida deles. Já basta o que eles têm de suportar de turista mal-humorado e pão-duro!

AS SANTAS INOCENTES

Dois dias após o episódio Pablo, nós já havíamos descoberto que o lugar de comer e beber, para quem está em Centro Habana ou Habana Vieja, é o Restaurante Hanói.

Mas, as santas inocentes Alice e Hilda ainda não haviam aprendido a lição.

Cansados das andanças da manhã, Salém, Cássio e eu ficamos descansando em casa à tarde, após o almoço. Alice e Hilda saíram, arrastando Cario. Duas horas depois ligam para Dona Agustina: que nós devíamos ir urgente para onde estavam, que o músico Amaranthos, do grupo Buena Vista Social Club (sic) estava dando uma canja no bar, que à noite haveria show mas só pra quem já tinha ingresso, que era imperdível, etc. Fomos correndo. Quem há de perder uma canja do Buena Vista?

Chegando lá, foi fácil perceber o que estava acontecendo. Nossos colegas estavam numa mesa com um casal de universitários (Jineteros? Sim.). Estavam quase bêbados, todos. Os “universitários” pediam um mojito atrás do outro. Mojito a 6 Cucs  (15 reais). Os jovens cubanos eram especialmente adocicados, fazendo aquele estilo “você é endinheirado mas cheio de problemas, de solidão. Nós estamos aqui para contagiar você com nossa alegria”.

A conta aparentemente já ia longe. Pedi dois mojitos, para mim e Cássio. Horríveis. Faltava alguma coisa naquilo.

De repente apareceu uma terceira personagem na história. Uma moça de feições orientais estava recostada no balcão atrás de nossa mesa. Vi quando os “universitários” mandaram o garçom servir um mojito para “La China” (por nossa conta, lógico).

Para quem não sabe (como eu não sabia), no fim da escravidão em Cuba, no final do século XIX, a Casa Grande cubana, da mesma forma que a brasileira, teve a idéia de importar estrangeiros para o trabalho. Enquanto aqui os imigrantes foram europeus, em Cuba foram chineses. Por isso, a porcentagem da população de origem chinesa lá é relativamente grande. E comeram o pão que o diabo amassou.

La China vestia uma calça legging, justíssima. Recostava no balcão, empinava a bunda, requebrava um pouquinho e, por cima do ombro, olhava para trás, para Cássio.

Sabedor de como Cássio tem total obsessão por traseiros (não importa de quem) senti que a batalha, naquele momento, estava perdida. Olhei para ele: estava transfigurado.

THAT OLE DEVIL CALLED LOVE

Todos os amantes já passaram por isso (ah, confessem!), quando flagram o amor mirando uma pessoa bonita que passa, ou que está próxima, com o olhar cheio de desejo. As mulheres costumam arrancar os cabelos, ou aumentam suas visitas ao cabelereiro para se enfeitarem mais, algumas, mais dramáticas, falam em tomar veneno. Alguns homens pensam em pegar numa arma. Ninguém fica indiferente. Pode-se reagir educadamente, friamente, mas não com indiferença.

Tentei racionalizar. Tinha de sair imediatamente daquele local. Com ou sem Cássio. Primeiro, porque eu sabia que uma tragédia se aproximava: o valor daquela conta de bar. E sentia muita vontade de deixar as Santas Inocentes administrarem, sozinhas, a encrenca que elas criaram.  Segundo, mesmo deixando Cássio lá, em estado de transe, eu tinha certeza que nada ia se passar, a não ser um diminuto momento de ilusão. Raciocinei: La China certamente é puta, vai cobrar. Cássio não gosta de puta, nem porta dinheiro suficiente para bancá-la. Quando servia o exército, em Brasília, jovem e bonito, saiu com uma puta do Conic. Na prestação do serviço, a senhorita, apressada e mal-humorada, gritava: Anda rápido, desgraçado, rápido, tenho mais o que fazer. Cássio não conseguiu. Ficou traumatizado para sempre com essa classe.

Coloquei 20 Cucs na mão de Cássio (para pagar nossos mojitos) e falei baixinho: Vamos embora, isso aqui é uma armadilha…

Irritado por eu ter interrompido sua hipnose, Cássio foi grosso, falou alto, pra todos ouvirem: Prá você tudo é armadilha.

Era tudo que eu precisava. Fiz biquinho, fiz beicinho. Peguei o CD que acabara de comprar do Amaranthos (que nunca pertenceu ao Buena Vista, tenho certeza). Levantei-me e fui. Hilda ainda me alcançou na porta. Mostrei-me muito “magoado” por causa de La China.

As mulheres, nessas horas, são solidárias. As mulheres e os gays… São mestres na arte da chantagem emocional.  

Pena que não consegui forjar “una furtiva lacrima”, para dar mais realismo à tragicomédia romântica.

QUANDO AS MARGARIDAS FENECEM

Saí. Passei na Bodeguita del Medio, estava superlotada. Continuei até o calçadão da Baía de Havana e caminhei em direção ao Malecón –onde a Baía encontra o mar aberto do chamado Estreito da Flórida-.

No Malecón ficam os rapazes “de vida fácil”. Sabia disso. Cheguei até a pensar: se rolar, dou o troco em Cássio.

Caminhava lentamente, ainda no calçadão da Baía. Um homem passou por mim, cruzamos os olhares. Achei muito demorado o seu olhar sobre mim. Meu radar detector de situações perigosas, bem treinado num lugar chamado Brasil, disparou sinais.

Não olhei para trás.

De duas uma, pensei: Ou é um estudo prévio para um assalto, já que um turista desgarrado é uma presa perfeita. Ou é uma paquera –por dinheiro, claro-. Só um lunático, aos cinquenta e quatro anos, vai pensar que alguém baixa o seu olhar sobre ele pela sua simpatia ou sua beleza (perdida, ou pior, nunca possuída). Até as divas alcançam um ponto da vida em que veem, com tristeza, seu poder de sedução desmoronar. Jane Fonda falou, numa entrevista, que, após os cinquenta, se sentiu paulatinamente mais invisível. Betty Faria afirma que, a partir dos sessenta, aprendeu a valorizar quem sorri para ela. Formas poéticas para nos contarem que a idade e o tempo nos levam, de forma irremediável, para o vasto território da solidão.  

De repente alguém emparelhou comigo. Era o homem. Meu radar disparou sinais alucinadamente.  Estávamos no largo onde se encontram o calçadão da Baía com o Malecón. Muitas plantas. Ótimo lugar para um assalto atrás de um arbusto.

Ô meu deus, tenho certeza que vou ser assaltado. Como naquele domingo de 1996, quando, só eu sei o que passei, peguei um buzu em Copacabana, eu e um colega, para a rodoviária Novo Rio, pleno meio dia, para regressar a São Paulo, depois do feriado da semana santa. Só eu sei o que passei. Dona Agustina não falou a verdade, o homem vai me assaltar.

Porém não. Tudo paranoia. O cubano perguntou-me se, a partir de meu país –nem perguntou qual era-, eu não o ajudaria a importar medicamentos para sua filha doente. Compreendi, aliviado, que devia ser mais uma variante dos golpes ingênuos –sem revólver ou faca- praticados pelos cubanos chamados de jineteros. Havia lido alguma coisa sobre esse truque na internet.

Apressei o passo e disse, sem voltar-me: Cuba não necessita de que lhe mandem medicamentos ou médicos. Pelo contrário.

Ainda ouvi sua resposta, com um toque de raiva na voz: É claro que necessita, tu bem sabes do bloqueio.

Desisti de andar pelo Malecón, atravessei a rua e fui cair numa avenida, estilo boulevard, belíssima: o Passeio de Marti ou Passeio do Prado. Arcadas lindíssimas fazem um longo corredor.  Em ruínas, mas, mesmo assim, impressionantes.

Voltei pra casa. Contei a história da La China para Dona Agustina, que quase morre de tanto rir (da desgraça alheia). Tomei uns goles de rum Santiago de Cuba Añejo. Descansei um pouco das emoções. Dormi. Às oito e meia resolvi ir jantar no Restaurante Hanói.

Chegando lá fui recebido pelos gritos de meus companheiros. Estavam bêbados e cansados. Tinham se perdido no caminho para o Hanói. Não conseguiam encontrar o local. Alguns tiveram de mijar na rua. A conta chegara perto de 500 reais. La China pedira 50 Cucs (125 reais) para Cássio pelo programa. Pedi minha lagosta e meu daiquiri de goiaba. Todos me tratavam com alguma deferência. O que uma pequena chantagem emocional bem elaborada não provoca: As mulheres e os gays são mestres nessa arte.

MELHOR LOCALIZAÇÃO PARA SE HOSPEDAR

O melhor lugar para se hospedar em Havana é ao redor do Parque Central. Porque a partir daí dá para alcançar a pé a quase todos os objetivos turísticos (e não turísticos). O Parque Central não é um parque, mas uma praça. Fica ao lado do Capitólio, que é uma réplica (dizem que alguns metros maior) do de Washington.

De um lado do Parque sai a Calle Obispo que é a principal rua de Havana Velha, uma pequena artéria comercial. Ao final dela está a Plaza de Armas, onde há muitos bares e restaurantes, edifícios antigos da Havana colonial, uma feira permanente de livros usados e a Baía de Havana.

Do outro lado do Parque, na direção contrária, sai a Calle San Rafael que atravessa toda a região chamada de Centro Habana e vai terminar em Vedado, perto da Universidade de La Habana e do Hotel Nacional.

Ao redor do Parque Central ficam vários hotéis: O Hotel Inglaterra, o mais antigo de Havana; Hotel Telégrafo; Hotel NH Parque Central e Hotel Plaza. Uma quadra afastado fica o Hotel Sevilha.

Se a intenção é ficar em casa de família, pelo preço ou pela acolhida familiar, A Casa de Agustina, onde ficamos é localizada perto do Parque Central.

Grande roubada é ficar no bairro chique chamado Miramar porque é longe de tudo. Os hotéis de luxo que ficam em Vedado, como o Meliá, também ficam longe.

Carlo e Hilda reservaram, antes da viagem, um hotel na Praça da Revolução. Também é uma má escolha. É longe. Não existem atrações por perto.

Salém adorou ter ficado na casa de Dona Agustina, disse que foi a melhor coisa da viagem. Quando chegamos lá me decepcionei um pouco. Por e-mail ela me garantira que cada quarto tinha um banheiro. Não era verdade. Era um banheiro compartilhado para os dois quartos. Questionei. A velhinha se fez de desentendida. “Aca en Cuba las casas de baños son conpartidas…”. Salém só faltou me mandar calar a boca, com dó do aperto da velhinha, apavorada com a possibilidade de perder os hóspedes. Dizia: calma, calma, não se precipite. Ah, Salém, e sua alteridade!

Cássio e eu ficamos sete dias com Dona Agustina e dois dias no Hotel Nacional (cinco estrelas) como havíamos planejado.

Dona Agustina aluga dois quartos num pequeno apartamento. Camas boas, limpeza dez, com ar condicionado. Fica no quarto andar de um prédio com elevador (pré-revolução?) na esquina da Rua Indústria com Rua Neptuno. Essas ruas do centro de Havana são estreitas, dificilmente passaria por elas um ônibus, por exemplo. O transporte público é feito pelos chamados táxi-ruta, que são táxis lotação e funcionam como pequenos ônibus. De nossa janela ficávamos observando logo cedo esses automóveis passarem na Rua Neptuno, cada um mais lindo que os outros e antiqüíssimos (Quem sabe a idade daquelas coisas?) Fenomenal, como são lindos os automóveis antigos de Havana e de uma variedade enorme.  De vez em quando apareciam também uns Ladinhas (Lada soviético) feios, mas são minoria.

Outra cena constante e chamativa que tínhamos de nossa janela era a dos cachorros nos terraços dos prédios vizinhos. Parece que os donos saíam para trabalhar e eles ficavam nos terraços daqueles prédios quase em ruínas. Vimos, com o coração nas mãos, alguns pularem os parapeitos e, equilibrando-se perigosamente nas muretas, ficarem observando a rua lá embaixo.

A vastidão de prédios do Centro de Havana, todos em aparente ruína e caindo aos pedaços é impressionante. Cássio, com seu olhar de pedreiro e construtor comentou: Se não recuperarem esses prédios, em vinte anos estarão todos no chão. E essas cerâmicas e rebocos artesanais desgrudando das fachadas são um perigo para os passantes lá embaixo na rua.  Tive um calafrio de pavor. Um pedaço de barro desses, caindo de tão grande altura, se acerta alguém significa morte ou invalidez.

Esses prédios detonados estão apenas em uma região da cidade chamada de Centro Habana e Prado. Havana Velha, que é ligada a Centro Habana de um lado, é Patrimônio da Humanidade e é preservada. Vedado, que se liga a Centro Habana pelo outro lado, se parece com qualquer cidade brasileira, com ruas largas, arborização, alguns arranha-céus, casas bem conservadas. O espetáculo das ruínas é só em Centro Habana. 

Dona Agustina cobra a diária de 20 Cucs (cinqüenta reais) pelo quarto para duas pessoas. O café da manhã é à parte e custa 3 Cucs (7,5 reais): Uma xícara de café com leite (eu disse uma), um copo de suco de fruta natural, uma fruta, pão, manteiga, queijo e um pedaço de presunto frito ou ovo. O cardápio não muda, mas não é de todo ruim.

DE COMO PASSAR NOVE DIAS COMENDO LAGOSTA

Uma coisa intrigante nos restaurantes de Havana é a ausência de carne bovina nas opções das cartas de menu. Com exceção de um prato chamado “Ropa Vieja” que é uma espécie de carne de gado desfiada no arroz. Filet Mignon, picanha, etc. essas coisas são ausentes.   A possível resposta para o fato apareceu no Blog do Nassif, no post da estudante da Universidade Federal de Santa Catarina, que passou alguns meses em Cuba, em viagem oficial de estudo. Ela afirma que o gado bovino no país é reservado para a produção de leite (o leite das crianças?).

Em compensação, lagosta, camarão, pescados, porco e frango não faltam nos cardápios.

Após apanharmos um pouco com os jineteros, nos primeiros dias na cidade, aprendemos alguma coisa:

Lugar para tomar café, chá, leite, com bolos, pães, etc. é a Cafeteria Francesa. Fica no Parque Central, ao lado do Hotel Inglaterra.

O Restaurante Hanói oferece comida deliciosa, farta, barata. Um prato de lagosta –enorme- com arroz e outra guarnição custa 12 Cucs (30 reais). O mojito custa 1,5 Cucs (Na Bodeguita é 5 Cucs) e o daiquiri (maravilhoso) apenas 2 Cucs (No Floridita é 7 Cucs).  Fica na esquina da Rua Brasil com Bernaza, numa pracinha chamada Santo Cristo. A Rua Brasil é a que sai exatamente da frente do Capitólio.

Daiquiri é um drink internacional, conhecidíssimo. Eu, porém, nunca tinha nem visto nem provado. É uma espécie de vitamina de fruta na qual se mistura rum e gelo moído ou batido no liquidificador. Colocam tanto gelo que fica semelhante a um sorvete na taça. Vários sabores de frutas. O de goiaba do Restaurante Hanói ficou sendo o meu preferido. Simplesmente delicioso.

Para quem está em Vedado, o Restaurante La Roca, perto do Hotel Nacional, serve uma paella por 12 Cucs, com camarão, lagosta, frango e carne de porco. Dizem eles que é para duas pessoas, mas é para quatro, tal o tamanho da travessa de comida. Deliciosa. Cometi a bobagem de pedir um daiquiri de morango. Horrível. Parecia feito com ki suco. Não me animei a pedir um outro sabor para ver se os daiquiris do La Roca se salvavam. É sempre mais seguro pedir um sabor de fruta da época. Há muitas barracas e carrinhos de frutas nas ruas de Havana. Em nenhuma delas, nesse início de novembro de 2013, faltava banana, goiaba, limão, mamão ou abacaxi. E os melhores daiquiris do Hanói eram justamente os de goiaba, abacaxi e limão. Certamente feitos da polpa fresca. Onde os cubanos iriam encontrar morango fresco, fora de época, com essas dificuldades que eles sofrem para comerciar? Devem colocar algum xarope de morango na bebida. O resultado é triste. No Hanói, os garçons, mais sinceros, diziam que morango estava em falta. Zelam, com certeza, pela qualidade do seu daiquiri de dois Cucs, que eles afirmam, com orgulho, ser melhor que o do Floridita, de sete Cucs, e eu confirmo: é impossível haver uma coisa melhor que aquilo.

O La Roca é sempre cheio, no almoço e no jantar. Após as nove da noite geralmente há shows, então se alguém pretende apenas jantar sossegado, é melhor chegar mais cedo, antes das nove.

Pertinho do La Roca está o El conejito (O coelhinho), que serve carne de coelho de várias maneiras. Fomos almoçar lá no penúltimo dia de nossa viagem. No caminho perguntamos a uma moça que passava onde ficava o restaurante. Nos respondeu: olha, está fechado hoje para dedetização, mas eu vou levar vocês a um ótimo Paladar…  Logo nós, já escolados na escola de Pablo ela achava que ia enganar. Agradecemos e fomos adiante, nos orientando pelo mapa. Estava aberto normalmente. De verdade, os jineteros em Havana não dão moleza. Um prato individual com metade de um coelho mais guarnições (arroz moro, mariquitas) por seis Cucs (15 reais) achamos bem barato. E até que coelho não é ruim!

Baião de Dois (arroz com feijão dentro) é onipresente em Cuba. Lá se chama Arroz moro (Arroz moros y cristianos) ou Congris, esse é um nome de influência haitiana (o Haiti fica a 90 km de Cuba). Congris é a aglutinação de feijão Congo + Riz (arroz em criollo haitiano). Os garçons perguntam: arroz blanco o arroz moro/congris?

Mariquitas são chips de banana verde. Já vi isso em Rondônia. O povo pega banana verde, picota como se fosse batata e frita. Não tem muita graça.

Boniato é batata doce. Muito frequente nos restaurantes. Boniatillo é doce de batata doce.

UM POUCO DA HISTÓRIA DE CUBA

cuba-embargoEm minha primeira passagem pela feira de livros usados da Plaza de Armas comprei um livro sobre a História de Cuba. Faço aqui um resumo resumidíssimo. É interessante porque nós, leigos, costumamos pensar Cuba só a partir das brigas dos EUA com Fidel. Essas brigas, entretanto, vêm de muito mais longe. 

Cristóvão Colombo chegou a Cuba em 1492, mas só em 1510 a Espanha enviou Diego Velásquez para colonizar a ilha. Nesse ano estima-se que havia 112 000 indígenas em Cuba. Em 1555 restavam apenas 3 900. José Marti, em um artigo dedicado ao Padre Bartolomé de Las Casas (protetor dos índios), assim escreveu:

[...] En aquel país de pájaros y de frutas los hombres eran belos y amables; pero no eran fuertes. Tenían el pensamiento azul como el cielo y claro como el arroyo. Pero no sabían matar. Caían como las plumas y las hojas. Morían de pena, de fúria, de fatiga, de hambre, de mordidas de perros [...]

Acabados os índios, como no Brasil, os colonizadores foram buscar os negros da África.

Cuba não tinha ouro. A exploração colonial se deu por ciclos agropecuários: do gado, do tabaco, do açúcar, do café.

Espanha dominou Cuba até 1898, quando houve a “independência” (76 anos após a brasileira). Entre aspas porque existia outra criatura, além da Espanha, que não aceitava que Cuba se tornasse independente: Estados Unidos. Em 1767 Benjamin Franklin já expressava o interesse em Cuba. Em 1805 o Presidente Thomas Jefferson comunicou à Inglaterra, que em caso de uma guerra contra a Espanha, anexaria Cuba. Em 1823 o Presidente James Monroe proclamou a Doutrina Monroe, onde consta que os EUA não aceitariam nenhuma potência estrangeira se apropriar de terras no continente americano (fez uma reserva de mercado). Outros presidentes estadunidenses ofereceram dinheiro à Espanha para comprar Cuba (como fizeram para adquirir a Florida).

Entre 1868 e 1878 houve a chamada Guerra dos Dez Anos pela independência de Cuba. Os independentistas chegaram a tomar mais da metade da ilha. Mas perderam. Estados Unidos se posicionaram francamente a favor da Espanha, com o Presidente Ulisses Grant fornecendo informações sobre os rebelados, vendendo navios de guerra, proibindo expedições dos revoltosos a partir de seu território, etc.

Terminada essa guerra, José Marti foi para o exílio e continuou a preparar a luta pela independência, alertando sempre que, embora a luta fosse contra a Espanha, pairava outro grande perigo para a independência de seu país: as intenções anexadoras dos Estados Unidos.

Em 1895 estourou a segunda guerra de independência. José Marti foi assassinado tão logo voltou a Cuba. Os independentistas avançaram pelo país. Estados Unidos, nos primeiros meses, apoiou a Espanha, depois, sentindo a causa perdida, declarou guerra a uma Espanha já decrépita como potência colonial.   

Ganhou a guerra e se apoderou das colônias da Espanha: Filipinas, Porto Rico e Cuba. Enviou um governador militar para Cuba. Em meio a intensa agitação política, foi decidido que o país teria uma nova constituição. Nas discussões da Constituinte os EUA tiveram de aceitar que Cuba fosse considerada “independente”, mas impuseram a chamada Emenda Platt: Os EUA poderiam intervir militarmente a qualquer momento que julgassem a independência do país ameaçada (quer dizer, sempre que inventassem uma desculpa); Cuba cederia terras, arrendadas ou vendidas, para as companhias americanas, (United Fruit, Usinas de açúcar de capital estadunidense, etc.); Seriam permitidas bases militares estadunidenses (Guantânamo e Bahia Honda, esta última nunca foi implementada); As taxas para os produtos estadunidenses em Cuba seriam muito baixas, etc.

Conclusão: Cuba “independente” continuava uma colônia, agora dos EUA, assim como José Marti previra.

Desde 1898 até 1959 Cuba foi uma “colônia” estadunidense. Estados Unidos comandavam governos títeres, corruptos e cruéis. Suas empresas operavam 40% da produção de açúcar (36 usinas estadunidenses) e eram donas de vastos latifúndios. 90% do serviço de eletricidade e telefônico e 50% do transporte ferroviário.

Gestores em Cuba eram estadunidenses. Nas rebeliões e greves de trabalhadores do período uma das principais reivindicações eram que cubanos tivessem acesso a todos os postos de trabalho. A máfia comandava inúmeros negócios, legais e ilegais.

A Revolução de 1959 tomou o poder em janeiro. Em março foi promulgada a primeira lei de reforma agrária: pessoa física ou jurídica só podia possuir até 30 caballerias de terra (1 caballeria= 13,5 hectares). Os proprietários seriam indenizados com bônus de vinte anos.

Estados Unidos tomou isso como uma declaração de guerra e a partir daí começou a disputa que acompanhamos até hoje, com bloqueios, mais de 600 tentativas de assassinato de Fidel Castro, disseminação de pragas e epidemias, etc.

Esse resumo demonstra uma coisa: a briga dos EUA com Cuba não é só por causa do “comunismo”. Ela começa lá atrás no desejo de anexação e dominação. O ódio é porque a pequenina Cuba disse não. Cuba Libre só é aceitável para os EUA se for o drink com Coca-Cola.

Recentemente o Presidente Raul Castro disse que Cuba e os EUA podem ter uma relação civilizada.  O vizinho Brutus sabe o que é isso?

Fosse pelo menos o marinheiro Popeye.

PEGADAS DE HEMINGWAY

Ernest Hemingway morou em Cuba por vários anos. Primeiro num quarto do Hotel Ambos Mundos, na Rua Obispo, quase na Plaza de Armas. Depois, por insistência de sua esposa Martha Gellhorn, comprou uma chácara chamada Finca Vigia, a 15 km do centro de Havana, na pequena cidade de San Francisco de Paula. Vizinha a esta fica a Baía de Cojímar, uma pequena vila de pescadores onde o escritor ia beber no Bar e Restaurante La Terraza, local muito aconchegante, aberto até hoje. Cojímar foi a inspiração para o cenário de O Velho e o Mar. Em Havana Hemingway bebia Mojitos na Bodeguita Del Médio e Daikiris no Floridita.

Martha Gellhorn foi uma das esposas de Hemingway. Era uma jornalista e escritora estadunidense. Um de seus livros é chamado ‘A Face da Guerra’, relatos jornalísticos como correspondente das várias guerras que cobriu. Um pequeno trecho da introdução ao relato das guerras na América Central, na era Reagan (escreveu a introdução em 1986):

“A ex-embaixadora americana nas Nações Unidas, a principal teórica da atual administração americana, enunciou uma nova visão americana do mundo. Existem dois tipos de ditaduras, proclamou a senhora: totalitária, comunista e absolutamente abominável, e autoritária, de direita, talvez não tudo o que se poderia desejar, mas anticomunista e aceitável como um aliado. É uma nova doutrina. Os direitos humanos são violados em ditaduras totalitárias e o governo americano vai protestar energicamente. O horrível abuso dos direitos humanos nas ditaduras autoritárias é ignorado ou minimizado. Será que os outros governos do Mundo Livre aceitam a linha política do Líder? Eles não expressaram qualquer repúdio público a este sistema de subdividir a injustiça. Talvez devamos parar de nos chamar de Mundo Livre e, em vez disso, nos chamar de Mundo da Livre Iniciativa. É um nome mais preciso, já que engloba nossos clientes e companheiros “autoritários”.

“Muitos antes do medo da União Soviética se tornar a principal preocupação dos governos americanos, eles sustentaram ditaduras autoritárias por toda a tradicional esfera de influência dos Estados Unidos, o Caribe, as Américas Central e do Sul. Se um povo oprimido e faminto se rebelava, os fuzileiros eram enviados para restabelecer a ordem. Se o povo conseguia eleger um não-tirano, que cuidaria de seus interesses, esse governo era desestabilizado. As necessidades trágicas da população desses países não eram importantes. A palavra gringo não é uma piada; para os pobres, que são a maioria da população, é o nome que o inimigo recebe em toda a América Latina.

“Eu fui para El Salvador em total e completa ignorância….”

(A Face da Guerra – Martha Gellhorn – Tradução de Paulo Andrade Lemos e Anna Luisa Araujo – Editora Objetiva 2009)

Os relatos dessa senhora, que não é nenhuma radical, apenas uma pessoa honesta, acerca das guerras de El Salvador e do Vietnã, são muito emocionantes. Fatos reais. Feitos e artes do “mundo livre”, da “maior democracia” do ocidente, atos heróicos para nos “libertar” das cortinas de ferro.

Por isso, andando pela Baía de Cojímar, entrando no Restaurante-Bar La Terraza, eu pensei mais nela que em Hemingway e seus rifles. Morreu em 1998. Saudações, Martha Gellhorn.   

DE COMO, EM CUBA, LEMBREI-ME DE PINHEIRINHO

Nosso taxista anticomunista nos levou por um giro a Praias do Leste. Tentava, todo o tempo, advinhar o que nós estávamos falando. Quando escapava alguma palavra que ele entendia como “comunismo” ou “Fidel Castro”, fazia uma careta, entortava a cabeça para o lado e falava: “Comunismo no. No, comunismo no”.

Como era uma decisão pessoal não ficar discutindo política com os cubanos, ficava apenas ouvindo as manifestações dele.

Estávamos na Baía de Cojímar, a quinze quilômetros do centro de Havana, ele se aproximou de mim, apontou para os prédios de Alamar, que ficam vizinhos, e disse: Olha, pra você ver que horrível o que eles fazem: quando algum prédio lá do centro de Havana ameaça desabar eles pegam o povo que mora no prédio e alojam em apartamentos ali em Alamar e depois recuperam o prédio, mas não chamam o povo para voltar a morar lá. Usam o prédio recuperado para outra coisa. As pessoas acostumadas a morar no centro tem de ficar morando longe (a gente olha pro lado da Baía e vê o centro de Havana ali a 15 km), não é uma coisa horrível?

Respondo pra ele, com ar bem distante, fingindo enfado: lá onde moro já vi coisa pior. Ele fica decepcionado ao não perceber em mim um estarrecimento frente à grande injustiça por ele narrada. Balbucia algo assim: Coisa pior, é?

SEM VIOLÊNCIA, SEM POLÍCIA VIOLENTA

Cássio já foi vítima de violência policial, por isso o tema nos interessa muito. Por Cuba ter a fama de ser um regime fechado, uma ditadura, pensávamos que veríamos nas ruas uma polícia com cara de poucos amigos, truculenta. Muito pelo contrário, as pessoas não sabem o que é violência policial. Ousei perguntar para uns dois cubanos sobre casos de violência policial. Ambos negaram. Um respondeu: Como assim? Polícia é para proteger as pessoas, não para bater. Ah, tá. Ficamos algumas vezes observando policiais na rua. Não há muitos e andam isoladamente. Talvez tomem conta de um determinado setor e fiquem caminhando pelas quadras que devem vigiar, não sabemos. Portam um revólver. Vimos participarem de conversas na rua, com passantes, gargalharem, como se fossem compadres.

Para confirmar o que Dona Agustina nos disse na chegada, sobre cuidados com correntes de ouro e carteiras, Hilda teve sua corrente de ouro agarrada por um rapaz na Rua Aquila, em Centro Habana. Cássio ainda correu atrás do “meliante”, mas ele, dono do pedaço, sumiu rapidamente. Em pleno dia. Isso, porém, foi uma exceção. Andamos muito na cidade, inclusive à noite, nunca sentimos o clima pesado ou ameaça de atos violentos contra nós.   

Sem violência, sem assaltos a mão armada, sem assassinatos, sem milícias e traficantes exercendo poder de vida e morte sobre a população e sem polícia violenta, só se pode dizer que nesse quesito Cuba é invejável.

MENOS MÉDICOS

Depois dos episódios do Mais Médicos, da “maravilhosa” recepção aos médicos cubanos, dos gritos de “escravos”, pensei comigo: ao preencher qualquer documento não devemos colocar a profissão de médico como nossa profissão. Por segurança, vai que somos descobertos e levamos uma surra. Melhor disfarçar.

Apenas paranóia. Tudo transcorreu sem alterações. Dona Agustina até tentou que uma sobrinha médica ciceroneasse Salém, valente defensor do SUS, por parte das estruturas de saúde pública de Havana. Fui convidado a ir junto, mas pedi, implorei, que não me delatassem, em Cuba, como exercendo essa profissão. Seguro morreu de velho.  Acabou não dando certo a excursão de Salém, porque a médica já estava acompanhando uma equipe alemã.

Falando em SUS, um dia nos sentamos num local na Plaza de Armas que servia “Guarapo com Ron” e começamos a conversar. Surpreendeu-me que Salém acusou Lula de ter tentado prejudicar o SUS. Fiquei muito surpreso mesmo. Nunca ouvi falar disso. Seria “el Ron en La cabeza” de Salém? Não aprofundamos o assunto. Salém é muito militante. Sua vida é uma defesa contínua dos direitos dos pacientes psiquiátricos, toxicômanos, moradores de rua, etc. E é valente, se mete em muitas lutas. Por isso diz que não tem tempo de ler os Blogs alternativos. Mas… Compra a Folha de São Paulo aos domingos, costume de um tempo em que todos nós aprendíamos alguma coisa com esse jornal. Tempo que passou. Será se Salém ainda se deixa envenenar?

Numa coisa concordamos: a medicina explodiu com a era Lula. Nós médicos não conseguimos mais atender a demanda. E não aumentou só o trabalho. Grana também. Melhorou para toda a sociedade brasileira. Para a classe médica, isso e um pouco mais. Daí como entender que essa classe se insurja com tanto ardor contra as administrações petistas? Acabou o que restava de algum racionalismo? As pessoas já não fazem as escolhas que lhe favorecem? São as trevas do fascismo bafejando nossas cabeças?  Que venham mais médicos… Nós não estamos dando conta.

“Guarapo”, ao ver essa palavra, escrita na placa em frente ao restaurante, viajei longe. Fui até o ano de 1966. Nosso pai migrara do Piauí para o antigo norte de Goiás que hoje é Tocantins. Ou seja, atravessara o Rio Parnaíba para o Maranhão, alguns quilômetros e atravessara o Rio Tocantins para o Goiás. Não era uma migração para muito distante, como se pode pensar. Olhando no mapa do Brasil observa-se que o sul do Piauí toca no antigo norte de Goiás hoje Tocantins. Naquela época, entretanto, quando ainda não havia boas estradas, o deslocamento era muito difícil, e a viagem parecia ter sido para muito longe. Juntando-se a isso as incertezas econômicas de uma mudança, nosso pai preferiu deixar três dos cinco filhos (até então nascidos) na casa de nossos avós, no Piauí. Ficamos eu, com seis anos, e os dois menores, de um e dois anos. Nosso avô tinha um pequeno engenho. Vivia de produzir cachaça e rapadura. Garapa de cana, para nós, era um refresco e um alimento cotidiano. E se chamava garapa: g-a-r-a-p-a. Um ano depois nosso pai foi nos buscar e fomos para o Goiás: uma pequena vila na beira da rodovia Belém-Brasília, fundada por piauis, e onde só tinha piauís e um punhado de mineiros. Ônibus das viações Expresso Braga e Rápido Marajó, que faziam linhas interestaduais, paravam lá para lanchar. A lanchonete, de um piauí, servia “Caldo de Cana”. Se a gente pedia garapa, eles corrigiam, o “certo” é falar caldo de cana. Seguramente algum sulista comentara isso, de passagem por lá, e os piauís locais passaram a ter vergonha de falar garapa, tinham de falar “o certo”. Mas isso é outro assunto: Como pessoas usam palavras para diminuir semelhantes. Alegrei-me, de verdade, com a palavra guarapo. Ali, naquela pequena praça lotada de turistas de todas as partes do mundo, estávamos tomando g-u-a-r-a-p-o com rum e não caldo de cana.  Uma pequena vingança retroativa a 1966 que me proporcionou Cuba libre (de frescura, breguice e viralatice)! 

ME VOY A BAYAMO Y SANTIAGO NAMORAR OS NEGRÕES GUAPOS

Estávamos na Cafeteria Francesa à noite. Por coincidência Dona Agustina apareceu lá para comprar os pães do café da manhã do dia seguinte. Convidamo-la para nossa mesa. Sentou conosco. No balcão, comprando alguma coisa, tinha uma moça negra, segurando uma criança pela mão. Vestia um macacão rosa, curto, e era belíssima, deslumbrante. Homens, mulheres e gays se viraram para admirá-la. Não foi orgulhosa. Não olhou para ninguém, mas também não arrebitou o nariz. Saiu calmamente, puxando sua criança pela mão. Dona Agustina disse que há uma região de Cuba, Bayamo, onde os negros têm fama de serem especialmente belos.

Próximo destino: Bayamo. Se hay negras lindas, hay também negrões.

Descobrimos, nas ruas de Havana, a negritude cubana:

Nas ruas de Havana descobrimos                                                                                  

            Cuba é negra

De Oriente a Ocidente

            Cuba é negra

De Pinar a Santiago

            Cuba é negra

Nas ondulosas curvas dessas ancas

            Cuba é negra

Na exuberância desses falos

            Cuba é negra

No punhal dos cimarrones

            Cuba é negra

Nos sorrisos de marfim

            Cuba é negra

Fidel visitando o Harlém

            Cuba é negra

Na alegria e na festa

            Cuba é negra

No sofrimento e na dor.

RON SANTIAGO DE CUBA AÑEJO

Uma coisa deliciosa de Cuba é o Rum Santiago de Cuba Añejo (envelhecido). Tão bom que nem experimentamos outro mais conhecido: O Havana Club. Não dá ressaca. Encontrado em todos os pequenos supermercados e no aeroporto. O preço é o mesmo (uma característica do país que ficamos apreciando muito, não importa se é no aeroporto ou na rua, o preço é igual): 7,60 Cucs a garrafa grande e 3,80 a pequena. Andávamos sempre com uma garrafa para nosso deleite.

ZEZE DE CAMARGO E LUCIANO NO PARQUE CENTRAL

Passando pelo Parque Central sentamo-nos um pouco nos degraus da estátua de José Marti. Um jovem começou a conversar conosco em português perfeito. Era do interior e estava ali esperando parentes que vinham apanhá-lo. Fã de Zezé de Camargo e Luciano, sabia suas músicas de cor. Aprendera português em um curso da televisão cubana para entender melhor as letras. Estava visivelmente emocionado em conhecer falantes do português. Pedimos que cantasse uma música da dupla. Cantou “É o amor”. Bela voz. Cantou outras músicas até que seus parentes chegaram para buscá-lo. Cario deixou com ele seu endereço e o convite para, caso quisesse, vir ao Brasil.   

COMPRAS, O QUE CUBA TEM A OFERECER?

Em termos de compras, perfumes nacionais de Cuba (Alícia Alonso e outras marcas), cosméticos (as mulheres a quem presenteei com esmaltes e perfumes de Cuba elogiaram muito), livros (história, negritude, candomblé, etc.), rum e charutos. Mais não há. Mas quem vai a Cuba para fazer compras, se já vivemos no mundo do consumismo? Vamos lá justamente buscando observar o contrário: para vermos como se vive num mundo sem o intenso consumismo de hoje. Claro que a todo ser humano agrada ver enorme diversidade de coisas para o consumo (de quem tem dinheiro no bolso). Dizem que Sócrates andava no mercado de Atenas exclamando: quanta coisa de que não necessito… Talvez os cubanos, seres humanos que são, preferissem ver a exuberância de mercadorias que vemos em nossas cidades (mesmo que não possamos dispor de tudo). Os cubanos talvez andem por seus mercados e pensem justamente o contrário de Sócrates: não tem muitas das coisas que (acho que) preciso.  Mas seriam mais infelizes do que a imensidão de brasileiros excluídos?

ONDE MORA A FELICIDADE?

Vamos fazer um esquema:

Classe média brasileira: dispõe de comida, educação, saúde, moradia, moeda forte, liberdade para viajar (porque tem moeda forte), insegurança em relação à violência (a desigualdade extrema será sempre fonte de insegurança extrema);

População brasileira pobre: Não dispõe de comida, educação, saúde nem moradia garantidos, insegurança extrema, vítimas tanto dos bandidos como da polícia, tem liberdade para viajar, mas não viaja pois não tem moeda forte;

Povo cubano: eles mesmo afirmam que dispõem do satisfatório em termos de comida, educação, saúde e moradia. Há segurança (produto da reduzida desigualdade), a polícia é educada e respeitadora do cidadão (eu e Cássio presenciamos e testemunhamos), falta moeda forte, dizem que não têm liberdade para viajar, mas quando convidados por alguém que banca a viagem eles conseguem liberação, donde se deduz que não viajam porque não têm moeda forte, como acontece com o povo brasileiro pobre.

A blogueira oposicionista Yoánis não saiu de Cuba para morar na Europa, depois voltou, montou seu negócio de blog, altamente financiada, não se sabe por quem? Recentemente não viajou mundo afora falando mal do governo e do momento do seu país? Então há falta de liberdade de viajar? Não seria melhor dizer falta de dinheiro, moeda forte, para viajar?

Quem é mais feliz? Sei lá.   Entende?   Alguém arrisca?

NÓS, HABITANTES DESSE VALE DE LÁGRIMAS

Como no Brasil, e em outros países calientes, em Cuba não falta sexo. Sexo é a maior dádiva dada por Deus, a nós, habitantes desse vale de lágrimas. Sexo por prazer, sexo por dinheiro. E não se venha com carolice de dizer que “sexo por dinheiro é prostituição e isso é abominável.” Vamos mudar o disco.

As pessoas fazem sexo por beleza (a beleza que provoca tesão) ou por dinheiro. Um jovem e belo fazer sexo com um feio, velho, fedido, doente, gordo, etc.  tudo que ao senso comum provoca repulsa ou asco, mesmo que seja por dinheiro, é sim um ato nobre. Sexo é o ato de intimidade mais profundo que um ser humano pode oferecer a outro.

Portanto, a profissão de prostituta ou prostituto, é, no mínimo, respeitável. Eles aliviam a dor e a solidão dos desprezados, tocam seus corpos e se deixam ser tocados.

É também um ato de amor. Via de mão dupla. Ajuda mútua.

POLÍTICA I: CRIMEZINHOS LEVES DA DIREITA

cuba-usa-embargoDesculpem os que amam os EUA, não dá pra falar de política em Cuba, sem falar dos Estados Unidos. Eles são onipresentes. Os cubanos sabem que sobre suas cabeças se debruça uma sombra mortal que se chama EUA.

Quando pedimos maior acesso democrático à informação no Brasil, o fim do monopólio privado nas comunicações, uma reforma política que democratize a representação, as políticas de estado laico, etc. sempre aparece alguém da direita para dizer que isso é comunismo, que lutamos pelo aparelhamento do Estado visando uma ditadura comunista, e citam rosários de crimes do comunismo, Stálin, Coréia do Norte, etc. numa total deturpação do que é a luta por democracia num país desigual como o Brasil.

Quem ainda acredita em comunismo, cara direita? Só Vocês. O comunismo caiu de podre. Não há estímulo à produção. Há escassez. O seu contraponto, o capitalismo, estimula a produção, utiliza exército de milhões de trabalhadores (deixando outros tanto na reserva e no desespero) mas não distribui a riqueza produzida.

Os filósofos, economistas e políticos honestos em todo o mundo estão tentando sair dessa dicotomia: máquina de produzir riquezas[1] com concentração, do capitalismo X justa distribuição com baixa produtividade (escassez), do socialismo. E preservando o valor eterno da democracia. Cabeças pensando, vamos, ajudem, em vez de ficar enumerando, pela milésima vez, os crimes que Stálin praticou.

Agora, cara direita, se é pra utilizar o princípio retórico do Tu quoque[2] (Tu também), fazendo competição de crimes, vamos relembrar alguns crimes do capitalismo, especialmente aqueles praticados por seu expoente-mor no último século, os Estados Unidos:

Quando as bombas de Na Palm jogadas pelos EUA sobre o Vietnã caíam, elas não derrubavam só a floresta, elas destruíam vastas áreas de plantações de populações pobres, que viviam da agricultura. Se não morressem de bala ou de bomba nos próximos meses, elas morriam de fome, pois tudo o que tinham era sua lavoura. Isso e mais outras “coisinhas leves” levaram à morte de cinco milhões de pessoas do Vietnã, do Laos e do Camboja. E os que ficaram aleijados? E as inúmeras crianças vietnamitas que nasceram com defeitos devido à exposição química? E o desespero de gerações e gerações? Martha Gellhorn visitou Saigon nessa época. Havia espécie de campos de concentração para abrigar órfãos, infindáveis órfãos, todos em grande sofrimento, desnutrição e extrema carência.

Tudo isso porque os EUA e a cara direita odeiam os comunistas e querem salvar o mundo de seus crimes.

Em plena ditadura de El Salvador, Martha Gellhorn esteve nesse país:

“A umas poucas quadras da fortaleza de concreto cinzento da embaixada americana, no quintal sombreado do escritório da diocese, há um barraco de folha-de-flandres pintado de verde, o lar da Comissão de Direitos Humanos salvadorenha. É um bom lugar para se conseguir uma visão geral do que preservar a liberdade significa para os salvadorenhos comuns.

“Você pode ler aleatoriamente seleções de centenas de depoimentos juramentados de atrocidades. Você pode estudar álbuns de fotos dos assassinados. Você também pode ter conversas esclarecedoras com pequenas mulheres morenas e robustas, imediatamente simpáticas em vestidos de algodão limpos e desbotados, com seu cabelo preto enrolado no topo de suas cabeças. As mulheres são parentes das vítimas que vêm aqui, apesar do perigo, para testemunhar, pedir conselhos, receber uma doação semanal de farinha de trigo, para conversar. Na minha rápida visita a San Salvador, fiquei espantada com a confiança daqueles que têm mais a temer.

“Por exemplo, parei uma mulher magrela que estava carregando um saco plástico de farinha de trigo sobre a cabeça. Para sua família? Ela não tinha mais família exceto a mãe e três filhos de seu irmão. Ela tem 47 anos e, há dois anos, tinha três irmãos e uma filha. Um por um eles desapareceram. Ela me levou atrás do barraco para me mostrar o que havia sido feito com ela porque ela ousou perguntar à polícia sobre seu irmão mais velho, depois sua filha. Havia um corte em seu seio esquerdo que descia até o mamilo, ela tinha uma ferida de facada profunda no ombro e outra na cabeça.

“-Todos eles me estupraram. Depois, eles enfiaram uma lanterna dentro de mim. Estou partida por dentro. Caminho muito mal. – Isso foi por seu irmão mais velho. Ela levantou o vestido rapidamente para revelar um corte longo direto descendo por sua barriga, outras cicatrizes. – Eles acharam que eu estava morta. Eles me deixaram como morta. – Isso foi quando ela tentou descobrir sobre sua filha. Ela não deu qualquer sinal de autocomiseração, mas disse com lágrimas súbitas: Imagine, uma menina de 25 anos, grávida.

“Quando o segundo irmão desapareceu, sua mãe, incapaz de aceitar a perda em silêncio, voltou para sua aldeia com o filho mais novo. Dias depois, encontrou o corpo decapitado do último filho a 7 quilômetros da aldeia.

“ Foi um encontro acidental; ela não era diferente de qualquer outra mulher recebendo farinha.”

“O Presidente Reagan certa vez descreveu a catástrofe do Vietnã como “aquela causa nobre”. Recentemente, ele chamou os guardas de Somoza, novamente matando seus compatriotas na Nicarágua, sob os auspícios da CIA, de “defensores da liberdade”. Agora, ele fala eloquentemente em “preservar a liberdade em El Salvador, para o que mais centenas de milhões de dólares são exigidos.” [3]  

Tudo isso porque os EUA e a cara direita odeiam os comunistas e querem salvar o mundo de seus crimes.

Estados Unidos fundou uma escola no Panamá para treinar oficiais das forças armadas dos países das Américas, chamada Escuela de las Américas. Sediada primeiro nos Fortes Amador e Gulick, no Panamá. Depois se mudou para o Fort Benning, nos EUA. Em 17 de janeiro de 2001, mudou de nome para Instituto de Defensa para la Cooperación de Seguridad Hemisférica.

A Escola de las Américas é uma escola de torturas e de doutrinação para o “anti-comunismo”. Tão terrivelmente mal-afamada ficou que há até ONGs formadas para denunciar suas atividades, como SOAW – SOA Watch – Observador da Escola das Américas (School of Americas Watch em Inglês)[4].

O senador democrata Martin Meehan, de Massachusetts, disse uma vez: “Se a Escola das Américas decidisse celebrar uma reunião de ex-alunos, reuniria alguns dos mais infames e notórios malfeitores do hemisfério”.

“A Escuela de las Américas era um bastião dos Estados Unidos”, lembra José Miguel Guerra, um dos mais prestigiados jornalistas no Panamá, para o jornal suíço Neue Zürcher Zeitung. “Aqui, os militares de toda a América Latina, com exceção de Cuba, eram doutrinados pelo Pentágono para ter o controle político sobre seus países.”[5]

Certamente foram os aprendizes dessa escola que destruiram a vida daquela pobre mulher salvadorenha (e de outros milhares ou milhões de “perigosos comunistas” América Latina afora) que Martha Gellhorn entrevistou na fila de doação de farinha de trigo da diocese de San Salvador.

Roberto d´Aubuisson, militar e político salvadorenho, chefe de esquadrões da morte e mandante do assassinato do arcebispo de San Salvador, Oscar Romero, se graduou na Escola de Las Américas. No tempo de formação por lá ficou conhecido como “Maçarico Bob”, “Blowtorch Bob”, por suas contribuições às técnicas de tortura com maçaricos. Matou milhares de salvadorenhos, nas condições mais cruéis possíveis. Dizia que para tornar El Salvador um país sem comunistas, era necessário matar ainda uns 200 a 300 mil.

É bem provável que a farinha de trigo distribuída fosse uma doação da grande democracia, os Estados Unidos, nosso grande defensor contra a ditadura comunista dos soviéticos, de Stálin.

Tudo isso porque os EUA e a cara direita odeiam os comunistas e querem salvar o mundo de seus crimes.

Quem quiser conhecer mais “crimezinhos leves” dos EUA pode buscar informações no livro Killing Hope de William Blum.

POLÍTICA II:  PARAÍSO  -  INFERNO

Portanto, cara direita, crime por crime, tu quoque.

Enquanto Stálin e seus seguidores se matam principalmente em guerras internas,  em disputas ideológicas e pelo poder de encaminhar “a revolução”, os EUA direcionam seus crimes para o “inimigo exterior” que ousar se rebelar contra sua vontade.

Tudo bem, a União Soviética invadiu a Hungria e a Tchecoslováquia para evitar mudanças no regime. Mas, e os EUA, invadiu quem, planejou e concretizou derrubadas de governos democráticos de onde? Assassinou quantos por vias diretas ou indiretas? A lista é grande, vamos omiti-la aqui.

O ditador da Coréia do Norte fuzila o tio e a notícia se espalha em todos os jornais. O ditador não é sutil. É escancarado. A grande democracia dos EUA é maravilhosa, tem julgamentos justos, cidades lindíssimas, todos queremos ir pra lá mas… lá no escondido, lá no subterrâneo, treina homens para usar o maçarico, para decapitar pobrezinhos em El Salvador, para matar padres que defendem os pobres, etc. Qual a diferença com a Coréia do Norte? A sutileza e a hipocrisia. Aí a cara direita faz a pergunta clássica: Já que critica os Estados Unidos por que não vai para a Coréia do Norte? Não, não vou. Se tiver de optar vou para os Estados Unidos. Porque lá é o paraíso. A pergunta que a cara direita nunca faz é: Para que meu país se torne um paraíso, eu preciso tornar a metade do mundo um inferno? Eu preciso fazer uso dos conceitos da Arte da Guerra, do Sun Tzu, e ficar detonando meio mundo, preventivamente, para construir meu paraíso?   Eu preciso treinar os militares de outros países na obsessão do anticomunismo a ponto deles agredirem cruelmente seu próprio povo, em extensivos genocídios, como fizeram as ditaduras latino-americanas, influenciadas pelos EUA?

A vontade dos EUA é manter-se, ele e seus aliados, como um paraíso, para onde todas as riquezas afluem. Vontade de mandar, regular a vida dos outros países, dispor de seus bens. Um dualismo tipo paraíso/inferno. Onde criamos um paraíso para nós e um inferno para os outros.

Nós construímos nosso paraíso às custas de eliminar a qualidade de vida dos outros, os meios de subsistência dos outros. Ao mesmo tempo que os depredamos, construímos nosso muro. O muro do México é típico como ilustração do dualismo paraíso/inferno. É como se dissessem: Fiquem do lado de lá, miseráveis. Nós só queremos de vocês os valores econômicos que raspamos de seu tacho. Não venham estragar o nosso paraíso com a sua presença esfomeada.

O muro de Berlim foi erguido porque os EUA e seus aliados se postaram na fronteira, com voz de sereia, chamando: venham para o paraíso, venham para o paraíso. Com o objetivo de detonar o outro lado pela fuga de mão de obra. O muro do México é muito mais cruel.

O muro do México desnuda o que os EUA representam: a exclusão. O muro de Berlim encobre: olhem, todos querem fugir para o nosso sistema de vida, nós somos o mundo livre, a democracia. Ocultando que o “mundo livre” e próspero só subsiste com a escravidão neocolonial da outra parte do mundo.

Por que ninguém se envergonha do muro do México, como diziam que se “envergonhavam” com o muro de Berlim?

POLÍTICA III: MÉXICO E CUBA, SUPORTAI

Estados Unidos foram comendo porções do México pelas beiradas, a ponto de um Presidente mexicano falar aquela famosa frase: pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos.

O Brasil também sofre a ação do Império. Todavia, pelo menos, está distante. México e Cuba estão ali, agarrados com ele.

Os EUA tentam, há 52 anos colocar Cuba novamente de joelhos. O embargo comercial é uma declaração de guerra, segundo o jurista Dr. Pedro Serrano, em artigo na Carta Capital de 24/02/2013.

A organização política e econômica do mundo está sempre em tentativas e experimentos.  Cuba também tem direito a fazer seus experimentos.

O grande feito de Cuba não é ter experimentado o comunismo. O grande feito é ter dito não ao Rei Leão, ao império, e estar resistindo até hoje. É isso que aprendemos a admirar nesse pequenino e tenaz país. Cuba não aceitou o esquema estadunidense de Paraíso-Inferno. E é isso a causa de todo o ódio dos Estados Unidos. Ódio de quem não sabe viver e deixar viver. Ódio de quem não sabe o que é alteridade, como sabe meu amigo Salém.

Cuba é a nossa fronteira.

Cuba é a Resistência.

QUE LINDA MÚSICA DE UM GUSANO

Dos músicos cubanos contemporâneos à Revolução de 1959, parte permaneceu em Cuba – Os músicos do Buena Vista Social Club são a maior expressão – e parte partiu para o “exílio dourado”, com muitos dólares. Célia Cruz e Guillermo Portabales pertencem ao último time. Guillermo Portabales tem uma música chamada Yo te canto Puerto Rico, onde canta os seguintes versos:

Mi Puerto Rico querido hoy lloro mi Cuba esclava

Mi Puerto Rico querido Como sufre tu isla hermana

El pájaro ha sido herido e hoy sangra de sus alas

E outra música, muito bonita, chamada Lamento Cubano, cuja letra é:

¡Oh! Cuba hermosa, primorosa,

¿Por qué sufres hoy

Tanto quebranto?

¡Oh! Patria mía,

¡Quién diría

Que tu cielo azul

Nublara el llanto!

¡Oh! En el susurro del palmar

Se oye el eco resonar

De una voz de dolor

Que al amor llama…

¡Oh! Al contemplar

Tu ardiente sol,

Tus campos llenos de verdor,

Pienso en el tiempo aquel

Que se fue Cuba…

¡Oh! Cuba hermosa, primorosa,

¿Por qué sufres hoy

Tanto quebranto?

¡Oh! Patria mía,

¡Quién diría

Que tu cielo azul

Nublara el llanto!

Pienso en el tiempo aquel, que se fue, Cuba…

Para muitos, tempos bons são aqueles em que a vida é uma festa para poucos!

Será por coisas assim que Platão fez aquelas criticazinhas a esses seres chamados poetas?

ÚLTIMOS DOIS DIAS EM HAVANA – HOTEL NACIONAL

Nos dois últimos dias em Havana, eu e Cássio nos mudamos para o Hotel Nacional. Despedimo-nos de Dona Agustina e sua ajudante Jaqueline.  Deixamos tudo que sobrara (sabonetes, papel higiênico, balinhas Arcor tipo caramelo) para elas, além de uma boa “propina”. Dona Agustina ainda chegou a dizer: No, hijo, no necessita… Mas em seguida agarrou os Cucs.  Salém e Alice permaneceram lá. Dona Agustina, a nosso pedido, indicou o restaurante La Roca como sendo um bom lugar para se comer, na região de Vedado. Por fim, chamou um taxista que cobrou 4 Cucs (10 reais) para nos levar.

Hotel Nacional. Antigo, da década de trinta, cheio de histórias. Em seu hall há fotos de hóspedes ilustres: Artistas de Hollywood, Nat King Cole, Frank Sinatra, Presidente Lula, Glória Pires, etc. Fica no início do bairro de Vedado, à beira mar, ao lado do Malecón.

Pagamos 360 euros por dois dias (mais de mil reais!). Por seis pernoites em Dona Agustina, já com café da manhã incluído, pagamos 390 reais.

Importante lembrar que o check in é feito a partir das 16:00 hs. A Justificativa é que os trabalhadores da limpeza necessitam de quatro horas para o trabalho – Entre o check out às  12:00 hs. e o check in às 16:00. Não adianta insistir, você só entra em seu quarto às 16:00 hs.

O café da manhã é soberbo. Um salão enorme repleto de comidas, de máquinas de fazer sanduíches, de máquinas de fazer omeletes e panquecas. Pela primeira vez constatamos que da proximidade geográfica (apenas 123 km) entre Havana e os EUA alguma influência ainda havia de restar: a variedade imensa de bacons e de ovos no café do Hotel Nacional, típico, dizem, do estilo norte-americano de quebrar o jejum pela manhã.

Uma vez instalados, fomos explorar o bairro.  Na esquina das Ruas Infanta (Calzada de Infanta) e San Lázaro, entramos numa livraria chamada “Alma Mater”, que é ligada à Universidade de Havana. Muita coisa boa. Escolhi dois livros, pensando que o preço na etiqueta fosse em Cucs. Ao passar no caixa, só recebiam em pesos cubanos (portanto os livros eram de graça). Que faço? Não tenho pesos cubanos aqui comigo. Vá na agência de correios ao lado e troque alguns Cucs por pesos cubanos. Fui. Troquei apenas 4 Cucs (10 reais) no correio e com isso levei sete bons livros. Absolutamente de graça.

Dali fomos conhecer a Copelia, a famosa sorveteria cenário do filme Morango e Chocolate. Decepção total. Um lugar de onde se deve fugir. No centro de uma praça há algumas construções. Quando você entra na praça, achando que está passeando, é abordado por um guarda dizendo que você está furando a fila. Pergunta também se vai pagar em Cucs ou pesos cubanos. Se tiver pesos cubanos é enviado para uma das filas,  vai pro meio da galera, do povão. Se você tem Cucs, é conduzido para a área de estrangeiros, uma sala no primeiro andar, sem janelas, com uma tevê ligada, onde é servido um sorvete caríssimo e péssimo, péssimo. Fuja.

Lugar de comer no Vedado é mesmo no La Roca, como aconselhou Dona Agustina. A enorme e deliciosa paella a 12 Cucs (30,00 reais) é magnífica

ADEUS A CUBA

Dissemos adeus a Cuba em 09 de novembro de 2013.

Adiós a Cuba é o nome de uma das danças cubanas do compositor Ignacio Cervantes (1847-1905). Viveu tempos no exílio na época das guerras de independência de Cuba. Essa composição foi tema do filme Morango e Chocolate. Soa muito triste. Tem-se a impressão, nos movimentos da música, que o compositor agarra-se a alguma coisa para não ter de ir-se, para não partir involuntariamente. Súbito, alguma força o arranca e o manda embora, sem comiseração (para o exílio).

Adiós a Cuba

A pequena peça musical Adiós a Cuba, de Ignacio  Cervantes,  tem melodia triste, nostálgica, plena de melancolia.    Após a súplica inicial, repetida, sentida, lacrimosa, no meio da obra há uma inflexão, de pesarosa desistência, como se uma grande lágrima fluida, de inexorável adeus, de inevitável adeus, irrompesse, e com ela levasse os pais, os amigos, os amores, todas as alegrias, a paisagem verde, as flores do jardim, os animais de casa.

[1] Como disse o jornalista estadunidense David Simon no texto EUA, um país dividido, publicado aqui no GGN/Blog do Nassif

[2] Citação inspirada na Resenha de Francisco Quartim de Moraes sobre o livro de Domenico Losurdo Stalin: história crítica de uma lenda negra

[3] A Face da Guerra – Martha Gellhorn – Tradução de Paulo Andrade Lemos e Anna Luisa Araujo – Editora Objetiva 2009

[4] Demarchi – colaborador do GGN/Nassif postou em 15/09/2012 um texto sobre o assunto.

[5] Dois parágrafos anteriores são citações de um texto de Marcelo Rubens Paiva no Estadão: Escola de tortura vira hotel 5 estrelas, de 10.07.2013

Nove dias em Havana, por zegomes | GGN

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